GLOSSARIUM BRASILIENSIS – LÉXICO BRASILEIRO PARA O FIM DOS TEMPOS. PODENDO SER TAMBÉM AGORA (Extrato aleatório em ordem desalfabética)

Caravaggio_-_San_Gerolamo

SÃO JERÔNIMO – Caravaggio

 

 

 

FACTOIDE – um vilão extraterrestre; uma acusação feita por desequilibrados a nossas impolutas pessoas. Serve para direitistas e esquerdistas.

RELAÇÃO DE PROXIMIDADE – imaginativa forma de dizer que você, se não é culpado, bem…você é culpado de qualquer maneira, visto ser cunhado do fornecedor de brindes cujos brindes foram vistos na mesa de outro culpado que mantinha relações de proximidade com mafioso célebre, visto que tinham o mesmo nome. Utilíssima para policiais e promotores de justiça em ascensão.

BUNDA – Uma fruta tenra a ser apalpada com ternura.

ABORTO – Termo ligado à concepção. Significa que uma mulher pode votar, mas não decidir sobre seu corpo; direito a ser exercido somente por sacerdotes: “todo valor ao feto e nenhum ao marginal”, já cantaram Gil e Veloso.

LOBBY – atos de vilania se perpetrados por nossos inimigos, que claramente estão se locupletando. Uma ocupação legítima se levada a cabo por nós mesmos, por nossos parentes ou por nossos ídolos.

PEDRA – também “crack”. Entorpecente de pobre: fica sempre no meio do caminho. Rende sempre algum. O bom policial sempre se referirá a ela como “esta verdadeira praga que destrói a juventude” (repórteres deverão anotar diligentemente).

USUÁRIO – termo a se usar quando um jovem de classe média baixa pra cima for encontrado com entorpecentes. Pobre sendo, maconheirinho safado, “nóia” filho-da-puta, são mais que aceitáveis.

MÍDIA – leitura tupiniquim do inglês Media, plural de Medium, ambos vindos do latim. No mais, não significa nada e eu não falaria nadinha de que qualquer um ligado à mídia. Ver IMPARCIAL.

DESCONSTRUÇÃO DE IMAGEM – outro nome para “duela a quiém le duela”, “resgataremos a verdade a todo transe”, ou ainda: “filma eu”. Se dirigida a nós devemos alertar para os “interesses escusos por trás”.

LULA – Cefalópode viscoso.

CARDOSO – Que tem cardos.

FACEBOOK – Feicebúqui. Círculo infernal onde os condenados são mergulhados em chumbo derretido, enquanto demônios negociam seus “like”. Também, vitrine.

GOOGLE – Gôgou. Um número incompreensível de tão grande.

POESIA – Um objeto magnético, secreto lugar de encontro de forças contrárias, segundo Octavio Paz. Atividade humana improdutiva a ser praticada com o máximo de ineficiência. Uma marca de cachaça.

GOVERNADOR – Uma abstração construída por um Saci a mando de um presidente.

ASTÚCIA – Prima da inocência e irmã da rosa.

SEIOS – Todo mundo deveria ter dois.

WOLFGANG AMADEUS MOZART – Um tipo de prestidigitador ou artista de circo – Ver CEGO ADERALDO.

PECADO – Direito de todos. Sempre lembrando que depois de pecar, é de mister lavarem-se as almas. Depois, pecar de novo.

AMBIGUIDADE – O acaso em equilíbrio.

JESUS – marca de refrigerante no Maranhão.

BILBOQUÊ – Palavrão bizantino.

SERÔDIO – “Chegou atrasado, né safado?”.

HISTORIADOR – O mesmo que “inventador”, só que dando aulas e recebendo pelas aulas.

CRISE – Uma época maravilhosa para autores de autoajuda saírem do anonimato, da crise e, consequentemente, do vermelho.

MONGA, A MULHER-GORILA – Dama com habilidades metamórficas geralmente contratada por parques de diversões de cidades do interior. Ver GLÁDIA, A MULHER-ARANHA.

SANTO IRINEU DE LYON – Ver SÃO CLEMENTE DE ALEXANDRIA.

ARMANDO CATALANO – Ver ZORRO/ PROFESSOR JOHN ROBINSON.

CRIAÇÃO – Manufaturação de universos e cosmologias diversas praticadas por divindades diversas.

CUBA – Local de destino de pessoas que odiamos, embora sem que o saibamos bem por que, mas que odiamos mesmo assim.

CONTRADIÇÃO – Parceria entre a realidade e nossos desejos mais recônditos.

COMUNISTA – Surrealismo em doses nada homeopáticas. Deve-se proferir com ódio e asco, como se soubéssemos o que significa.

INTELIGÊNCIA – Coisa a que tomamos de empréstimo.

DULCINÉIA – Uma Aldonza quase inexistente.

SANCHO PANZA – Antigo governador de Barataria.

QUIXOTE – Um louco a toda prova, mas com método. Ver POLÔNIO/ HAMLET.

CORINTIANO VOADOR – Torcedor alado de agremiação esportiva brasileira.

Anúncios

Uma pessoa profunda e sábia, eu…

 

anna-bodnar-3

Sem título – ANA BODNAR

 

 

 

A melhor coisa até agora, a que deixa o mais doce retrogosto é o fato simples e cru de que eu não tenho nada a dizer, nada a escrever, nenhum pensamento novo, nenhuma reflexão sobre o tempo e as coisas.

Eu. Nada tenho a fazer ou sentir. Não tenho nada a ver com o que está por aí e nem sinto qualquer necessidade de discutir o momento atual.

Estou. Equidistante de Brasília e da moda e das lutas e do amor. E dos ódios e da cozinha simples e da batalha dos chefs.

E nem. Não ligando para a saúde, nem dando conhecimento à dorzinha esquisita no braço esquerdo.

Estou fumando três cigarros por hora. Viu? Mais um. E mais um copo de vinho. Ao bar, claro, estou indo como quem vai à latrina, por necessidade. E fico lá, por horas, às vezes só, com uma long neck e um copo de cachaça dita de Salinas, tendo como companhia a televisão em algum canal de esportes.

É quase inacreditável. Nada a dizer, escrever ou almejar.

Alcanço agora felicidade da qual não supunha merecedor: a de comentarista do Nada, descritor solene de um saco vazio.

Só me falta uma figueira, uma serpente gigante, um Satori.

 

Agora, vamos ao jogo de armar:

 

A melhor coisa até agora, a que deixa o mais doce retrogosto é o fato simples e cru de que eu tenho tudo a dizer, tudo a escrever, infinitos pensamentos novos, infinitas reflexões sobre o tempo e as coisas.

Eu. Tenho tudo a fazer ou sentir. Tenho tudo a ver com o que está por aí e sinto profunda necessidade de discutir o momento atual.

Estou. Entranhado de Brasília e da moda e das lutas e do amor. E participante voraz dos ódios e da cozinha simples e da batalha dos chefs.

E sim. Dando enorme importância para a saúde, dando toda minha atenção à dorzinha esquisita no braço esquerdo.

Não estou fumando três cigarros por hora. Viu? Nenhum. E nem mais um copo de vinho. Ao bar, claro, estou indo como quem vai a uma festa, há muito esperada. E fico lá, por horas, nem sempre só, nem sempre só com uma long neck e um copo de cachaça dita de Salinas, mas sempre tendo como companhia a uma legião de conversadores e algum canal de esportes.

É quase inacreditável. Tudo a dizer, escrever ou almejar.

Alcanço agora felicidade da qual não supunha merecedor: a de comentarista do Todo, descritor solene de um saco cheio de plenitudes.

Só me falta uma figueira, uma serpente gigante, um Satori.

EXTRATO DE DIÁLOGO ENTRE DEUS E JUAN

william-blake-ancient

The Ancient Of Days – William Blake

 

 

 

“Bem, o que temos prá hoje?”, perguntou Deus-Todo-Poderoso.

“Não existe hoje, Vossa Divindade…”, balbuciou meigamente o místico louco recém saído de uma Longa e Escura Noite da Alma.

“Ah…é”. Cofiou a barba ou ajeitou as madeixas ou os dreadlocks, dependendo de qual face de Deus estejamos a falar.

Deus é máscara. Uma para cada ocasião.

Existe um Deus marciano, mas seu aspecto quase não é mais visto, ou melhor, não é mais visto. Ou ainda, só será visto mais uma última vez quando a pessoa que dorme na pirâmide acordar.

“Fico preocupado, Divindade, digo, a pessoa que dorme na pirâmide em Marte é seu último adorador naquele orbe. Então, se e quando ela acordar e se e quando ela morrer após acordar, significa que um aspecto Vosso irá fenecer?”

“Não tenho adoradores, Juan. O próprio conceito é ofensivo”. Juan aguardou, expectante.

“O que eu tenho são dependentes, inquilinos”. E Deus sorriu, matreiro.

“Senhor…?”

Neste momento Deus ficará irritado com o teor deste texto, com suas importunas referências, com suas incongruências, com o nonsense, enfim, de misturar misticismo e marcianidade.

“Paga o que me deves!”

“Senhor, não entendi…”. E João da Cruz, inquilino de Deus, derreteu-se em um amálgama de medo e êxtase e deixou de existir. Provisoriamente.

“Este texto acaba agora”, disse o Senhor e eu tremo, mas ainda continuo a existir.

Seja feita tua vontade, Ó Senhor.