Vapor-Punk: Antônio Vieira, impérios e outros sebastianismos

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Padre Antônio Vieira.

Sei, o título, o punk, o vapor no punk.

Mas então Vieira, o padre, sonhou com um Quinto Império, sucessor dos impérios assírio, persa, grego e romano.

Um império universalista, cristianíssimo e lusitano. Um império tout court, mas guiado espiritualmente (só espiritualmente, Vieira não era burro) pelo Papa.

Um império agregador e, talvez forçando a barra, multicultural até onde se podia ser multicultural à época. Mas, português o Quinto Império.

E assim o imaginou Vieira, o padre, alguns dizem que fortemente influenciado pelas visões de Gonçalo Anes, de alcunha o Bandarra[i], um sapateiro dado a visões do Portugal seiscentista.

O Bandarra via coisas, previa o tal império dominado pelas gentes portuguesas. Previa um rei profético, predestinado, o rei Encoberto, que quando finalmente viesse, se desse a descoberto, aí sim, o tal império.

Incidentalmente: Dom Sebastião morrera lutando contra os infiéis no Marrocos. Então, lá vai que Dom Sebastião, no futuro,  se encaixaria certinho no papel de rei Encoberto[ii]. Certo.

Já o Leão é experto

Mui alerto.

Já acordou, anda caminho.

Tirará cedo do ninho

O porco, e é mui certo.

Fugirá para o deserto,

Do Leão, e seu bramido,

Demonstra que vai ferido

Desse bom Rei Encoberto.

Bandarra, sapateiro e porralouca, acabou nas malhas do Santo Ofício. Pois é, século dezesseis, os prelados não sabiam brincar.

Mas então o Vieira não deixou por menos e pensou o seu Quinto Império por começar. Colossal, universalista. Cria-o inevitável, um desígnio divino, necessário, final.

Mas aí mudamos bruscamente e vamos a um sub-gênero da ficção científica: o Steampunk, que não é assim tão novo e pode ser descrito como a elaboração de histórias em ambientes vitorianos.

Mas ambientes alterados (não queria, mas vá lá: universos alternativos) onde a revolução industrial e tecnológica antecedeu de um século ou mais, enquanto os valores culturais são aqueles da era vitoriana que conhecemos.

Daí, computadores com chassi de madeira, aeroplanos a vapor et alia. Ou mesmo computadores de chassi de alumínio, celulares 3D, a depender de escolhas do autor, mas sempre operados por moçoilas de anquinhas ou cavalheiros de fraque. Imaginem José Dias mandando um e-mail a Bentinho, dando conta do comportamento estouvado de Capitu.

Citar autores seria tedioso, a maior parte americanos, mas pode-se sempre conferir a criação de Greg Broadmore, um universo conceitual a que chamou o Mundo do Dr. Grordbort, uma espécie de terra paralela Steampunk, onde a Inglaterra vitoriana estende o poder do império britânico a outros mundos do sistema solar. Aos que quiserem conferir, posso sugerir o link http://tinyurl.com/lgxj3h8, onde o audaz e valente Lorde Broadforce, acompanhado de seu criado-robô Carruthers e da jovem jornalista Millicent Middlesworth, se aventura na feroz selva do planeta Vênus.

Evidentemente, pertencendo a um ramo de um gênero de triste fortuna no Brasil, o Steampunk é candidato perene à ignorância geral.

 

Mas eu comecei com Vieira, o padre e não foi sem razão.

Luis Antônio M. C. Costa [iii], jornalista e escritor , já se aventurou pela versão verde-amarela do tecnovapor, por enquanto batizada de Tupinipunk.

Existem outros autores, mas vejam que maravilha, Costa deve e muito aos “estalos” de Vieira, pois que o seu universo se constrói justamente a partir do florescimento de um Quinto Império, em uma Europa na qual a ascensão protestante é justamente contrabalançada por um enfraquecimento do papado, gerando maior autonomia dos estados católicos: existe um Sacro Império Romano-Francês, um império russo invasor de Constantinopla e um califado islâmico cobrindo partes da Europa oriental, Ásia e África.

No Brasil, sede do Quinto Império, há um movimento Bandarrista, conduzido por uma agremiação extremista de direita, a Sociedade Gonçalo Eanes. Mas também, um Zambi de Deus, cientista e encarnação outra de Zumbi dos Palmares. Negros islâmicos, judeus, hinduístas, um Conselho Ecumênico sediado em Salvador.

Leiam o blogue Mitopese (http://tinyurl.com/qe9bcsw), onde Costa postou alguns de seus contos, que recomendo, notadamente Um Estudo Em Verde e Amarelo, onde criou a personagem Guataçara Turymembyra, uma Icamiaba[iv]  engajada no exército, ferida nas guerras do império na África e, convalescente, recém-chegada ao Rio de Janeiro, aceita dividir um apartamento com um excêntrico, Flávio Ilha, que tem por monomania o praticar deduções a partir de mínimas evidências.

Para quem não entendeu, Sherlock Holmes e Watson em versão Tupinipunk.

Também recomendo O Istmo do Dr. Moreira. Está também tudo lá: o Sagrado Quinto Império Universal Cristão de Portugal, Brasil e Algarves, personagens como Mamadu e Issa Baldé (Malês islâmicos), Judite Moreno da Fonseca (judia sefaradi), o professor Zambi de Deus e uma igreja ecumênica fundada por Dom Sebastião, após seu rompimento com o papado.

Ah, e deliciosas referências Machadianas.

Enfim, é a sugestão do chef para hoje.

‘Cabou.

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[i] Bandarrara sapateiro e místico, o que é uma excelente combinação se pensarmos em correlatos como carpinteiro e místico, cobrador de impostos e santo.

[ii] Sofregamente esperado até em Canudos, onde o Conselheiro previa sua chegada por sobre as ondas do mar para acabar com a maldade do mundo e com a república também.

[iii] Articulista e editor da revista Carta Capital. Procure, tá lá no expediente.

[iv] Consulte o Macunaíma, de Mário de Andrade, as amazonas Icamiabas estão lá.

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