DE INCOMPETENTE A GÊNIO: MANUAL DE INSTRUÇÃO

Muse - Michael Cheval

Muse – Michael Cheval

Se você é um incompetente, mas muito incompetente mesmo, não se desespere, você apenas não encontrou sua verdadeira vocação.

Que, é claro, é ensinar moderníssimas técnicas de administração de empresa numa prestigiada escola de administração de empresa, entre outras muitas oportunidades. Várias, diversas.

E mais, se escrever um livro, tipo “O monge e o executivo”, então nem se fala.

A coisa, o busílis, não é o que é, mas o que parecer. Conteúdo? Não, forma. Escrever? Não, citar.

Mas o melhor de tudo, o saboroso mesmo, é que você pode escrever sobre qualquer coisa e ser reputado como o antenado do momento, o comentador de uma época, desde que utilizadas certas técnicas infalíveis, a saber: esqueça o sentido, o importante é o ritmo.

Ao citar, seja vago e crie uma cumplicidade viciosa com o leitor. Tipo, “você sabe de quem estou falando, não sabe?”, “aquele”, “naquela sua obra, lembra?”.

Exempli gratia:  pegue um trecho de um texto qualquer, tipo uma crônica de Machado de Assis, feito esta, Cherchez la femme, publicada originalmente em 1881:

Antes da sociedade, antes da família, antes das artes e do conforto, antes das belas rendas e sedas que constituem o sonho da leitora assídua deste jornal, antes das valsas de Strauss, dos Huguenotes, de Petrópolis, dos landaus e das luvas de pelica; antes, muito antes do primeiro esboço da civilização, toda a civilização estava em gérmen na mulher.

Feito isto, substitua palavras, atualize os termos, as situações (não seja tímido) e você terá algo como isso:

Antes da sociedade, antes da família, antes das artes e do computador, antes das maravilhosas calças jeans e rendas e sedas que constituem o sonho da periferia assídua do Facebook, antes dos Rolling Stones, dos Beatles, de Liverpool, dos automóveis comprados a perder de vista e dos celulares oniscientes; antes, muito antes do primeiro esboço da civilização, toda a civilização estava, ainda um ovo, representada no desejo.

Viu? Sem esforço e de modo lúdico aí está você contribuindo para as letras pátrias. Machado? Esqueça, ninguém lê Machado. Na verdade, ninguém lê. E se lido, se apontado o seu, digamos, plágio, contemporize, explicando tratar-se de uma (anote a palavra, é supimpa!)…de uma paracitação.

E paracitando sempre, perseverando, você já pode dividir sua verve, a originalidade de sua visão de mundo em qualquer publicação que abrigue iluminados assim feito você. Feito eu. Incompetentes, mas elegantes. Incompetentes, mas limpinhos.

Agora, se além de tudo você ainda for americano, o sucesso lhe acena com mãos ávidas.

Nada como ser incompetente e americano: a merda com sotaque inglês é muito saborosa…

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