A PRÁTICA E USO DO METATARÔ SEGUNDO VICENTE, O PRETO

MR. BEGGAR FELINE - By oO-Rein-Oo - DEVIANTART

MR. BEGGAR FELINE – By oO-Rein-Oo – DEVIANTART

Deve-se imaginar um mendigo, preto, belo e forte, com cerca de sessenta anos, de barba e cabelos quase totalmente brancos. Deve-se imaginar uma moça de vinte e poucos anos. Um dia chuvoso, talvez. Úmido ou frio. Melhor frio.

Basicamente você terá as vinte e duas lâminas do Tarô tradicional, desconsiderando os outros cinqüenta e quatro Arcanos Menores. Do ponto de vista do MetaTarô os “menores” são apenas variações, facilmente perceptíveis com a prática. Assim, os Cavaleiros ou Valetes serão relacionados, de acordo com a tirada, ao Mago, ao Imperador ou mesmo ao Louco. E, do mesmo modo, as Damas com a Sacerdotisa, a Imperatriz et alia. Para não falar dos simbolismos assazmente antigos e conhecidos da Taça ou Copas, do Malho ou Paus, da Espada e Ouros ou Rútilo.

“Uma questão de prática”.  E sorriu Vicente, como sói podem fazer mestres arcanos. Você já deve ter privado com algum.

“Coringas e o Louco?”

“Viu?, você já pegou a coisa”. Um ligeiro cumprimento, um quase imperceptível tremular de dedos e um quase sorriso. E a moça sentiu-se distinguida, cumprimentada e isto lhe trouxe desconhecido calor a seu coração, e vergonha por se dar ao desfrute de tal sentimento.

Era uma moça da classe das Subestimadas e você, Leitor ou Leitora, deve ser condescendente com estas infelizes criaturas nunca seguras de seu potencial.

Então, como já disse, considere, para fins práticos, apenas os Arcanos Maiores. E não tenha medo ao aproximar-se deles. Veja, com o Imperador considere que está tratando com todos os reis, presidentes, tuxauas, caciques, cãs e líderes; com o Sumo-sacerdote, todos os patriarcas, babalorixás e rabinos; com a sacerdotisa, as pitonisas, iaôs, santas, mulheres de sabedoria; com o Mago, cada prestidigitador, mágico, cada encantador de serpente e cada maluco trancado num laboratório consultando grimórios ou microscópios de tunelamento. E existem as variações do Louco, é claro. E, nunca esquecendo, nem sempre se pode distinguir as fronteiras entre um e outro.

“Desculpe, mas isso aí é um tanto óbvio. Cê sabe, cê vai achar a mesma coisa em livros de autoajuda…espero…é…não ter ofendido”. Isabel, que é como devemos chamar a moça, estava ajoelhada, segurando um livro e um celular na mão esquerda. E parecia confusa. E Vicente, nosso herói de agora, era apenas um mendigo, negro, alto, de meia idade e barbado. E grisalho. E conto isto para que vocês não se assustem com Vicente, que era meigo e sábio e tinha a voz meiga de um sábio e estava escarrapachado no chão, apoiado num banco de jardim do parque.

“Correto”.

“Certo”. E Isabel (você agora conhece Isabel) ajeitou-se, sentiu-se desconfortável por estar ajoelhada e sentou-se no banco.

Todos os Arcanos são arquetipais, mas nem todos são tão “óbvios”. A Lua, a Torre, os Amantes ou Namorados, o Mundo ou os Estamentos, são para serem “ouvidos”. Atente para a palavra! São antes “perguntas” e não “respostas”. Um conselho: os bons barcos balançam. O digno de admiração não são as melhores respostas. Qualquer um responde. Eu lhe aponto um dedo e você responde ao meu dedo, mas meu dedo é só um dedo.

A arte soberana é a da pergunta.

“Não entendi nada, desculpe”.

“Ótimo. Se entendesse, responderia. Já notou que é um contrassenso?”

“?”

Vamos tentar de outra maneira. Veja, por que está aqui, agora, falando comigo?

Isabel se remexeu, fez careta, mas não respondeu.

“E então?”

“Eu…assim, eu estava aqui no parque, passei por você e você me chamou e começou a falar de Tarô e depois do MetaTarô”

Não, seja honesta. Você andava pelo parque, por este enorme jardim público, e me viu, e parou quando me viu e então perguntou pelo MetaTarô. Você, claro, vai racionalizar. Não, eu não perguntei nada, Vicente, e será mentira.

A despeito de tudo, você está aqui, conversando sozinha com Vicente, o Preto. Perceba que sou preto. E um mendigo. E Você não me conhece. Então, como não perguntou?

“Eu não abri a boca…”

“O que só depõe a seu favor”

E voltando ao assunto, com o MetaTarô, acessível a poucos, conhecido só por poucos, você não consulta às lâminas. Você é consultada. Veja, as lâminas, do mesmo modo que você, são consumidas pela mesma curiosidade. Vamos começar a leitura?

“Vamos…?”

Certamente. Embaralho as cartas, agora: no fim dos tempos, entrópico até os bagos, existe um castelo ou um barraco ou uma tenda ou uma maloca ou um pagode, onde os restolhos da humanidade se abrigam, aquecendo-se uns aos outros. Estou falando deles, percebe? Os Arcanos Maiores, o melhor e o pior. O humano, o demasiado. A outra face nos encarando, no espelho. Elas. Eles. Nós.

E vinte e dois mendigos se postaram ao lado de Isabel e ela não vira nenhum mendigo chegar.

E é um lugar em lugar nenhum, cheio de abstrações e cheiros. Pode ver? E Isabel viu. Estão todos lá, os demônios e santos, os marcianos, São Jorge, o Superman, Sétimo Severo e a  Grande Mãe.

E Vinte e dois mendigos estavam ali, casualmente, ao derredor de Isabel e de Vicente, escarrapachado ao lado do banco de jardim. E também eu estava lá e também você, Leitor e Leitora.

E todos os Tzadikim, Tonico e Tinoco, Lisavetta de Batory, Morrison, seu Zé Pelintra, Maria Padilha e todos os milagres de Lourdes e de Aparecida e Marie-Bernard Soubirous recém saída de um riacho gelado onde vira a Virgem. E todos eles, incluindo os Neanderthals, que eram inteligentes e sábios e se acreditavam prediletos da Grande Mãe e morreram do mesmo jeito.

E é isso. E foi e será. O barraco do fim dos tempos. Agora, as cartas estão embaralhadas. Pergunte!

Evidente que Isabel se levantou e saiu dali correndo e você deve ser compreensivo, Leitora e Leitora, porque você fez o mesmo.

Por que? Por que Isabel, somente desta vez, não ficou e aguentou e ouviu? A resposta tão perto de si.

A mendiga Dejaneide Maria Bezerra que também era a Mãe teria dito a Isabel, teria dito a você, teria dito.

“Sim, ele te ama”

“Sim, ela te ama”

“Sim”

Eu me chamo Vicente. Sou preto. Sou alto e sou forte.

Tarô de Marselha

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