TESTAMENTO POÉTICO

impossível

E então dei para construir minha morte futura, que quero digna, plácida e cheia de significados.

Penso em meus discípulos em derredor, a me circular, a mim, ao velho pornógrafo, ansiando pelas pérolas que certamente brotarão de meus perversos e luxuriosos lábios.

O sonho de meu coração.

Morrer como um velho sibarita, desfrutando das lembranças de um passado de pecados ignominiosos e continuando a pecar como sói peca um velho sibarita: do jeito que dá.

E as notícias de meu passamento para breve certamente chegarão aos ouvidos das massas. Imagino o alvoroço, a comoção. Ah, os frêmitos inesperados acometendo doces mocinhas! Ah, o choro e o ranger de dentes.

Falarão bem de mim, sei que o farão. Elogiarão minha coerência: minha completa falta de fé no invisível, minha covardia gloriosa e plena, minha amoralidade congênita.

A morte que mereço, a de um meigo facínora.

Mal posso esperar.

Na verdade, posso sim, esperar.

Bastante.

DOM CAVALO

Surreal photo-manipulation 8 - by Michel Cheval

Não é um cavalo.

Era um cavalo honesto, trabalhador e sério. Ia muito ao cinema e gostava de azarar eguinhas moçoilas nas “soirées” de sábado. Era um cavalo politizado, pertencia aos quadros do partido comunista desde mocinho e fazia discursos inflamados aos colegas de trabalho na hora do almoço, as vezes cuspindo pedaços de farelo para todo lado. Trabalhava na Antárctica como supervisor de burros carreteiros. Um dia, pois sempre há um dia, teve uma crise que poderíamos chamar de filosófico-espiritual e renegou o partido, seu ateísmo e entrou para o seminário. Eis que hoje pondera, junge, admoesta, aconselha. Nunca imaginou-se que subisse tanto, mas subiu e hoje o temos aí, um príncipe da igreja. Hoje ainda, eu que antes lhe estreitava os cascos num caloroso cumprimento de amigos, hoje beijo seu anel cardinalício e o chamo, respeitosamente, de Dom Cavalo. Não sei por que conto a historinha. Mas era um cavalo.