Como se darão os fatos, como serão as cousas

Weeping Angels Versus The Doctor - DeviantArt - Tratamento de imagem de Severino Pelvelso

Weeping Angels Versus The Doctor – DeviantArt – Tratamento de imagem de Severino Pelvelso

 

 

É…

Contratei os anjos no terceiro dia, não esperei que se confirmasse que eram mesmo, de fato, os anos de praga. Fui expedito e precavido. Previsto o pior, passei à ação.

Três anjos contratei. Caros, mas nada assim tão caro como um anjo de primeira linha, cantor de coros celestiais, um daqueles de seis asas, por exemplo. Mas bons empregados, não obstante.

Experientes, obstinados e totalmente leais.

“Algum problema na contratação? Quero dizer, foi fácil, sem problemas?”

Fácil. Mas veja que eram ‘bagrinhos’, sem sindicato e os contratos saíram em nome dos grandões da estiva, os caras cheios de “El” no nome. Fácil.

“Sinteticamente. Serão usados no que e para que?”

Controle de multidão, principalmente. Antevejo uma época de profunda desagregação a qual apelidei de “Parúsia”, quando começarão os arrebatamentos, os sinais, as pragas, o choro e o ranger de dentes. E, por favor, perceba o detalhe, todas as operações se concentrarão na Jerusalém Celestial. Isso facilita em muito o planejamento das ações de contenção e proteção.

“E usarão o que? Espadas de fogo, armaduras e rotinas do tipo ‘Miguel Arcanjo’?”

Não, não, não. Automáticas, granadas, até mesmo aqueles adoráveis mísseis de curta distância. Resolvemos modernizar em todos os setores.

Usando de sua palavras, será uma rotina do tipo “Do trono emanavam relâmpagos, vozes e trovões”. Percebe?

“Alguma ideia da opinião dos agentes do Cordeiro?”

Sei que não se envolverão, embora…é…não seja de sua natureza aceitar as ações autônomas. Mesmo ações como a nossa, apoiadas por nove em cada dez ‘homens de Deus’.

“E quem serão os preferenciais, digo, os que receberão os ‘relâmpagos e trovões’?”

O basicão. Livre-pensadores, ateus, comunistas, juízes de futebol, editores-chefes…todos os pecadores, assim…ah, de modo geral.

“Teremos pranto, então?”

E alguma pipoca, não pode faltar.

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AS AVENTURAS DE KAMIKAZE JOE

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Startling Stories – Capa de maio de 1936

 

 

 

No universo número 1, na Demanda da Torre de Cristal, Kamikaze Joe e seu parceiro Temujin Pancho salvaram a princesa Cassiopae de um destino pior que a morte. A seguir, suado e sujo da batalha, Kamikaze Joe a tomou em seus braços e a beijou apaixonadamente, o que para algumas línguas ferinas do reino foi, aí sim, um destino pior que a morte.

No universo número 37 Kamikaze Joe foi convidado para as Justas de Dragões pelo próprio Duque Negro, o senescal do rei. Lá, assistido pelo indefectível Temujin Pancho, Kamikaze Joe venceu todas as provas, com isto ganhando o direito à mão da filha de seu patrono, Stella, baronesa de Bereshit, aliás, herdeira do trono ducal. Cavalheirescamente, Kamikaze Joe abdicou da honra, embora tenha aceitado uma noite de prazeres com a belíssima jovem. Importa comunicar que desta feita, de banho tomado.

No universo número 222, no Grande Porto dos Navios do Céu, Kamikaze Joe embarcou na Briolanje, fragata ligeira, mas bem armada, com destino às guerras estelares em Beta Thataghata. Todos já ouviram de suas vitórias, claro, mas não custa lembrar aos desmemoriados que a conquista de Inocência, Terranova e Aquitânia-Sobre-Delta-Pavonis não teria sido possível sem sua mestria no comando da Frota Infinita. Ainda hoje se conta com admiração a alegria das massas ao avistarem os costados azuis e dourados da Arcalau, sua nau-capitânia.

No universo número 511 Kamikaze Joe jogou xadrez de seis camadas com a própria Morte, conforme se pode ler nas inspiradas páginas do Kamikazion, finamente escritas pela fiel pena de Temujin Pancho em seu exílio em Nova Tessália.

Entretanto, no universo zero, neste universo para ser mais exato, Kamikaze enfrentou sua batalha mais renhida. Foi neste universo, apurem olhos e ouvidos, que Kamikaze Joe foi entrevistado por Tânia Mara da Silva Mazzini, também conhecida como a Bruxa Vermelha, com vistas ao emprego de auxiliar de limpeza no famoso Centro Comercial. Aquele.

Foi neste universo zero e somente neste que Kamikaze respondeu de onde viera, qual sua escolaridade e quais foram suas experiências anteriores. Foi lá que lhe informaram da inviabilidade de sua contratação, visto que residia em mui afastado bairro da periferia, mas que não desistisse e esperasse por eventual nova convocação.

Foi neste universo que kamikaze Joe tomou três conduções até o seu bairro e, contando seus trocados, decidiu por uma parada na Padaria Santa Edwiges, também conhecida como Taverna do Unicórnio.

Foi neste universo e nesta Taverna do unicórnio que ele, o magnífico Kamikaze Joe, trocou amenidades com Jhonny Carlos de Santana Nicolau, mais conhecido como Temujin Pancho.

E foi Temujin Pancho, ali trabalhando como balconista (temporariamente), quem disse a frase hoje antológica: “Mano…dureza”.

Kamikaze só pode concordar, acendendo com resignação filosófica seu último cigarro paraguaio com seu último bastão-laser.

Um modelo já antiquado, de baterias nucleares a fusão já se esgotando. De marca BIC.