O CINTO DE INUTILIDADES: A VOLTA AO COLECIONADOR

ALMANAQUES

As reuniões, ocasiões agradáveis em que pessoas de escol partilham graciosas conversações, onde a tônica é o bom gosto, a fineza de maneiras, a boa música. Ocasiões em que um cavalheiro pode apreciar o belo, ocasiões para se recolher ditos de espírito.

E então o encontrei, aniversário dele, todo mundo ali. E conversamos.

E bebemos e conversamos, eu e ele, que me ensinou o que são pacovares, que me apresentou a Mishima e que adorava gordas, embora seja magérrima a esposa.

E então montamos a lista de pequenas informações inúteis, nosso próprio almanaque.

Sim, o Cinto de Inutilidades. Novamente.

Segue, com lacunas, em estilo de ABC do cordel:

A de Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, o Barão de Itararé, editor do A Manha, dedicado cultivador dos horóscopos biônicos e quadrados mágicos. Lembramos pelas porradas que levou de oficiais da Aeronáutica por uma piada ou outra, que militares parecem não ter senso de humor. Não teve dúvidas, convalescença acabada, postou o aviso à porta do escritório: Entre Sem Bater.

B de Benício. Um dos maiores ilustradores de todos os tempos (nas humílimas opiniões dele e minha), José Luis Benício. Gaúcho de Rio Pardo, foi o autor das inesquecíveis capas dos pocket books da espiã Brigite Monfort, além de inúmeros outros trabalhos em cartazes de filmes, na publicidade e por aí vai. Mas, e principalmente, como Milo Manara, Benício desenhava mulheres como o bom gosto de quem…bem, gosta delas. Uma qualidade notável. E B de um sibilante Bob Fosse, a serpente, no “Pequeno Príncipe”. O filme, esclareço. “Snake in the grass”. Apenas uma picada…

C de cata você mesmo aí um feito.

D de Dunha, também Saroba, colega de ginásio e trapaceador contumaz no Jogo da Forca.

E de “entendi nada, não” com que premiávamos nossa professora de matemática.

F de “foda-se”, nosso mote favorito quando acabavam juntos a cerveja e o dinheiro. E F de Fátima, a mutante, história em quadrinhos de safadeza de Emir Ribeiro. Fez extraordinário sucesso nos anos setenta. Não me recordo da editora, mas lembro das histórias. Tinha de tudo, crítica social, ficção científica, racismo, bom-humor e muita, muita safadeza.

G de Garibaldo, com o impagável Laerte Morrone. Dizem que a fantasia não tinha buracos para os olhos. Atuação cega é isso aí.

H de Hilda Hist, autora do Ficções que compramos na livraria do Belas Artes, acho. Só sei que tinha uma senhora de branco, incenso e música indiana. Mas valeu por conhecer Hilda, a Hist.

I de Indiara, puta maranhense em fim de carreira a quem pagávamos cachaça só prá ver sua maravilhosa declamação de Navio Negreiro.

J de Juvenal, que ousava ostentar este nome e ainda ser garçom de puteiro. Um clichê sobre duas pernas e dois incansáveis e batidos sapatos Vulcabrás.

K de não tem K.

L de Luculo a mesa os convivas, num ágape festivo congregara, poema de Campos Lara, d´o Feijão e o Sonho de Orígenes Lessa.

M de Marambaia. Alguém tinha uma casinha lá.

N de Notícias Populares. Se houve um jornal que deixou saudades em milhares de leitores fiéis, com certeza, este foi o finado Notícias, que entre seus furos exclusivos encontram-se manchetes como: “Broxa torra pênis na tomada” ou “Deu a bunda para salvar a vida”, sem esquecer as coberturas orgiásticas do carnaval e a criação de lendas urbanas como a Loira do Banheiro, que já beira os cinquenta anos assombrando os desavisados escolares em todo o Brasil.

O.

P de Philippe Clay, o sujeito que cantava Le Noyé Assassiné como uma metralhadora na casa noturna das bruxas no Bell, Book and Candle, estrelado por Kim Novak.  E P de Puff `n´ Stuff, filme inglês que gerou uma série. Há o número musical das bruxas (ói outra), cantado por uma fantasiada “Mama” Cass Elliot, do Mamas and Papas. A música, Different. Anos sessenta. Lisérgicos, “camp”.

Q.

R.

S.

T.

U.

V de Sacred Cow, os Vacas Sagradas. Os Vacas Sagradas eram os Vacas Sagradas e fim de conversa. Hoje acompanho emocionado, pelo YouToba, Barbara Feldon e Don Adams, do seriado Agente 86, Get Smart, dançando ao som da banda demoníaca.

X.

Y de Yvone Craig. A melhor Escrava Verde de Órion e a melhor Batgirl que já se viu. E tinha até a musiquinha escrota e viciante: Batgirrrl, Batgirl! Batgirrrl, Batgirl! / Where do you come from, where do you go?

Z de Zéfiro. Z de catecismo. Z de putaria.

Agradecido, A. S. O.

É isso.

Apontamentos de uma viagem ao inferno

Cristo no Limbo - Hieronymus Bosch - 1575

Cristo no Limbo – Hieronymus Bosch – 1575

 

Capítulo um – onde se mostra um plantão policial em plena atividade, com seus polícias, seus bandidos e povo em geral. Fala-se então numa misteriosa Cintra.

Já se haviam se passado três horas inteiras e o plantão continuava recebendo os pedintes habituais. Donas-de-casa espancadas versus garotos flagrados com microscópicas guimbas de maconha versus ladrões de carros, suas vítimas, os vizinhos xingando as mães, as mães, os bêbedos uivando pra lua e a lua.

Rolando, Cinquenta copinhos de cachaça no bucho e ocupado com um flagrante, fingia ouvir a chorumela, a estimulante conversa habitual dos policiais militares. Os nobres milicianos, como os chamava o Poético Delegado de Polícia.

Já na marca das quatro viaturas e subindo, a sala recebia uma profusão de fardas e coletes a prova de bala que enchiam todos os cantos, com soldados novinhos fingindo que sabiam o que faziam, veteranos que sabiam muito bem que não faziam nada e oficiais, cheios de ideias e merda nas cabeças com as ordens óbvias de sempre.

— Só falta agora um “estrupo”. — Rolando virou a cabeça enquanto falava ao colega escrivão.

— Olha, homúnculo… — o Sempiterno Escriba respondeu entre uma baforada e outra de Derby extra suave — se você quer “estrupo” é só olhar pra nós dois… — O Magnífico Escriba voltou ao enfado habitual, um cigarro pendendo da boca, um olho fechado pela fumaça e dois dedos tentando digitar.

— E aí “Steve”, quando é que começa o nosso? — Um PM entrou na sala. Cabo Saladino, filho de Quitéria e Joaquim, nascido em Arcoverde, Pernambuco.

— A lepra acontece, fazer merda acontece, você foder é possível…uma hora dessas aí sai o teu flagrante de bosta de um miligrama de maconha. — o Valoroso Escriba desta vez sorriu seu sorriso que não era sorriso, mas um contrair de músculos. — Aquela fé em Jesus, valoroso policinha de merda, tudo acontece…

— Por que é que você não vai se foder, hein? — Cabo Saladino.

— Até o prazer, tudo é com a gente, já notou? — Rolando se levantou do computador.

— Topa? …Cintra, tomar um café? — Vestiu a sua jaqueta puída.

O Quintessencial Escriba considerou brevemente.

— Demorou. Guenta aí que eu vou dar um toque em sua delegadência real.

Mais uma viatura aportou, como os barcos aportam, e uma PF botou a cara no guichê, olhou em volta desanimada e foi para um canto preencher seu BOPM.

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No plioceno foi um bar noturno da moda, um dos grandes pontos na noite da cidade. Hoje só mais uma lanchonete de português, com grupos sertanejos gemendo a noite inteira e gente, muita gente fedida se esbarrando.

— …e por falta de sutileza intelectual que os gabaritasse à fruição da arte, da literatura e tudo o mais, não tendo o que fazer mesmo, vêm aqui então…o meu povo sofrido e fodido, se acotovelar, cambiar as morrinhas, pleitear algum sexo quiçá.

A cara de Rolando olhando para ontem e a beiçada regular no copo de Ypioca não autorizavam muita confiança, modos que o Magnífico Escrivão não tinha bem certeza de que fora ouvido.

Nuno, filho de Branca, português de “Caralho-de-São Mamede”, olhava com simpatia os dois escribas já a meio caminho do porre total.

— Esse o seu problema, falta de humildade…cê sabe, — O escrivão Rolando deu uma beiçada no copo — quando do final dos tempos, — cara feia quando a cachaça passou pela glote — ou de nossa morte, eu lá na glória…pois eu — e sublinhou glória batendo no peito — eu estarei entre os justos. E te verei lá, naquele lugar de pranto e ranger de dentes, sofrendo por seu cinismo, sua falta de amor… — e nesse ponto quase escorregou da mesa.

— Mais uma? — o Intimorato Escriba, consultou a face quelônia de seu amigo bêbado.

— Só mais esta… três flagrantes ainda.

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— E daí? Daí que ele ameaçou meu noivo de morte. — Loira, metro e oitenta, peituda e indignada. E um cara ao lado, barba crescida delineada por barbeador, terno sem gravata. O noivo, parecia.

— Quem ameaçou quem, minha senhora? — O Escriba Quintessencial procurou mais um cigarro.

— O cara que eu te falei, o que trabalhava como segurança do condomínio.

— A senhora pode me dizer o nome dele? — O glorioso escriba, entre uma tragada e outra.

— E como é que eu vou saber? Eu não fico trocando ideias com segurança. Só sei que ele tem uma cara de nordestino.

— Danou-se, minha senhora, bem, a senhora há de concordar que não é uma descrição das mais precisas…o que é que a senhora entende por nordestino? — Rolando, rabo-de-olho nas coxas da loira, começou a balançar a cabeça.

— Olha, nordestino, cabecinha plana, sem pescoço, atarracado, grosso. — Os peitos se moveram vigorosamente.

— Ah, muito bem, já melhorou, braquicéfalo…grosso… — Rolando agora ria sem disfarces.

— Você tá me gozando? Escuta, eu quero falar com o delegado e não com escrivão. — olhos fuzilando. — Eu sou arquiteta, moço!

— E eu sou um escrivão de merda e nem por isso fico mais inteligente. — Uma última baforada. — Olha, faz o seguinte, nós estamos com pelo menos três flagrantes na sua frente, de modo que pedirei sua compreensão. A senhora não quer aparecer mais tarde, quando isto aqui acalmar? — Dois polegares comprimindo os olhos, a cabeça abaixada. Depois, olhando compreensivo e terno para a loira.

— Tudo bem, esquece! Olha, senta naquele banco duro e massacrante ali e com a paciência que Deus lhe deu, aguarde a sua vez.

— Gente, não é possível… — os peitos revolutearam, assíncronos, poderosos. — Eu pago impostos, impostos ouviu? — Os peitos, nervosos sob a camiseta…

— Eu também pago — o magnífico fez um muxoxo — . Liga não, na minha gestão… — mais um cigarro. — …na minha gestão isto não vai acontecer mais.

— Charlie, papa, Romeu, sétimo, nono, negativo, sexto… — A policial militar feminina Patrícia consultou de novo seus apontamentos.

— Num tô achando nada, tem certeza de que é a placa certa? Tá dando um Volvo, um caminhão. — Rolando consultava pela terceira vez o terminal e pensava que só bebendo mais uma.

— Noite do caralho! — O Superlativo Escriba contava pela terceira vez as “pedras de crack” envoltas em papel-alumínio.

Um homem gordo, camisa em desalinho, gravata marrom, um revólver de cabo de madrepérola escapando das calças, entrou na sala, olhou em volta, depositou um olhar indagador — pois era de seu o depositar seus olhares — no rosto torturado do Magnífico.

— Qual a equipe que nos renderá senhor escrivão?

— Doutor Otaviano, Ednelson…acho que a Andressa também, doutor. — O Magnífico Escriba Fundamental começava agora a fazer o corpo do flagrante.

— Bem, espero que não em hora serôdia como de hábito. — Félix Ramalho de Moura, o bardo, delegado shakespeariano, secou a testa com seu lenço amarrotado.

— Justo!

— Como?

— Justo, certo…a esperança é a última que morre…etc., etc. — o Magnífico fez outro muxoxo.

— Certo, justo…como o senhor disse. E o flagrante? Em que pé?

— Indo, peças prontas, só falta o corpo e a assinatura do “mala” e do povo, essas coisas.

— Bom, se já está assim tão adiantado, sugiro uma visita última na Cintra. Um lanchinho não caía mal, pois não? — E Félix plantou seu traseiro no sofá das oitivas.

— É isso. — E o Sempiterno Escriba sorriu. — O senhor manda.

— Tô nessa! — Rolando completou para ninguém em especial.

PEQUENO DICIONÁRIO DO POLICIALÊS

Trama: é uma trama mesmo, enredada, fodida, dura de desentrançar, começando aí no começo da noite e caminhando, subindo, congregando forças.

Nós os vivazes sabemos que é sempre na cadeia que começa, com seu pequeno e ordenado governo onde as misérias são pesadas e divididas muito desigualmente entre os habitantes.

E sendo uma coisa a parte, um pedaço teratológico de noite, tem a sua singularidade toda especial que abre caminho pelos corredores, pelas alas, juntando o fétido dos banheiros e os organizando em redemoinho de pequenos desastres.

Não respeitaremos a ordem alfabética.

Por favor, apaguem seus cigarros!

SOBRE O POLICIAL

Se você encontrar um policial, você encontrou um sujeito estranho. Uma barata é muito mais envolvente, no verão elas voam de modo obsceno e nunca se sabe onde pousam. Este intermezzo é feito, perdão foi feito, para que se entenda o diálogo travado — um diálogo trava? —, travado dizíamos, onde se aprende a contar o número e o tamanho de nossa miséria embutida. Dois pontos. “Papai é ladrão”; “eu sou mendigo”; “tô desempregado”. Nenhuma originalidade. Entretanto. Até porque.

POLÍCIA – Está sempre errada.

O policial, enganadoramente, semelha, ponto por ponto, a qualquer cidadão ou cidadã. Indispensável num governo forte para impor a ordem, indispensável numa democracia para levar a culpa por qualquer coisa.

De tal modo que qualquer xingamento lhe assenta bem.

São felizes os policiais, cultivando neuroses com uma imitação passável de resignação e ironia. Em bom português, “panache”.

É bela a carreira, mas cheia de dificuldades e divórcios. Habitação comum de ladrões malsucedidos, a delegacia parece um serpentário, cheia de egomaníacos.

Deus poderia elimina-los, se quisesse, aos policiais.

— Todos seremos fundamentalmente hipócritas, finalmente hipócritas, desenganados de tudo e todos, enfiando o pau na tomada, abatendo criancinhas para o almoço… — Rolando considerou por um momento.

— Tô sendo entendido, né?.

O Magnífico Escrivão de Polícia batucou numa underwood decrépita e sorriu.

— E eis aí a manhã… — Félix Ramalho De Moura comentou aliviado, peidando baixinho.

 

 

Anderson, o Galo, investigador-chefe entrou pela porta de vidro, 08h30min, um furacão em movimento visitando todos os lugares e a todos os lugares levando o seu arfar perpétuo até que como um destes acontecimentos inelutáveis, entrou na sala do plantão, escarrapachando-se no primeiro sofá a vista.

— E aí?, a noite, foi como? Muitos homicídios? — o olhar alegre, a postura de um esquizofrênico em início de carreira.

Na sala do delegado, Félix dormia a sono solto. O Magnífico “montava” as peças do último flagrante, enquanto Rolando digitava o histórico de um inacreditável B.O. de Averiguação de Adultério, ouvindo em semitranse a voz torturada de um corno de meia-idade.

— Dois. Lá no Parral e um na Vila Hélida. Um moleque sem passagem e outro, “mala véio”. — O Magnífico achou tempo para um sorriso cansado.

— Você não disse bom dia, meu “Galo”. — O Magnífico endereçou em terno sorriso a Anderson.

— Bom dia. Dois de uma vez? — Galo levantou em polvorosa e fez o périplo da sala umas duas vezes, a face ansiosa e angustiada de sempre.

— Mas tava de pinto de fora? — Pergunta de Rolando. O corno fez cara de incompreensão. — O pinto, o pênis do seu vizinho…

— Cumé…? Ele tava lá, enrabando ela!!!

Nudus cum nudus? — Rolando, enganadoramente solícito.

— Fudeu! — O Magnífico.

E mais um plantão acabou.

Capítulo dois – Outro plantão – onde se conhece a nova namorada do escrivão Rolando. Capítulo modernoso, onde para afetar originalidade, se mistura de tudo. As personagens ganham nomes para poderem enfim ser amadas.

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Era um outro tempo, uma época lendária. Um tempo que agasalhou com ternura a metafísica delegacia de polícia. Um tempo que patrocinou com amor um amontoado de situações tornadas únicas pela equipe Curva-de-rio. Um tempo desajustado, doce, patético.

Era um outro tempo. Para o melhor e para o pior, em peregrinação vinham os cornos, os fodidos, os roubados e furtados, os violentados, os briguentos, os caolhos, os aleijados, os loucos de toda a sorte. Os recebíamos, ali psicanalizando-os gratuitamente como sói bons policiais o sabem fazer.

Uma época lendária na qual se montou a equipe “curva-de-rio” com a seguinte escalação:

Rolando José de Freitas Filho, o escrivão inexistente. Divorciado, três filhos, alcóolatra, cristão convicto, teólogo amador.

José Guilherme Martins, o sórdido tira.

Gilberto Zoanon, o Giba, segundo tira. Tira postiço, funcionário municipal emprestado, ganso.

Félix Ramalho de Moura, delegado shakesperiano. Grande, gordo e atento. Sempre falando num português cheio de preciosismos, como um ornamento para sua figura falstaffiana incansável, bufante. Chutado para o plantão por conta de uns tantos processos administrativos. Lá patrocinou a vinda de outros tantos desajustados, problemáticos. A Curva-de-rio.

O Magnífico Escriba.

 

O sórdido investigador de polícia entrou pela porta da frente da delegacia, daquele jeito, naquele sempre, com aquela cara. Isso assim, seco, cara amarrada, assustando o povo sofrido sentado nos bancos de cimento naquele puta frio de junho.

 

O pano sobe lentamente. Surge uma delegacia de polícia típica: uma sala com bancos de espera feitos de cimento. Defronte, uma espécie de guichê que dá para uma sala menor, equipada com duas mesas, computadores, um armário. O guichê nada mais é que um buraco na parede com cerca de dois metros por um, onde as pessoas comunicam as ocorrências ao escrivão de plantão. A sala dos escrivães. Noite. O sórdido tira entra na sala com seu ar soturno de sempre, senta-se junto a uma mesa com gavetas, abre uma ou duas. Em outra mesa, o Magnífico Escrivão digita no teclado do computador um B.O. para um casal de meia idade, enquanto que ao mesmo tempo olha para o sórdido com um sorriso de mofa. O sórdido aparenta preocupação.

SÓRDIDO — O Félix falou alguma coisa?

MAGNÍFICO — Não, saiu pra um local de homicídio com o Rolando e o Giba. Disse pra você esperar.

SÓRDIDO — Não falou nada do meu atraso?

MAGNÍFICO — Não ouvi nada não. — fazendo um esgar cínico. — E nem perguntei também.

SÓRDIDO — erguendo-se e caminhando para a porta — Vou pegar o café na Cintra, quer alguma coisa?

MAGNÍFICO — Precisa não, vou lá depois…vai com Jesus, meu tira.

Uma idade de ouro.

Loira, uma jaqueta de couro velhíssima, uma calça jeans puída, botinha, óculos escuríssimos, camisa de seda preta e um colar. Ah, e o cabo de uma pistola aparecendo no coldre.

Entrou decidida na sala, sapecou um “oi, sou tira lá do Segundo”, sentou no sofá e completou com um retórico “posso sentar aqui, né?”, levantou-se sem esperar resposta e puxou uma cadeira de rodinhas até perto do Magnífico.

— Mas você… — o Magnífico jogou uma bituca na caixa de areia e errou. — é quem mesmo?

A loira acendeu um cigarro e começou a fumar, rindo e mirando a confusão estampada na face do Escriba Fundamental.

— Merula, o sobrenome eu não falo que você pode pensar que é xingamento. Chama o Rolando aí, eu sou a nova namorada daquele bêbado.

— Ah, já te falei né? — exalou fumaça entre risos, amistosa por trás das lentes escuras ainda no rosto. — Eu sou tira do Segundo.

O Escriba Essencial, preocupado. Digitou uma senha no computador, virou-se para o nicho da parede:

— O próximo. — A seguir voltando-se para a loira.

— Jura? Eu nem sabia que ele namorava mamíferos?

Entrou uma senhora chorosa acompanhada de uma adolescente. O Fantástico Escriba esperou, sorrindo, que se acomodassem, as mãos no teclado. A loira ria.

— Pois não? Podemos fazer o que pela senhora? — a mulher puxou um lenço amarrotado, passando pelos olhos. A adolescente com a atenção toda concentrada na loira.

— Foi o meu marido…ele chegou em casa… , — Lenço de novo.

— Sei, bateu na senhora? — O magnífico começou a digitar, enquanto voltava o rosto para a tira do Segundo.

— É, me bateu na cara, nos braços… — olhou para a adolescente, — fala pro moço!

— Pode falar o seu nome, acho que eu suporto.

— O meu nome? — A mulher perguntou.

— O seu também, pera um pouco. — Voltou-se novamente para a loira, o olhar interrogativo.

— Maria Antônia Duarte Sfakianikis. Maria em grego é Meri, daí Merula, Mariazinha. Me chama de Merula. E o Rolando?

— É Rolando só, sem apelido. — o Sempiterno falou, porém olhando com olhar interrogativo para a mulher.

— Você tá tentando ser engraçado? — Merula.

— Fátima de Cássia da Silva.

— Pois bem, Dona Fátima…é, funciona mais ou menos assim. A senhora quer as medidas protetivas contra o senhor seu esposo?

— Hein? — Dona Fátima.

— Ferrar o “cabra”, proibir de chegar perto da senhora, lei Maria da Penha, essas coisas. — Dona Fátima virou-se nervosa para a adolescente, uma das mãos na boca como se a unha roesse, depois novamente para o rosto estoico do Magnífico.

— Guenta aí, já converso com você, policinha Merula. — o Escriba Fundamental disparou para o rosto mais uma vez sorridente da loira, a seguir voltando-se para Dona Fátima.

— Não, processar não…eu só queria que vocês desse um susto nele.

— Sei. Olha, vai dar não. Os polícias que dão susto não vieram hoje, de modo que eu vou ficar devendo prá senhora. Lamento, mas se a senhora não quer ferrar seu digníssimo, nem medidas protetivas, nem nada, fica difícil…. — O Sempiterno escandiu, didático.

— Então tá bom, — a loira se levantou e deu um beijo bochechoso no Sempiterno, — fala pro Rô que eu trouxe o biquíni da filha dele e que eu apareço lá na república.

— Sim, Mariazinha. — E deu tempo ainda de ver uma perna saindo pela porta.

— Por mim ele vai preso, pra apanhar bastante. — arrulhou a filha da espancada.

OS DIÁLOGOS E OS ACONTECIMENTOS QUE SE DÃO EM UM BAR PESTILENCIAL

O Magnífico Escriba era dolorosamente consciente de seu estoque pessoal de misérias e medos, e muito cioso dele também.

Se não lhe apetecia merda, tampouco lhe agradava o que chamava de “o bundão básico”.

Covardia seria uma palavra, se o Magnífico não odiasse a palavra especialmente.

— …entendi,…broxa, barrigudo, com um câncer a caminho, mas é tudo teu, ninguém mexe. — Rolando apontou um cigarro torto.

O Fundamental Escriba olhou com doçura para Rolando, um meio-sorriso por entre a fumaça de outro cigarro.

— Só você é assim especial, né? Tão filosófico! Quer saber? Você não merece o meu apreço! Olha, fica assim, se te perguntam, a ti, a você com esse orgulho ridículo saindo pelas espáduas, coisa do demonho, aí se te perguntam assim, Magnífico, cê faz o que na vida? Não responde, eu respondo prá você: Magnífico, você faz tipo!

E conduziu o Magnífico para as trevas.

FRASES EXTRAÍDAS EM MOMENTO DE LESEIRA DIRETAMENTE DO CELESTIAL BANHEIRO DOS DEUSES

Zen Duck - by Loopydave

Zen Duck – by Loopydave

Bem, de volta aos aforismos. Claro, podemos estar sendo um tanto pretensiosos, daí mudaremos: vamos às frases de, digamos, sanitário. Não é o melhor do espírito humano, mas é humano.

Salve!

O que é o amor? Bem, de uma coisa eu sei: não vem em garrafa.

 

Somente eu, eu mesmo, este homem simples aqui, sei onde está o amor. Na terceira prateleira, de baixo prá cima, ao lado da farinha de mandioca e da carne de sol.

 

Só o amor constrói. Agora, não vá sair por aí se apaixonando por qualquer pedreiro!

 

E as mulheres? O que dizer das mulheres? Bom, meu conselho é que se deixe em paz as mulheres. Mulherando, como sempre mulheraram desde o início dos tempos. Somente uma mulher pode mulherar.

 

De uma vez por todas! O mundo não é dos espertos, O MUNDO É MEU!!!! Só meu! Minha propriedade! Espero ter sido claro.

 

Uma sexta-feira é tipassim uma antecipação de bimbada. Já o sábado pode ser um orgasmo ou, mais naturalmente, uma broxada básica.

 

Isso, me irritem, que uma hora eu me mudo prá São Paulo e nunca mais volto pro Brasil.

 

Eu sou inteligentíssimo, tu de vez quando acertas, ele nunca me enganou, nós de tudo sabemos, vós sois um imbecil e eles só votam nas pessoas erradas.

 

O problema não é o “gigante acordar”. Problema mesmo é o café da manhã demorado, a base de brioches, sucos naturais diversos, fiambres finíssimos, melões importados dos nevoentos vales da Indonésia, os pães de centeio importado da Capadócia e as geleias de frutas do bosque feitas artesanalmente por freiras belgas. Depois sim, o gigante acordado, pode-se ir à praça se manifestar. E a praça é do povo como o céu é daquele rapinante andino lá que eu esqueci o nome.

 

Eu estou certo, tu estás errado, ele se equivoca sempre, nós as vezes erramos, vós sois um alienado e eles não entenderam nada.

 

Eu protesto, tu não sabes o que fazes, ele não estava lá, nós nos manifestamos, vós estais no lado errado e eles estão nos corrompendo.

 

Eu Dilmo, tu Dilmas, ele Dilma, nós Dilmamos, vós Dilmais, eles ainda não decidiram…

 

Quatro cascos não fazem um cavalo. Mas ajudam.

 

Cuspa no prato que comeu, mas seja educado: cuspa fazendo um biquinho.

 

Nada mais burro que uma frase inteligente. Falar abrobrinha exige arte.

 

Foda-se o mundo? Claro que não! Foda-se muito o mundo? Fora de questão! Um foda-se merece mais atenção que homilia de papa e sermão de pastor. Um foda-se é uma ponte ligando o bico do seu sapato ao traseiro da bundamolência cósmica! Um foda-se é um ato de fé. Nem tudo e todos merecem o nosso foda-se. Um foda-se é para ser tratado com carinho. Foda-se!!!

 

É constrangedor, disse o vampiro católico, mas rápido, tragam-me uma hóstia…

 

O dia começa, amanhecendo. Entretanto, ao anoitecer é noite já.

 

Palavras da Salvação: urna, cibório e bestunto. Doidivanas, sassafrás, perobo. Serôdio, quimbanda, paredro. Hidroquinona, madeiro, inconsútil. Cona, subilatório, merdeiro. Ferrabraz, esponsal, himeneu. Peripatética, testículo, trompa. Plenilúnio, solstício, pletora. Patranha, pudica, hetaíra. Parquetina, mirra, poliflor. Amém.

 

E aí o sujeito morre, vai pro Nosso Lar ou pro Umbral (onde todo mundo se dá mal) ou pro céu ou pro paraíso com cem virgens a disposição ou pro inferno ou vai pros Felizes Campos de Caça ou prá terra de Maivotsinim ou prá terra de Macunáima ou pro Lar dos Cinco Abençoados Imortais ou prá a Terra de Takeuspa. Não importa. O que importa é a pessoinha ter etiqueta, ser fina, quando morrer deve ficar morta, imóvel, tipo assim um cadáver do bem. Boas maneiras são tudo, até no pós-vida. E é isso que eu tinha prá falar a respeito da morte…

 

Sábio é o proxeneta que não cafetina, o ludopedista pouco chegado em bolas, o parlapatão que não é um palhaço. Enfim, sábio é o apedeuta que não escreve malediscências.

 

A perseguida da perseguida política é tão perseguida quanto a perseguida da eventual perseguidora. O que nos ensina muito sobre perseguidas, embora nada sobre a política.

 

O sonho de meu coração é morrer como um velho sibarita, desfrutando das lembranças de um passado de pecados ignominiosos e continuando a pecar como sói peca um velho sibarita: do jeito que dá.

 

Tudo é algo. Atentem bem para a profundidade da frase: tudo é algo. Mas tudo cala frente ao bruto fato de que ninguém é alguém.

Vapor-Punk: Antônio Vieira, impérios e outros sebastianismos

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Padre Antônio Vieira.

Sei, o título, o punk, o vapor no punk.

Mas então Vieira, o padre, sonhou com um Quinto Império, sucessor dos impérios assírio, persa, grego e romano.

Um império universalista, cristianíssimo e lusitano. Um império tout court, mas guiado espiritualmente (só espiritualmente, Vieira não era burro) pelo Papa.

Um império agregador e, talvez forçando a barra, multicultural até onde se podia ser multicultural à época. Mas, português o Quinto Império.

E assim o imaginou Vieira, o padre, alguns dizem que fortemente influenciado pelas visões de Gonçalo Anes, de alcunha o Bandarra[i], um sapateiro dado a visões do Portugal seiscentista.

O Bandarra via coisas, previa o tal império dominado pelas gentes portuguesas. Previa um rei profético, predestinado, o rei Encoberto, que quando finalmente viesse, se desse a descoberto, aí sim, o tal império.

Incidentalmente: Dom Sebastião morrera lutando contra os infiéis no Marrocos. Então, lá vai que Dom Sebastião, no futuro,  se encaixaria certinho no papel de rei Encoberto[ii]. Certo.

Já o Leão é experto

Mui alerto.

Já acordou, anda caminho.

Tirará cedo do ninho

O porco, e é mui certo.

Fugirá para o deserto,

Do Leão, e seu bramido,

Demonstra que vai ferido

Desse bom Rei Encoberto.

Bandarra, sapateiro e porralouca, acabou nas malhas do Santo Ofício. Pois é, século dezesseis, os prelados não sabiam brincar.

Mas então o Vieira não deixou por menos e pensou o seu Quinto Império por começar. Colossal, universalista. Cria-o inevitável, um desígnio divino, necessário, final.

Mas aí mudamos bruscamente e vamos a um sub-gênero da ficção científica: o Steampunk, que não é assim tão novo e pode ser descrito como a elaboração de histórias em ambientes vitorianos.

Mas ambientes alterados (não queria, mas vá lá: universos alternativos) onde a revolução industrial e tecnológica antecedeu de um século ou mais, enquanto os valores culturais são aqueles da era vitoriana que conhecemos.

Daí, computadores com chassi de madeira, aeroplanos a vapor et alia. Ou mesmo computadores de chassi de alumínio, celulares 3D, a depender de escolhas do autor, mas sempre operados por moçoilas de anquinhas ou cavalheiros de fraque. Imaginem José Dias mandando um e-mail a Bentinho, dando conta do comportamento estouvado de Capitu.

Citar autores seria tedioso, a maior parte americanos, mas pode-se sempre conferir a criação de Greg Broadmore, um universo conceitual a que chamou o Mundo do Dr. Grordbort, uma espécie de terra paralela Steampunk, onde a Inglaterra vitoriana estende o poder do império britânico a outros mundos do sistema solar. Aos que quiserem conferir, posso sugerir o link http://tinyurl.com/lgxj3h8, onde o audaz e valente Lorde Broadforce, acompanhado de seu criado-robô Carruthers e da jovem jornalista Millicent Middlesworth, se aventura na feroz selva do planeta Vênus.

Evidentemente, pertencendo a um ramo de um gênero de triste fortuna no Brasil, o Steampunk é candidato perene à ignorância geral.

 

Mas eu comecei com Vieira, o padre e não foi sem razão.

Luis Antônio M. C. Costa [iii], jornalista e escritor , já se aventurou pela versão verde-amarela do tecnovapor, por enquanto batizada de Tupinipunk.

Existem outros autores, mas vejam que maravilha, Costa deve e muito aos “estalos” de Vieira, pois que o seu universo se constrói justamente a partir do florescimento de um Quinto Império, em uma Europa na qual a ascensão protestante é justamente contrabalançada por um enfraquecimento do papado, gerando maior autonomia dos estados católicos: existe um Sacro Império Romano-Francês, um império russo invasor de Constantinopla e um califado islâmico cobrindo partes da Europa oriental, Ásia e África.

No Brasil, sede do Quinto Império, há um movimento Bandarrista, conduzido por uma agremiação extremista de direita, a Sociedade Gonçalo Eanes. Mas também, um Zambi de Deus, cientista e encarnação outra de Zumbi dos Palmares. Negros islâmicos, judeus, hinduístas, um Conselho Ecumênico sediado em Salvador.

Leiam o blogue Mitopese (http://tinyurl.com/qe9bcsw), onde Costa postou alguns de seus contos, que recomendo, notadamente Um Estudo Em Verde e Amarelo, onde criou a personagem Guataçara Turymembyra, uma Icamiaba[iv]  engajada no exército, ferida nas guerras do império na África e, convalescente, recém-chegada ao Rio de Janeiro, aceita dividir um apartamento com um excêntrico, Flávio Ilha, que tem por monomania o praticar deduções a partir de mínimas evidências.

Para quem não entendeu, Sherlock Holmes e Watson em versão Tupinipunk.

Também recomendo O Istmo do Dr. Moreira. Está também tudo lá: o Sagrado Quinto Império Universal Cristão de Portugal, Brasil e Algarves, personagens como Mamadu e Issa Baldé (Malês islâmicos), Judite Moreno da Fonseca (judia sefaradi), o professor Zambi de Deus e uma igreja ecumênica fundada por Dom Sebastião, após seu rompimento com o papado.

Ah, e deliciosas referências Machadianas.

Enfim, é a sugestão do chef para hoje.

‘Cabou.

steampunk


[i] Bandarrara sapateiro e místico, o que é uma excelente combinação se pensarmos em correlatos como carpinteiro e místico, cobrador de impostos e santo.

[ii] Sofregamente esperado até em Canudos, onde o Conselheiro previa sua chegada por sobre as ondas do mar para acabar com a maldade do mundo e com a república também.

[iii] Articulista e editor da revista Carta Capital. Procure, tá lá no expediente.

[iv] Consulte o Macunaíma, de Mário de Andrade, as amazonas Icamiabas estão lá.

UM COLECIONADOR COLECIONA SENÃO NÃO SERIA COLECIONADOR É O QUE EU ACHO

De quem...?

De quem…?

Ainda não me esqueci. Eles estão todos lá, os momentos, os esqueletos, preservados em gel de teimosia. E enumero:

E houve 1978, que foi um bom ano, me lembro bem.

As moças estavam especialmente bonitas e eu me formava no, como é que se chamava?, no ginasial. Tempos de antanho, onde os pássaros e os corintianos voavam. E havia Adoniram e Elis, cantando no Bar da Carmela, no Bixiga.

E existiram os meus doze anos e Já ninguém se lembra de Debra Paget.

Eu lembro, nos masturbatórios filmes que passavam de madrugada, em tempos idos. Um de meus mitos eróticos: bela, elegante e bem construída. Lembro de um filme antigo, de Fritz Lang, com quem Paget trabalhou em 1959.

Como a censura dos estúdios deixou passar Debra dançando daquele jeito, nunca vou entender!

E o que pensar de priscas épocas, onde não sobrava nenhuma outra forma de apreciar a sacanagem que não fosse nas histórias em quadrinhos de Carlos Zéfiro?

Os catecismos.

Neles, Zéfiro, funcionário público, passeava por todo o rol das safadezas dos Brasis: viúvas, freiras, devassas, ciganas, virgens. Toda uma época.

E ouvir Tom Zé cantando Puta Que O Pariu.

E ouvir No piense menguilla ya / que me muero por sus ojos / que he sido bobo hasta aquí  /! y no quiero ser más bobo ¡ / oh que lindo modo para que la dejen unos por otros!

Os Tonos Humanos de José Marin (sugiro Yoko Sugai, soprano e a guitarra barroca de Jacopo Gianninoto).

E ainda: Alain Cuny, como o demônio Gilles, cantando Démons et Merveilles no Les Visiteurs du Soir, que proibidamente assisti, de madrugada, numa valvulada preto e branco.

E ainda: O Leão No Inverno  na maravilhosa versão original, com Peter O´Toole e Katharine Hepburn, entre outros. Uma aula de cinema e um desempenho denso e fascinante de dois atores completos.

Os duelos verbais entre O´Toole, como o rei Henrique II e Hepburn, como Eleanor de Aquitânia já valeriam como indicação.

E ainda: A cena do filme La Mesa del Rey Salomón, de Carlos Saura, onde a maravilhosa Estrella Morente, numa homenagem cinéfila a Federico Garcia lorca, canta Los Cuatro Muleros.

E esquisitices como Raumpatrouille Orion, uma série televisiva de ficção científica alemã, dos anos 60.

Foi baseada numa série de livros de bolso editados pela Erich Pabel-Verlag.  Recuperei recentemente os vídeos, graças ao YouToba.

No Brasil chegaram a ser lançados alguns dos livros, sob o nome Espaçonave Órion, pela Ediouro.

E Jackson do Pandeiro cantando Xexéu de Bananeira?

Ó, menina bonita não dorme na cama / Dorme na limeira, no colo da rama /  Meu xexéu de bananeira / Cajueiro abaixa a rama

Uma lágrima teima em sair de meus idosos bulbos lacrimais.

O outrora antigamente, o tempo passado que já foi, o antanho. O de sempre.

É um bumerangue. Tecnologia australiana.

E eram os dias de vinho e rosas.

Agora sim: é só isso!

NÃO ESTOU ME PREPARANDO PARA QUANDO O CARNAVAL CHEGAR

The Feast of  Trimalchio Panorama 1 - Coletivo Russo AES+F

The Feast of Trimalchio Panorama 1 – Coletivo Russo AES+F

                  

E também não sei sambar. Triste.

E sem espírito natalino também e não é culpa do meu ateísmo de ocasião e sim o resultado de uma reflexão besta: acho meio deselegante me deixar levar pelos mitos de uma variante de uma religião tribal nascida na idade do bronze em meio a uma população de pastores do oriente médio.

Nada contra. Em verdade, em verdade vos digo que até aprecio os evangelhos.

Em si, uma inovação para o disponível na época.

Aprecio a beleza dos mitos eternos em sua roupagem judaico-cristã: a morte, a descida ao submundo, a ressurreição como promessa de renovação, a geração por obra de um deus, a mesa comum da eucaristia, essas coisas.

E nada de novo de novo. Perséfone já desceu antes ao submundo e voltou vitoriosa com as sementes da primavera.

Gosto também da refeição comum, entre deuses e homens, característica das religiões africanas trazidas para o Brasil.

É isso. Não estou preparado para quando o carnaval chegar.

Estou mais atento a coisas miúdas, a pessoas por conhecer, a certos livros, certas músicas, certos momentos. E se não forem novas, as coisas miúdas, que pelo menos sejam outras.

Não, não estou sentindo a presença da eternidade. E ademais este é um blog mundano, cheio de referências mundanas e outras galhofas  diversas. Não ficaria bem e o decoro é tudo.

E se não estou preparado, para o carnaval entre outras coisas, é porque descobri a resposta final.

Aquela, que se deve dar à pergunta do Anjo da Morte: sei não, cara.

Por hoje é só. Amanhã, descobriremos a pólvora e inventaremos a roda.

É isso.

NADA. Ou ainda: por que não me ouvem?

Secret Places - by Fiery Fire

Secret Places – by Fiery Fire

No começo era o NADA.

NADA havia, então naturalmente havia muito NADA, mas muito NADA mesmo. E tanto, que NADA começou a atrair mais NADA e quanto mais NADA se juntava ao NADA, mas denso se tornava o NADA. E assim a coisa foi, uma enorme massa fluida de Nádons se condensando em cada vez mais NADA.

Aí, inevitável, formou-se a massa crítica de NADA: quintilhões de MegaNADA elevados a quintilhonésima potência. Houve o BIG-NADA, a gigantesca explosão que deu origem a todo o NADA que existe. Bom, depois inventamos a religião…

Mas não é de NADA disto que eu queria falar. Da Pátria. Dela. Quero falar dela.

É que com o advento da Pátria com bandeiras, todos podem reivindicar tudo ou NADA como bem quiserem e para quem quiserem: é como o Biotônico Fontoura.

Serve à direita, à esquerda, ao militante e à socialaite, ao Faustão…esqueci alguém.

Já falei que tinha cantado a bola antes? Não? Devia ter falado. Mas antecipei, disse que iria dar nisto e naquilo, que o mensalão, que o descalabro, que a patifaria…enfim, alertei vocês, os meus.

E a pátria em transe. Anéis de couro acordando em frenesi. Uns, excitados, Outros, meio que se borrando. NADA demais. Mas como já dizia um sábio (a modéstia me faz calar seu nome): não é o fim do mundo.

Mas entrete.

Mas que eu cantei a bola, cantei e esperei e vocês, ó, nem tchuns!

Profetizei de novo, um púlpito a cada dia, e NADA. Eu bradava a surdos.

Agora, taí. Aos milhares invadindo as cidadelas, sendo filmados pelos helicópteros e devidamente massageados pelos cassetetes heroicos dos “hômi”.

Mas que eu já tinha falado, já tinha. Só me faltaram os culhões prá estar lá.

Ai de ti, Jerusalém!

Lavar roupa: terapia e oração

Detergente With Ocean Breeze Scent  - by Lhianne

Detergente With Ocean Breeze Scent – by Lhianne

A coisa é assim, Santa Teresa de Ávila, santa de minha particular devoção, sempre dizia que meditar era lavar pratos. Concordo. Eu, devoto, penso e faço tal e qual. Mas não com os pratos.

Então, vamos lá. COMO LAVÁ SUA RÔPA: esqueça a máquina de lavar. Use o tanque. Esqueça o detergente em pó. A verdadeira oração é feita com sabão em “preda”, dos grandes, feito artesanalmente com soda cáustica e resto de restaurante. Primeiro, atenção nas cores! Separe as brancas, as coloridas e as pretas.

Adispois, vem o lavar. Esfregue, esfregue e esfregue. Usando o método antigo, co´as mãos, e esfregando também naquela superfície ondulada lá, naquele lugar, cê sabe onde é.

Adispois, nada de secadora, coisa de pagão sem Gézuis no coração. Use o sol. O matinal. Melhor, bote para quarar como sói as avós d´antanho. Ah, falei do anil? Tem que usar o anil. Nada de cândida pelamôdideus (cumé, sabe o que é não? Tá bom, hipoclorito de sódio bem diluído).

Arrepetindo: não use cândida! Estraga as suas “rôpa”. Agora, o visual: nenhuma meditação é completa sem a vestimenta adequada: Camiseta e bermuda velhas, para ficarem devidamente molhadas.

E, importantíssimo, crucial, o pano amarrado na cabeça.

Apontamentos de uma viagem ao Céu

Nature of Absurdity - Michael Cheval

Nature of Absurdity – Michael Cheval

O Céu é diferente, a começar do piso, um enorme parquet infinito e cor de rosa-azul-verde cambiante dourado. As paredes (pois é, piso infinito com paredes) podem ser adivinhadas ao longe, sólidas e diáfanas. Um construto de harmoniosas contradições, o Céu.

Você anda e anda e anda e nada é repetido. Aqui, a enorme e quilométrica mesa de jade com as impossíveis iguarias só acessíveis aos convidados para a ceia do Senhor. Acolá, alegres Kalavinkas de cabelos cor de piche. E também os bonzos etéreos, os ulemás e outros doutores da lei em trânsito para o sétimo Céu, virgens diversas.

No Céu são comuns as chuvas localizadas, frescas e perfumadas, as árvores se perdendo nas alturas, as flores quintessenciais.

De modos que lá estive. Passe de visitante, é claro, pois estou vivo, não estou?

Passei por Moisés, sempre no portal do primeiro nível e sempre chorando[i]. Fui recepcionado (você sempre é recepcionado) por Sanvi, Sansanvi e Semangelaf, os três abissais e misteriosos emissários divinos que assassinaram aos filhos de Lilith. Nem uma palavra disseram, embora me tenha vindo a certeza de que implicaram com minha camiseta com estampa Che Guevara is alive on Rodeo Drive.

Nada de Simão Bar-Jonas, mas cumprimentei uma deusa negra ou duas. Neandertais, tocarianos, búlgaros, sumérios, iorubas, ciganos, cariocas, vietnamitas, levantinos, bosquímanos, você encontra de tudo e a todos.

“Você sabe o quanto me custou toda a coisa?”, disse-me a deusa Tian-Fei em surdina. “Marque minhas palavras: nada, nada foi pago. Tenho de ser mais clara?”.

Esperei passar o jaganata de tamanho extra-super-mega-grande com aquele monte de desocupados, dançando em cima e consegui chegar a tempo para a entrevista com Osíris.

“Au point de vue psychiatrique, je suis um hystéroneurasthénique…”, disse Osíris levantando-se ligeiramente do sarcófago, afetadíssimo. Ísis, rubra, passou a contemplar com intenso interesse a suas unhas.

“Escuta, e Deus? Quer dizer, o…”, nem pude terminar. “Você quer dizer o Velho, o cara que manda?”, Osíris era puro tédio.

“Olha, é melhor nem tocar no assunto, tá?”. Osíris.

“É melhor”. Ísis.

“Sabe, nunca gostei destes deuses metidos, incognoscíveis, imateriais…e pensar que veio de uma tribo de pastores da idade do bronze, acredita? Um parvenu, Javé, acredite…”.

No amplo salão do Bardo, no setor tibetano, ocorria uma partida de hóquei com cabeças humanas que já durava três anos ininterruptos. Meu passe vencia em quatro horas.

O Céu jainista não recomendo. Milhões de níveis e subníveis, funcionários para cada maldita coisa miúda. Burocrático.

Enfim, após dezessete minutos de tentativa junto à recepcionista, fui informado que São Bernardo de Claraval, para quem não sabe o chefe de gabinete de Nossa Senhora, recém regressara de viagem diplomática e não podia me receber.

E finalmente lá estava ele, um puta anjão de mais de dois metros de altura para o bota-fora.

“Gabriel?”. Nem me deu atenção, todo concentrado em verificar meus documentos.

“Todas as petições são em sete vias. Irregular, irregular. Sinto muito, não pode visitar o Empíreo sem uma petição em ordem e seu tempo acabou.  Já pensou em pedir um passe para visitas longas? Mais prático.”. E me encarou.

“Já viu a lista de espera? Nem Jacques Maritain foi atendido ainda!”. Gabriel nem pestanejou, o filho-da-puta.

“Tenha um bom dia”.

O problema de visitar o Céu é que não existe tempo no Céu, exceto para te dar te dar um chute no rabo quando o teu tempo, que não existe, acaba.

Passei de novo, pelas kalavinkas, pelos bonzos, pelas árvores e assim até o portal do primeiro nível.

“Vai tomar no cú, chorão!”. Não resisti. Estava puto, mas não é desculpa. Espero que Moisés tenha entendido.

Decorreu todo um minuto depois que acabei meu relato. Educadamente, ele levou uma xícara incandescente aos lábios e me sorriu, simpático.

“E foi assim que eu vim parar aqui, seu Lúcifer”.


[i] De acordo com o que me disseram no paraíso mazdaísta, Moisés está sempre postado no primeiro portal e chora por alguma coisa nobre qualquer aí: o decaimento do gênero humano, a vingança inevitável do Senhor…sinceramente não me lembro.

FAKE AND ROLL

INNISFREE CAPAUM_1

Os álbuns que não aconteceram

Os álbuns que não aconteceram

Finalmente, a famosa entrevista do INNISFREE ao ROCK´OL´ROCK.

Esta é a primeira parte. Breve, talvez, o resto. Consegui o número de dezembro de 2009 (infelizmente a revista só duraria mais dois números). A tradução é minha e de Valtencir Osama, meu fiel escudeiro londrino.

ROCK´OL ´ROCK – Entrevista

Os álbuns que não aconteceram

INNISFREE ou

Muito mais que uma pequena banda de garagem. Uma banda de garagem média, para falar a verdade

Por  Cailean Fraser

Tá, encontrei os caras num pulgueiro que passa por pub lá no East End: “isso aqui tem história, cara, os melhores fodidos do planeta vieram prá cá”, Roy “Skip” Rao, depois do terceiro gole no segundo copo. Bem, East End eu disse e lá estavam todos os caras, adiantados pro encontro, tão adiantados que suspeito que dormiram no lugar. Nenhum sinal do empresário, ou pelo menos, do cara prá quem telefonei e se apresentou como empresário.

De qualquer forma, ali estavam os caras, o INNISFREE. Talvez você não tenha ouvido falar. Quase ninguém ouviu, quer dizer, quase ninguém que não seja um obsessivo profissional por bandas novas, mas a revista não se chama ROCK´OL´ROCK de graça, certo?

Um pouco de história, crianças, o INNISFREE surgiu na cena inglesa em 2009: Nuada Krugman, vocal e guitarra;  Roy “Skip” Rao, percussão e berros; Manny Rodriguez, baixo; John “Jr.” Tripa, segunda guitarra e Jo-Ri Leblanc, teclados e miados. Ou traduzindo: um escocês, um inglês de origem indiana, um americano de origem mexicana, um neo-zelandês e um canadense e um som que não decidiu ainda a que veio. As vezes parecendo grunge, mas aí aparecem umas levadas de rock pesadão das antigas, trash, jazz, ritmos latinos, coisas do oriente, e parece que não vai acabar.

A entrevista abaixo, bem, não garanto que cobriu tudo que foi dito, é mais um extrato do que sobrou na memória depois que a ressaca foi embora e o pouco que restou no gravador. Todo caso, aproveitem.

Rock´Ol´Rock:  Afinal, qual a levada da banda? Do jeito que vem, tá faltando pouco para a ópera.

Roy: Eu não descartaria a ópera, irmão, não tão cedo…(risos).

Nuada: Nem o trash latino, curto…

Rock´Ol´Rock: Sei, que tal umas apresentações de todos, nome completo, essas coisas? Nuada? Aliás, é esse mesmo o teu nome?

Nuada: (risos) Nuada. Nuada mesmo. Nuada Robert Krugman, minha mãe era fissurada em folclore celta, ficou Nuada. Ficava puto quando era moleque.

Rock´Ol´Rock: Vai, fala aí de você.

Nuada: tem muita coisa não. Pai escocês, mãe americana. Meu pai era consultor aí de uma dessas multinacionais, minha mãe professora. A gente, minha irmã e eu, a gente passou a infância viajando por tudo que é lugar, a gente…aliás, eu peguei o sobrenome da minha mãe e minha irmã o do meu pai. Meus pais eram…são…assim, modernosos.

Rock´Ol´Rock: Ceridwen? Sua irmã?

John: é, a senhora Tripa, a mulher mais compreensiva do mundo (“cara, vai sair desse jeito?”).

Nuada: Ceridwen. Minha mãe ficava dizendo prá todo mundo “é KERIDWEN, a pronúncia é KERIDWEN.

Rock´Ol´Rock: Roy?

Roy: deixa eu ver, tem pouco também. Família indiana, terceira geração na ilha, já nem tem mais mercearia, essas coisas de indiano. Meu pai é funcionário público, minha mãe é professora. Ela queria que eu fosse músico, acredita?, mas músico erudito, essas coisas…, me botou até prá estudar piano com uma professora particular.

Rock´Ol´Rock: tipo Madame Sousatzka?

Roy: é, mas era francesa, não russa e exigente, cara, como me enchia a velhota.

Manny: e daí foi virar baterista, tudo a ver.

Rock´Ol´Rock: como foi no hot like oxygen?

Roy: foi “quente como nitrogênio líquido”. Eram uns caras legais, a gente se dá bem até hoje, mas eles não curtiam umas jogadas minhas, uns instrumentos que eu queria tocar, músicas que eu queria fazer…

Rock´Ol´Rock: você tocava aquela flauta africana, como é que chama?

Roy: Rhaita, mas só uma vez ou outra. Mas foi legal minha parada, assim do jeito babaca que foi.

Rock´Ol´Rock: Manny?

Manny: bem, deixa eu ver. California, filho de mexicanos meio classe média, até se falava inglês em casa, essas coisas.

Rock´Ol´Rock: fala aí o teu nome completo.

Manny: cara, pergunta o nome do Roy. Isso sim é que é nome. Fala aí, Skip.

Roy: Anathroy Venugpala Rao, repete!

Manny: Viu? Agora o meu é Manuel  Rodriguez y Cassidy.

Rock´Ol´Rock: Cassidy?

Manny: da família da minha mãe, algum irlandês aí na parada, só que ninguém tem nenhuma informação sobre o cara na família. Bem, pelo menos não tenho cabelo vermelho. Muito sangue índio, eu acho.

Manny: Continuando, California, depois fui por aí. Tinha acabado a universidade do jeito que a minha mãe queria, depois Inglaterra e entrei prá banda a convite do Roy…

Roy: ele tava precisando de ajuda, sozinho, morando com parente, a gente tem ajudar os mexicanos…

Nuada: só queríamos o bem dele (risos). E ele baixista e a gente…

Roy e Manny juntos: …tava precisando da porra de um baixista.

Rock´Ol´Rock: John, sua vez.

John: neozelandês, com um pouco de sangue Maori, mas a família não gosta muito de espalhar. Meu pais têm um comércio, um desses mini-mercados. Eu vim prá Londres porque era péssimo em matemática, ruim como comerciante e só sabia tocar guitarra. Aí eu casei…casei com a mulher mais compreensiva do mundo, tá ouvindo, amor?, casei…

Todos, rindo: …e Nuada me convidou prá banda, só porque eu já era parente.

Rock´Ol´Rock: Nuada é uma divindade celta?

Nuada: é, mas minha mãe é judia.

Rock´Ol´Rock: por que Never Fight An Inanimate Object?

Nuada: a gente achou a frase no GOOGLE, o Roy fez a música e eu a letra…

Rock´Ol´Rock: mas lá tá Lang e Cohen…

Roy: foi uma piada, foi registrado assim na editora, a gente achou que ficava legal…

Nuada: a gente tava é bêbado…

Roy: agora, bem, que fique registrado nos autos que pode ser, é até capaz que a gente estivesse um pouquinho alto…

Rock´Ol´Rock: e INNISFREE?

Jo-Ri: Google também, um poema de William Butler Yeats.

Manny: mas tem o filme também, o Quiet man, com John Wayne…

Rock´Ol´Rock: sei. Vai, Jo-Ri, sua vez. Aliás, Jo-Ri é o que, apelido, marca de remédio?

Jo-Ri: apelido, de infância. Edouard Marie Alphonse Leblanc. Vamo lá, canadense, quebecquois, tecladista. Meu pai era corretor de seguros. Aliás também já fui. Minha mãe é médica. O de sempre, toquei numa banda, Plastique Éphémère

Rock’Ol’Rock: não parece nome canadense…

Jo-Ri: o que?, plastique…?

Muita confusão, risadas e não dá prá se tirar nada do gravador.

Roy: Não parece porra nenhuma (rindo).

Rock’Ol’rock:  tô falando do teu nome…parece personagem de romance francês do século XIX…

Jo-Ri: meu nome, porra!

Rock´Ol´Rock: e esse papo de MEOW?

Jo-Ri: é uma piada desses porras aí. O negócio é que eu tinha, tenho ainda um toque de celular especial pro meu filho…

Rock´Ol´Rock: Você tem filho?

Jo-Ri: é…super-garoto. Mas então tinha esse toque que imitava o miado de gato…

Roy (rindo e alterando a voz): MIAAAAAAUUUUUU……

Jo-Ri: não falei?

Nuada: mas nós o amamos mesmo assim (risos).

Manny (rindo): é, mesmo parecendo uma coisa meio “emo”.

Roy: suspeita…

Nuada: muito suspeita…

Tripa: mas muito meiga, cara…tamos falando de um pai amoroso.

Jo-Ri (fazendo um gesto obsceno): sei…