A HISTÓRIA DE PIJAMAS

Art of Diplomacy III - Michel Cheval

Art of Diplomacy III – Michel Cheval

O fato histórico não precisa ser notável, apenas pode.

Minha ambição: a História como um daqueles almanaques de antigamente, com edição anual e recheados de curiosidades: datas ideais de plantio, conselhos sobre a saúde, calendários, lunários perpétuos. Nada sério.

E as datas e os lugares ganhariam alguma coisa, talvez mais humana, mais real por que descobriríamos que os fatos se dão não tanto pelo general famoso, pelo rei ou imperador, mas antes por uma tempestade imprevista, um grumete de embarcação que deu o tiro preciso, uma prostituta que envenenou um clérigo.

Os fatinhos que geram os fatões, se me perdoam a esculhambação com a língua pátria. A História na contramão, de pijama.

Exempli gratia.

Os Templários não foram totalmente exterminados quando da execução de Jacques de Molay pelo Felipe francês. Enclaves da ordem sobreviveram na Escócia e em Portugal. E foram os Templários de Portugal, sob a denominação de Ordem de Cristo, quem financiaram as caravelas de Cabral.

Este nosso almanaque de insignificâncias continua, não tem fim.

A Espanha continuou poderosíssima após a derrota da Invencível Armada, pelos ingleses e pelas tempestades, por mais que os ingleses gostem de pensar o contrário.

Jesus Cristo, ou ainda Yeshua Ben Youssef, era Galileu. O que em termos modernos, no Brasil, seria o mesmo que ser nordestino e atender por Jesonaldo ou Ademilson. Só samaritanos eram menos considerados que os galileus e o nome de Jesus nada mais era que uma variante (considerada vulgar) de Yoshua,  Josué.

Mas aí aparece a História, com agazão, sisuda, séria, posuda.

Eu sei, sabemos, que para merecer os holofotes da História convinha, convém ser macho, adulto e branco. Senão, vejamos.

Era um homem bom René Descartes? E Sidarta dos Sakhia, e Emanuel Swedenborg e Ludwig da Baviera? E Santos Dumont?

E tantos outros, talvez também bons, e homens, ali, congelados em seus nichos no grande Panteão dos Grandes.

Adulto, macho e branco. O perfil acabado do herói. Sem mênstruo, sem dores, só a glória.

E as mulheres? São historiáveis?

Santa Catarina de Siena não sei se era boa, dizem mesmo que era analfabeta e pervertedora de papas. Siatemi uomo virile, e non timoroso. Rispondete a Dio, che vi chiama che veniate a tenere e possedere il luogo del glorioso pastore Santo Pietro, di cui vicário sete rimasto. E por aí foi, em famosa carta, comendo o rabo papalino de Gregório XI ou LXXV, sei lá.

Teresa de Ávila, santa de minha particular devoção, também era analfabeta, fato nada incomum em quase toda a História humana, mas poeta sublime. Igual aquele João da Cruz com quem levitou junto, em êxtase compartilhado.

Ambas, post mortem, tornaram-se doutoras da Igreja. As únicas. Prêmio de consolação.

Mais mulheres e mais história.

Murasaki Shikibu, também escritora e poeta sublime, fazia parte daquela maravilhosa e hedonista aristocracia japonesa do período Heian, séculos X e XI, cultivadora de clássicos chineses.

Aliás, foram provavelmente as mulheres desta aristocracia que criaram sua própria versão simplificada da escrita chinesa Han, adaptada aos falares japoneses, o Kana.

Autora do primeiro romance, o Genji Monogatari, se desconsiderarmos o Satiricon. Vergonhosamente não há ainda tradução portuguesa que eu saiba.

Cinquenta e quatro volumes tem esta narrativa dos amores do príncipe  Genji, se bem recordo e não, não li senão extratos. Significa que não li. Queria.

Exemplo: A dama da corte termina uma carta endereçada ao herói e vai depois apreciar a neve caindo no jardim. A personagem da dama espanta-se que também ao camponês seja permitido apreciar aquelas delicadezas.

Cinquenta personagens principais, nem sempre chamados por seus nomes, mas também por seus títulos ou apelidos poéticos.

Outra, o Haiku, este metro que prima pela brevidade, também foi criado pelas mulheres japonesas, que os homens estavam ocupados escrevendo tratados confucianos ou poemas em chinês clássico.

Terra Brasilis. A ciranda, se não foi criada por Lia de Itamaracá, foi por ancestral não nomeada.

História. E Bashô, François Villon, Vergílio, Dante, valha-me deus, eram homens bons? Grandes, tudo bem, mas bons?

Na coisa toda, o que me enche os pacovares, é essa grande lista de homens, como se toda a cultura fosse criada apenas por homens e homens ricos, poderosos. E Adão gerou Set que gerou Enós que gerou Cainan que gerou Malaleel que gerou Jared que gerou Henoc. Nenhum útero deu sua cara. Nenhum faxineiro, nenhuma doméstica.

Nâo, não estou cultivando feminismos, que devem em minha modesta opinião ser cultivados por feministas. E se mulheres, as feministas, melhor.

Não, falo somente da invisibilidade de algumas personagens e de algumas circunstâncias. E da História e de sua grandiloquência.

Então, sendo a História muito mais do que bustos de heróis enfileirados, por que não enfileirar uma coleção de coisas miúdas, cotidianas? A História no diminutivo?

Oremos.

E vamos aos microfatos:

Já notaram que as pessoas eram magras e esbeltas nos filmes dos anos setenta e mesmo oitenta? Para não falar das décadas anteriores? Menos fast food, menos dietas esquizofrênicas e mais comida caseira, imagino. História.

E assistir a um documentário como Doces Bárbaros e se maravilhar com os Baianos de plástico, maleáveis, rodopiantes, de quarenta anos atrás? Distinguir os maneirismos de uma época: gente assumindo cultuar religiões afro-brasileiras (e não se diga que nada mudou. Hoje será considerada vulgar a pessoa vulgar que o admitir, já que rodou a História junto com a Lusitana e voltamos à Idade Média).

Doces Bárbaros. Gente com pouca roupa no corpo, esparramada em tapetes, almofadas, espreguiçando-se como felinos (o tempo hoje é de urgências, velocidade. O tempo hoje é dinâmico e as pessoas são dinâmicas, dúcteis, urgentes e velozes demais para caberem em almofadas).

Doces Bárbaros. Gal, Bethania, Gil e Caetano. Toda uma série de músicas com temas afro, roupas e adereços com motivos afro, árabes ou indianos. Havia leveza ali. História.

E Betty Davis apagando seus cigarros em um prato no restaurante? Eu vi o filme e estranhei a cena. Não estranharia a alguns anos. Fosse hoje, Betty seria expulsa do lugar, acompanhada por um coro de faces desaprovadoras deplorando sua abominável conduta. História.

E ouvir a música brasileira, dita de vanguarda, dos insossos anos de 1970 a 1980? Uma delícia de estranhamento, com aquela metalinguagem que originalmente fora um meio de driblar à censura e depois tornou-se um fim em si. Um patois para uso exclusivo da classe média. Confiram Panema Leblon na voz de  Cláudia (hoje, Claudya) ou Com Mais de Trinta, de Marcos Valle. Tão disponíveis lá no YouToba e está tudo lá: juventude banhada em sol e rebeldia de butique.

Enfim, a micro-história, pequenininha, doméstica.

A casa da História é lugar onde os Grandes Homens descansam seus fígados e posam para a eternidade. A casa da micro-história só serve à marginalia, é nota de rodapé.

A História clama. A micro-história não, no máximo emite alguns borborigmos.

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