O LEGADO DE DEUS A SEU PASTOR: uma resenha

o legado II

O livro é quase desconhecido e seu autor, Antônio Frey Duques, talvez ainda mais. A edição que tenho em mãos é de 2007, comemorativa, por conta dos oitenta da primeira, a original de 1927. Me chegou ainda um informe de tradução de Kenneth Maxwell em 1984, que não consegui ainda encontrar.

Bem, e só pode começar a escrever sobre Frey Duques com esta ressalva, o livro foi e continua sendo visceral, no sentido de seu destemor e das fissuras que abriu e ainda abre na literatura brasileira. É…o que? Romance, poema em prosa, farsa?

Hebe Marins Duques Valverde, sobrinha-neta do autor com quem troquei correspondência, referiu um poema e me remeteu, de Tácito Rodrigues, em homenagem a seu tio-avô que veio a lume nas páginas hoje inencontradas de Truebas, uma efêmera revista argentina de 1927, em tradução canhestra do então cônsul no Rio de Janeiro Ignacio Marverde Castro:

Frey Duques, serás siempre donde lo pises!

El Virgilio imaginado en el hambre y el dolor

Y que nos importa, se hecho a  miedo

Con tu nombre reflexivo, el hablar tuyo

Con este polen, tu semen entrenador

Tengas descrito, en el infierno, el sucio amor

 

!Tú autor!, y tus grimorios locuaces

Que con tenebras compuseste, oh Duques, los plasmastes

Permanecen, están y cláman

Ah, Duques, te bendigo:

 

Aborto de Perséfone y su rebaño, Imago,

larva, feto expresionista, trazgo

La confianza de Dios a Dios, brujo  aziago

 

Mas e então, por que, se tão pouco conhecida, a obra nos obseda? Por que, se obscura, foi livro de cabeceira de toda uma geração?

Manuel Bandeira encontrou a Frey Duques uma única vez, em 1921, em tertúlia informal no salão carioca de Maria Teodora Werneck, mas foi o quanto bastou para se deixar de todo impressionar pelo “moço quieto, de semblante congelado por uma lua só sua, inventada e atenta”.

O certo, a única certeza que temos, é que a obra veio a lume em 1927, em edição do autor distribuída aos amigos. Entretanto, a fortuna da obra se revelaria tortuosa, cheia de caprichos. Se conta que alguém, “atiçado por seu daemon” (Alceu Amoroso Lima) a remeteu a um seu correspondente francês e acabou nas mãos de André Gide que, aparentemente, nunca se dignou a lhe virar uma página, mas a utilizava como peso de papel (há uma fotografia famosa com o livro exposto no cume de uma resma).

Mas, a obra.

“Aqui começa a gesta onde Deus comandou a seu arauto Boaventura, presidindo-lhe os destinos, dando-lhe compostura e forma e por fim fazendo-o ter morte morrida e honesta no leito de Aramanda, que para tanto se fez adúltera.”

Assim começa o livro, com o texto acima como subtítulo. Por essas e por outras estranhas linhas vai ainda navegar, caudaloso, como uma sopa fervente de estilos desencontrados. Átila Baldaquim nos é apresentado logo a seguir, um Demiurgo desempregado (?) que desce à terra para pregar aos homens e, para sobreviver, consegue modesto emprego de faxineiro na casa paroquial de uma igreja dedicada a São Domingos.

Cínico, amoral e louco, torna-se amante de Dona Drusila, também amante do pároco e, através dela, conhece e conquista a Artêmio Piedade, jovem escritor em crise por conta da perda de sua fé.

Desde o início deixa-se claro que Átila é um enviado de Deus da mais alta hierarquia, não apenas um anjo, mas o divino ditador do Sétimo Céu.  Um cargo que divide com mais seis Demiurgos, encarregados por Deus, verdadeiros empreiteiros celestes, pela criação deste universo. “Me chamaram já de Pastor de Sóis, mas não já alimenta mais este apodo a minha vaidade”, diz Átila durante cópula com Drusila.

Artêmio, por sua vez, teve infância problemática, toda ela povoada por visões de santos e por estigmas que lhe nasciam pelo corpo. Apaixonado por Maria de Lacerda, pura e virginal, apresenta-a ao Demiurgo, que “conquista e conspurca a virgem, ensinando-lhe modos devassos e com ela praticando toda sorte de vilanias na cama.”.

Foi em certa tarde de verão que Artêmio surpreendeu ao casal em uma de tais “vilanias”.

“E viu aos dois, em abandono no colchão de palha encimado pelo pequeno oratório de cedro, coleando suas nudezes, os dois. E atroz, a visão de Maria em êxtase, sodomizada com demoníaca precisão por Átila, seráfico e atento como se rezasse…”.

Mesmo ante aos gritos de Artêmio o casal não se desatrela. Artêmio grita mais e mais, até que se abre a porta e adentra o padre Boaventura. Artêmio foge e, mais tarde, considera a hipótese do suicídio, mas se contém, momentaneamente, ao considerar a deselegância do gesto.

Boaventura, tomado de fúria, tenta espancar ao casal mas é detido por Átila e depois levado ao estupor quando Maria lhe “toma a verga à boca e com ela comunga”. Drusila também acorre ao cômodo mas, estranhamente, ao ver a cena cai em êxtase e levita. Átila se retira, discreto.

Na mesma tarde Boaventura se dirige, em “branda loucura”, até os trilhos do trem para aguardar morte com hora marcada e encontra ali a Artêmio, sangrando por diversas feridas, estigmas em forma de cruz que lhe tomam todo o corpo.

Boaventura lhe toca o corpo e, miraculosamente, as feridas se curam. O padre foge e deixa Artêmio dormitando em paz no leito dos trilhos e não mais se ouve falar da personagem, exceto nos delírios que atacam ao padre toda a noite.

Boaventura perde a noção de si e acorda no hospital das freiras, sendo velado por Aramanda, a esposa do presidente perpétuo da irmandade sediada em sua paróquia.

Na igreja, Átila assume funções sacerdotais sem que com isso pareça incomodar aos fiéis ou mesmo às autoridades eclesiásticas.

Em certo sábado, após a missa, convoca Drusila e Maria de Lacerda a seu quarto e, desnudando-as, profere ao Sermão da Dúvida, ponto fulcral do livro. “As sete páginas mais intrigantes que já li”, escreveu Drummond a Mário de Andrade.

Findo o sermão, Átila Baldaquim, o Demiurgo, se alça aos céus. Drusila se veste, abandona suas funções na casa paroquial e abre um comércio de armarinho, enriquece, e constrói para si mansão opulenta. Por fim, adota uma menina e piamente a educa até a idade adulta, deixa-lhe todos os bens e muda-se para cidadezinha do interior onde abre um bordel.

Maria de Lacerda conclui seus estudos, casa-se com “rapaz ordeiro e bem posto na vida”, a quem ensina as “torpezas” de cama que aprendera com o Demiurgo. Torna-se cidadã benemérita, acudindo a todos os desvalidos e por fim morrendo em santidade, jamais traindo  a seu esposo e também jamais fazendo qualquer menção a Átila ou Artêmio.

Boaventura larga a batina e ganha a vida como jardineiro na mansão de Aramanda.

A seu pedido, Aramanda abre uma exceção e trai seu marido com o jovem tísico Onofre, copeiro da casa prestes a morrer, dando-lhe uma última noite de prazer.

Também a seu pedido, Aramanda, piedosamente, passa a frequentar sua cama.

Boaventura morre com a cabeça pousada no monte de vênus de Aramanda.

O autor e a obra do autor.

Antônio da Costa Cavendish Frey Duques nasceu em 19 de abril de 1896, em Santos, em abastada família de origem pernambucana. O pai, Aniceto Rodrigues Frey Duques, era corretor de café e mantinha em sua casa, sob o comando de sua esposa Maria Luísa da Costa Cavendish, um salão literário de certo renome.

Autor de uma única obra, escreveu-me Hebe, sobrinha-neta de Duques, que este foi profícuo autor de inúmeras outras obras nunca publicadas (Hebe me escreveu de um projeto no sentido de publicar estes inéditos, a maior parte em seu poder. Ignoro em que estágio se encontra).

A mesma Hebe refere correspondência de Duques a sua irmã Luísa, em 1921, dando conta de um seu projeto de escrever um romance “planificado”, obedecendo a um “esqueleto temático” dentro do qual se desenvolveria. E tal romance, ainda Duques, deveria ser o primeiro, senão único, romance “gnóstico-alquímico”.

Se antes eu já estranhava o feitio do “Legado”, mais ainda me preocupei ante a informação de Hebe sobre sua concepção. Ora, só depois desta revelação é que fui me dar conta de que já o havia intuído antes. Sim, trata-se de um romance construído segundo um plano “gnóstico”, ou alquímico.

Nada de novo nisso. James Joyce escreveu o Ulisses nos mesmos moldes, ambiciosamente colocando em sua estrutura, planeada de antemão, toda uma “agenda” do século Vinte. Ouso dizer que Duques foi além, pois ambicionou construir uma “gesta”, um conto de criação.

E que romance este, que o diferencia, logo à primeira vista, não só dos textos de sua época, mas dos autores de sua época!

Duques não tem parelha, seu interior não se abre, mas, transmite, decididamente, a embriaguez sangrenta de todo um tempo, não menos cruel que esperançoso.

Gnóstico o romance e tripartite, e alquímico. Fica claro desde o início que Átila, o Demiurgo, o “deusinho construtor de Deus” conhece de antemão toda a história e todo o destino humano. Não tem poder da previsão, nem sabe com antecipação, mas simplesmente sabe. É um operário que “desce” ao porão para por em ação a caldeira do navio.

Faço aqui pequeno parêntesis para comentar sobre que a Alquimia buscava, através das sucessivas operações (Nigredo, Albedo e Rubedo), reproduzir as etapas de criação do cosmos. Na visão Gnóstica, o universo não é criação de Deus incognoscível, mas de, digamos assim, um deus menor: o Demiurgo. Este operário divino é que tomou da matéria bruta e a plasmou, elevando-a do estado de ignorância (onde se lavra a pedra bruta) para estágios superiores de consciência (onde se obtém o ouro alquímico).

A alquimia emula ao ato do Demiurgo.

Certo, sei que as poucas críticas que já li sobre o romance sempre focaram na linguagem inovadora, no enredo corajoso que não acedia ao puritanismo da época e tudo o mais. Entretanto, por mais que a obra destoe de sua época (e destoa, daí vários cortes pudicos feitos nos extratos da obra coligidos por Adolfo Coelho, em artigo na Revista Lusitana – número 23), o que a acentua, a torna única, ainda que somente no quintal local, luso-brasileiro, está em sua infernal coragem e habilidade de criar um romance metafísico a partir de personagens conspicuamente comuns, banais, típicas: a virgem, o padre, a alcoviteira, o poeta. E o Demiurgo Átila Baldaquim, o interventor mágico, parente do Ashaverus, personagem de microconto em forma de peça teatral e do “maestro-demônio” que compôs o mundo, contado pelo cantor de ópera Marcolini (personagem citado por Bentinho, no  Dom Casmurro, ambos de Machado de Assis).

Disse tripartite o romance, mas deveria ter dito que é tripartite como a obsessão alquímica: a grande obra que só pode acontecer se obedecer aos necessários estágios de evolução: Nigredo (enegrecimento): o caos primário da indiferenciação. Albedo (embranquecimento): o caos é estabilizado, imobilizado em um estado ideal, mas abstrato. Rubedo (enrubescimento): nesse estado em estase é injetado o fluído solar, a transformação final para a iluminação.

Minhas suspeitas sobre a intencional “marcha” gnóstica do livro começaram ao observar as primeiras palavras que abrem cada um dos três capítulos do livro: “Negro. Não mais que negro era o sonho de onde despertava agora o Demiurgo…”. E, “Alva de alabastro, a face virginal de Maria…”.Finalmente, “Rubra, a facies do novo pároco contorcia-se conforme avançava o sermão…”.

Também as personagens obedecem a tipos ideais de personae alquímica. Átila, por óbvio, o Demiurgo. Mas também Maria de Lacerda, a sabedoria, Sophia, abandonada na lama do mundo físico onde se prostitui. E Artêmio, o Louco de Deus, reduzido à loucura ao presenciar uma operação esotérica, a coniunctio, a cópula sagrada entre Atila e Maria.

Finalmente, Boaventura, o padre, tornado mensageiro e profeta contra sua vontade.

Me referi acima ao Sermão da Dúvida, ponto fulcral do livro.

“Primeiro entendam que tudo é Pleroma, mesmo eu, mesmo Deus. A diferença é que o Pleroma em Deus é informe e inconsciente, vez que a consciência é criatura. Comunguem! (Elas comungaram).

Entendam que aí onde estão, nuas, aviltando-se, é lugar tornado sacro. E sagradas também as vilanias que perpetram, pois que são orações, são fermento para iluminação. Osculem-se!

(Elas beijaram-se).

Entendam que este cômodo é Atanor onde se calcina toda e qualquer ilusão do Eu.

(Elas tremeram).”

A intersecção, o texto, lembra um pouco um opúsculo de juventude de Carl Gustav Jung: Septem Sermones Ad Mortuos, com sua rica simbologia.

Em carta de resposta de Hebe a mim, disse ela acreditar que Duques tenha escrito o Sermão da Dúvida primeiro, e só depois, construído o romance. Também nisso, ainda Hebe, haveria simbolismo embutido: o romance envolvendo ao sermão seria decalcado na Rosa Vermelha alquímica, com suas pétalas em camadas velando o segredo da Grande Obra.

Pode ser. Deve ser.

Em todo caso, uma obra única na literatura brasileira, difícil de obter talvez (os sebos, vamos ao sebos!), difícil de digerir, mas que vale cada esforço feito para a apreciar.

Recomendo com fervor.

Em tempo, Antônio Frey Duques suicidou-se em 1954, atirando-se  sobre os trilhos de um trem em movimento.

E é isto.

Anúncios