Apontamentos de uma viagem ao Céu

Nature of Absurdity - Michael Cheval

Nature of Absurdity – Michael Cheval

O Céu é diferente, a começar do piso, um enorme parquet infinito e cor de rosa-azul-verde cambiante dourado. As paredes (pois é, piso infinito com paredes) podem ser adivinhadas ao longe, sólidas e diáfanas. Um construto de harmoniosas contradições, o Céu.

Você anda e anda e anda e nada é repetido. Aqui, a enorme e quilométrica mesa de jade com as impossíveis iguarias só acessíveis aos convidados para a ceia do Senhor. Acolá, alegres Kalavinkas de cabelos cor de piche. E também os bonzos etéreos, os ulemás e outros doutores da lei em trânsito para o sétimo Céu, virgens diversas.

No Céu são comuns as chuvas localizadas, frescas e perfumadas, as árvores se perdendo nas alturas, as flores quintessenciais.

De modos que lá estive. Passe de visitante, é claro, pois estou vivo, não estou?

Passei por Moisés, sempre no portal do primeiro nível e sempre chorando[i]. Fui recepcionado (você sempre é recepcionado) por Sanvi, Sansanvi e Semangelaf, os três abissais e misteriosos emissários divinos que assassinaram aos filhos de Lilith. Nem uma palavra disseram, embora me tenha vindo a certeza de que implicaram com minha camiseta com estampa Che Guevara is alive on Rodeo Drive.

Nada de Simão Bar-Jonas, mas cumprimentei uma deusa negra ou duas. Neandertais, tocarianos, búlgaros, sumérios, iorubas, ciganos, cariocas, vietnamitas, levantinos, bosquímanos, você encontra de tudo e a todos.

“Você sabe o quanto me custou toda a coisa?”, disse-me a deusa Tian-Fei em surdina. “Marque minhas palavras: nada, nada foi pago. Tenho de ser mais clara?”.

Esperei passar o jaganata de tamanho extra-super-mega-grande com aquele monte de desocupados, dançando em cima e consegui chegar a tempo para a entrevista com Osíris.

“Au point de vue psychiatrique, je suis um hystéroneurasthénique…”, disse Osíris levantando-se ligeiramente do sarcófago, afetadíssimo. Ísis, rubra, passou a contemplar com intenso interesse a suas unhas.

“Escuta, e Deus? Quer dizer, o…”, nem pude terminar. “Você quer dizer o Velho, o cara que manda?”, Osíris era puro tédio.

“Olha, é melhor nem tocar no assunto, tá?”. Osíris.

“É melhor”. Ísis.

“Sabe, nunca gostei destes deuses metidos, incognoscíveis, imateriais…e pensar que veio de uma tribo de pastores da idade do bronze, acredita? Um parvenu, Javé, acredite…”.

No amplo salão do Bardo, no setor tibetano, ocorria uma partida de hóquei com cabeças humanas que já durava três anos ininterruptos. Meu passe vencia em quatro horas.

O Céu jainista não recomendo. Milhões de níveis e subníveis, funcionários para cada maldita coisa miúda. Burocrático.

Enfim, após dezessete minutos de tentativa junto à recepcionista, fui informado que São Bernardo de Claraval, para quem não sabe o chefe de gabinete de Nossa Senhora, recém regressara de viagem diplomática e não podia me receber.

E finalmente lá estava ele, um puta anjão de mais de dois metros de altura para o bota-fora.

“Gabriel?”. Nem me deu atenção, todo concentrado em verificar meus documentos.

“Todas as petições são em sete vias. Irregular, irregular. Sinto muito, não pode visitar o Empíreo sem uma petição em ordem e seu tempo acabou.  Já pensou em pedir um passe para visitas longas? Mais prático.”. E me encarou.

“Já viu a lista de espera? Nem Jacques Maritain foi atendido ainda!”. Gabriel nem pestanejou, o filho-da-puta.

“Tenha um bom dia”.

O problema de visitar o Céu é que não existe tempo no Céu, exceto para te dar te dar um chute no rabo quando o teu tempo, que não existe, acaba.

Passei de novo, pelas kalavinkas, pelos bonzos, pelas árvores e assim até o portal do primeiro nível.

“Vai tomar no cú, chorão!”. Não resisti. Estava puto, mas não é desculpa. Espero que Moisés tenha entendido.

Decorreu todo um minuto depois que acabei meu relato. Educadamente, ele levou uma xícara incandescente aos lábios e me sorriu, simpático.

“E foi assim que eu vim parar aqui, seu Lúcifer”.


[i] De acordo com o que me disseram no paraíso mazdaísta, Moisés está sempre postado no primeiro portal e chora por alguma coisa nobre qualquer aí: o decaimento do gênero humano, a vingança inevitável do Senhor…sinceramente não me lembro.

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3 comentários em “Apontamentos de uma viagem ao Céu

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