E essoutro…também.

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POR QUE A BALADA

OSSOS DO OFÍDIO

Às vésperas da sétima edição da Balada Literária eu gostaria de deixar aqui um poema. Longo. Uma palavra, assim, na página. Uma celebração da poesia, da literatura. Eu gostaria de fazer diferente, hoje. Não falar da programação, que todo mundo já conferiu e pode conferir aqui no site. Eu queria uma razão do tipo: por que fazer um evento deste jeito, a duras batalhas. Na raça e na alma. Meu Cristo! Por isso, creio, escolhi o poema Auto-Retrato, abaixo, do baiano Fred Souza Castro. Explico: estive em Salvador em julho deste ano, sendo um dos jurados de uns editais de lá. Entre os livros que apareceram, veio um original do Fred. Ele, por unanimidade, recebeu a nossa aprovação. E louvação. Descobrimos que o grande poeta tinha 81 anos e morava no interior da Bahia. Quanta alegria a descoberta de um artista. Cheguei a fazer o convite para que ele viesse participar desta Balada.

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ATENÇÃO, O BLOGUE REVELA AGORA SEU PLANO PARA SALVAR O BRASIL. APAGUEM SEUS CIGARROS, POR FAVOR!

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HI BRO – By Sabercore23ArtStudio – Deviantart

 

 

O Brasil.

Pronto, já falei do Brasil. Evidente que sem cerveja ou cachaça ou mesa de bar se nos é quase impossível salvar ao Brasil. Não obstante, combateremos de pé.

Um modo eficiente de salvar nossa pátria é decretar. Então, decretemos: Pátria, teje salva!

Sem risos, por favor.

E mais importante:

Vocês aí do fundo, parem de copular!

AS TRÊS IMPORTUNAÇÕES MÍSTICAS DE S

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EARTHEN EMPRESS by Ophelia-Overdose (DevinatArt)

 

 

 

S, como a chamarei, era e sempre seria uma mulher esbelta, alta e de cabelos pretos, mesmo quando havia cinza e depois branco por baixo.

Sua primeira experiência mística se deu aos dezenove anos.

Fora pouco antes das sete da manhã e S estava a menos de uma quadra da tecelagem onde trabalhava[1], quando o tempo parou, todas as coisas pararam e um silêncio de algodão desceu sobre a rua. Ali, com os carros e as pessoas parados, S não teve medo. Depois, pensando melhor sobre o ocorrido não chegou a um acordo sobre o que sentira, como se até seus sentimentos tivessem sido postos em suspenso.

Na rua congelada viu a mulheres e homens vestidos em roupas finas e caras de todos os tipos. Ternos conservadores e ternos modernos, vestidos finos, colares, sapatos, sobretudos, um ou outro até com peles. E ela sabia sem saber como sabia que eram anjos, simples assim[2].

Circulavam pela rua com calma determinação, aproximando-se das pessoas congeladas, abraçando-as, falando a seus ouvidos. Vez por outra tocavam uma pessoa e a faziam movimentar-se em lenta viscosidade.

Um grupo, duas mulheres e um homem, empurraram um jovem raquítico para frente de um carro agora imóvel, mas antes em alta velocidade. Uma mulher vestindo jeans passou por S e parou um momento a sua frente e endereçou-lhe um riso estranho, como que desconcertada.

E então tudo acabou e o mundo voltou a correr e o garoto magro foi atropelado.

Talvez não seja comum, mas o fato era que S era extremamente inteligente, apesar do meio em que nascera e vivia. Então S, que não era limitada, soube no mesmo instante que passara por uma experiência mística.

Claro, não fora como esperava. Não tivera quaisquer dos sinais que sempre associara a tais experiências, tais como iluminação ou um sentimento de eternidade. Fora mais como uma olhada na casa de máquinas do Real.

Não obstante, S não saiu incólume da experiência.

Naquele mesmo dia, talvez duas horas depois, teve um acidente de trabalho que quase esmagou-lhe a mão esquerda (S era destra), foi levada ao hospital, medicada e liberada para que fosse para casa.

No caminho S passou por uma loja que vendia discos (era uma outra época, já falei que era outra época?) e comprou um long play de Thelonious Monk[3].

 

[1] S era filha de um metalúrgico vindo do Paraná e de uma doméstica nascida em Alagoas e, acreditem, o emprego na Tecelagem Gaol fora até ali sua maior conquista profissional. 
[2] Anjos vestidos com casacos de pele! Não se pode confiar em anjos, não mesmo.

[3] De uma coleção chamada Os Gigantes do Jazz. S gostava especialmente de Monk´s Dream. 

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Foi durante os sete meses de sua convalescença que S voltou a estudar e nunca mais parou. Depois demitiu-se da empresa, levou diversas surras de seu pai, suportou diversas cenas chorosas de sua mãe e decidiu não mais se casar com o rapazinho que frequentava a mesma igreja que ela e fora seu colega de escola.

Expulsa de casa, conseguiu moradia temporária na casa de uma amiga, prestou concurso, passou e tornou-se policial militar. Pouco antes de tomar posse submeteu-se a um aborto (não, o pai não era seu ex-noivo) e, para sua grande surpresa, não morreu e nem teve sequelas.

Também não quis se casar com o publicitário loiro e bem apessoado que pensava ser o pai da criança, pois o tinha na conta de um idiota[4].

Teimosamente, começou e terminou uma faculdade de direito para depois descobrir que odiava a coisa toda, apesar de uma brilhante atuação acadêmica.

Desligou-se da polícia, na qual tivera uma passagem discreta, jamais se envolvendo com ninguém e, mais intrigante, passando indene por toda a lavagem cerebral que lhe fora despejada pela instituição e por seus superiores.

Por esta época sua mãe a chamara para que visse que seu pai estava louco e andava nu pela casa, defecando em todos os cantos. S não atendeu a seu chamado.

E foi no hospital, onde aguardava que seus irmãos saíssem do quarto coletivo onde aquela mesma mãe finalmente alcançara o maior desejo de sua vida, morrer lacrimosamente[5], que S teve sua segunda experiência mística.

O mesmo anjo que parara a sua frente na rua congelada, a mulher de jeans, saiu do quarto da enferma e sentou-se a seu lado no banco duro de ardósia do corredor.

“Quarto 616, sexto andar. O elevador é por ali”. Disse.

O tempo parado. De novo. E S pensou em mandar a mulher para a puta-que-o-pariu, mas não o fez. O anjo-mulher ria suavemente, de modo que S achou melhor fazer alguma coisa, já que estava ali mesmo,  tendo uma experiência mística e o caralho e sem ter muito mais o que fazer.

“Tá”, disse e foi até o quarto de Benny[6].

[4] O que ele de fato era. 
[5] Mas não morreu. A mãe de S sobreviveria ao marido, um filho e morreria dormindo em 2018 (como eu sei? Isto é ficção, idiota!). 
[6] Por que Benny? As desculpas eram interessantes: o apelido teria sido dado por uma tia que vivera em Nova York. S achava era que era frescura de classe média mesmo e sempre chamou Benny de Beja.

 

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Nunca soube como chegou lá, nem como reuniu coragem para entrar, mas o fato é que ficou até às dez da noite conversando com um jovem de barba e cabelos ruivos, até se apaixonar por ele, isto por volta de 09:52 ou 09:53.

Ignorou, e Benny também, aos parentes que se iam chegando e saindo ao perceberem que não era lhes dada atenção.

O fato é que Benny morria.

De alguma forma se casaram, meses depois, sendo importante ressaltar que em nenhum momento S considerou se converter ao judaísmo. E não se converteu.

Outro fato é que Benny levou outros dois anos para morrer e mesmo ante a essa moratória do Divino não deu S qualquer importância, conforme comunicou a Nossa Senhora da Conceição durante uma visita a uma igreja de bairro[7].

Foram os anos mais felizes de S e de Benny, também.

Mais que esposos, eram cúmplices. Sem pressa alguma construíram um relacionamento, transformaram sua paixão em amor e saíram para a vida.

S descobriu que gostava de escrever e Benny voltou ao teatro. E S escreveu a peça e Benny a montou, depois veio a outra peça e quando se deu conta S estava também dirigindo, traduzindo, pintando e produzindo[8]. Sem outra desculpa por dar, teve por fim que se tornar uma agitadora cultural, fosse lá o que isso fosse.[9]

Nesse meio tempo nasceu Geoffroy, que S queria que fosse Lucas, mas aceitou o Geoffroy porque a alternativa era o nome do avô de Benny[10].

 

[7] S nunca explicara bem para si por qual razão levantara cedo e resolvera ir até a igreja, mas o fato é que o fez. Entrou no lugar pela manhã (sete horas…?), sentou no primeiro banco e fez sua primeira oração em anos. Fato estranho se considerarmos que S nunca fora religiosa (embora não comentasse o fato com ninguém), bem como que sua família sempre fora protestante. 
[8] S pintou uma cena da Natividade com uma virgem Maria vestindo bata de hospital em uma cama de hospital, tendo ao lado um José vestido como um rabino ortodoxo. S nunca conseguiu conquistar a família de Benny e nem mesmo fez muito esforço. 
[9] S sempre teve as mais cínicas opiniões sobre agitadores culturais, produtores e quejandos e durante todo o período “Benny” nunca os levou ou a si mesma a sério. “Você é daquelas que negam sua genialidade para ser deixada em paz fazendo suas ‘genices’”, dissera-lhe Benny em conversa de cama. “Genialidade é coisa de babaca, Benjamim Rosenblatt. E minha avó era preta e nordestina, daí que não posso ser ‘gênia’”. “e então…precisa do que prá ser gênio?”, Benny beijou-lhe um seio. “Sei lá, talvez uma profissão…vou pensar numa”. “Você tem problemas…” Benny, carinhoso. “Hum…problemas…é, pode ser. Para ser ‘gênia’ eu preciso ser, muito, problemática”. E por aí ia S. 
[10] O avô atendia por Samuel. Mais frescura de classe média, segundo S (embora S tenha gostado de Geoffroy, mas nunca o iria admitir).

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Cabalisticamente, no cemitério onde Benny estava sendo enterrado, S teve sua terceira e última experiência mística. Deixara o bebê com a irmã de Benny e fora sofrer no jardim quando o rabino apareceu.

“Não gosta de Rosenblatt?”. Gordo, baixo e com uma barba branca caindo no peito, o velhinho sentou-se a seu lado no banco.

“Como?”

“Rosenblatt, você não adotou o sobrenome de seu marido. Não gosta?”

S se lembrava de ter dado um pulo. O velhinho, educadamente, fingiu não notar. Usava um capote preto e um chapéu de copa alta.

“Jesus, ai meu Jesuzinho, de novo né? Tá acontecendo, não tá. O tempo parado e os anjos. Me diz que você não é um anjo!”

“Anjos gentios não podem entrar aqui. Questão de jurisdição. E eu não sou anjo, já antecipo, para sua tranquilidade.”

O jardim do cemitério fervilhava de senhores e senhoras, jovens, meninos e meninas, que S não tinha certeza se eram anjos ou fantasmas ou alucinações[11].

“E então…?”.

“Plá já é um sobrenome complicado o bastante…não acha?”

“Como é?”. O velhinho aproximou os ouvidos da boca de S.

“Plá. Meu sobrenome”, e pensativa: “escuta, cê é algum enviado de alguém com uma puta mensagem edificante ou alguma outra coisa babaca assim?”

“Ah, não. Sou parente do finado. tetra-tetra-tio-avô…ou mais um tetra”.

S abriu e fechou a boca, mas não conseguiu dizer o que queria dizer. Em vez disso: “olha, eu gostaria de ficar sozinha, agora, tá bem?”

Os homens e mulheres, anjos ou que fossem, começaram a circular pelo cemitério todo, abordando pessoas congeladas, exatamente como na primeira experiência mística de S.

“Sem problema, querida. Vim apenas transmitir um recado, coisa rápida”. O velhinho ria um riso leve de Bonzo.

“Qual o teu nome? Aliás, estamos falando em que língua?”

O velhinho sentou-se a seu lado.

“Para efeitos práticos, nenhuma ou todas. Para mim, por exemplo, você está falando em excelente alemão[12]. Meu nome é Lazar.”

[11] S era racionalista empedernida e desenvolvera teoria de que suas experiências místicas eram fruto de alguma mescalina natural produzida por seu cérebro. E era briguenta também, S. 
[12] O chamado efeito Pentecostes, muito útil na ficção para não emperrar os diálogos. Há muitas variações: na ficção científica serão culpados os tradutores universais, a telepatia ou então a extrema inteligência do alienígena. Nas ficções de fantasia podemos culpar a magia. No caso de Lazar, não pensamos ainda em nada de muito original. Sei lá é a melhor resposta até agora, mas estamos trabalhando em algo melhor.

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Lazar tinha uma voz linda, quente e profunda.

“Sei…Lazar Rosenblatt?”

“Chemboim. Lazar Chemboim. Pode me chamar de Senhor.”

“E qual é a mensagem, Lazar?”

O velhinho repreendeu, mudo e sorridente, com um dedo encarquilhado apontando diversas vezes para o rosto de S.

“Muito bem. A mensagem é…aviso, se preferir…conselho, é que você é capaz de, de quando em vez, perceber aos anjos fazendo das suas, a cada vez que resolvem “penetrar” entre um segundo e outro…”

“Você  os danadinhos mexendo com as vidas humanas, fazendo mudanças aqui e acolá, interferindo nas mentes…trocando peças. E isto é um dom raro. Deixa-os furiosos, aos filhos-da-puta, por não poderem fazer o mesmo com você. A não ser diretamente, como o anjo que lhe falou de Benny.[13]”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[13] Lazar, depois de morto, passou a não mais confiar em anjos, gentios ou não. Nunca se recuperara da descoberta de que os anjos não davam a mínima para o Livre Arbítrio. S também passou a nutrir certa ojeriza aos mensageiros do Senhor. Eis uma pequena amostra de um conto seu na revista Femina, edição de março de 2009 (a parte mais suave e família):

“ ‘Ele vem aí, você sabe…’, disse-me planando a poucos passos de mim, o rosto um tanto preocupado, um tanto já começando a denotar angústia. ‘Não é que eu não tenha passado por isso antes’, e aí mordeu uma unha, “mas é que…”, sei, sei muito bem. Ou melhor, sei nada, mas já aí é outra história. Mesmo com tudo o que… quer dizer, com tudo o que possamos fazer, nos preparar, essas coisas, nunca é o bastante, nunca…e de qualquer modo’.

                     Flutuou para perto de mim, o rosto sério, a boca em repouso.

                   ‘Sei o que você vai dizer, sei o que pensa. Pensa que não sei? Pensa em mim como uma putinha, fútil’. Começou a elevar-se, alguns centímetros por segundo, ‘tenho certeza, sei como é. Imagino mesmo que tudo que você pensa agora é em levantar minha túnica e me enrabar’.

                O que é verdade, muita, mas não deixo as coisas assim tão fáceis prá ele.

            ‘Pelamordedeus, seja mais digno! Você é um anjo, porra! Um filho da puta aí com seus bilhões de anos. Dê-se ao respeito!’

             Uma leve rotação e ele mostrou-me as costas, mas foi pior porque aí não resisti e nem vi porque deveria para dizer a verdade, aí então meti as duas mãozonas na bunda daquele safado, baixei ele mesmo até o chão e levantei a túnica branquíssima, pascal, arrepanhei-a em sua cintura e ali a sustive, e peguei sua mão branquíssima e pascal e fi-la segurar meu pau e deixei que o puto tomasse a iniciativa.

             Bem na pontinha, o cu angélico me tocou, ele começou a chorar baixinho enquanto encaixava, acomodava, o pescoço num movimento lânguido e sofrido deixou uma massa dourada de cabelos perfumados me entrar pelo nariz. ‘Não disse?, uma putinha.’

            ‘É tudo o que você é prá mim, RafaelAmielbundabel, biscate cósmica, anjinho chupa-rola.’

           Finalmente o empurrei contra a parede, empurrando ao mesmo tempo o meu pinto nas suas entranhas perfumadas, doces.

   ‘Eis aqui toda a substância ígnea de que você precisa.’ “.

O conto lhe rendeu certos dissabores. Rowena Castro, a editora, fez-lhe observar do desnecessário do texto, uma relação de amor e ódio entre um anjo e um ateu sádico. E, não sem razão, reclamou do anjo submisso e efeminado sendo abusado por um demente machista. S rebateu dizendo que a coisa era uma metáfora e ninguém entendeu nada. “Metáfora do que?”, perguntara a aflita Rowena. “Tá, então é pornografia e pronto!”. S nunca primou pela sutileza.

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S levantou-se.

“Se não fosse pelo anjo eu não teria conhecido o Beja!”

Lazar cruzou os braços por sobre os joelhos, numa irritação bonachona.

“É e veja no que deu. Benny casou-se com uma goy![14]”

E rapidamente acenou, como que para desfazer o comentário.

“Não, não entenda mal. Não dou tanta importância assim ao ocorrido. A morte nos dá novas perspectivas. Só estava querendo lhe apontar que o dom de ver aos anjos significa que você pode escapar de sua influência, o que pode ser bom”

“Beja foi bom…”.

“Bennys não acontecem todo dia, menina teimosa!”

S não podia objetar a isto.

“Escuta, eu vou esquecer tudo isso, você, os anjos e o caralho?”

“Não, você pegou os safados de surpresa. Muito embora eu não aconselhe a ficar espalhando por aí, se é que me entende.”

Uma mulher de uns sessenta anos, touca branca e avental, se aproximou e cutucou Lazar com cara de poucos amigos para S.

“Ah, minha esposa. Tenho que ir…bem, tchau.”

Na opinião de S a saída de Lazar e esposa pecou no quesito estético, por muito abrupta. Ela teria esperado pelo menos uma intervenção da velhota, depois mais um papo místico cheio de sabedora (o “tchau” não pegou legal, também), mas não rolou.

Aliás, S sempre associaria a esposa fantasmal e azeda de Lazar à atriz que interpretava Fruma Sarah no Violinista no Telhado. O filme, esclareço.[15]

E S saiu de novo para a vida.

Entrando com teimosia e garbo na sua nova fase de viúva, S ficou com o apartamento que dividira com Benny, recusando com uma insanidade toda especial a receber qualquer outros bens do falecido (ela nunca tocou nas contas correntes e recusou-se a comparecer às audiências do inventário).

Por esta época resolveu voltar à universidade.

Paralelamente, exerceu miríade de outras atividades, sobrando ainda tempo para criar o pequeno Geoffroy, arranjar e desafazer relacionamentos, criar e fechar revistas, formar-se, iniciar bem sucedida carreira acadêmica na área de Estudos da Linguagem, dirigir um filme e, finalmente, morrer.

[14] Antes de ser goy ou viúva de Benny S era corintiana e isso sim, fazia uma puta diferença. Lazar, por outro lado, era tão alheio ao futebol como um vegetal ao sexo.
[15] Interpretada por Ruth Madoc no filme de Norman Jewison. Após o encontro com Lazar, S passou a chamar a sua esposa, mentalmente, de biscate-com-lixa-no-cu.

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Nunca mais teve transportes místicos, embora tivesse certeza de ter visto novamente à “anja” de jeans no fundo de uma classe onde dava aulas e, duas vezes, no ônibus.[16]

Estranhamente, jamais perdeu o sono por conta das ocorrências angélicas e nunca guardou segredo como lhe aconselhara Lazar, o que muito contribuiu para sua persistente reputação de porralouca.

“qual a conclusão, o que é que você…sei lá…aprendeu com a coisa toda?”, lhe perguntara certa vez Rowena.

“Conclusão? Prá ser sincera, porra nenhuma.”

E deu por encerrado o assunto.

Antes de morrer, S viu Geoffroy crescer em sabedoria e graça aos olhos do Senhor.[17]

[16] S nunca aprendeu a dirigir.
[17] Os parentes de Benny insistiram  junto a S para Geoffroy fazer sua Bar-Miztvah, ao que ela nunca objetou, sendo o único problema sua antipatia em deixar “cortarem o pinto do garoto”, mas acabou concordando.