TESTAMENTO POÉTICO

impossível

E então dei para construir minha morte futura, que quero digna, plácida e cheia de significados.

Penso em meus discípulos em derredor, a me circular, a mim, ao velho pornógrafo, ansiando pelas pérolas que certamente brotarão de meus perversos e luxuriosos lábios.

O sonho de meu coração.

Morrer como um velho sibarita, desfrutando das lembranças de um passado de pecados ignominiosos e continuando a pecar como sói peca um velho sibarita: do jeito que dá.

E as notícias de meu passamento para breve certamente chegarão aos ouvidos das massas. Imagino o alvoroço, a comoção. Ah, os frêmitos inesperados acometendo doces mocinhas! Ah, o choro e o ranger de dentes.

Falarão bem de mim, sei que o farão. Elogiarão minha coerência: minha completa falta de fé no invisível, minha covardia gloriosa e plena, minha amoralidade congênita.

A morte que mereço, a de um meigo facínora.

Mal posso esperar.

Na verdade, posso sim, esperar.

Bastante.

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