O demônio e a mulher imortal se encontraram na terça-feira

The Bar - by Boo the hamster - DEVIANTART

The Bar – by Boo the hamster – DEVIANTART

O demônio e a mulher Imortal se encontraram na terça-feira e foram tomar uma cerveja no Bar do Cao.

Conhece? O Cao? Sujeito fino, às direitas. Filósofo de formação, com um mestrado em Estudos da Linguagem, o Cao.

Foi há cinco anos, mais ou menos, que deu aquela doideira hoje famosa, entre um “Noam Chomsky” e uma “cesura Freudiana”, e o Cao largou tudo, mimoseando a classe com um monte de “vãopráputaqueospariu”, e saindo para a vida (como descreveu depois a cena).

O demônio e a Imortal não sabiam do histórico do modesto comerciante que os servia, modos que continuaram ali, na sua, botando a conversa em dia.

“Sabe do que eu tenho mais saudade? Cê não vai acreditar, mas é do cheiro dos mamutes. Hoje de manhã mesmo, sonhei com eles pela primeira vez em…gente…uns duzentos anos, pelo menos”. O Demônio fez um sinal para o Cao e pediu uma porção de mandioca frita e mais uma cerveja.

“Vai entender…”. E sorriu quando o Cao confirmou o pedido. “Sabe que eu tenho saudades também, dos mamutes?”.

O bar pestilencial do Cao.

Na mesa ao lado o Cao atendeu ao casal e ao sujeito de meia-idade com cara de quem acabara de acordar.

“Só cerveja, mesmo”. Rolando, o policial inexistente segurou as mãos de Merula, a policinha, entre as suas.

“Nunca entendi porque desses adiamentos teus, vai rolar cachaça mais cedo ou mais tarde”. O Magnífico Policial e Escriba cheirou o copo e o uísque vagabundo dentro do copo. Tomou mais uma dose, mas depois sorriu como um bonzo.

“Liga não, Rô. Eu confio em você”. Merula beijou os lábios bêbados.

“Amo essa mulher. Amo…entendeu?”. Rolando se virou para o Magnífico. Beijou Merula e pediu mais uma.

O Cao também já amara, fora um homem de bem e casado e entendia os transportes de Rolando com Merula. Entendia também o Magnífico Policial Fundamental. Um escravo fundamental, a quem prescrevia diariamente que mandasse o mundo à merda e largasse tudo. Não era e nunca seria atendido, suspeitava.

Os meninos da banda Capitão Temor voltaram do beco e se aboletaram entre copos e pratos sujos, rescendendo levemente a maconha.

“Bem, como eu dizia antes de um corno me interromper, vocês estavam na dita cuja da fila e foram lá encarar o delegado…é, existem coisas piores para serem encaradas, portanto, foi um delegado mesmo que vocês foram encarar e só uma vez – na verdade duas vezes, mas assim caminha a humanidade, bem … já me perdi, onde foi que eu parei mesmo?”. Rolando descansou o rosto ébrio entre as palmas das mãos.

“Eu sei que cê sabe a minha idade exata, vai, fala prá mim, vai”, a Imortal falou, súplice.

“Tem coisas que me estão vedadas…revelar tua idade, por exemplo. Aliás, calcula você mesmo”.  O demônio, entediado, consultava ao celular.

“Calcular como? Eu era uma analfa vivendo numa tribozinha de merda em…sei lá em que porra de lugar. Europa? Calcular, como? Vinte, trinta mil?”. A Imortal tinha uma pele viçosa e marrom-avermelhada que contrastava vivamente com seus cabelos loiros, cheios de cachos. O demônio era bonito.

O Cao tinha muitos amigos, mas confidências mesmo somente as fazia a Selma Plá e ao Marcos Visconti, que aliás, era unha e carne com a Selma. E irmão do Rodrigo, ex-marido da Cléia Tominaga e atual maior inimigo da Selma. Cheio de manias o Cao.

“Ele vai de cachaça, mesmo?”, o Cao, preocupado, interrogava Merula.

“É, fazer o que? Parece que eu só atraio porralouca”. Merula.

“Eu não sou porralouca…”, o Magnífico Policial do Bem levantou o indicador, professoral.

“Você não me atrai!”, Merula disse, expelindo um jato de fumaça na cara do Magnífico.

“Lembra dele, o Mosche?”, a Imortal.

O demônio, consultou suas cutículas. “Uma vez perguntei a Mosché ben Maimon se podia sentir o Messias chegando…”.

“E ele?”. Disse a Imortal, distraída, depois passar em vista os ocupantes de outras mesas, se detendo por breves segundos no Magnífico Combatente do Crime.

“Às vezes — Mosché me disse — consigo ouvir os seus passos…e talvez uma vez ou outra, sua respiração”. O demônio, de nome, aliás, Nibiru, riu levemente. “Acho que é próprio do homem ter esperanças”. A Imortal teve diversos nomes em sua longa vida, mas basicamente era uma “Miriam”.

“Ele tinha dessas tiradas…meio poéticas”, disse Miriam ou Mariam ou Meriam, a Imortal.

“Falando em judeu, sabe que tem um Tzadik aqui em São Paulo? Sabe, dos Tzadikim mesmo? Nem acreditei quando me toquei, bem ali, na Oscar Freire”. A Imortal.

“Nãâão…dos trinta e seis? Só não diga que é mendigo, também”. Nibiru sorriu.

“Sei o que ele é não, mas não é mendigo, não. Também, só faltava…coisa mais clichê um Tzadik mendigo!”, disse a Imortal.

“É…vale uma visita. Faz muito, muito tempo que eu saí do ramo das tentações, mas sabe como é, a gente nunca perde o jeito. Um dos Tzadikim, um dos pilares, caralho! Quem diria?”. Nibiru sinalizou para uma das ajudantes do Cao.

O Cao não ouvira o diálogo, é claro, educado e correto como era. Mas o fato é que o Cao conhecia ao Tzadik, embora não soubesse que o Tzadik era um Tzadik dos trinta e seis Tzadikim. Tudo bem, que o próprio Tzadik não sabia também que era um deles.

Marcos Visconti, com Selma a tiracolo, chegou e se juntou aos rapazes da Capitão Temor.

“Cao, manda um branco gelado”, gritou Selma e olhou interrogativa para o Marcos, que completou, “Kriptonita. E capricha na menta, Cao”.

“Que porra que é Kriptonita?”, Rolando, para Merula.

“Trata-se de um meteoroide, vindo do planeta Kripton. Faz um puta de um estrago se você atender por Kal-El”. O Magnífico, com sua cara de enfado número dois, esvaziando o terceiro copo de uísque. Merula gargalhou gostosamente.

“Impossível…”, baliu Rolando, “o sujeito não bebe, porra. Foi educado numa rígida tradição presbiteriana, lá com a família Kent”.

“Posso ter confundido as cachaças…”, concedeu o Sempiterno Policial do Bem.

Teco Dantas, guitarrista do Capitão Temor, conversava animadamente com Selma e Marcos.

“Lembrou agora, Cailean…escocês, grandão. O cara lá que fez a entrevista com o Innisfree, lembra?”. Marcos Visconti coçou um ombro, indeciso.

“Qual, o da revista?”. Perguntou. “Isso, ele mesmo. Lá no Surrey, a gente se encontrava”.

“Pois bem…”, Teco deixou a expectativa crescer , “conversei com ele sobre o filme da Selma, essas coisas, daí ele me mandou e-mail confirmando…”

“Ah, não brinca?!”, Marcos chegou a se levantar, de tão ansioso.

“Serião, tá confirmado. O Roy topou participar, tocando os instrumentos malucos e tudo. Cara, eu não acreditei!”. E um grande sorriso se espalhou pelo rosto sardento de Teco.

“Peraí, Roy, que Roy?”, Selma perguntou, perdida.

“Como, que Roy? Roy “Skip” Rao. Anathroy Venugpala Rao, o baterista do Innisfree em pessoa! O cara dos mil instrumentos”, Marcos, espantado, para Selma.

“Innisfree?”.

“Never Fight An Inanimate Object…”, cantarolou Teco, esperançoso.

“Deixa prá lá, tá bom. Tudo o que eu quero é que saia do jeito que a gente pensou”.

Vai sair do jeito que a gente pensou!”, Marcos bebericou um líquido verde azulado.

“Teu / Desnecessário sorriso, teu / Debochado sinal, teu / Senhorita do dia, teu / Senhoria lunar e teu / Teu aceno discreto, teu / Teu aceno discreto, teu…”, cantarolou Teco, acentuando cada “Teu” com uma batida de baqueta na mesa.

“Ainda não decidi se essa aí vai entrar”, preveniu Selma.

“Ei, a trilha é minha!”, protestou, choroso, Marcos Visconti.

“É, mas a diretora tirânica sou eu, o filme é meu e a produção é do Geofroy, que é meu filhinho e não teu, querido”, cortou Selma, impiedosa.

O Cao passou pelo caixa e sinalizou para Lucinha e Gleise e saiu para a noite quente.

Lá fora, o ar quase parado, fumou seu quinto cigarro do dia, dos dez que estabelecera como teto máximo. Tragou, riu e se abraçou em bem-aventurança. Tragou, riu e voltou-se para as mesas, mirando com ternura o demônio e a Imortal, os policiais, os músicos, as meninas rindo, atrás do balcão.

Conhece o Cao? Sujeito fino, às direitas. Filósofo de formação, com um mestrado em Estudos da Linguagem.

O Cao.

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9 comentários em “O demônio e a mulher imortal se encontraram na terça-feira

    • Dizem que quando se acaba de escrever e o texto está pronto, o escrito não te pertence mais, pertence ao leitor. Então, olha aí, outra visão do Cao: filósofo, às esquerdas e, incidentalmente, um não apreciador de mamutes. Obrigado pela leitura. Abraço.

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  1. Não sei se existe uma contradição aí. Preciso pensar.
    Tudo bem, consideremos as raízes das duas palavras: segurar e rasgar. Segurar do que? Rasgar a partir do que? Se amparo, contenho. Se rasgo, o faço de fora? Se assim é, ambos não serão, talvez, indiferenciados? E se indiferenciados, rasgar para que tudo “aconteça” ou amparar para que tudo “permaneça” serão apenas pontos de vista de quem está no interior. Tudo bem, menos frescura: vamos a um exercício: pense no alheio, no observador que vive em meio ao observado. Pense no mundo como um mostruário: demônios, lixeiros, músicos, insetos, deus, mistério, galas, delírios, êxtases, pequenas vitórias e grandes indignidades. Pense em crueldade e pense no amor. Pense em banalidades. Pense em alguém que consiga “se abraçar em bem-aventurança”.

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    • E eis aí a questão. Se pode ser descrito, é? Talvez pudéssemos usar o método de delineação por negativas de Moisés Maimônides? Eu não posso dizer o que é, mas posso afirmar (limitadamente) o que não é. Usando de suas palavras: agradeço a fina leitura! Um privilégio. Abraço.

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