Da leitura e outras obscenidades

Daniela Zekina

Daniela Zekina

E então eu saía de uma estação ferroviária e olhei prá moça, tão bonita, vestida no que eu suponho seja o estilo apurado padrão de classe média atual e lendo. Um livro, não uma revista. E lia, a moça e lendo, mexia os lábios.

Sempre achei que a visão de alguém lendo e mexendo os lábios fosse coisa de, vamos ser corteses, pessoa sem muita intimidade com os livros, que dirá com o ato de ler.

Mas mexia os lábios a moça. E era uma moça bonita e vestia roupas bonitas. Talvez caras.

Razão prá surpresa nenhuma haveria de, já que matutando, depois, me lembrei de que já vira muitas outras pessoas do mesmo jeito e não necessariamente pessoas de aparência, vá lá, humilde.

Mas mexia os lábios a moça.

A coisa toda é que parti do pressuposto de que os leitores (nós, desta casta minguada e sempre minguante), bem, nós, os leitores, supunha, leríamos todos em silêncio, absorvendo as palavras sem nos darmos conta dos signos no papel.

Bobice. Grande. A leitura silenciosa é coisa historicamente recente. Santo Agostinho registrou no capítulo III de suas Confissões, fascinado, que seu mentor espiritual Ambrósio de Milão lia em silêncio: “No bem pouco tempo que lhe deixavam livre, dedicava-se a reparar as forças do corpo com o alimento necessário, ou as do espírito, com a leitura. Quando lia, seus olhos percorriam as páginas e seu espírito penetrava-lhes o sentido, mas sua voz e sua língua repousavam”.

A leitura em voz alta sempre foi a norma. Ler, aperceber-se dos signos, combiná-los e depois os declamar eram uma e só coisa: ler. Era uma atuação delineada, um processo, uma disciplina para dissociação do mundo e interiorização do leitor.

E Ambrósio, lendo silenciosamente, foi talvez o primeiro registro conhecido do que é hoje considerado corriqueiro, banal.

Mas mexia os lábios a moça. E lia um livro. E não era um livro de auto-ajuda ou espírita (perdoem-me os auto-ajudenses e os gasparettianos). Não, era um Maria Moura massudão e pesado.

A leitura era compartilhada. Agostinho refere leituras conjuntas de epístolas de Paulo, com seu amigo Alípio.

De se notar que o que hoje conhecemos por alfabeto tem uma longa história. No começo as pinturas em cavernas, em paredões rochosos, depois o desenvolvimento de sinais pictográficos, depois a associação de imagens com o som.

Os fenícios adaptaram o demótico egípcio para registrarem suas transações comerciais, mas quando tiveram que nomear ao signos que representassem os sons de sua língua utilizaram-se de imagens: o nome dado à letra que transmitisse a oclusiva glotal “ʔ”[i] foi ‘alp, boi, que passou ao hebraico como Aleph. Os gregos, que não tinham este fonema, utilizaram o signo para representar a vogal “a” e o chamaram de alfa.

E a imagem original da letra era o desenho de um boi. Inverta o nosso A maiúsculo e você verá os chifres e a cabeça do mesmo boi.

Mas eu falei que foram os fenícios, não? Mas no antesmente estavam os egípcios e seus hieróglifos, ou os acadianos e seus cuneiformes. O alfabeto era exclusivo da classe sacerdotal e era sagrado. Natural, com ele se descrevia e se perenizava o sagrado. Um milagre em si.

As simplificações, os demóticos, vieram depois e foram outra revolução: a utilização do alfabeto para o registro mundano.

Sendo, como era, uma ferramenta exclusiva e de exclusivos, natural que o alfabeto fosse objeto de fetiche. O ato de ler era exclusivo, marcado, para poucos.

Toda a história do cristianismo, por exemplo, foi uma longa sucessão de fiéis analfabetos cujo único instrumento de doutrinação eram os mosaicos e mais adiante os vitrais. A leitura era província dos prelados.

Paulo epistolou aos letrados das igrejas para que lessem para as massas. Em voz alta, escandida, sacramental.

E aí rolaram os tempos, depois as cabeças na Revolução Francesa e nasceu o conceito da escola universal. Alfabetização em massa. Recentíssimo.

Tão recente que os velhos hábitos perduram. Be-abá, a; ce-o-có, c; de-o-dó, d. E temos ainda a visão de nossos velhos, compenetrados, lendo em voz alta. Hoje. Ou mexendo os lábios como a moça que mexia os lábios que vi. Eu, que leio silenciosamente.

Mas mexia os lábios a moça.

O ato de ler ainda está em processo. De.

É o que acho. Eu, que leio silenciosamente feito Santo Ambrósio.


[i] Bonito não? Oclusiva glotal. Posso morrer tranquilo: oclusiva glotal. Ah, o ʔ é símbolo do Alfabeto Fonético Internacional.

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