COUR D´AMOUR

 

Intra, filii, in cubiculum et visita sponsam tuam. O jovem cavaleiro obedeceu.

A noite passou, e chegava a clara alba. De mãos juntas, os dois em sua nudez casta e branca. Graças à compaixão dos sentinelas, não foram incomodados até o primeiro toque de prontidão.

O cavaleiro vestiu-se, ajaezou-se  e saiu. Brancaflor, sozinha e triste, cantou para a aurora.

Id est, in oculis eorum,

ut diligatis invicem

et amandi

sine qua nullum est tempus,

nihil quicquam absente

ut nihil desit

No pátio ainda vazio, ajoelhado e contrito, rezava, quando o fanfarrão Panurgo veio e deitou um manto sobre os ombros jovens.

“Comeu a moça?”

 

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O demônio e a mulher imortal se encontraram na terça-feira

The Bar - by Boo the hamster - DEVIANTART

The Bar – by Boo the hamster – DEVIANTART

O demônio e a mulher Imortal se encontraram na terça-feira e foram tomar uma cerveja no Bar do Cao.

Conhece? O Cao? Sujeito fino, às direitas. Filósofo de formação, com um mestrado em Estudos da Linguagem, o Cao.

Foi há cinco anos, mais ou menos, que deu aquela doideira hoje famosa, entre um “Noam Chomsky” e uma “cesura Freudiana”, e o Cao largou tudo, mimoseando a classe com um monte de “vãopráputaqueospariu”, e saindo para a vida (como descreveu depois a cena).

O demônio e a Imortal não sabiam do histórico do modesto comerciante que os servia, modos que continuaram ali, na sua, botando a conversa em dia.

“Sabe do que eu tenho mais saudade? Cê não vai acreditar, mas é do cheiro dos mamutes. Hoje de manhã mesmo, sonhei com eles pela primeira vez em…gente…uns duzentos anos, pelo menos”. O Demônio fez um sinal para o Cao e pediu uma porção de mandioca frita e mais uma cerveja.

“Vai entender…”. E sorriu quando o Cao confirmou o pedido. “Sabe que eu tenho saudades também, dos mamutes?”.

O bar pestilencial do Cao.

Na mesa ao lado o Cao atendeu ao casal e ao sujeito de meia-idade com cara de quem acabara de acordar.

“Só cerveja, mesmo”. Rolando, o policial inexistente segurou as mãos de Merula, a policinha, entre as suas.

“Nunca entendi porque desses adiamentos teus, vai rolar cachaça mais cedo ou mais tarde”. O Magnífico Policial e Escriba cheirou o copo e o uísque vagabundo dentro do copo. Tomou mais uma dose, mas depois sorriu como um bonzo.

“Liga não, Rô. Eu confio em você”. Merula beijou os lábios bêbados.

“Amo essa mulher. Amo…entendeu?”. Rolando se virou para o Magnífico. Beijou Merula e pediu mais uma.

O Cao também já amara, fora um homem de bem e casado e entendia os transportes de Rolando com Merula. Entendia também o Magnífico Policial Fundamental. Um escravo fundamental, a quem prescrevia diariamente que mandasse o mundo à merda e largasse tudo. Não era e nunca seria atendido, suspeitava.

Os meninos da banda Capitão Temor voltaram do beco e se aboletaram entre copos e pratos sujos, rescendendo levemente a maconha.

“Bem, como eu dizia antes de um corno me interromper, vocês estavam na dita cuja da fila e foram lá encarar o delegado…é, existem coisas piores para serem encaradas, portanto, foi um delegado mesmo que vocês foram encarar e só uma vez – na verdade duas vezes, mas assim caminha a humanidade, bem … já me perdi, onde foi que eu parei mesmo?”. Rolando descansou o rosto ébrio entre as palmas das mãos.

“Eu sei que cê sabe a minha idade exata, vai, fala prá mim, vai”, a Imortal falou, súplice.

“Tem coisas que me estão vedadas…revelar tua idade, por exemplo. Aliás, calcula você mesmo”.  O demônio, entediado, consultava ao celular.

“Calcular como? Eu era uma analfa vivendo numa tribozinha de merda em…sei lá em que porra de lugar. Europa? Calcular, como? Vinte, trinta mil?”. A Imortal tinha uma pele viçosa e marrom-avermelhada que contrastava vivamente com seus cabelos loiros, cheios de cachos. O demônio era bonito.

O Cao tinha muitos amigos, mas confidências mesmo somente as fazia a Selma Plá e ao Marcos Visconti, que aliás, era unha e carne com a Selma. E irmão do Rodrigo, ex-marido da Cléia Tominaga e atual maior inimigo da Selma. Cheio de manias o Cao.

“Ele vai de cachaça, mesmo?”, o Cao, preocupado, interrogava Merula.

“É, fazer o que? Parece que eu só atraio porralouca”. Merula.

“Eu não sou porralouca…”, o Magnífico Policial do Bem levantou o indicador, professoral.

“Você não me atrai!”, Merula disse, expelindo um jato de fumaça na cara do Magnífico.

“Lembra dele, o Mosche?”, a Imortal.

O demônio, consultou suas cutículas. “Uma vez perguntei a Mosché ben Maimon se podia sentir o Messias chegando…”.

“E ele?”. Disse a Imortal, distraída, depois passar em vista os ocupantes de outras mesas, se detendo por breves segundos no Magnífico Combatente do Crime.

“Às vezes — Mosché me disse — consigo ouvir os seus passos…e talvez uma vez ou outra, sua respiração”. O demônio, de nome, aliás, Nibiru, riu levemente. “Acho que é próprio do homem ter esperanças”. A Imortal teve diversos nomes em sua longa vida, mas basicamente era uma “Miriam”.

“Ele tinha dessas tiradas…meio poéticas”, disse Miriam ou Mariam ou Meriam, a Imortal.

“Falando em judeu, sabe que tem um Tzadik aqui em São Paulo? Sabe, dos Tzadikim mesmo? Nem acreditei quando me toquei, bem ali, na Oscar Freire”. A Imortal.

“Nãâão…dos trinta e seis? Só não diga que é mendigo, também”. Nibiru sorriu.

“Sei o que ele é não, mas não é mendigo, não. Também, só faltava…coisa mais clichê um Tzadik mendigo!”, disse a Imortal.

“É…vale uma visita. Faz muito, muito tempo que eu saí do ramo das tentações, mas sabe como é, a gente nunca perde o jeito. Um dos Tzadikim, um dos pilares, caralho! Quem diria?”. Nibiru sinalizou para uma das ajudantes do Cao.

O Cao não ouvira o diálogo, é claro, educado e correto como era. Mas o fato é que o Cao conhecia ao Tzadik, embora não soubesse que o Tzadik era um Tzadik dos trinta e seis Tzadikim. Tudo bem, que o próprio Tzadik não sabia também que era um deles.

Marcos Visconti, com Selma a tiracolo, chegou e se juntou aos rapazes da Capitão Temor.

“Cao, manda um branco gelado”, gritou Selma e olhou interrogativa para o Marcos, que completou, “Kriptonita. E capricha na menta, Cao”.

“Que porra que é Kriptonita?”, Rolando, para Merula.

“Trata-se de um meteoroide, vindo do planeta Kripton. Faz um puta de um estrago se você atender por Kal-El”. O Magnífico, com sua cara de enfado número dois, esvaziando o terceiro copo de uísque. Merula gargalhou gostosamente.

“Impossível…”, baliu Rolando, “o sujeito não bebe, porra. Foi educado numa rígida tradição presbiteriana, lá com a família Kent”.

“Posso ter confundido as cachaças…”, concedeu o Sempiterno Policial do Bem.

Teco Dantas, guitarrista do Capitão Temor, conversava animadamente com Selma e Marcos.

“Lembrou agora, Cailean…escocês, grandão. O cara lá que fez a entrevista com o Innisfree, lembra?”. Marcos Visconti coçou um ombro, indeciso.

“Qual, o da revista?”. Perguntou. “Isso, ele mesmo. Lá no Surrey, a gente se encontrava”.

“Pois bem…”, Teco deixou a expectativa crescer , “conversei com ele sobre o filme da Selma, essas coisas, daí ele me mandou e-mail confirmando…”

“Ah, não brinca?!”, Marcos chegou a se levantar, de tão ansioso.

“Serião, tá confirmado. O Roy topou participar, tocando os instrumentos malucos e tudo. Cara, eu não acreditei!”. E um grande sorriso se espalhou pelo rosto sardento de Teco.

“Peraí, Roy, que Roy?”, Selma perguntou, perdida.

“Como, que Roy? Roy “Skip” Rao. Anathroy Venugpala Rao, o baterista do Innisfree em pessoa! O cara dos mil instrumentos”, Marcos, espantado, para Selma.

“Innisfree?”.

“Never Fight An Inanimate Object…”, cantarolou Teco, esperançoso.

“Deixa prá lá, tá bom. Tudo o que eu quero é que saia do jeito que a gente pensou”.

Vai sair do jeito que a gente pensou!”, Marcos bebericou um líquido verde azulado.

“Teu / Desnecessário sorriso, teu / Debochado sinal, teu / Senhorita do dia, teu / Senhoria lunar e teu / Teu aceno discreto, teu / Teu aceno discreto, teu…”, cantarolou Teco, acentuando cada “Teu” com uma batida de baqueta na mesa.

“Ainda não decidi se essa aí vai entrar”, preveniu Selma.

“Ei, a trilha é minha!”, protestou, choroso, Marcos Visconti.

“É, mas a diretora tirânica sou eu, o filme é meu e a produção é do Geofroy, que é meu filhinho e não teu, querido”, cortou Selma, impiedosa.

O Cao passou pelo caixa e sinalizou para Lucinha e Gleise e saiu para a noite quente.

Lá fora, o ar quase parado, fumou seu quinto cigarro do dia, dos dez que estabelecera como teto máximo. Tragou, riu e se abraçou em bem-aventurança. Tragou, riu e voltou-se para as mesas, mirando com ternura o demônio e a Imortal, os policiais, os músicos, as meninas rindo, atrás do balcão.

Conhece o Cao? Sujeito fino, às direitas. Filósofo de formação, com um mestrado em Estudos da Linguagem.

O Cao.

Uma História de Amor

When Love and Hate Collide - by hurricanekerrie - DEVIANTART

When Love and Hate Collide – by hurricanekerrie – DEVIANTART

O blog feminista de Selma Plá, durante muitos anos, foi hospedado na versão eletrônica da revista Tempo, editada pelo sempre combativo e combatido Nuno Enkil. Vale a pena dar uma conferida em seus artigos, nunca comuns, nunca banais. Refiro-me a Nuno e não a Selma.

Selma, conheci numa mesa de bar, apresentada por Rocco e Rowena, o casal maravilha. “Você vai amar a Selma”, disse-me Rowena, “não tem cabeça mais privilegiada, é engraçada, é dinâmica e olha, leva a sério, leva mesmo, as suas lutas”. Não me decepcionei, era tudo isso e mais.

Em nosso primeiro encontro discutimos. Selma me desancou sem pudores e sem pudores disse o que pensava de mim, que eu era um machista posando de “homem compreensivo” e pior, desonesto, intelectualmente falando. Não, desonesto intelectual e intelectual desonesto, na hipótese generosa de ser minha pessoa apta a ser considerada um intelectual, do que não tinha certeza. Não, mentia, tinha certeza sim, eu era uma pequena fraude. Aliás, já te conhecia de fama, de conversas com outras pessoas, mas principalmente do que me contou a tua ex, que eu até demorei a levar em conta, a acreditar, mas que agora te conhecendo, tudo  se confirma.

Nos encontramos outras vezes eu e Selma e, inicialmente, nossos conhecidos até apreciavam os nossos embates, depois se encheram, pasmos com a virulência. Dela, esclareço, pois eu não conseguia, simplesmente não conseguia responder a Selma, esmagado pela força de sua personalidade. Ela era ativa, incisiva, impiedosa e certeira. Não mirava no coração, mas nas entranhas.

No lançamento de seu terceiro livro, inicialmente recusou-me dedicatória mas, instada por amigos comuns, acabou por garatujar mais um insulto: “Para te dar outro afazer, além de ser condescendente com as mulheres. Na esperança, claro, de que você leia (é prá isso que serve a esperança, afinal). Sem carinho e sem afeto, Selma”.

Depois aconteceu o lançamento de sua própria revista, Feminices, Femina ou qualquer coisa assim. Intensamente acessada, intensamente discutida. Fez história.

E depois o filme, Sorriso Discreto que Terminou com um Aceno Amistoso, produzido pelo seu filho, o Geofroy. Elogiadíssmo, premiadíssimo e o que muito me impressionou, caiu no gosto do público. Um enredo original, com duas histórias correndo em paralelas contrárias. Uma do fim para o começo, narrado em primeira pessoa por uma louca. A segunda, linear, narrada pela mesma mulher, só que aparentemente dotada de sanidade mental. Os fatos focados eram diferentes em cada história, embora se tratasse da mesma pessoa. “É coisa pensada para dar nó na cabeça de despreparado”, me comentou certa vez a Rowena, já separada de Rocco.

Escrevi uma resenha elogiosa, focada sobretudo na trilha sonora composta por Marcos Visconti e a banda Capitão Temor. Selma me cobriu de impropérios quando de um encontro casual na exposição de Lúcia Tominaga. Tive o rosto arranhado, tal sua fúria. Permaneci calado. Minto, cheguei a ensaiar um tímido pedido de desculpas.

Em 2033, ou 34 não tenho bem certeza, ela morreu. Dois anos depois a segui. Estranhamente, saímos do Umbral na mesma época, mais de duas décadas depois, socorridos pela mesma equipe. Tivemos os mesmos falhanços e nos revezávamos nas costumeiras entrevistas com nossos conselheiros, até que por fim Selma teve permissão para voltar à carne, como se dizia por lá.

Sua encarnação como Patricia Anne Tsung não foi pior ou melhor do que a maioria espera ou recebe. Cresceu em família de classe média, formou-se e se tornou pesquisadora de certo renome na área de física de materiais. Casou, descasou, converteu-se ao catolicismo quando por volta dos quarenta e pariu tranquilamente seus dois filhos, dos quais eu fui o último. Não foi pior ou melhor do que a maioria das mães, acredito. Alegrou-se mesmo quando  me tornei padre, não fez drama quando troquei uma carreira brilhante de teólogo pelo casamento com Maurício, aliás, Rowena. Adotamos a pequena Mbeke, aliás, Rocco, e mamãe alegremente consentiu em ser chamada de vovó.

A enterrei em 2138 e voltei mais tarde ao cemitério, subornei dois funcionários e mijei intensa e prazerosamente sobre sua cova.

SATÃ: CAVALHEIRO E POLÍMATA

Sem Título - Braga (2012)

Sem Título – Braga (2012)

Satã é culto, muito culto. É a primeira coisa a se saber sobre Satã. Filosofia, culinária, mecânica de autos, a biografia de Atahualpa, é só perguntar e pá, tá lá Satã arrasando no Quiz. Um portento.

É também elegante, embora nada vaidoso. Não, você não encontrará Satã vestindo um terninho Armani qualquer. Ele é elegante, mas adepto de moda mais conservadora, para cavalheiros. O que não significa que você vai flagar Satã enrolado em casimiras o tempo todo, pois que a moda de Satã é também atenta ao clima. Espere sedas de Satã, mas nunca o mau gosto.

Satã nasceu de parto normal. Narro.

Estava lá o Todo-Poderoso no começo (embora não se possa falar em começos propriamente ditos. O tempo sequer ainda fora criado). Bem, o Todo-Poderoso, no começo, muito sozinho, quando de si criou, de si deu forma, de si plasmou a Satã. Anos depois, para o arreliar, Lúcifer dizia que Satã fora criado da consciência de Deus, o que explicava muita coisa.

Mas alterego ou não do Senhor, importa é que Satã, criado, inventou de certo dia dar um passeio mais prolongado pela Cidade de Deus. Visitou lugares, abriu portas, espiou por entre biombos e finalmente acabou no vestíbulo da câmara divina, passou pelo coro celestial cantando em êxtase as glórias do Criador e decidiu dar um “oi”. Não sabemos o que viu na câmara privada do Senhor, mas sabemos que sua expulsão e queda se deram pouco tempo depois.

Simpático também Satã, em tudo destoante de sua imagem nossa mais conhecida. Capaz de bom papo, é conversador sedutor e atento. Ah, os mot d´sprit de Satã. Impagáveis.

Mas, erro comum, Satã não é onisciente. Nem onipresente. Nem mesmo ubíquo, é só veloz.

Também é apaixonado leitor de qualquer obra escrita por mãos humanas, assim como é também apaixonado seguidor de seus modismos. Satã ama a incoerência humana.

Em passado recente, por exemplo, Satã foi aplicado estudante de esoterismos diversos.  Por esta época Satã residia em Lisboa.

Astrólogo amador, montou o mapa astral de Deus e, em dada parte da vida, se creu um médium. Vivia assim garimpando leituras e preferências místicas: Figanière, Papus, Agartha e Shambalah, Stanilas de Guaita, teosofia, Madame Blavatsky, teurgia, Ísis Sem Véu, Martinez de Pasqualy e toda a salada esotérica do século XIX, que mantém ainda tantos seguidores aqui neste lado do milênio.

Era presença sempre constante nas orgias programadas por Aleister Crowley, além de sócio da sociedade mística Golden Dawn e cofundador da Église Luciférienne que tanto furor causou depois do infeliz incidente envolvendo a Marie Louise, Baronesa Beaucorps-Créquy e o infame Abade  Boisbaudry.

À época, Satã também era dado a depressões, cujos desenvolvimentos ele cuidadosamente anotava. Então, é datada de 10 de junho de 1919 sua carta a Hector e Henri Durville, diretores fundadores do Instituto do Magnetismo e do Psiquismo Experimental com sede no número 23 da Rue Saint-Merri, Paris.

Hector, aliás, era redator do Jornal do Magnetismo e autor de obras sobre Terapêutica Magnética, seja lá o que isso for.

O interessante não é a remessa da carta, mas a carta em si, cujos originais podem ser encontrados na Correspondência de Maria de Lourdes Barahona Fragoso e Mira, doada por seus herdeiros ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Portugal. Evidente que ali foi juntada por engano, como se da lavra de Maria de Lourdes. Inexplicada resta ainda a circunstância que levou a missiva satânica a se juntar à correspondência de Maria.

Mas voltando à interessantíssima carta. Nela, Satã gastou um parágrafo de cinco linhas para solicitar remessa de catálogos completos e, principalmente, informações sob um Curso por Correspondência de Magnetismo Pessoal.

A seguir, dizendo que tal seria útil para orientar a seus correspondentes, gastou outras cento e quatro linhas a falar de si mesmo, de suas neuroses, que são expostas, detalhadíssimas no jargão científico então em moda na psiquiatria da época. E em excelente francês (Disse que Satã era culto, pois não?).

Au point de vue psychiatrique, je suis un hystéroneurasthénique, mais, heureusement, ma neuropsychose est assez faible; l´élément neurasthénique domine l’ élément hystérique, Et cela fail que je n´aie pas de traits hystériques extérieurs […}.

(Do ponto de vista psiquiátrico, sou um histeroneurastênico, mas, felizmente, a minha neuropsicose é assaz fraca; o elemento neurastênico domina o elemento histérico, e disso resulta que não tenho sinais histéricos exteriores.)

E assim Satã, o mesmo que se confessa com parcos conhecimentos com respeito ao magnetismo, recheia a carta com “nevroses proteiformes”, “cerebralidades excessivas” , ”aplicações centrífugas” e “vontades centrípetas”, descendo às minúcias de seus processos de raciocínio, para finalmente desculpar-se  com os senhores Hector e Henri Durville pelas suas “considerações assaz longas e aborrecidas”. Acontece que ele, Satã, quer desenvolver sua vontade de ação, livrando-se de seu temperamento eminentemente desmagnetizador.

Não sabemos se obteve resposta a carta, nem mesmo se foi postada.

Progressista também Satã. Em 1939, sob o nome de Chester Carlson, inventou o processo da reprografia, ou seja, as fotocópias. Poucos saberão, entretanto, (Mas o sabem o Senhor e seus anjos) que toda a empreitada foi um sutil comentário ao Nosce te Ipsum de São Bernardo de Claraval, no qual este afirmava que o primeiro passo na direção errada não era a luxúria ou a preguiça, mas a curiosidade.

A imagem preferida do santo para ilustrar sua tese era o da dama se mirando ao espelho. Cumpre acrescentar que Satã via na fotocopiadora uma produtora de espelhos ad infinitum e, quando de sua produção em série pela Xerox, uma operação que visava a automatizar o pecado. Satã trouxe o pecado da vaidade para a escala industrial.

Aliás e a propósito, quanta zombaria no nome XEROX, sugerido por Satã para substituir a denominação anterior da empresa, HALOID. Duas cruzes de Santo André ladeando três letras, deboche consciente da trindade. E ainda, E, R e O, numerologicamente podem ser reduzidos ao numero dois (5+18+15). Dois, o oposto, o rival, diabolos.

Fez afixar Satã, na sede da empresa em Rochester, uma placa de bronze: Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor. 2 Coríntios 3:18.

E é claro, brilhante jogador de futebol também, Satã.

Mas aí são já outras glórias.

Amém.

QUADRILHA II

bicho

Ana, a avestruz que namorava Henriqueta, a águia, era prima de Caetano, o burro e de Bela Rosa, a borboleta.

Paulo, que era um cachorro, se apaixonara por Cecília, a cabra, que já era casada com João, o carneiro. Jeremias, o camelo, era solteiro e temia a língua ferina de Teresa, a cobra.

Mas ninguém mais medroso de maledicências que Vicente, o coelho, namorado de Anselmo, o cavalo.

Tudo sempre foi uma questão de maior ou menor tamanho, do amor próprio ou da coragem, dizia Clemente, o elefante, refestelado no boteco de Pereira, o galo.

Galdino, o gato, não se manifestava. Antônio, o jacaré, ao contrário, era de muito falar e pouco ver, como bem observou Severino, o leão.

No mais, Chico, o macaco e Baé, o porco, limitavam-se ao poetar tranquilo e à dança jucunda e honesta. Pedro, o pavão acompanhava na rabeca.

Abelardo, o peru, viajara para longe. Pacheco, o touro, correspondia-se com Ananias, o tigre, e tudo o mais parecia caminhar para a rotina.

Os mais sábios foram, talvez, Jacinto, o urso e Maria, a vaca, que se casaram. Teodoro, o veado, apadrinhou.