PERVERSÕES DO SILÊNCIO

O Velho Guitarrista - Pablo Picasso

O Velho Guitarrista – Pablo Picasso

Que fique claro que sou homem atento ao meu tempo, mas cretino.

Corintiano Voador

 

Não percebem? Há um silêncio, me desculpem o paradoxo batido, ensurdecedor. Não podem senti-lo?

Isto não pode durar muito. Quanto tempo até a leviana existência deste silêncio nos alcançar na esquina, na cama?

Há um conto de Franz Kafka no seu Notas do Ano 1920, no qual o personagem, chamado ali simplesmente de Ele,  se defronta num sonho com dois adversários, um dos quais quer empurrá-lo para a frente e o outro lhe bloqueia o caminho, empurrando-o para trás. A diferença aqui é que duas forças de igual valor se contrapondo gera imobilidade. Mas não há imobilidade por que existe ali o terceiro envolvido, o sonhador.

A lembrança do conto não é minha, mas de Hannah Arendt no seu Entre o Passado e o Futuro, que tem tradução em português pela editora Perspectiva.  Me envergonho da referência, claro. Citar de alguma forma Arendt nestes tempos é passatempo preferido de quem não leu Hannah Arendt. Mas arrisco.

Arendt vê nesta, digamos, parábola Kafkaniana, a representação do passado e do futuro, com o homem ao centro, ator involuntário que não pode fugir a sua ação. Até porque há ação porque há o Homem .

Acabei, não cito mais.

Acabo também com o uso desta utopia intelectual chamada Homem que, a propósito, merece o desgosto que provoca no feminismo.

Homem não, humanidade. Nós. Mulheres e homens.

Escrevo diretamente do Brasil, podem me ver? Aqui? Somos nós, aqui e agora sendo cobrados por demandas do passado e sem saber como seguir adiante. Notaram? Ensurdecedora a coisa, o rugido sem som.

Não somos neutros, nenhum de nós.

O que perturba neste bramido denso, sem som, porque ouvir implica em diálogo, mesmo que todo ele feito de insultos mútuos; o que perturba é que sentimos o que a Besta já sente há algum tempo. Que é chegada, mais uma vez, a sua hora.

E mudo de prosa. Estou vendendo gente pobre para o comércio, indústria ou mesmo para o entretenimento. Dous contos de réis a fieira.

Interessados?

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