Apontamentos de uma viagem ao inferno

Cristo no Limbo - Hieronymus Bosch - 1575

Cristo no Limbo – Hieronymus Bosch – 1575

 

Capítulo um – onde se mostra um plantão policial em plena atividade, com seus polícias, seus bandidos e povo em geral. Fala-se então numa misteriosa Cintra.

Já se haviam se passado três horas inteiras e o plantão continuava recebendo os pedintes habituais. Donas-de-casa espancadas versus garotos flagrados com microscópicas guimbas de maconha versus ladrões de carros, suas vítimas, os vizinhos xingando as mães, as mães, os bêbedos uivando pra lua e a lua.

Rolando, Cinquenta copinhos de cachaça no bucho e ocupado com um flagrante, fingia ouvir a chorumela, a estimulante conversa habitual dos policiais militares. Os nobres milicianos, como os chamava o Poético Delegado de Polícia.

Já na marca das quatro viaturas e subindo, a sala recebia uma profusão de fardas e coletes a prova de bala que enchiam todos os cantos, com soldados novinhos fingindo que sabiam o que faziam, veteranos que sabiam muito bem que não faziam nada e oficiais, cheios de ideias e merda nas cabeças com as ordens óbvias de sempre.

— Só falta agora um “estrupo”. — Rolando virou a cabeça enquanto falava ao colega escrivão.

— Olha, homúnculo… — o Sempiterno Escriba respondeu entre uma baforada e outra de Derby extra suave — se você quer “estrupo” é só olhar pra nós dois… — O Magnífico Escriba voltou ao enfado habitual, um cigarro pendendo da boca, um olho fechado pela fumaça e dois dedos tentando digitar.

— E aí “Steve”, quando é que começa o nosso? — Um PM entrou na sala. Cabo Saladino, filho de Quitéria e Joaquim, nascido em Arcoverde, Pernambuco.

— A lepra acontece, fazer merda acontece, você foder é possível…uma hora dessas aí sai o teu flagrante de bosta de um miligrama de maconha. — o Valoroso Escriba desta vez sorriu seu sorriso que não era sorriso, mas um contrair de músculos. — Aquela fé em Jesus, valoroso policinha de merda, tudo acontece…

— Por que é que você não vai se foder, hein? — Cabo Saladino.

— Até o prazer, tudo é com a gente, já notou? — Rolando se levantou do computador.

— Topa? …Cintra, tomar um café? — Vestiu a sua jaqueta puída.

O Quintessencial Escriba considerou brevemente.

— Demorou. Guenta aí que eu vou dar um toque em sua delegadência real.

Mais uma viatura aportou, como os barcos aportam, e uma PF botou a cara no guichê, olhou em volta desanimada e foi para um canto preencher seu BOPM.

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No plioceno foi um bar noturno da moda, um dos grandes pontos na noite da cidade. Hoje só mais uma lanchonete de português, com grupos sertanejos gemendo a noite inteira e gente, muita gente fedida se esbarrando.

— …e por falta de sutileza intelectual que os gabaritasse à fruição da arte, da literatura e tudo o mais, não tendo o que fazer mesmo, vêm aqui então…o meu povo sofrido e fodido, se acotovelar, cambiar as morrinhas, pleitear algum sexo quiçá.

A cara de Rolando olhando para ontem e a beiçada regular no copo de Ypioca não autorizavam muita confiança, modos que o Magnífico Escrivão não tinha bem certeza de que fora ouvido.

Nuno, filho de Branca, português de “Caralho-de-São Mamede”, olhava com simpatia os dois escribas já a meio caminho do porre total.

— Esse o seu problema, falta de humildade…cê sabe, — O escrivão Rolando deu uma beiçada no copo — quando do final dos tempos, — cara feia quando a cachaça passou pela glote — ou de nossa morte, eu lá na glória…pois eu — e sublinhou glória batendo no peito — eu estarei entre os justos. E te verei lá, naquele lugar de pranto e ranger de dentes, sofrendo por seu cinismo, sua falta de amor… — e nesse ponto quase escorregou da mesa.

— Mais uma? — o Intimorato Escriba, consultou a face quelônia de seu amigo bêbado.

— Só mais esta… três flagrantes ainda.

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— E daí? Daí que ele ameaçou meu noivo de morte. — Loira, metro e oitenta, peituda e indignada. E um cara ao lado, barba crescida delineada por barbeador, terno sem gravata. O noivo, parecia.

— Quem ameaçou quem, minha senhora? — O Escriba Quintessencial procurou mais um cigarro.

— O cara que eu te falei, o que trabalhava como segurança do condomínio.

— A senhora pode me dizer o nome dele? — O glorioso escriba, entre uma tragada e outra.

— E como é que eu vou saber? Eu não fico trocando ideias com segurança. Só sei que ele tem uma cara de nordestino.

— Danou-se, minha senhora, bem, a senhora há de concordar que não é uma descrição das mais precisas…o que é que a senhora entende por nordestino? — Rolando, rabo-de-olho nas coxas da loira, começou a balançar a cabeça.

— Olha, nordestino, cabecinha plana, sem pescoço, atarracado, grosso. — Os peitos se moveram vigorosamente.

— Ah, muito bem, já melhorou, braquicéfalo…grosso… — Rolando agora ria sem disfarces.

— Você tá me gozando? Escuta, eu quero falar com o delegado e não com escrivão. — olhos fuzilando. — Eu sou arquiteta, moço!

— E eu sou um escrivão de merda e nem por isso fico mais inteligente. — Uma última baforada. — Olha, faz o seguinte, nós estamos com pelo menos três flagrantes na sua frente, de modo que pedirei sua compreensão. A senhora não quer aparecer mais tarde, quando isto aqui acalmar? — Dois polegares comprimindo os olhos, a cabeça abaixada. Depois, olhando compreensivo e terno para a loira.

— Tudo bem, esquece! Olha, senta naquele banco duro e massacrante ali e com a paciência que Deus lhe deu, aguarde a sua vez.

— Gente, não é possível… — os peitos revolutearam, assíncronos, poderosos. — Eu pago impostos, impostos ouviu? — Os peitos, nervosos sob a camiseta…

— Eu também pago — o magnífico fez um muxoxo — . Liga não, na minha gestão… — mais um cigarro. — …na minha gestão isto não vai acontecer mais.

— Charlie, papa, Romeu, sétimo, nono, negativo, sexto… — A policial militar feminina Patrícia consultou de novo seus apontamentos.

— Num tô achando nada, tem certeza de que é a placa certa? Tá dando um Volvo, um caminhão. — Rolando consultava pela terceira vez o terminal e pensava que só bebendo mais uma.

— Noite do caralho! — O Superlativo Escriba contava pela terceira vez as “pedras de crack” envoltas em papel-alumínio.

Um homem gordo, camisa em desalinho, gravata marrom, um revólver de cabo de madrepérola escapando das calças, entrou na sala, olhou em volta, depositou um olhar indagador — pois era de seu o depositar seus olhares — no rosto torturado do Magnífico.

— Qual a equipe que nos renderá senhor escrivão?

— Doutor Otaviano, Ednelson…acho que a Andressa também, doutor. — O Magnífico Escriba Fundamental começava agora a fazer o corpo do flagrante.

— Bem, espero que não em hora serôdia como de hábito. — Félix Ramalho de Moura, o bardo, delegado shakespeariano, secou a testa com seu lenço amarrotado.

— Justo!

— Como?

— Justo, certo…a esperança é a última que morre…etc., etc. — o Magnífico fez outro muxoxo.

— Certo, justo…como o senhor disse. E o flagrante? Em que pé?

— Indo, peças prontas, só falta o corpo e a assinatura do “mala” e do povo, essas coisas.

— Bom, se já está assim tão adiantado, sugiro uma visita última na Cintra. Um lanchinho não caía mal, pois não? — E Félix plantou seu traseiro no sofá das oitivas.

— É isso. — E o Sempiterno Escriba sorriu. — O senhor manda.

— Tô nessa! — Rolando completou para ninguém em especial.

PEQUENO DICIONÁRIO DO POLICIALÊS

Trama: é uma trama mesmo, enredada, fodida, dura de desentrançar, começando aí no começo da noite e caminhando, subindo, congregando forças.

Nós os vivazes sabemos que é sempre na cadeia que começa, com seu pequeno e ordenado governo onde as misérias são pesadas e divididas muito desigualmente entre os habitantes.

E sendo uma coisa a parte, um pedaço teratológico de noite, tem a sua singularidade toda especial que abre caminho pelos corredores, pelas alas, juntando o fétido dos banheiros e os organizando em redemoinho de pequenos desastres.

Não respeitaremos a ordem alfabética.

Por favor, apaguem seus cigarros!

SOBRE O POLICIAL

Se você encontrar um policial, você encontrou um sujeito estranho. Uma barata é muito mais envolvente, no verão elas voam de modo obsceno e nunca se sabe onde pousam. Este intermezzo é feito, perdão foi feito, para que se entenda o diálogo travado — um diálogo trava? —, travado dizíamos, onde se aprende a contar o número e o tamanho de nossa miséria embutida. Dois pontos. “Papai é ladrão”; “eu sou mendigo”; “tô desempregado”. Nenhuma originalidade. Entretanto. Até porque.

POLÍCIA – Está sempre errada.

O policial, enganadoramente, semelha, ponto por ponto, a qualquer cidadão ou cidadã. Indispensável num governo forte para impor a ordem, indispensável numa democracia para levar a culpa por qualquer coisa.

De tal modo que qualquer xingamento lhe assenta bem.

São felizes os policiais, cultivando neuroses com uma imitação passável de resignação e ironia. Em bom português, “panache”.

É bela a carreira, mas cheia de dificuldades e divórcios. Habitação comum de ladrões malsucedidos, a delegacia parece um serpentário, cheia de egomaníacos.

Deus poderia elimina-los, se quisesse, aos policiais.

— Todos seremos fundamentalmente hipócritas, finalmente hipócritas, desenganados de tudo e todos, enfiando o pau na tomada, abatendo criancinhas para o almoço… — Rolando considerou por um momento.

— Tô sendo entendido, né?.

O Magnífico Escrivão de Polícia batucou numa underwood decrépita e sorriu.

— E eis aí a manhã… — Félix Ramalho De Moura comentou aliviado, peidando baixinho.

 

 

Anderson, o Galo, investigador-chefe entrou pela porta de vidro, 08h30min, um furacão em movimento visitando todos os lugares e a todos os lugares levando o seu arfar perpétuo até que como um destes acontecimentos inelutáveis, entrou na sala do plantão, escarrapachando-se no primeiro sofá a vista.

— E aí?, a noite, foi como? Muitos homicídios? — o olhar alegre, a postura de um esquizofrênico em início de carreira.

Na sala do delegado, Félix dormia a sono solto. O Magnífico “montava” as peças do último flagrante, enquanto Rolando digitava o histórico de um inacreditável B.O. de Averiguação de Adultério, ouvindo em semitranse a voz torturada de um corno de meia-idade.

— Dois. Lá no Parral e um na Vila Hélida. Um moleque sem passagem e outro, “mala véio”. — O Magnífico achou tempo para um sorriso cansado.

— Você não disse bom dia, meu “Galo”. — O Magnífico endereçou em terno sorriso a Anderson.

— Bom dia. Dois de uma vez? — Galo levantou em polvorosa e fez o périplo da sala umas duas vezes, a face ansiosa e angustiada de sempre.

— Mas tava de pinto de fora? — Pergunta de Rolando. O corno fez cara de incompreensão. — O pinto, o pênis do seu vizinho…

— Cumé…? Ele tava lá, enrabando ela!!!

Nudus cum nudus? — Rolando, enganadoramente solícito.

— Fudeu! — O Magnífico.

E mais um plantão acabou.

Capítulo dois – Outro plantão – onde se conhece a nova namorada do escrivão Rolando. Capítulo modernoso, onde para afetar originalidade, se mistura de tudo. As personagens ganham nomes para poderem enfim ser amadas.

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Era um outro tempo, uma época lendária. Um tempo que agasalhou com ternura a metafísica delegacia de polícia. Um tempo que patrocinou com amor um amontoado de situações tornadas únicas pela equipe Curva-de-rio. Um tempo desajustado, doce, patético.

Era um outro tempo. Para o melhor e para o pior, em peregrinação vinham os cornos, os fodidos, os roubados e furtados, os violentados, os briguentos, os caolhos, os aleijados, os loucos de toda a sorte. Os recebíamos, ali psicanalizando-os gratuitamente como sói bons policiais o sabem fazer.

Uma época lendária na qual se montou a equipe “curva-de-rio” com a seguinte escalação:

Rolando José de Freitas Filho, o escrivão inexistente. Divorciado, três filhos, alcóolatra, cristão convicto, teólogo amador.

José Guilherme Martins, o sórdido tira.

Gilberto Zoanon, o Giba, segundo tira. Tira postiço, funcionário municipal emprestado, ganso.

Félix Ramalho de Moura, delegado shakesperiano. Grande, gordo e atento. Sempre falando num português cheio de preciosismos, como um ornamento para sua figura falstaffiana incansável, bufante. Chutado para o plantão por conta de uns tantos processos administrativos. Lá patrocinou a vinda de outros tantos desajustados, problemáticos. A Curva-de-rio.

O Magnífico Escriba.

 

O sórdido investigador de polícia entrou pela porta da frente da delegacia, daquele jeito, naquele sempre, com aquela cara. Isso assim, seco, cara amarrada, assustando o povo sofrido sentado nos bancos de cimento naquele puta frio de junho.

 

O pano sobe lentamente. Surge uma delegacia de polícia típica: uma sala com bancos de espera feitos de cimento. Defronte, uma espécie de guichê que dá para uma sala menor, equipada com duas mesas, computadores, um armário. O guichê nada mais é que um buraco na parede com cerca de dois metros por um, onde as pessoas comunicam as ocorrências ao escrivão de plantão. A sala dos escrivães. Noite. O sórdido tira entra na sala com seu ar soturno de sempre, senta-se junto a uma mesa com gavetas, abre uma ou duas. Em outra mesa, o Magnífico Escrivão digita no teclado do computador um B.O. para um casal de meia idade, enquanto que ao mesmo tempo olha para o sórdido com um sorriso de mofa. O sórdido aparenta preocupação.

SÓRDIDO — O Félix falou alguma coisa?

MAGNÍFICO — Não, saiu pra um local de homicídio com o Rolando e o Giba. Disse pra você esperar.

SÓRDIDO — Não falou nada do meu atraso?

MAGNÍFICO — Não ouvi nada não. — fazendo um esgar cínico. — E nem perguntei também.

SÓRDIDO — erguendo-se e caminhando para a porta — Vou pegar o café na Cintra, quer alguma coisa?

MAGNÍFICO — Precisa não, vou lá depois…vai com Jesus, meu tira.

Uma idade de ouro.

Loira, uma jaqueta de couro velhíssima, uma calça jeans puída, botinha, óculos escuríssimos, camisa de seda preta e um colar. Ah, e o cabo de uma pistola aparecendo no coldre.

Entrou decidida na sala, sapecou um “oi, sou tira lá do Segundo”, sentou no sofá e completou com um retórico “posso sentar aqui, né?”, levantou-se sem esperar resposta e puxou uma cadeira de rodinhas até perto do Magnífico.

— Mas você… — o Magnífico jogou uma bituca na caixa de areia e errou. — é quem mesmo?

A loira acendeu um cigarro e começou a fumar, rindo e mirando a confusão estampada na face do Escriba Fundamental.

— Merula, o sobrenome eu não falo que você pode pensar que é xingamento. Chama o Rolando aí, eu sou a nova namorada daquele bêbado.

— Ah, já te falei né? — exalou fumaça entre risos, amistosa por trás das lentes escuras ainda no rosto. — Eu sou tira do Segundo.

O Escriba Essencial, preocupado. Digitou uma senha no computador, virou-se para o nicho da parede:

— O próximo. — A seguir voltando-se para a loira.

— Jura? Eu nem sabia que ele namorava mamíferos?

Entrou uma senhora chorosa acompanhada de uma adolescente. O Fantástico Escriba esperou, sorrindo, que se acomodassem, as mãos no teclado. A loira ria.

— Pois não? Podemos fazer o que pela senhora? — a mulher puxou um lenço amarrotado, passando pelos olhos. A adolescente com a atenção toda concentrada na loira.

— Foi o meu marido…ele chegou em casa… , — Lenço de novo.

— Sei, bateu na senhora? — O magnífico começou a digitar, enquanto voltava o rosto para a tira do Segundo.

— É, me bateu na cara, nos braços… — olhou para a adolescente, — fala pro moço!

— Pode falar o seu nome, acho que eu suporto.

— O meu nome? — A mulher perguntou.

— O seu também, pera um pouco. — Voltou-se novamente para a loira, o olhar interrogativo.

— Maria Antônia Duarte Sfakianikis. Maria em grego é Meri, daí Merula, Mariazinha. Me chama de Merula. E o Rolando?

— É Rolando só, sem apelido. — o Sempiterno falou, porém olhando com olhar interrogativo para a mulher.

— Você tá tentando ser engraçado? — Merula.

— Fátima de Cássia da Silva.

— Pois bem, Dona Fátima…é, funciona mais ou menos assim. A senhora quer as medidas protetivas contra o senhor seu esposo?

— Hein? — Dona Fátima.

— Ferrar o “cabra”, proibir de chegar perto da senhora, lei Maria da Penha, essas coisas. — Dona Fátima virou-se nervosa para a adolescente, uma das mãos na boca como se a unha roesse, depois novamente para o rosto estoico do Magnífico.

— Guenta aí, já converso com você, policinha Merula. — o Escriba Fundamental disparou para o rosto mais uma vez sorridente da loira, a seguir voltando-se para Dona Fátima.

— Não, processar não…eu só queria que vocês desse um susto nele.

— Sei. Olha, vai dar não. Os polícias que dão susto não vieram hoje, de modo que eu vou ficar devendo prá senhora. Lamento, mas se a senhora não quer ferrar seu digníssimo, nem medidas protetivas, nem nada, fica difícil…. — O Sempiterno escandiu, didático.

— Então tá bom, — a loira se levantou e deu um beijo bochechoso no Sempiterno, — fala pro Rô que eu trouxe o biquíni da filha dele e que eu apareço lá na república.

— Sim, Mariazinha. — E deu tempo ainda de ver uma perna saindo pela porta.

— Por mim ele vai preso, pra apanhar bastante. — arrulhou a filha da espancada.

OS DIÁLOGOS E OS ACONTECIMENTOS QUE SE DÃO EM UM BAR PESTILENCIAL

O Magnífico Escriba era dolorosamente consciente de seu estoque pessoal de misérias e medos, e muito cioso dele também.

Se não lhe apetecia merda, tampouco lhe agradava o que chamava de “o bundão básico”.

Covardia seria uma palavra, se o Magnífico não odiasse a palavra especialmente.

— …entendi,…broxa, barrigudo, com um câncer a caminho, mas é tudo teu, ninguém mexe. — Rolando apontou um cigarro torto.

O Fundamental Escriba olhou com doçura para Rolando, um meio-sorriso por entre a fumaça de outro cigarro.

— Só você é assim especial, né? Tão filosófico! Quer saber? Você não merece o meu apreço! Olha, fica assim, se te perguntam, a ti, a você com esse orgulho ridículo saindo pelas espáduas, coisa do demonho, aí se te perguntam assim, Magnífico, cê faz o que na vida? Não responde, eu respondo prá você: Magnífico, você faz tipo!

E conduziu o Magnífico para as trevas.

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3 comentários em “Apontamentos de uma viagem ao inferno

  1. Dentr’as várias pérolas que encontrei: …muita gente fedida se esbarrando… falta de sutileza intelectual que os gabaritasse à fruição da arte, da literatura e tudo o mais,… Os peitos se moveram vigorosamente… revolutearam, assíncronos, poderosos. O noivo.
    Gostei também de Merula e seus trajes.
    Abraço.

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