A pena digital

caligrafo

Certo, existia antes o diário (feito em casa, por mocinhas burguesas aflitas ou por homens talvez ciosos demais de sua importância).

E existia o livro (consulte antropólogos, sociólogos e afins para saber o que é). E existia o jornal (estão por aí, citados por muitos e lidos por ninguém).
E existia o hábito de ler, dizem, mas não é verdade.
Ocorre, ocorreu que em épocas priscas não havia rádio, televisão, internet, que dirá blogs. Os ricos, os quase ricos, os remediados, eram os únicos leitores e, por consequente, os únicos consumidores da página escrita.
Minto, uma minoria dos ricos, quase ricos e remediados consumiam e liam as folhas com caracteres de imprensa.
O restante consumia apenas obras técnicas, didáticas. Os futuros engenheiros, advogados, juízes, políticos. Vez por outra uma ou obra de escritor para imitar o estilo, que não podendo ser imitado, dava vez a textos chatos e compridos.
Foi a era de ouro dos advogados falastrões, dos juízes e suas sentenças incompreensíveis, dos poetas de ocasião. O que é outra imprecisão, pois eles continuam por aí, os que escrevem como se lhes tivessem extraindo os dentes.
E havia o resto, a imensa massa de pobres que não lia nada, até que porque não havia nada para ser lido que os tocasse. E também porque estavam ocupados criando cultura: sambas, choros, lundús, danças e festas. Tudo de significativo que até hoje está por aí e que continua sendo feito, refeito, transformado na maravilhosa usina de utopia chamada Povo.
O que significa que uma minoria produzia obras impressas para uma minoria. E apenas uma minoria da minoria produtora de obras impressas produzia algo significativo que, por sua vez, era consumido por uma também minoria da minoria consumidora.
O brasileiro não lê? Nunca leu. E, com maiores ou menores índices, o europeu, o japonês, o tadjaquistanês. Ler sempre foi um hábito de poucos. Talvez porque exija disciplina, talvez porque seja feito em solidão.
E agora, o blog. O blog: nem diário pessoal, nem livro, nem jornal, nem televisão. O blog. Essencialmente visual, mas mesmo assim também espaço para a escrita: seja ela crônica, confessional, comentadora, as vezes meramente constituída de extratos de textos de outras mídias, de outros tantos blogs, mas escrita assim mesmo.
    A parte a questão de quem consome o blog enquanto fornecedor de imagens e vídeos, mais interessante é quem “lê” o conteúdo do blog.
        Suspeito que apenas uma minoria da minoria dos blogs produzam textos, que serão consumidos por outra minoria. Também os textos de boa qualidade serão exceção, como excepcionais seus consumidores.
Nada tão drástico. As “cousas” continuam a seguir o mesmo padrão. Suspeito novamente que assim continuarão, como parte da ordem natural das coisas. Perdão, das “cousas”.
 
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Um comentário em “A pena digital

  1. Nos blogs existem os Mervais, que nos fazem escrever cada vez mais.
    Olha aí…rimou! (foi péssima, eu sei)
    Bem vindo amigo, gostei das avoadas.

    Curtir

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