DIREITA, ESQUERDA.

Charge de Saul Sternberg

 

Para o meu querido R. P. A. ou R. S., que de qualquer modo está sempre “certo”…”disso”.

 

 

A coisa parece que é assim.

Há a Direita e há a Esquerda. E aí você pode divagar como quiser, fazendo combinações várias. Bem e mal, certo e errado, branco e preto, a Sinistra.

Mas não muda o fato de que há uma Direita e há uma Esquerda. No meio poderão existir zilhões de variantes, ao gosto do freguês: presbiteriano, católico, canhoto, socialista, comunista, comedor de criancinhas, ditadura vermelha, fantasma cubano, nazista, integralista, homossexual, evangélico, padre, puta e delegado, se me perdoam a citação a Tom Zé.

Mas, Direita. Mas, Esquerda. Não dá prá fugir, reinventar a roda. Não  importa se você está aí, raivoso contra os bolsa-escola-crime-crack ou acorda com abundante sudorese por ter visto o corpo astral de Fidel . Nada significa se você, radicalizando, propõe radicalizações contra a hegemonia do Capitalismo-Virado-No-Setenta-Transfigurado-No-Jiraya e acorda com abundante sudorese por ter visto o corpo astral de Obama, o Barack.

Direita. Esquerda.

Providencie aí os rótulos que quiser: petralha, quinta coluna do comunismo, tucanalha, filhote da ditadura. Adianta nada, não. Você é uma coisa ou outra, mesmo que não saiba, mesmo que não queira. Direita. Esquerda.

Ah, mas tem o Centro. Tem? E também o radical, o moderado, progressista, o liberal, o conservador. Então tá. Mas sempre transitando naquela linha invisível que liga a Direita à Esquerda.

Eu, por exemplo, sou o que? Esquerda. Me acho assim um, tipassim, puta Esquerda. Muda alguma coisa? Sou corintiano também e não fico mais bonito e nem mais inteligente por isso. Então, tudo bem, vou pelaí convidando todos os de Direita a me darem as mãos e juntos, caminharmos rumo ao horizonte, ao crepúsculo, ao arrebol? Olha, até posso fazer, mas gostaria de fazer ver o quão ridículo é caminhar de mãos dadas rumo ao horizonte.

A coisa é séria! Quanto tempo caminharíamos, assim irmanados? Chegaria aquela hora, constrangedora, na qual timidamente perguntaríamos a nosso parceiro ou parceira de mãos dadas: e aí, já deu? Já tá bom? Ganhamos nosso alpiste?

E alegremente voltaríamos às trincheiras midiáticas, às redes sociais, com nossas receitas de hoje, Dona Palmirinha, para salvar o Brasil.

Direita e Esquerda. Pessoalmente reconheço, recomendo e aviso: você sempre esteve de um lado ou de outro, mesmo que não reconheça, mesmo que não goste.

Tá, mas e o PT?

Olha, sou mais o Antônio Conselheiro, o anacoreta sombrio de Euclides da Cunha, que conseguiu a façanha de ser odiado à esquerda e à direita.

HIROSHIMA MON AMOUR: O amor enquanto experiência da memória

MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

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(escrito especialmente para o blog em novembro de 2009)

Hiroshima e Nevers, as referências espaciais do filme HIROSHIMA, MON AMOUR (1959), de Alain Resnais, são abstrações. São palcos para encontrar, perder e sobretudo rememorar o amor:  os amantes mergulham numa intimidade palpavelmente física, de uma maneira como raras viu se viu em cinema ou literatura (sem um clichê erótico, sem especificações de posições, quem fez o quê, sem terminologia de lugares, o que sempre resvala para  cômico), porém o “amor”  passa longe deles, é inagarrável: quando se fala de amor, sempre é outra coisa, o que é comum no universo de Marguerite Duras, que escreveu o texto: os amantes de Moderato Cantabile (1958) falam do amor de outro casal, os amantes que se conhecem e trepam na Hiroshima de 1959 vão falar do amor perdido da protagonista, durante a Segunda Guerra, um alemão (o que acarretou que lhe raspassem…

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Trechos da entrevista de Selma Plá à revista PANTA RHEI

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[…]

PANTA RHEI – E o que a senhora entende por estrutura funcional de opressão à mulher ou construto pensado para oprimir a feminilidade?

Bagas ácidas caídas de um salgueiro-anão, não menos do que isso. Ante tais eventos nós permanecemos ali, estacados à beira da caverna.

PANTA RHEI – Há uma interessante análise sua na revista FEMINA, onde a senhora destaca que a definição de gêneros é questão de fé. O que significa isto?

Caritas era uma palavra teimosa, não muito benquista em nosso meio. Rodolfina Maier dizia que tudo e todos estavam nas mãos de Eurídice e ela bem que tinha razão. Olha, ainda sobre isso…lá em casa tínhamos um bigorrilho, desses antigos, que faziam mingau. Bem, as reflexões, os nossos medos eram todas guardados ali pela minha mãe. Entende, havia um presto e um staccato e os castrati não diziam nada…

[…]

PANTA RHEI – Perturbador decerto, mas a questão do ethos feminino, que a senhora ainda considera como uma definição às apalpadelas, já foi suficientemente respondida?

Duas libras de algodão, dizia o profissional do koan e ninguém melhor que Lisavetta Batory para por os pratos na mesa, as baixelas…combinando as cores e desligando o rádio quando das refeições. Minha pátria é minha língua, dizia Ferdinando Persona.

PANTA RHEI – Neste sentido o que significa se colocar como feminista nos dias de hoje. Antônio Cao, seu antigo professor e hoje um seu polemista, disse que a senhora desconstrói lindamente, mas não dá forma. Bem, isto é só um outro modo de dizer que a senhora apenas pergunta e não responde. É possível uma obra acadêmica de pura desconstrução?

Acredito num patamar de glória e desacredito nas espadas quebradas. Veja, um falanstério é só mais um trunfo na manga obscena de um delegado de polícia do interior, sem parentes importantes. Não basta só reiterarmos, temos que polir a fruta bulbosa, temos que fatorar e fatorar muito. O tédio é glosa…

PANTA RHEI – O mundo é um moinho?

Ainda é cedo, amor…

 

NADA TENHO CONTRA O BRASIL

VOLATOR

 

Nada tenho contra o Brasil. De fato, até mesmo gosto do Brasil. Gosto do Batman também, e da cultura de massa e do super-amendoim e de Spock, filho de Sarek. Gosto da flor e do violão e gosto da imagem de José Genoino fumando um cigarro ao ser preso, onde foi mesmo?, na guerrilha do Araguaia?

E gostei e gosto de João Só e do Romance da Pedra do Reino de Suassuna. E gosto de T. S. Eliot e do seu Old Possum’s Book of Practical Cats e do musical que veio depois. E de João Cabral de Melo Neto e de João Donato e de Joyce, que me encantou ao compor o Samba do Joyce. Quem já pensou em escrever um samba para James Joyce, o pai do Ulysses e do Finnegan´s Wake? Joyce fez, pensou, cantou.

Samba, samba

Quando James Joyce ouviu um samba, samba

Descobriu que a lapa era na Irlanda, landa

Molly Bloom virou Carmen Miranda, randa

Ele então juntou corda e caçamba, samba

Resolveu sair atrás da banda, banda

Foi no adamastor pra madureira, será?

E gosto de Joaquim Nabuco e de Cacaso e de Capinam e de Tom Zé e de Jards Macalé.

Nada tenho contra os Estados Unidos. E nada tendo, posso gostar com calma e verve de Thelonious Monk e do seu piano maravilhoso em Lulu´s Back in Town. E de Cole Porter e Herman Melville, o sujeito com o melhor começo de livro que conheço. Está lá, em Moby Dick: Call me Ishmael. Some years ago…

E gosto do Quixote e gosto de Luis Gonzaga peneirando o xerém.

Nada tenho contra Israel. Então posso gostar de Moisés Maimônides, do Dibuk, de Isaac Bashevis  Singer. E, talvez melhor, posso gostar de Jorge Luis Borges gostando de Espinosa:

Las traslúcidas manos del judío

labran en la penumbra los cristales

y la tarde que muere es miedo y frío.

(Las tardes a las tardes son iguales)

E de Machado de Assis gostando de Espinosa:

Gosto de ver-te grave e solitário

Sob o fumo da esquálida candeia

Nas mãos a ferramenta do operário

E na cabeça a coruscante idéia

E gosto de gostar de William Blake e seu Tyger, tyger, burning Bright, e de Yukio Mishima, o mais galante suicida de todos os tempos.

Mas, principalmente, volto ao início: nada tenho contra o Brasil. Não acho que seja esta uma época de decadência, não acho que os monstros saíram do armário, não acredito que o ódio virou passatempo.

Acredito no tempo e acredito na sabedoria do tempo, que passa e que nivela.

Acredito nas pessoas boas, de boa vontade.

E que herdarão a terra.

Raquel, serrana bela…

raquel

 

E chamou-o Benoni, filho-da-minha-dor.

Mas então Jacó, ou Tiago, ou Jaime, o moço com as fertilíssimas gônadas, objetou. E aproveitando-se da situação da moça, estoporada pelo parto de um gigante, objetou e decretou num gorgolejo de bêbado: será Benjamim, filho-da-mão-direita.

E assim Sião, nasceste.

Mais uma cachaça aí, ô Denivaldo…

BRUXAS

Friends - atribuído a Vladstudio (DeviantArt)

Friends – atribuído a Vladstudio (DeviantArt)

 

 

 

Me permitam uma postagem fresca e autorreferente. Vamos lá, ao meu umbigo.

Eu. Bem, eu não tenho um milhão de amigos. Tenho bruxas que privam comigo, me toleram, me enervam e me concedem um pouco de seu tempo e ouvidos.

Bruxas era como o Henfil (Henfil? Alguém lembra?) se referia a alguns amigos especiais que apareciam do nada, feito predestinados, prontinhos para compartilhar carmas e cachaças. De modo que tenho bruxas como amigos e se não são bruxas não são amigos.

Ser bruxa é essencial. Prefiro o concurso de súcubos e íncubos, aborreço aos santos. De bruxas sou e quero ser amigo.

E estão quase todas por aí, as bruxas que conheci na adolescência e as bruxas que vieram depois. Com algumas já não falo tanto, outras mandei e mando de tempos em tempos à puta que as pariu. Com umas, filosofo, com outras discuto o tempo e a eternidade e com todas eu rio e choro. Minhas bruxas.

Há o A.S.O., minha bruxa filosófica que nunca me leva a sério. Seríssimo, cultíssimo e que uma vez a cada dois anos aprecia sair de órbita e, transfigurado, viver com denodo duas ou três semanas de bebedeiras desbragadas. E o posudo e sempre constante E.B.S., garçom das esferas, haicaísta de primeira hora e por vocação, príncipe quintessencial. Com F.R.L. estreitei laços de compadrio, embora não mais nos falemos. Por preguiça, quem sabe? Ou por não termos mais o que dizer? Sabe-se lá. E, o pequeno M, vulgo Vinagre. E o destemido E., vulgo Timmy. Guardo religiosamente suas almas, que roubei.

E, claro, há minhas bruxas mais recentes, mas não menos queridas.

Então, louvo e lembro ao C. N., mestre da eletrônica sagrada, atendendo ao mundo em sua Garagem Hermética, à moda de Moebius. E o sempre inquieto D, pirotécnico de escol e mestre pandorgueiro, molde de onde saíram todos os corintianos. J. R. G. F., de brancas cãs e espírito de moleque. Recentemente voltou a fumar, parte de seu projeto de morrer antes dos noventa. E não, não poderia esquecer de R. P. A., agora no ofício de escrevinhador em exercícios diários de contradição (Certo Disso?). Com ele discuto sobre deuses e sobre a Lei e de quando em quando, diligentemente, salvamos o Brasil do abismo.

Taí, a postagem voltada para o meu próprio umbigo (sinto ferventes minhas fauces e creio que coro).

Amigos, posso voar.

Evoé, minhas bruxas.