IDENTIDADES: UMA AMOSTRAGEM DE ROSTOS, ACOMPANHADA DE PEQUENAS E TERNAS INDIGNIDADES

Bulldog - David Rapoza - DEVIANTART

Bulldog – David Rapoza – DEVIANTART

1 – Exterior – dia – Tomada panorâmica da cidade. Do alto, prédios e mais prédios. Um dia frio e com vestígios de chuva recente. E em crescendo, um zoom que vai cada vez mais perto de uma parte arborizada, um parque, sempre em ângulo reto em relação ao solo. Vêem-se duas bicicletas.

MÚSICA: Moto Continuo de Radamés Gnatalli. Adequadamente sinuosa.



CRÉDITOS: As bicicletas, vistas a partir das traseiras (a música pára) e depois de frente para os ciclistas, Selma e Geofroy. Ambos convertem para uma aléia e dali para um bicicletário, onde deixam as bicicletas atadas (a música retorna, mas apenas como uma sugestão, um motivo breve). Os créditos são breves, se limitando ao nome do diretor, do produtor e dos atores, sem título.

2 – Um casal de idosos passa. Ambos na casa dos oitenta anos. A mulher, usa roupas leves: calça de linho branco, camiseta branca sob um casaco tricotado azul-pálido. Seus cabelos são totalmente brancos e seu rosto é bonito, não, digno. Não, bonito. O homem usa agasalho branco, sem marca visível e aparenta estar em processo de recuperação de um derrame. O rosto é alheio ou talvez apenas ele não possa mais controlar de todo os músculos da face. A mulher o apoia na caminhada, mas dá a impressão de não o fazer, se achegando ao marido, com um riso leve sempre permanente.

CORTE PARA:

3 – Selma e Geofroy. Frontal. Ambos caminham, silenciosos. Ela, mulher de pouco mais de cinquenta anos, pequena, cabelos pretos e curtos, olhos talvez claros. Um corpo esguio e um ar decidido que seria ameaçador se não fossem seus olhos brilhantes. Ele, pouco mais de vinte e cinco anos, alto, barba por fazer e olhos bondosos de menino perdido, sempre mirando em volta (câmera subjetiva), observando o casal de idosos que passa, ciclistas e pessoas encapotadas que passam.

4 – Um homem de seus também cinquenta, calvície avançando, calças jeans e blusão surrado de camurça, caminha solitário. Guilherme.

MÚSICA: Tintinnabulum, de Marcos Visconti. As notas soltas do piano vão pontuando a caminhada.

5 – Interior – dia – um restaurante ou cafeteria. Mesas simples, toalhas simples, uma única atendente com aparência de proprietária, usando um lenço púrpura ao pescoço. Uma outra mulher no caixa. O lugar é pequeno, mas arrogante. A simplicidade do lugar é arrogante. Muitos e diversos pães no balcão e nas mesas. Sucos multicores, cafés. O lugar vende saúde. Público classe média. A música continua, agora com os violoncelos. Selma e Geofroy estão sentados na mesa mais externa.

6 – A proprietária se aproxima, sorridente, sob o olhar de Geofroy (câmera subjetiva). A música diminui gradualmente.

CORTE PARA:

7 – Exterior – O casal de idosos, ainda caminhando. Flora e Heron.

HERON

Voz pastosa, mas inteligível.

Acho que não tá dando certo…essa coisa toda.

FLORA

O que não está dando certo?

HERON

As…essas caminhadas. Não sinto melhora, só cansaço. Muito cansaço. Muito aborrecimento.

Heron volta a ficar em silêncio, com um ar perdido, seu andar trôpego e perdido. Flora não aparenta ter se impressionado.

FLORA

Você está andando. Podia não estar andando. Prá mim é progresso bastante.

FADE OUT PARA:

8 – Exterior – Uma confluência de caminhos no parque. A cerca de trinta metros, uma banco com um único ocupante. Um homem negro, sessenta anos presumíveis, cabelos pixaim projetando-se em todas as direções. Barba branca. vestindo roupas maltrapilhas, mas paradoxalmente elegantes. Casacão cinza de lã, puído. Calças de ganga, tênis velhíssimos e desbotados. Um braço cruzado no peito e outro segurando o queixo, perna cruzada por sobre a outra. Um divertido ar senhorial. A Câmera se aproxima, ao som de música de câmara.

MÚSICA: o arranjo de Marcos Visconti para o famoso Segundo Movimento da Sétima de Beethoven: violoncelo, volino, viola da gamba, berimbau e piano.

9 – O homem negro, Vicente, sentado dignamente, mirando com intensidade brincalhona a câmera. Depois, correndo o olhar para as árvores (câmera subjetiva), o casal de idosos passando, o solitário Guilherme indo e passando por eles, a cafeteria mais ao fundo, com Selma e Geofroy sentados à mesa. O olhar subjetivo de Vicente se fixa a sua frente: vemos o cameraman e a equipe por detrás. Iluminador e operador do microfone, como um pescador com uma gigantesca vara segurando uma isca felpuda, trinta centímetros acima da cabeça de Vicente.

CORTE PARA:

9 – Vicente, tomada de torso. Ele agora sorri.

CORTE PARA:

10 – O casal, se afastando de Vicente. Tomada de frente.

CORTE PARA:

11 – Selma e Geofroy, entre pães e sucos. Geofroy não está comendo e continua, até mesmo acentuado, com seu jeito de garotinho perdido. Selma come e bebe, alheia. Decidida.

CORTE PARA:

12 – Vicente, mãos nos joelhos, sentado, mirando carinhosamente a câmera.

CORTE PARA:

13 – Olhar subjetivo de Vicente: cameraman e equipe não são mais vistos.

CRÉDITO: em FADE IN aparece o título: IDENTIDADES.

14 – Vicente, visto a partir do torso, começa a falar.

VICENTE

Um galinheiro. Um galinheiro sujo e desconfortável. Foi assim que Frida Kahlo descreveu Nova York em 1931 ou 32, não me lembro bem.

15 – Close no rosto de Vicente.

VICENTE

Não chego a tanto, mas também nunca vi Nova York.

Pausa.

E aqui, bem…aqui pode ser bem ruim, as vezes. Principalmente em dias frios e hoje está frio.

Pausa. Vicente sorri e alisa o desgrenhado da barba.

Tudo o que eu sei é que agora podemos…com decisão, mas com cuidado…começar.

CORTE PARA:

16 – O banco de Vicente, visto de lado. O cameraman e equipe, visíveis novamente, se afastando lentamente.

MÚSICA: retorna o Moto Continuo, de Radamés Gnatalli, em crescendo.

CORTE PARA:

17 – A visão subjetiva se afastando de Vicente, cada vez mais, até se tornar um ponto, cercado de árvores e passantes.

FADE OUT PARA:

18 – O parque, extático, visto do alto. A música chega ao fim.

CORTE PARA:

19 – Tela em preto.

FADE IN  PARA:

o número “1”, brilhando no centro da tela.

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2 comentários em “IDENTIDADES: UMA AMOSTRAGEM DE ROSTOS, ACOMPANHADA DE PEQUENAS E TERNAS INDIGNIDADES

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