O HOMEM CORDIAL

We're All Mad Here - The Chesire Cat - by Nicky Barkla

We’re All Mad Here – The Chesire Cat – by Nicky Barkla

O receio, o cagaço fizeram de Plácido Aquila Valdez um tipo único. Era um covarde profissional.

Minto, Plácido Aquila Valdez? Não, não mente em absoluto. Sou um covarde, mas detestando o amadorismo como sempre detestei, profissionalizei-me, por assim dizer.

E assim era, por assim dito. Um homem que se retratava a si próprio sem pudores, que dizia o queria sem rodeios pastosos, dando uma clara e imediata ideia de sua personalidade torpe, rasteira, carente de heroísmos e com valores os mais egocêntricos possíveis. Plácido Aquila Valdez viveu toda esta vida indigna com paixão, como um verme eternamente satisfeito em parasitar seus semelhantes.

Minto, Plácido Aquila Valdez? Não, não mente. Me sento com desfaçatez entre os comensais, bisbilhoto suas vidas, os chantageio quando posso, os cubro de elogios falsos se me é útil. E, se me dado fosse me ver de fora, como a um estranho, vomitaria.

Plácido Aquila Valdez elogiava à covardia de forma franca e aberta. Dê-nos um exemplo, Plácido Aquila Valdez! Ora, fácil, quem, me diga, quem se não o poltrão, o pusilâmine poderia ter inventado a estratégia militar? Os valentes são burros demais para qualquer coisa que não marchar à frente da tropa e morrer bem ali, nas linhas de frente.

Plácido Aquila Valdez acreditava também que todos, todos eram, somos, basicamente covardes. Definia a valentia como um atropelo de hormônios gerados pelo medo nos mentecaptos, que lhes dava breves espasmos furiosos. Mas desordenados, convulsivos, unilaterais. Um gozo ordinário, só acessível às alimárias.

É assim mesmo, Plácido Aquila Valdez?

Certamente, uma questão evolutiva. Somente os covardes da espécie prosperam. Infelizmente, se não temos mais valentes, ai de nós, temos ainda os imbecis ensandecidos e a valentia ainda é considerada uma virtude.

Plácido Aquila Valdez desconfiava de santos e moralistas. Mas desconfiava mais ainda de suas criações, principalmente da Tragédia com seus destinos singulares e prodigiosos.

Nos esclareça, Plácido Aquila Valdez!

Esclareço, dou a luz. Notem, quer se trate de Édipo, quer se trate de Hamlet, é sempre o resultado de uma conjunção extraordinária de eventos espantosos. Nenhum deles é figura acessória, mas necessária. Não existe universo exterior, existem ondas de acontecimentos orbitando sua vidas e suas vidas vão extrapolando, absorvendo, fazendo convergir e por fim destroem. Hamlet teria feito melhor se dedicando a uma vida de fodelança com Ofélia e, como bonus, ainda teria Polônio com quem implicar.

Édipo hoje (época de covardes por excelência) escreveria o livro, um mea culpa prontinho para as telas de cinema.

Você é cruel, Plácido Aquila Valdez!

E faço cocô ao ar livre, também.

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