SÃO PAULO ATÉ QUE É LEGAL

Fisheye - São Paulo - by Kasxp - Deviantart

Fisheye – São Paulo – by Kasxp – Deviantart

 

Porque é cheia, está sempre cheia, transborda.

Olha ali, viu?, o nordestino insuspeitado, camuflado de parede marchetada estilosa, se esgueirando pela Oscar Freire. E ali, então?, a japonesa de cabelo vermelho casada com o chinês grandalhão e irmã da outra japonesa casada com a piauiense.

São Paulo. Tá vendo ali?, o futuro punk sendo gestado no barrigão da senhora bronzeada, bem ao lado do futuro neonazista, aconchegado e feliz na bolsa placentária da senhora descendente de capinadores de café do Paraná.

São Paulo. Viu?, a feira com seus pastéis e o boteco com suas cachaças. A Vernissage daquela moça lá, aquela, a artista performática. Bombando.

A anciã de origem russa, já bêbada às nove da manhã. A avó judia que mora sozinha e que não fala mais que umas poucas palavras em iídiche e se sente culpada.

O médico de bonecas, o médico dos tênis, o marido de aluguel, a puta de luxo pensando na prova de Direito Constitucional de amanhã, o cantor de churrascaria. A churrascaria.

São Paulo. Viu?, os carros, de todos os modelos e cores, enfileirados, neuróticos, buzinando irados.

Os pacientes, comportados, em banzo perpétuo, esperando sua vez de serem atendidos, inclusive a anciã de origem russa e a filha de uma parteira de Minas gerais chamada Gerusa. Podendo ser também Jerusa.

São Paulo. Viu?, pode ver? A executiva de multinacional caminhando segura, cenho fechado, com dois vibradores novos dentro da bolsa e toda uma Avenida Paulista a seu lado, bufando dióxido de carbono.

E o travesti  Micaela, nascido Rogério Dourado, acordando estremunhado no pequeno apartamento que divide com Keila, Sacha e Kissy.

E a Estação da Luz, idosa, britânica, vitoriana, sonhando com trens de outrora. Neste momento mesmo, ela sonha, a Estação, com o jovem casal em roupas endomingadas de 1915. Rodolfo e Eglantina. Ela falava de um encontro com amigas, no salão de chá da Mappin Stores.

São Paulo transborda e sua, copiosamente, paulistanamente. Demente.

E até que é legal.

 

São Paulo - by Takmaj - Deviantart

São Paulo – by Takmaj – Deviantart

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LÍNGUA

Babel 06 - by Duster - Deviantart

Babel 06 – by Duster – Deviantart

Vutei e non vutei. La viro é pessata em terrina. Personne, personne. Franku Sinataraperdu, c´e perdu la maman di meigo culo. Korina tavatai noigrandes. Arnaulto Daniello y Gario Coper conventi catrumano e carajo. Patres? Nokone sabu Katayama, Beto Short paravinta, Cleber Nto paravinta, Denilson Dias paravinta, aka to Samuralo Bok-bran. Tipesta, combé, tipesta. Tallo Coringo!

Kiepora Matu Malucu? Dadan sera tafagasta, putiora, shamat, tatak “Doris Canopus”, tambo “Lessing”. Wifa. Seter bin mo: Rogerio Two Havoken, percunicha bin tal fakin “Innisfree”, tatak Domno Beto Orleana Braganz. Domno Denilson, tak Desirodo, takoi i Fligo Coringo. Basos, basos, combei! Ludamm Coringo!

Veritam? Siculo pryokup cum sanha amrikain. Lak wikileaks toblerone nikau. Kitai, parakitai! Efendje nostro, Suunto Pietras sak testymonie, nostro Suunto Deo aka Brasilye, hy Braseal, Hamilcar ap Oengus ut cetera. Wikileoka baruum tak Iuliano Assangya. Nostromo tak Conrado, koro in tenebrae. Guimarano Rosae: nonada, suk vodomnarie vidio lak suk niet. Plango Diadorima, plango Nhorinhá. Vetusto. Baruel nietec!

Turumbamba! Tisna foro fama tua, combei! Vidio e lavoro, tak Suunto Benediktu dix ora e lavoro. Sakurai mek. Lak, lak e tuura. Fadlo Noelo si brom manu kai, si brom amicu, si brom combé. Sorodewa, Hapu kurishtma. Turumbamba, Caleber Grandosono. Koi!

Melaka biraka okë setumani. Arro a peloké gri, pon no ay to stomach. Hay du nino, naratsalaman i kourké. Nevusta ak biraku? Suomo paravinta? Tatak, tatak? Rokunrol keop didarra sumpatiam, nemus ak numas “the Shorts”, bak “Tervet Kadet”, bak “Olho seco”, bak “Quixeramobim”. Vach mat kai biraku.

E tenho dito.

Dans la peau d´un noir

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Negros, brancos. Não é uma questão bizantina.

Christine Cauquelin dirigiu Dans La Peau d´un Noir, documentário para o Canal PLus, a partir de um argumento fornecido pelo livro do americano John Howard Griffin, Black Like Me.

Em 1959, Griffin, um texano, se pintou de negro para contar como era a segregação.

No documentário francês, brilhantemente executado, foram selecionadas duas famílias francesas: os liberais Laurent e Stéphanie Richier e seu filho adolescente, Jonathan. Do outro a família formada pelo antilhano Romuald Berald, a camaronesa Ketty Sina e sua filha adolescente Audrey Verges.

A originalidade da idéia é o uso de maquilagem para transformar a família negra em branca e vice-versa.

E é chocante perceber como tudo o que foi necessário foi disfarçar a curvatura de narizes, cores dos olhos, a tonalidade da pele e os cabelos. Chocante como negros e brancos são intercambiáveis.

O melhor momento, no entanto, que vale por todo o filme, é quando todos são postos frente a um espelho. Um momento tenso, mágico, onde o agora loiro Romuald toca seu rosto e não se reconhece, assim como a agora ruiva Ketty. Lembro que pensei que Stéphanie ficou uma negra linda, assim como Jonathan deu um adolescente negro talvez mais bem apessoado que o garoto de cabelos vermelhos de antes. Laurent se transformou num negro de traços finos, nariz adunco, como um somaliano.

Pode ser encontrado no YouToba: http://migre.me/h8qUn.

Feliz natal.

Foder, comer, foder de novo, broxar, comer, amar.

Jesus Returns - Kleverton Monteiro

Jesus Returns – Kleverton Monteiro

Foder, comer, foder de novo, broxar, comer, amar. A vida é mais que isso e o mundo é um emaranhado de mistérios não revelados. Ainda. Sigam-me.

É uma bola a terra, redonda.

Uma bola de excremento, pensavam os egípcios, rolada por um escaravelho por toda a eternidade.

Ou uma placa redonda, sustentada por quatro elefantes apoiados no dorso de uma tartaruga descomunal, como sói pensavam os criativos chineses.

Enganados todos estavam em um ou outro detalhe, pois somente a mim foi dada a oportunidade de conferir as coisas de fora, com vista privilegiada, concessão que me fez o Altíssimo.

“Se eu puder falar com Deus”. Besteira, eu falo. Todo o tempo. Deus e eu somos assim, ó, muito chegados. Ele fala, eu escuto. Eu argumento, ele faz milagres. Eu subo o monte, ele providencia as nuvens.

Moisés, todos os que leram o Livro Santo sabem, também privou com o Todo-Poderoso. Feito eu, Moisés faz parte de uma confraria de poucos, de papeadores com o divino. Mas Moisés teve privilégios que não tenho, claro. Via Deus, não só falava com o Senhor das esferas. Teve mesmo a honra de ver ao traseiro de Javé, confiram lá no Êxodo 33:20-23.

 E, havendo eu tirado a minha mão, me verás pelas costas; mas a minha face não se verá.

E então, Deus. Ainda na infância sentia sua presença e depois de algum tempo, sua voz. Me dando conselhos, me soprando as respostas erradas nas provas de matemáticas, me moldando que Deus é dos que fazem isso: sempre mexendo no barro humano.

E então Deus, chapa meu, me fez este mimo, de mostrar o real, a Terra vista ao alto. Bondoso que sou, transmito a vós, povo de dura cerviz, o que aprendi em visão a mim proporcionada. Em high-definition, aliás. Então lá vai:

A Terra não é redonda, é plana, como todo mundo sempre suspeita mas tem vergonha de falar prá que não pensem que é uma anta. Esqueçam a conquista da Lua, foi tudo feito em estúdio. Aliás, com Stanley Kubrick dirigindo a coisa toda. Segredo que ele levou para o túmulo, ajudado, claro, pelas constantes ameaças que recebia do serviço secreto americano.

Não existem outros planetas e nem outras estrelas, Deus colocou aquelas luzinhas lá em cima para confundir a nós, néscios. Telescópios, astronomia? A irrelevância das irrelevâncias.

Evolução? Piada. Deus criou o mundo do nada e, só prá sacanear, criou os fósseis de dinossauros, australopitecos, neandertais e preguiças gigantes que nunca existiram[i]. Há mais ou menos uns seis mil anos[ii], para não ser exato.

Concepção? Nada de espermatozoides e óvulos, esta a vera verdade verdadeira e veraz. Deus, o Altíssimo, ouviram?, ele é que anima e dá forma ao gérmen da vida.

Agora, Inferno, Purgatório, Limbo, realidades são, como já nos tinham informado Dante Alighieri e Vergílio.

Que mais me disse Deus? Coisas. Deus me disse e me diz muitas coisas, além de excelente cantor, Deus, arrasando na interpretação de Bohemian Rhapsody. E fazendo todas as vozes. Deus é Queen, digo, cool.

Foder, comer, foder de novo, broxar, comer, amar. Bem, Deus foi taxativo. Pecados são. Tudo bem, perguntei a Deus a causa de sua preocupação excessiva com nossas fodelanças e nossa gula, coisas tão comezinhas em relação a sua grandeza.

“Nada escapa ao meu olhar”, disse-me Deus, o Voyeur das Alturas, pontuando tudo com uns trovões e raios. Calei-me, claro. Vou lá eu encher ao Saco Divino com tais questiúnculas?

Ah, Adão não tinha umbigo

E finalmente, todos foram e estão sendo enganados: o rádio não existe, mesmo o modelo digital novinho no seu carro. Tem um hominho lá dentro.


[i] Philip Henry Gosse, naturalista inglês, publicou em 1857 o seu  Omphalos, onde postula exatamente isto, a saber: Deus criou os animais já adultos, as árvores já crescidas (as sequoias, inclusive) e, mais importante, os fósseis e as camadas geológicas indicando datas de milhões de anos.

[ii] Como já tinha calculado James Ussher, bispo de Armagh.

ARCHIVO AVOADOR: MODO DE USAR

 
Dragon Writer - by 25kartinok - DEVIANTART

Dragon Writer – by 25kartinok – DEVIANTART

Para que serve o Archivo Avoador?

Basicamente, para nada. Tem a vantagem de ser fantasmal e não enche o saco, não perturba ninguém com uma materialidade, assim, importuna.

Mas serve. Prá alguma coisa. Para testes, serve para testes. Testes com gêneros textuais, para esticá-los, inverter sinais, usar o jargão de uns em outros, ver se é possível reinventar a roda.

Certa vez, quando Jesus ainda andava pelo mundo, abri uma edição da Paixão Segundo GH, de Clarice e lá estava ela, citada na orelha: “gênero não me pega mais”. Não vou discutir aqui se Clarice conseguiu ou não, talvez quase.

A coisa é que o mal-estar do gênero é preocupação de todos os que algum dia vão escrever, inclusive eu e você.

O romance tem saída? O conto? Alguma coisa virá em seu lugar? Existem gêneros menores? E a poesia? O que significa, hoje, deixar-se levianamente ler um poema? É quase obsceno. É obsceno. Antinatural a coisa toda, a palavra impressa, para ser lida.

Não é discussão nova. Guimarães Rosa testou os limites dos gêneros e já lá se vão décadas. Convido a uma leitura atenta de Cara-de-Bronze, conto do No Urubuquaquá No Pinhém. Na primeira edição Rosa apresentou o conto (é um conto?) como poema. Mas também, um tratado filosófico sobre o tempo e um relato mítico sobre a demanda da palavra e da criação poética, como escreveu Benedito Nunes, referência obrigatória para a obra de Rosa.

“Verdadeira síntese da concepção de mundo de Guimarães Rosa, onde certas possibilidades extremas de sua técnica de ficcionista se concretizam”. Nunes.

O conto: Segisberto Jéia, o Cara de Bronze, ordena a Grivo, seu vaqueiro, que saía pelo mundo e retorne trazendo os nomes das coisas.

Então, um campo de testes para gêneros o Archivo Avoador. Não precisa muito: o sujeito atrás do teclado com o nickname ridículo (já disse a uma blogueira que poderia ser também Flamenguista Voador ou Atleticano das Alturas, mas certas idiossincrasias devem ser respeitadas).  E o campo, também vasto, de trabalhos de outros tantos blogueiros ao alcance do olho.

É, tenho vos observado, vos lido assazmente, blogueiros outros, irmãs e irmãos meus.  Vi certos escritos, certos modus operandi, certos usos. Alguns mesmo, mesclando, esticando, torcendo os limites dos gêneros.  Opinei, vez por outra. Não opinei, quase sempre, quando não sentia o escrito, quando não o entendia. Vez por outra me pego invejando.

Quem é esse, que escreve? Ele é daqui? É da família do dono?

Estou escutando a sede de vocês. Irmãs e irmãos de pena eletrônica na mão.

Archivo Avoador.

Sei não do autor

Sei não do autor

AS CRÔNICAS DE VERÃO

Lago Nofuto - Kiyo

Lago Nofuto – Kiyo

 

BALAC, O MUTILADO.

A paisagem do lago Oeste é a mais bela do mundo.

De onde estou posso ouvir o chiado dos peixes sendo fritos mais adiante, na popa. Estranhamente, cheiro algum chega até mim, o que empresta à cena um matiz a mais de irrealidade.

Quem sabe? Alguém sabe? Talvez este seja o barco das fadas e este lago talvez seja o sonho cansado de um mercador. Digo-o a Alix e ela ri, entornando mais vinho em minha taça.

Bebi talvez demais. O barco roda e eu com ele.

A nossa volta, as árvores se enfileiram até o horizonte, debruçando-se a beira do lago algumas e outras com as raízes já submersas. Pássaros azuis e verdes e ocres, rapinantes dourados, quirópteros mostrando sua bela pelagem azul e ocre e mesmo oliva, todos a emitir um milhão de sons. O lago Oeste não cabe em si.

A água é prata nesta tarde de névoas e frio. Nosso barco cada vez mais longe da margem.

Dentro vagueamos a tarde toda nas águas calmas, onde no momento meus olhos e meus ouvidos estão pousados na placidez. Preguiçosamente me encosto e viro páginas. O códice sobre meus joelhos, sobre meu peito, finalmente sobre meu rosto.

Nosso barco mais uma vez se aproxima das margens, galhos por sobre nossas cabeças, meu camarote aberto, agora, dá para um jardim. Adormeço entre madressilvas e freixos.

Sadoc viera pela manhã, um enviado da Autoridade, cheio de presentes e vestindo a seda mais azul. Por detrás da neblina deixara seus criados ocupados em montar a tenda, tomando o pequeno bote até nosso barco.

Abracei-o e ele me abraçou, conscientes nós dois da tarde, do momento e de necessidades.

Balac é velho

Como a bétula é velha

Como a prata e seus terrores

E tão depressa chegara, veio também a estonteante maré de perguntas e as cartas e tudo tão rápido e estonteante que virei meus olhos para a porta e dali para o lago e suas árvores, refletidas na mansidão leitosa.

O lago Oeste respira suavemente

E sussurra

Ao abrigo das árvores em sua margem

A solidão verde em paz com a névoa

Esta tarde e suas resinas retidas no sonho da madeira

 

Alix sentou-se ao meu lado, “você deveria parar com isso”, disse rindo para ninguém em especial, o que significava que era para mim que reservara as ironias da tarde. “Poeta e lago certamente que formam quase uma unidade, mas é de poesia que falamos, pois não? Você exagera”.

“Perguntaremos a Sadoc”, eu disse.

“Perguntaremos ao juiz do distrito, aos remadores…”, e seu sorriso luminoso expandiu-se de tal modo que me enfureci pela milionésima vez por saber que ela jamais seria minha.

As tardes de sexta-feira, uma concubina, uma pedra

Todas podem ser vistas no fundo do lago,

A mulher traz uma galho de pinheiro oloroso

Entre as mãos postas

Ela era valente e digna

Todo um poema a aguarda em minha lembrança

 

As tardes passam devagar, flutuantes

E é vermelha a pedra.

Ambos ainda me olhavam com, não direi espanto, nem admiração, mas com surpresa, ao término da estrofe. Sadoc serviu-me de sua própria jarra de vinho, Alix adicionou porções de bolinhos salgados em meu prato.

“Linda a imagem da mulher, embora talvez um tanto mórbida, fora de lugar a parelha de concubina e pedra…”, Sadoc encostou a taça na de Alix e depois na minha.

“Mulheres mortas são inadequadas”, eu disse, “por isso providencio lagos e pinheiros”.

“Imagino a seda que ela veste”, Alix me sorria terna e serena.

Meu coração é companheiro da primeira lua

quando descemos até a água

ondas nos tornamos e isso nos conforta

ondas nos tornamos e tal nos parece conveniente

o lago gentil nos fornece roupagem e névoa

 

nossas esposas submersas tecem uma seda macia e azul

“Sabe por que vim até aqui Balac?”, o rosto jovem anuviou-se, torturado.

Não era fácil, eu supunha, um pouco do antigo poeta ainda sobrevivia no jovem aristocrata, ainda permanecia sob a capa risonha Sadoc, o Baladeiro. Muito do que eu gostava dele vinha dessas tensões, que lhe davam um brilho talvez que se apagasse um dia, mas que por enquanto ali permanecia.

“Alguma coisa importante imagino, ou não te mandariam de Armorion até aqui com todo este séquito aparatoso”.

Sadoc, mudo.

“Meus livros proibidos de circular, minha poesia considerada indigna, censurada pelo clero, por seu pai…alguma coisa assim, sem muita imaginação”.

Arrumei meu corpo magro no encosto acolchoado da cadeira, desconfortável ainda mesmo após todos os meses passados, com meus cotos de asas coçando e as costas todas encostadas, de modo inatural e obsceno.

Alix tomou da cítara e se acompanhou na recitação, sorrindo distante.

Comercio com fadas, agora

A moeda de suas asas me basta

Pela manhã, nunca mais Audiarda e o gelo nas montanhas

Nunca mais Briseis e os portos ventosos à tarde

Ainda assim, penso em Armorion

 

Sou somente uma mulher com cítara

Contando os anos e os amores perdidos

 

Eu continuei.

Sou somente um homem sem cítara

Não mais Audiarda, que dirá Briseis

Meu gosto por putas tem mudado

 

Não faço conta de meus anos

os amores estarão por aí, presentes

e nada poderei fazer

Ninguém é culpado pelo céu

 

Em outra hora conversarei com Deus

“Grosseirão!”, e riu.

“Agora, uma balada, leve-a em sua viagem de volta”, me dirigi amargo a Sadoc, “e você também minha Alix de amores perdidos, deve ouvi-la, improvisada como está, mas minha, não obstante”.

Os dois voltaram-me rostos constrangidos, lacrimosos. Ergui meu copo de bêbedo e comecei.

Visitem Armorion, Onde asas em debanda,

Levam ao céu lira e verve

flutuando em negra dança

 

 

Em cada rua um poeta, a cada puta o seu muro

Poeta, puta e monturo, em cada ruela incerta

Em cada buraco um músico, a cada soldado: caserna

A toda hora o seu canto, e brilhante a neve eterna

 

Visitem Armorion, onde todo dia é santo

Onde acalanto é poesia, a cada poeta o seu tanto

A cada padre uma aposta

e missas por ninharia

prelados fazem magia

Lá todos voam de costas

 

 

 

 

 

 

O CAMINHO PARA A BÉTULA

 

Sadoc se retirara para sua tenda.

E Alix veio a meu convite. Acho que falei. Ouçam.

 

“Devo lhe dizer uma coisa que tenho aqui, como direi?, entalada em minha garganta”. Alix sentou-se, não sem um sorriso de mofa, na almofada à minha frente. Ao fundo, mandara abrir a janela dando para as margens.

“Vai morar até o fim dos tempos neste barco? “. Tomou de uma fruta e cravou-lhe delicadas presas, o olhar curioso e maroto.

“ Sabe qual é a ironia maior daquele que procura ser o melhor no que faz? “. Disse como se não tivesse sido interrompido, “ não? Talvez? Não sabe? Bem, por isso a chamei para esta curta, ou assim espero…bem, curta e constrangedora entrevista.”

“Você descobriu que queria ser juiz…ou pretor, e agora não sabe como me dizer que toda sua poesia é uma merda?“.

Suas asas feminis espreguiçando-se roçaram o teto, lânguidas, seus seios se destacando contra a faixa de seda de busto, o rosto sorridente.

“Alguma coisa assim…trágica e patética assim “. Uma aragem gélida penetrou no camarote, me forçando a jogar uma manta sobre meus cotos sensíveis.

“O problema é que Balac é prisioneiro de Balac. Ele não caga mais, não trepa mais, só maravilha aos pacóvios. Todo o século se desmanchando, o Novo Estro, a Palavra de Ouro, os movimentos diversos, as modas de trovador que vêm e vão. Balac é o poeta do momento, cercado de outros tantos maravilhosos, cada um deles um gênio incontestável se saísse da órbita do decano. Mas não, nenhum deles, estes outros maravilhosos, me deixará.”

“O problema é que este Balac precisa que você saiba de algo: será rápido e o mais indolor que eu puder arranjar”.

Uma pequena lágrima começou a se formar em seu rosto e sua mão escorregou pela seda da almofada até a minha. Sua boca se abriu e eu tive certeza de que tentava impedir-me de falar.

“Não, nada assim tão simples“. Desvencilhei-me de sua mão e ri.

“Faremos o que for mais necessário e digno…e se sobrar energia, faremos do modo mais agradável esteticamente também”. Creio que agora eu ria, tristonho.

“Alix, eu já estive perdidamente apaixonado por você. Suspeito mesmo que ainda esteja e é só. Não falaremos mais disso, de modo a que me sobre alguma dignidade”. Alix agora chorava abertamente e em silêncio.

“É claro que você já sabia, ou pelo menos suspeitava, e é claro também que isso não modificaria em nada minha decisão de fazer-lhe tal comunicação. No mais, normalmente…é praxe em tais casos que um dos envolvidos se afaste, mas eu queria que você atentasse para o fato de que só acrescentaria uma nuança a mais ao ridículo. Gostaria que ficasse, portanto”.

“Balac, eu…sinto muito”. Novamente o gesto de me tocar a mão, desta vez interrompido a meio caminho. “Eu abriria o meu peito a faca, eu faria mesmo isso para não te magoar”.

“Perdão, já notou que ‘eu sinto muito’ e ‘meu peito a faca’ podem estar a caminho de se tornarem clichês mortais?”.

E levantei-me dali, arrastando-me para fora com o máximo de rapidez que podia, que se danasse a dignidade.

Eu caminhei no teu barco, ó deus

De popa a proa você não entendeu nada

As madeiras erradas, a decoração, o cômodo para seu coração

Cem mil milhas de espaço inaproveitado

Eu caminhei para nada

Eu caminhei para a névoa, solitária

E chorei pela ironia

Chorei por minha incapacidade

Chorei por meus filhos não nascidos

E eu tinha todo o espaço do mundo

Para me lamentar

 

Eu caminhei no barco do deus

com ele me entrevistei na sala púrpura

nada aconteceu…

Tudo isto é fábula,

meu diamante no meio da urze

Eu ainda aguardo o teu riso

Outra metade do meu poema

Palavra por mim esquecida.

 

ALIX DE BRISEIS

 

UM APÊNDICE

UMA TAVERNA

Também por Alix de Briseis

Balac. E Balac ainda tinha suas asas.

Era então Balac, o Risonho. E havia um Sadoc Sadoques também.

E um Issac, dito o Moço.

Eu servia então na taverna Ao copo e à Lida, (enquanto eles conversavam, eu me perdia em reminiscências e copos de vinho). Havia me despedido de Aram em Briseis e percebia em mim uma necessidade de me perder entre as gentes.

Era um tempo estranho. O ar era mais fino naqueles dias em Ardenca-Sobre-O-Mar.

À Terceira Hora de uma madrugada de Jaspe foram queimados um poeta e um camponês herético. Doze anos me separavam do meu Romance Azul e Carmim e me comprazer em parecer uma tola e encontrar agrado nisso não me parecia difícil.

Lembro com prazer as manhãs em que voltava das compras no mercado sobraçando ovos, chouriço e toucinho rançoso. Lembro de me levantar antes da aurora e me deitar somente em alta noite. Lembro de beliscões em meu traseiro. Lembro do taverneiro, que me ensinou que eu nada sabia sobre como ser estúpido é nada mais que o esperado, é nada mais que natural. Lembro de um bairro em que voar era a mesma coisa que pedir para vomitar e assim todos caminhavam. Lembro de um marítimo que estava engajado em um navio da família de Aram (e eu chorei).

Era uma época de incertezas. Mas, havia verdade.

Cada um tinha a sua é certo. Mas todos com a mesma e insana dose de certeza (a música cheirava à matemática nessa época e correta poesia saía da boca de prelados).

E havia Balac, Issac e Sadoc. Balac ainda tinha suas asas.

Balac, Issac e Sadoc, eu sabia com certo humor álacre, estavam conspirando com o século.

Não me dizia respeito, é claro (eu me afastara e eles respeitavam a minha escolha. Minha solidão).

E eu até mesmo ria à socapa, enquanto lhes servia mais vinho.

E que beberrões aqueles!

Uma constante nos textos da época é a reminiscência, o tempo melhor que já se foi ou então a espera. […] O poeta canta, e há ironia e medo no seu canto, a vida e a arte não são nada mais que reflexos. Consciente dos signos invertidos que utiliza, da linguagem cifrada especular com que tenta cinzelar a realidade e a decadência, a Lenta e digna decadência. Seria demais não lembrá-lo quando referimo-nos a estes tristes filhos da Escola de Armorion? […] …a assim chamada Série de Aram, uma cadeia de poemas e crônicas, escritas provavelmente entre ‘240 e ‘249, cobrindo temáticas as mais diversas, ligadas por um motivo comum: Aram. Provavelmente Aram de Tosques ou Aram da Ilha, advogado e político oriundo de uma das famílias mais antigas de Audiarda. Consta terem ambos, Alix e o citado, tido um relacionamento amoroso de juventude que terminou por imposições familiares. Muito embora Balac, em uma de suas Crônicas de Verão, tenha escrito que terminou porque simplesmente havia “Alix demais para Aram de menos”, o “que talvez tenha sido uma perda para a satisfação emocional e sexual da poeta, mas um grande ganho para a música de sua poesia”…

 

Conimbricensis, Jonas, in ASAS DOLORIDAS: UM ESTUDO SOBRE O MOVIMENTO DECADENTISTA, pg. 304, variorum, Armorion, Shaitani Livreiros, 12.597.

Orifícios, cálices, sulcos na madeira, buracos cheios de água

Abraxas -  by Lemmy X (Deviantart)

Abraxas – by Lemmy X (Deviantart)

Filosofia: “Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar”, “conhece-te a ti mesmo”, “penso, logo existo”, “Deus está morto”.

Os homens consertarão um dia o planeta, o tornarão mais palatável para um cavalheiro: esta é uma nobre esperança que deveria, deverá ser acalentada com fervor em todo coração sensível.

Não, não falo de reforma moral, tediosa para dizer o mínimo. Falo de retocar os rios, abrir bulevares, construir sólidas instituições destinadas às artes figurativas, nomear e dominar às bestas.

Falo de subir aos céus e mecanizar o trabalho de rolar a rocha de Sísifo.

Falo de fruir de nossa herança. Medindo e dando valor. Desmistificando a topografia do vazio.

Não será mesmo impossível que nestes tempos de maravilha o homem atinja mesmo um estado, um comportamento  pautado pela superioridade ao meramente moral?

E que terrível será o homem e a época!, potente eliminador da fétida influência que coloca fé, esperança e caridade, a persecução do bem, enfim, como ideais a serem alcançados.

Estaremos plenos de outros significados fundamentais, diante de nossos narizes e abaixo de nossos pés.

Faremos a apologia do Mal (mas lhe daremos nome mais suave), dos propagadores de incêndios, do descomedimento, dos esquecedores que mergulham sempre nos mesmos rios e nunca ouviram ao tempo de cada ser. Nunca pensaremos (Não queremos pensar).

Obliterar as estrelas. Nosso coração será máquina e com ele eliminaremos a vergonha. Teremos técnica, sexo e posse. Amaremos o belo sem moderação, filosofaremos com timidez.

O homem superior será o homem bem-educado, o estádio superior será reconhecido pelas boas maneiras, o tipo ideal receberá loas dos medíocres de plantão.

Nem intuição, nem memória, mas enumeração.

O tempo não será mais governo de crianças, mas um insumo.

Evidente que seremos brancos e bons.

SOBRE A ATUAÇÃO DO DIABO NO SEU CANGOTE

Devil - by DD Doll - DeviantArt

Devil – by DD Doll – DeviantArt

A você que está lendo: queria te alarmar não, mas, o capeta, o demônio, o chifrudo, tá bem atrás de você.

Verdade. Você mesmo já deve ter notado o bafo aspérrimo e sulfuroso no teu desprevenido cangote. Pessoa boa eu sei que você é, claro, nem precisa protestar por sua conduta ilibada. Ela é ilibada e você, nem se fala, tem honestidade e pureza d´alma saindo pelo ladrão.

Entretanto, mesmo aos bons como você se achega o Coisa-Ruim, o Dianho, o Pedro Botelho. Sim, é provação. Você está sendo provado, medido, pesado e aí é que entra o Pé-Preto, feito assim um látego (látego…huuummm…); perdão, de novo. Feito um látego autoconsciente e chifrudo.

Negócio é que o Demo, quando se rebelou lá no muito atrás, em épocas biguebanguianas, não se tornou o adversário, o duplo negativo de Deus, como insistem alguns em proclamar de providenciais púlpitos.

Não, o Besta-Fera tá mais assim prum, digamos, serviçal, um factotum do Altíssimo. Problemas na periferia? Chama o Capiroto. Dificuldades financeiras, tribulações diversas, inundações, deslizamentos de terra, terremotos? Obra do Tinhoso! O mesmo, o próprio, que está atrás de você neste minutinho mesmo. Agora.

Belzebú, Asmodeus, Belial, Lúcifer, quem se importa com o nome do momento utilizado pelo Que-Diga? Alguém já viu a cédula de identidade original, além do Todo-Poderoso? Ninguém, níquites, como dizia o Wuspe lá ao Riobaldo.

E aí você, naturalmente preocupado, se vira repetidas vezes, um verdadeiro pião. Adianta não, que o Casco-Fendido é tinhoso e piona sincronizado com você.

E aí você, ainda lendo e com o Roncador babujando de leve no teu cangote, meio que se desespera e pergunta angustiado sobre o que fazer, como se livrar do Canhoteiro.

Pois bem, pergunte a mim. Como se livrar do Bramoso, atrás de você?

Bem, tenho a mínima ideia.

Talvez por ser eu um ateu cheio de perversidade. Um descrente.

Mas que ele está atrászinho de você, ele está. Agora. De você, que está me lendo.

A DEMANDA DA DAMA CHOROSA A DOM JÁQUERSON, O PEREBA

Interview With The Dragon - Deviantart - By Scarlet dragonchild

Interview With The Dragon – Deviantart – By Scarlet dragonchild

Uma calça colante e uma camiseta cheia de brilhos. Muita e mal aplicada maquiagem também e ela sentou-se na cadeira, enquanto ele continuava a consultar um caderno de apontamentos. Ela esperou, observando o entra e sai contínuo de pessoas que deixavam envelopes ou capangas na mesa. Um ou outro o consultava por vezes em voz sempre baixa.

Finalmente ele voltou os olhos para ela, pensativo, mexendo casualmente numas trouxinhas plásticas de maconha que enchiam sua mesa.

“Bem, creio ser tempo de vos perguntar o que quereis aqui, boa senhora?”. E, com ênfase, “Senhora?”.

“Perolayne Jhenifer, bondoso Jáquerson Romão”. Ansiosa, torcia os cabelos pintados de amarelo-gema-de-ovo.

“Chamai Pereba, como todos, senhora Perolayne”, e aguardou.

“Bem, não fosse por questão premente, delicada mesmo, não vos perturbaria em vosso local de trabalho, atento Pereba”, e sorriu fracamente, “mas necessito dos serviços que somente vós podeis me obsequiar a contento. Vede, preciso encontrar a Juvenilson, outrora esposo meu”.

“Mas… surpreendo-me assazmente, permiti que vos diga”. A face retorceu, algo dolorosa.

“Vede, não privo com Juvenilson há meses e sinceramente desconheço seu paradeiro”.

“Bem o sei, valoroso Pereba, mas Juvenilson já labutou sob vossas ordens, aqui, em vossa operosa biqueira, donde sabem todos que são comerciados aos melhores entorpecentes”.

“Fato”, ponderou risonho, Pereba, iniciando um périplo meditativo pela sala. “Juvenilson, a quem muito estimo, aqui trabalhou na venda de entorpecentes diversos, bem como, por dá cá aquela palha, na nobre função de matador oficial”.

“Mas, permiti-me um pequeno reproche, senhora Perolayne, recordo que vós não tínheis em grande conta as altas funções que aqui desempenhava Juvenilson”. E severo, postou-se a frente da mulher, mãos às costas.

“Verdade e penitencio-me por tal juízo apressado de minha parte. Ocorre que anelava por mais alta profissão para meu consorte, talvez no ramo do roubo de automóveis ou até quem sabe se estabelecendo como autônomo no ramo do assassinato profissional”. Torceu as mãos, chorosa, “peço-lhe que releve, são anelos de mulher, de esposa que apenas quer o melhor para seu eleito”.

“Naturalmente, naturalmente, esqueçamos coisas pretéritas e nos concentremos no que agora requestais. Dizei-me, se desaparecido está Juvenilson, não seria mais sábio pedir socorro à polícia”, e disse “polícia” como um satanista diria “Jesus”.

“Certamente que a ideia me ocorreu, expedito Pereba. Entretanto, bem sabeis que Juvenilson não era, não é e nunca será amado pelos severos policiais. Temi que em requestando que o achassem, poderia estar contribuindo para comprometer a integridade física do homem amado”.

Entrou um jovem magérrimo na sala e, mudo, aguardou a atenção de Pereba.

“Dize o quereis, Aguinaldo ”. Tranquilamente, voltou a sentar-se Pereba.

“Agradeço-vos a atenção, arguto chefe meu”. Aproximou-se da mesa onde Pereba, imperial, o observava atentamente.

“Bem sabeis”, disse Aguinaldo, “que na qualidade de ‘recolhe’ de vossa operosa biqueira, é minha função trazer-vos o apurado em todos os nossos pontos de comércio”.

“Pois bem, aproximava-me do ponto de vendas de entorpecentes situado na Viela do Careca, no Jardim Trancoso, quando notei desusado movimento, em tudo destoante do normal”.

“Dize com brevidade o que vistes!”, cortou Pereba.

“Ouço e obedeço. Ora, estava o local tomado por policiais militares em azáfama. Em apertada síntese: nosso ‘vapor’ Dêivide e seus dois ‘olheiros’ foram presos, sendo-lhes tomado a maconha, lança-perfume e cocainóides diversos que ali comerciavam”. Arfou, expectante, Aguinaldo e aguardou.

Pereba levou uma mão ao queixo e meditou por minutos.

“Bem, são os azares de nosso comércio. Ademais, Dêivide era funcionário novel e algo descuidado. Fazei como vos digo: aciona a Marreta para que cuide de contabilizar nossas perdas, bem como para que faça comunicação imediata a nossos superiores”.

“Acionaremos causídico para que patrocine a Dêivide e seus rapazes?”, Aguinaldo trocou de pernas.

“Não, o concurso de advogado não acudiria a ninguém em tal situação. E, sinceramente, não é o caso de eventual suborno, pois que pequenas as perdas. Entretanto, ad cautelam, ordena a Moura que acompanhe o caso através de seus contatos no meio policial”. Aguinaldo saindo, voltou-se, não de todo agastado, sorrindo até, para a mulher.

“Vosso perdão, pela interrupção, mas os negócios…”, e ergueu os ombros. “Voltemos a Juvenilson, senhora Perolayne.

“Não vos desculpeis, extremoso Pereba. Sei de vossas altas responsabilidades”.

“Vos agradeço. Agora, Juvenilson…peço que pondereis…”, tomou de uma bagana de maconha e a acendeu, mirando o teto de zinco. “Posso apenas prometer que colocarei meus melhores e mais vivazes em seu encalço. Dê-me uma semana, até lá terei, de uma forma ou outra, atendido a vossa demanda”. Cavalheiresco, ofereceu a bagana à mulher.

“Não, obrigado, não me apetecem os canabinóides, cortez Pereba”. E tomando-lhe uma mão e a levando ao seio, “e tudo o que fizerdes, sei que o farás com denodo e lisura”. E sorriu. Também Pereba sorriu, a mão ainda envolvida na maciez do seio.

Foi-se Perolayne.

Pereba tomou de um vistoso celular.

“Alveston? Pereba. Vinde a meu tugúrio, tenho uma missão para ti”.

Tragando sua bagana, plácido, Jáquerson, o Pereba ponderou sobre quais seriam os motivos de Perolayne para encontrar o desaparecido Juvenilson.

“Formosos seios…”, divagou sonolento.

“para não falar dos glúteos”.

E manteve latejante ereção por todo o resto da tarde.