UM MOÇO MUITO BRANCO

VIA_LACTEA

Um moço muito branco

Guimarães Rosa era poliglota autodidata e o que se poderia chamar de um polímata. Grande leitor de obras filosóficas, mormente os Gnósticos e os Neoplatônicos, era um erudito generalista. Aquilo, que no século XIX e parte do XX, se chamava um Homem de Espírito.

Já se escreveu muito (mas não demais) sobre sua obra, não apenas o Grande Sertão, mas também os contos.

Me interessa aqui um seu conto, Um Moço Muito Branco, da coletânea Primeiras Estórias.

Na noite de 11 de novembro de 1872, na comarca do Serro Frio, em Minas Gerais, deram-se fatos de pavoroso suceder, referidos nas folhas da época e exarados nas Efemérides.  Assim começa o conto, aliás, as ocorrências de 11 de novembro de 1872 realmente ocorreram e de suas anotações conclui-se pela ocorrência de uma fantástica chuva de meteoros que se estendeu até a madrugada do dia 13.

Rosa usou a referência como ponto de partida para o conto.

Um rapaz de pele bem clara, Tão branco; mas não branquicelo, senão que de um branco leve, semidourado de luz, aparece do nada, sem história e sem passado e fascina as pessoas. José Kakende, negro com problemas mentais alega ter visto uma aparição na véspera de sua chegada. Hilário Cordeiro abriga ao rapaz.

De todos, somente Duarte Dias não simpatizou com o recém-chegado. Tem uma filha, Viviana, moça depressiva e triste que pelo moço se apaixona e é curada após o toque da mão do rapaz em seu corpo.

Hilário Cordeiro prospera, como se recompensado pelo bem que fizera acolhendo ao desgarrado.

Duarte Dias tenta levar o rapaz consigo, alegando parentesco, mas não recebe o consentimento de Hilário Cordeiro. Para surpresa de todos, após uma missa, o mesmo Duarte se põe diante do rapaz e lhe implora o perdão. O rapaz o toma pela mão e dali o leva, diz-se que para local de maravilhas onde estava guardado um tesouro.

Duarte Dias transformou-se a partir dali em um homem bom, contido e equilibrado.

Finalmente, o rapaz vai-se, auxiliado por José Kakende, que acende nove fogueiras como o rapaz havia pedido.

Com a primeira luz do sol, o moço se fora, tidas asas.

Bem, minha tese não é muito original, mas lá vai: trata-se de um conto de ficção científica e Rosa sabia muito bem que tratava de um conto de ficção científica. O exercício do gênero é claro. Todos os elementos estão lá: as alterações no céu, o possível terremoto e daí a aparição do ser misterioso, sem passado e sem história.

Evidente que Rosa, escritor de verve que era, não se comprazeria no gênero limitando-se a seus clichês, como infelizmente se vê hoje na pletora de obras de autores nacionais que enveredaram pelo tema. Ao conto ajuntou elementos do mito: o louco de Deus, a quem é dada a honra de o reconhecer; o homem bom que acolhe ao peregrino e o homem egoísta centrado em si mesmo que ao mesmo tempo é atraído e repelido pelo emissário divino. Não faltou nem a donzela sonhosa.

E ao moço, tanto uma origem divina como extraterrestre lhe podem ser atribuídas. Mas a inserção dos abalos, a menção ainda que indireta ao comportamento estranho dos céus, a meu ver, indicam mais a segunda hipótese (ainda que Rosa confunda, entrelaçando referências ora a um emissário divino angélico, tidas asas, ora a um extraterrestre).

Sem história, mas também sem ódios, sem apegações, o rapaz vai pouco a pouco afetando a vida de todos a sua volta. Finalmente, o arremate do conto, sua partida, pouco clara, enevoada, sob a propulsão simbólica das nove fogueiras cabalísticas acesas por José Kakende, o louco de Deus.

E agora, o conto. Sustento que trata-se, e Rosa assim também pensou tratar-se, de um conto do gênero dito menor da ficção científica.

Há quem sustente que certos gêneros, que tiveram sua fortuna em terras anglo-saxãs e, em menor escala, na Europa, seriam impraticáveis ou pouco praticáveis no Brasil. A ficção de mistério, policial e a ficção científica ela mesma. Questão a discutir, não adentro mais no assunto por hipossuficiência ou por preguiça .

Mas o fato é que Rosa, de todo modo alheio a gêneros por conhecer bem seu ofício, e as ferramentas de seu ofício, utilizou-se do formato e o transcendeu. Ou, outra leitura possível, limitou-se apenas a fazer bem o que fazia.

E é isso.

 

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