Kamikaze Joe e as Sereias de Ébano

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A pena inspirada de Temujin Pancho nos conta no Kamikazion que Kamikaze Joe visitava o universo número 222, pouco antes de despertar e sair para o trabalho.

Era e ainda é lugar de maravilhas, de magias escolhidas, de guerras aeronáuticas travadas por dirigíveis com quilômetros de extensão, de milhares de Graals somente esperando seus cumpridores de demandas.

Falo, e é claro que todos já perceberam, de Bombalurina 33, no setor do Dragão de Caça, logo ali a direita do Saco-de-Carvão.

Pois bem, uma nave avariada forçou nosso herói a uma parada fora de seus planos. E dado que a tecnologia Bombaluriana ainda não ultrapassara (e ainda não ultrapassou) a idade atômica, para não mencionar outras especificidades, foi uma longa temporada esta que reteve nosso aventureiro preferido sob os verdes céus e os triplos sóis.

Não, não nos deteremos nas descrições, quiçá enfadonhas, do Porto do Céu, nem falaremos das Kalavinkas sobrevoantes, nem da austera, mas magnífica arquitetura da Cidade Velha.

Os tempos eram de crise, a Rainha-Mãe morria lentamente e os Sobrinhos-Reis estavam encerrados no conclave da Ilha Firme. Tal não impediu que a sempre falada hospitalidade bombali mostrasse sua presença e Kamikaze se viu hóspede da Margravina em pessoa.

Kamikaze ressonou e encolheu-se contra a parede.

Os dias se passaram então em discretas festividades a honrar o importante hóspede (discretas. A Rainha morria, os reis em conclave, etc.). É claro que discretas do ponto de vista dos bombalis, o que é uma grande diferença.

Eis então que chegou a mensagem, urgente, imperiosa, trazida pela manhã e pelas fadas secretárias. A Rainha escolhera seu anjo de morte e a notícia apanhou nosso herói em deslustrosa nudez, em jucunda foda com Jade e Rubi, as netas da Margravina.

Para os mais afoitos e dedicados à luxúria recomendo as páginas 33 e 34 do tomo III do Kamikazion, profusas em descrições de seios túrgidos, bundas empinadas e interessantes variantes das posições sexuais mais conhecidas.

Nunca se disse que Temujin fosse pudibundo.

Mas o fato é que Kamikaze Joe foi escolhido para liderar o féretro da Rainha-Mãe, função sempre entregue a hóspedes ou mendigos, o que viesse primeiro. Significava também uma penosa viagem pelo oceano Caldeirão até o pequeno continente de Bonifácio para, após uma temerária expedição por selvas fumarentas, desertos de asfalto e desfiladeiros coalhados de criminosos Neanderthal,  se chegar ao lago Hemorragia.

Aliás, só para o perfeito entendimento, são verdes as águas do Hemorragia, como o sangue Bombali.

Também não vamos nos estender sobre as inúmeras aventuras protagonizadas pelo nosso Kamikaze Joe, nem falaremos de suas vitórias, de sua notável habilidade no comando da pequena tropa dos Infantes Funerários. Calaremos mesmo sobre os boatos da bacanal ocorrida na tribo Neanderthal dos Espremedores-de-Urso, onde se ventilou ter Kamikaze se submetido à prática do fio-terra sagrado com a xamã Tectonpalmiraba.  Mais uma vez, o Kamikazion, etc., etc.

Kamikaze emitiu palavras desconexas, puxando as cobertas até seus pés, aflitivamente.

 

Mas tergivesamos. Voltemos ao lago Hemorragia onde se deu, assim nos contou Temujin Pancho, a perigosa entrevista com as carpideiras reais, as Sereias de Ébano.

Foi na ilhota situada no centro do lago, donde se avistavam as cariátides do templo de São Pancrácio de Bombaluria. As águas repletas de magníficos corpos cor de breu.

Elas aguardaram até Kamikaze chegar a beira d´água, a comitiva esperando mais atrás, em tensa expectativa. É sabido que a entrevista é crucial para o bom andamento dos enterros reais, e mais de um reinado acabou em desgraça, no mais completo caos, ante uma falha de um líder de comitiva.

Acresce que era estrangeiro, Kamikaze, pouco versado na complicada etiqueta de morte bombali. Acresce que as sereias de ébano costumavam devorar aos líderes ineptos.

O psicopompo da comitiva aproximou-se e entregou a nosso herói o Penico Doirado, símbolo daquela tarefa santa, ainda contendo as últimas fezes ressecadas da soberana morta.

Também se aproximou do herói a margravina das sereias, agarrando-se preguiçosamente  à pequena rocha conhecida como Parlatório.

Da cauda delfinídea até os brilhantes dreadlocks azuis, ela mediria uns bons metro e oitenta. E é claro, dava-se a notar os grandes seios desafiando a gravidade.

Kamikaze Joe roncava.

Temujin Pancho pintou quadro magnífico da cena, recheando-o de pompa cerimoniosa, tendas esplendorosas da mais pura seda, um psicopompo vetusto e digno em barbas de pura neve (na verdade banguela, vesgo e com tique nervoso nos cantos da boca), ainda que verdadeira  a parte da taurobolíade nua sob os efeitos de maconha-brava.

O diálogo entre Kamikaze e a margravina, emerso da pena algo fantasiosa de Pancho, é até hoje modelo de oratória nas universidades bombalis.

Na verdade se deram de forma mais simples os fatos.

“Qual o segredo do morcego?”, perguntou sem delongas a sereia.

Kamikaze segurou seu membro por cima das calças e improvisou uma careta plena de safadeza.

“É isso aqui no teu rego!”.

Uma insinuação de sorriso e uma nova pergunta.

“Conhece o Mário?”.

“É o primo do meu caralho!”.

“A rosa no cume nasce?”. E a sereia bateu com a cauda agitando verdes águas.

“Quer alho?”, ripostou de pronto nosso galante Kamikaze.

A sereia começou a nadar, pensativamente. E de chofre proferiu o terrível Koan.

“Barafunda?”.

“Cú ou bunda!”, disse o herói, algo malicioso.

Passaram-se intermináveis minutos.

“Tá, pode mandar a véia…”, e mais não disse a sereia.

Durante o traslado do féretro, Kamikaze e a margravina das sereias de ébano dividiram, preguiçosos, uma garrafa de um raríssimo Conhaque Padre Cícero, Gran Reserva, retrogosto de asfalto.

Kamikaze Joe abriu os olhos.

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O HOMEM DOS BÚZIOS ME DISSE

The Magician – DevintArt – autor não identificado

O Homem dos Búzios me disse coisas. Espalhou as cartas que eu mesmo cortei e me mostrou o cigano, a cigana, o mago.

Me falou de Exú, o mensageiro, e da vida e da espiritualidade e das armadilhas em meu caminho e dos cuidados que eu deveria ter. Me falou de Ogum e Oxum e de minha latente mediunidade, de minha espiritualidade enterrada nas profundas profundezas abissais de meu imo.

Os meus orixás, daimons, guias, deuses pessoais, quiumbas, eguns. E fadas do verão e do inverno e gnomos, talvez numa concessão às Novas Eras. E de cães tibetanos guardadores de templos. Entidades.

E de facas, búzios, pedras, espadas, círculos mágicos, báculos.

Ferramentas diversas.

Tudo isso e mais o nada, o tudo, o meu momento, o momentos dos meus. Tudo embalado em cuidadosa e meiga simpatia oracular.

Não importa, me disse o homem dos búzios, que seja você um ateu (eu sou ateu), não importa se você se considera ateu (eu me considero ateu), não sinto você como ateu (eu sou ateu). Não importa se você não acredita em Dona Maria Padilha, no Seu Caveira e no Seu Sete Encruzilhadas.

O Homem dos Búzios me falou dos que queriam me prejudicar, dos meus puxadores de tapete que tanto amo e me pediu que lhe fizesse três perguntas, as quais, confesso, minha imaginação pouco pode suprir para as inventar. Mas as inventei e o Homem dos Búzios e das cartas me respondeu-mas e ,ó maravilha, eram as respostas que eu esperava e as acolhi pressuroso e atento.

O Homem dos Búzios enfiou suas místicas mãos em meus bolsos e de lá voltaram felizes as suas mãos.

O Homem dos Búzios. Meu lemba!

Agradeço.

Posso dormir hoje a noite munido dos corretos pesadelos.