Cara, caríssima S.E.

Pencil vs. Camera - by Ben Heine

Pencil vs. Camera – by Ben Heine

Para S.E., pescadora de monstros e maravilhas, nadadora de águas turvas

Cara S.E.,

o que é escrever e como são as histórias de quem escreve? E por que escrever, você não me perguntou, mas devia. Não sei quem escreveu, mas compartilho, que escrever é ver a folha em branco e com muita dificuldade, começar. Quem tem facilidade é orador ou publicitário, profissões outras com demandas próprias e outras.

Escrever também nada tem a ver com ser escritor profissional. Escrever é pulsão, tornar-se escritor é ambição e escolha. O que não significa que escritor e quem escreve não possam ser a mesma pessoa, mas não é condição essencial. Ambos, no entanto, têm que dominar seu métier: nós dramáticos, personagens, estilo. A carpintaria.

Tenho minha própria opinião sobre quem escreve. Desconfio muito das explicações mais buscadas, de que se escreve para responder a questões íntimas ou, mais filosóficas, tipo “escrevo para mapear o mundo”, “escrevo para me encontrar”, “escrevo para estabelecer um pacto com o outro”.

Frescuras.

Escrevemos porque sabemos escrever, porque nos alfabetizamos, porque podemos. Escrevemos porque não temos vergonha de escrever e não por algum talento nosso, que suspeitamos escondido lá em meio aos nossos bofes.

Os que escrevem são putas. Putinhas todos nós, procurando o melhor desempenho que traz o melhor pagamento.

E veja como somos putinhas mesmo, nós os que escrevemos. Quando a putinha vai putear ela sabe que seu corpo é só metade seu; a outra metade é para gáudio e prazer do cliente. E com você, comigo e outros, não é a mesma coisa? Somente metade do que escrevemos é nosso, o resto é de quem lê.

Então, como se escreve uma boa história? Desconfio que é querendo escrever uma boa história. E aí vale tudo: podemos criar um esqueleto, definir começos, andamentos e finais. Roteiro mesmo, definindo nossa história em uma única frase e trabalhar a partir.

Podemos também ser putas espertas e enganar as musas: fingir que se vai escrever sobre o átomo e repentinamente mudar para culinárias; fingir que é poesia e mudar para prosa; fingir que é galhofa. Fingir que é sério.

Agradar ao freguês.

E finalizando: Sabe qual é o objetivo último, final, de quem escreve?

Se souber, você me informa? Divide comigo?

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5 comentários em “Cara, caríssima S.E.

  1. Sabe quando temos uma certa “ligação” com uma pessoa, lemos o que ela diz sem precisar de ver o rosto e entendemos?
    É algo assim, já te respondi essa, mas a última pergunta eu já tentei responder e ela continuou cheia de lacunas.
    Será que o nosso tempo preenche? No final, antes de suspirar, fungar e rolar iremos dizer “Oh sim, agora sei o motivo”. Ou iremos apenas esquecer mais uma tanto quanto outras perguntas em branco? Quando eu souber, realmente souber, e souber realmente eu respondo.
    Somos putinhas mal comidas.
    Querido M.

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  2. Observe o trecho: “Não sei quem escreveu, mas compartilho, que escrever é ver a folha em branco e com muita dificuldade, começar. Quem tem facilidade é orador ou publicitário, profissões outras com demandas próprias e outras”. E isto é????? Óbvio. Uma frase de efeito, para causar efeito. Coisa de putinha. Mas eu já escrevera que é uma puta o escritor ou escritora. Putas profissionais, adoramos o efeito. Não é tanto o que é, mas o que parece. Teatralidade. Feijão com arroz. Abraço..

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