Foder, comer, foder de novo, broxar, comer, amar.

Jesus Returns - Kleverton Monteiro

Jesus Returns – Kleverton Monteiro

Foder, comer, foder de novo, broxar, comer, amar. A vida é mais que isso e o mundo é um emaranhado de mistérios não revelados. Ainda. Sigam-me.

É uma bola a terra, redonda.

Uma bola de excremento, pensavam os egípcios, rolada por um escaravelho por toda a eternidade.

Ou uma placa redonda, sustentada por quatro elefantes apoiados no dorso de uma tartaruga descomunal, como sói pensavam os criativos chineses.

Enganados todos estavam em um ou outro detalhe, pois somente a mim foi dada a oportunidade de conferir as coisas de fora, com vista privilegiada, concessão que me fez o Altíssimo.

“Se eu puder falar com Deus”. Besteira, eu falo. Todo o tempo. Deus e eu somos assim, ó, muito chegados. Ele fala, eu escuto. Eu argumento, ele faz milagres. Eu subo o monte, ele providencia as nuvens.

Moisés, todos os que leram o Livro Santo sabem, também privou com o Todo-Poderoso. Feito eu, Moisés faz parte de uma confraria de poucos, de papeadores com o divino. Mas Moisés teve privilégios que não tenho, claro. Via Deus, não só falava com o Senhor das esferas. Teve mesmo a honra de ver ao traseiro de Javé, confiram lá no Êxodo 33:20-23.

 E, havendo eu tirado a minha mão, me verás pelas costas; mas a minha face não se verá.

E então, Deus. Ainda na infância sentia sua presença e depois de algum tempo, sua voz. Me dando conselhos, me soprando as respostas erradas nas provas de matemáticas, me moldando que Deus é dos que fazem isso: sempre mexendo no barro humano.

E então Deus, chapa meu, me fez este mimo, de mostrar o real, a Terra vista ao alto. Bondoso que sou, transmito a vós, povo de dura cerviz, o que aprendi em visão a mim proporcionada. Em high-definition, aliás. Então lá vai:

A Terra não é redonda, é plana, como todo mundo sempre suspeita mas tem vergonha de falar prá que não pensem que é uma anta. Esqueçam a conquista da Lua, foi tudo feito em estúdio. Aliás, com Stanley Kubrick dirigindo a coisa toda. Segredo que ele levou para o túmulo, ajudado, claro, pelas constantes ameaças que recebia do serviço secreto americano.

Não existem outros planetas e nem outras estrelas, Deus colocou aquelas luzinhas lá em cima para confundir a nós, néscios. Telescópios, astronomia? A irrelevância das irrelevâncias.

Evolução? Piada. Deus criou o mundo do nada e, só prá sacanear, criou os fósseis de dinossauros, australopitecos, neandertais e preguiças gigantes que nunca existiram[i]. Há mais ou menos uns seis mil anos[ii], para não ser exato.

Concepção? Nada de espermatozoides e óvulos, esta a vera verdade verdadeira e veraz. Deus, o Altíssimo, ouviram?, ele é que anima e dá forma ao gérmen da vida.

Agora, Inferno, Purgatório, Limbo, realidades são, como já nos tinham informado Dante Alighieri e Vergílio.

Que mais me disse Deus? Coisas. Deus me disse e me diz muitas coisas, além de excelente cantor, Deus, arrasando na interpretação de Bohemian Rhapsody. E fazendo todas as vozes. Deus é Queen, digo, cool.

Foder, comer, foder de novo, broxar, comer, amar. Bem, Deus foi taxativo. Pecados são. Tudo bem, perguntei a Deus a causa de sua preocupação excessiva com nossas fodelanças e nossa gula, coisas tão comezinhas em relação a sua grandeza.

“Nada escapa ao meu olhar”, disse-me Deus, o Voyeur das Alturas, pontuando tudo com uns trovões e raios. Calei-me, claro. Vou lá eu encher ao Saco Divino com tais questiúnculas?

Ah, Adão não tinha umbigo

E finalmente, todos foram e estão sendo enganados: o rádio não existe, mesmo o modelo digital novinho no seu carro. Tem um hominho lá dentro.


[i] Philip Henry Gosse, naturalista inglês, publicou em 1857 o seu  Omphalos, onde postula exatamente isto, a saber: Deus criou os animais já adultos, as árvores já crescidas (as sequoias, inclusive) e, mais importante, os fósseis e as camadas geológicas indicando datas de milhões de anos.

[ii] Como já tinha calculado James Ussher, bispo de Armagh.

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