NA FILA DA BIQUEIRA

Drugs_by_96jac

“Bom dia, terá o senhor derivados processados de certa planta nativa do Perú para venda? e…hum, talvez alguma erva exótica aparentada com o cânhamo e…deixe-me ponderar, talvez algum alucinógeno de matriz sintética?…não, não, as meta-anfetaminas não que me dão azia.”

“no cartão?”

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PERVERSÕES DO SILÊNCIO

O Velho Guitarrista - Pablo Picasso

O Velho Guitarrista – Pablo Picasso

Que fique claro que sou homem atento ao meu tempo, mas cretino.

Corintiano Voador

 

Não percebem? Há um silêncio, me desculpem o paradoxo batido, ensurdecedor. Não podem senti-lo?

Isto não pode durar muito. Quanto tempo até a leviana existência deste silêncio nos alcançar na esquina, na cama?

Há um conto de Franz Kafka no seu Notas do Ano 1920, no qual o personagem, chamado ali simplesmente de Ele,  se defronta num sonho com dois adversários, um dos quais quer empurrá-lo para a frente e o outro lhe bloqueia o caminho, empurrando-o para trás. A diferença aqui é que duas forças de igual valor se contrapondo gera imobilidade. Mas não há imobilidade por que existe ali o terceiro envolvido, o sonhador.

A lembrança do conto não é minha, mas de Hannah Arendt no seu Entre o Passado e o Futuro, que tem tradução em português pela editora Perspectiva.  Me envergonho da referência, claro. Citar de alguma forma Arendt nestes tempos é passatempo preferido de quem não leu Hannah Arendt. Mas arrisco.

Arendt vê nesta, digamos, parábola Kafkaniana, a representação do passado e do futuro, com o homem ao centro, ator involuntário que não pode fugir a sua ação. Até porque há ação porque há o Homem .

Acabei, não cito mais.

Acabo também com o uso desta utopia intelectual chamada Homem que, a propósito, merece o desgosto que provoca no feminismo.

Homem não, humanidade. Nós. Mulheres e homens.

Escrevo diretamente do Brasil, podem me ver? Aqui? Somos nós, aqui e agora sendo cobrados por demandas do passado e sem saber como seguir adiante. Notaram? Ensurdecedora a coisa, o rugido sem som.

Não somos neutros, nenhum de nós.

O que perturba neste bramido denso, sem som, porque ouvir implica em diálogo, mesmo que todo ele feito de insultos mútuos; o que perturba é que sentimos o que a Besta já sente há algum tempo. Que é chegada, mais uma vez, a sua hora.

E mudo de prosa. Estou vendendo gente pobre para o comércio, indústria ou mesmo para o entretenimento. Dous contos de réis a fieira.

Interessados?

LEITOR PROFISSIONAL

CHERUBS ON AISLE 7 - by Brian Wallace

CHERUBS ON AISLE 7 – by Brian Wallace

What thoughts I have of you tonight, Walt Whitman, for I walked down the sidestreets under the trees with a headache self-conscious looking at the full moon… 

Allen Ginsberg – A supermarket in California

Leitor Profissional.

Não, não, nada assim tão final, tão eloqüente, pensei antes no sentido etimológico. Ler como profissão…de fé. Talvez. Mas Leitor Profissional, não obstante. O encanecido buscador, o desbravador de estantes, o freguês de sebos. O cretino de óculos.

O problema é que envelheço, os dentes amolecem e minha paciência diminui, míngua e por fim. Por fim.

O Leitor Profissional. Eu.

Já não leio resenhas, nem orelhas, desconfio delas, traidoras ou pior, nadadoras de superfície, navegadoras de cabotagem: generalistas, fúteis, práticas.

E livrarias também, delas e nelas compartilho em desavim, alimento para urticárias do espírito.

Livrarias. Prenhes de nada. Dezenas de metros quadrados de autores anglo-saxãos. James, John, Ivy. Adolescentes apaixonadas por vampiros, por anjos ou por magos. Crepúsculos. Ou livros cheios de seriedade, de autores anglófonos, monoglotas, com bibliografias em língua inglesa que é a única que existe, senão por que Deus escreveria a Bíblia nesta língua?

Adoráveis solipsistas. Mas até aí os romanos, os gregos, os chineses, os novaiorquinos sempre deploraram do patois dos bárbaros. Que somos nós, ainda que Profissionais.

O Leitor Profissional. O empregadinho de armarinho desconfiado de tudo e de todos, nunca satisfeito. Desconfiado de Chefs ingleses ensinadores de culinária francesa, caribenha, etíope. Desconfiado de filósofos que transcrevem a algaravia dos tempos em linguagem modernosa em revistas efêmeras, em nichos de jornais walkingdeadianos. Os autores do momento com selo de qualidade provando que são jovens ou se não pelo menos novos, indispensáveis.

Impenetráveis, profundos escrevinhadores. Melífluos e sérios, doutrinando, desfrutando de intimidade não outorgada com os que os lêem.

O Leitor Profissional, desconfiando dos que escrevem. Ainda que gostando ainda de Glauco Mattoso. Ainda que gostando de Cego Aderaldo.

O Profissional.

Conto agora um segredo: não há mais escrita por não haver mais o que escrever. O Século não se nos esconde. Pior, não há Século para ser mapeado e a palavra se não morre, está fraca, tísica como Marguerite Gautier e tão puta quanto.

Então escrevo, agora, a tecla premindo meus dedos.

Um profissional.