Experimento em vermelho, azul, ocre e amarelo com toques pequenos de nonsense ou mesmo esquizofrenia

Autoria desconhecida

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Os dias sussurrantes foram notados primeiro pelo anão, amante de Madame Lux, e só depois por nós outros, os “freaks”.

Sorrateiros, começaram aos poucos, com poucas pretensões. Um chiado permanente aqui e ali, mas não irritante, vejam bem! Uso mal as palavras, era mais um sussurro que nos convidava ao devaneio e, quando dormíamos, nos arrastava para lugares mornos, doces e cheios de significado.

O primeiro a perceber foi o anão, eu disse, mas quase imediatamente todos nós dávamos pela diferença na série dos dias que vinham. O anão foi apenas o primeiro que comentou, que teve forças para falar, para por na ponta da língua nossas sensações mútuas, nunca antes sentidas, mas de cheiro forte e íntimo.

Você tem que entender que nosso mundo não era anglossaxônico, não havia dragões voando para o céu, mas havia céu. Não havia druidas, mas não sentíamos falta de feiticeiras, só que as chamávamos por outros nomes. Não havia magos, entretanto. E não havia heróis.

Você tem que entender que não havia montanhas, mas morros e todos cheios de árvores. Não havia Escolas de Conhecimento, mas havia armações de madeira para moquear a carne. Não havia sabedoria e nem Jogos de Avelórios, mas havia algum xadrez e muito dominó. Tínhamos mesmo um excesso de Tegularius e de Designori, para não falar de Beneditinos.

Os dias eram todos completos, plácidos e as plantas passavam sem pressa. Os gatos começaram, lentamente, a poetar. A primeira foi Pagú, como a chamávamos, antes de saber que ela atendia por [__________], o nome impossível que trazia toda sua história e identidade.

“Sou uma gata e um código e me regozijo como uma apreciadora de homens . Sei de mim e apenas rio”, ela disse. E nós anotamos.

As tardes e as noites e as manhãs tornaram-se tão estranhas e únicas que a linda filha inesperada e temporã de Madame Lux e do anão foi por nós recebida e amada, sem estranhamentos.

Os outros “freaks” da trupe, nós, tínhamos nossas razões para cautela com teratologias advindas de partos espúrios, de uniões espúrias, mas simplesmente a aceitamos. Todos os malucos e malucas providos de garras, presas, pelos e estranhezas outras a aceitaram, a ela e suas asas.

Você tem que entender que não era um tempo de antanho, era o seu tempo, o nosso, onde se passaram os fatos.

Morar no céu era bom. Não importava por qual peso ou medida, a sensação era de todos e valia também para Deus. Vistos de perfil, nossos compromissos sumiam à deriva, não esquecidos, mas relativizados, postos no seu lugar. Capitães de sonho desciam das alturas em seu navios de sonho, em suas caravelas e ouvíamos, embevecidos, seus discursos cheios de significado, feitos nas nuvens.

Nossos filhos cresceram e se juntaram às suas tripulações e tudo se resumiu em aventuras, alternância de climas e terras. Viveram eles de hora em hora, no mar só navegado antes por Camões. Em terra, casas nós construímos com peças indiscretas, todo um verão atado em tiras de maravilha ocre e escarlate, com mananciais de pedras viventes escondidas entre os pilares da aurora.

E do amor destilado do fundo de nossos sonhos, recebíamos mensagens como esta:

“Olha, estou bem! Aqui em Katmandu, eu estou mesmo muito bem. Meus pés estão calçados com pantufas amarelas e eu vôo e as rodas de orações giram, giram. E vão continuar girando, até que vocês me dêm atenção, até que vocês estacionem no cume do Chomolungma, o que vier primeiro.”

E coisas aconteceram e por fim terminaram, com os dias pedindo suas contas e se indo. O verão se foi. E só então o escriba, o Amanuense dos Dias chegou até nós.

E o escriba careca, de manto vermelho esvoaçando ao vento gelado, terminou seus apontamentos no pergaminho. Isto é seu… Sorridente, tirou da manga amplíssima um pequeno espelho de metal negro irisado de prata. E isto também e mostrou um amuleto.

O anão estava ali. Nenhum sinal do restante da comunidade (nós respirávamos cuidadosamente atrás do arvoredo) e o anão achou melhor dar por encerrada ali sua permanência.

Entregue o pergaminho com a história aos meninos e meninas que voltarem das nuvens e da aventura, disse o anão, e mostrou o medalhão.

Eu não preciso de amuletos, mas fico com isto pela beleza do artesanato. E tomou do espelho.

Venda-o no mercado, troque-o por uma prostituta, disse o escriba e riu.

Agora, vá!

Selvaggia, Guiscarda, Mandetta, disse o anão (não disse abracadabra).

E ainda Alcyon, Phaeton, Alcmena. E houve um lago providencial e o anão deixou o mundo na forma elegante de um peixe.

Daqueles grandões, trutados e cor de ouro.

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