Kristallnacht III

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No começo eram trevas e espírito de Deus caminhava sobre as águas.

Ponto. Sigo. Sou só eu que sinto que não é possível mais escrever sobre amenidades neste trinta e um de março de 2016?

 

O poema Funeral Blues foi escrito em 1936 por  Wystan Hugh Auden, mais conhecido como W. H. Auden. Pode ser conferida uma declamação do poema no filme Quatro casamentos e um funeral, feita à beira do túmulo de um bem amado pelo bem amado sobrevivente.

Retomo a argumentação, como retomo ao poema.

Stop all the clocks, cut off the telephone,

Prevent the dog from barking with a juicy bone,

Silence the pianos and with muffled drum

Bring out the coffin, let the mourners come.

 

Tradução livre, libérrima, quando não, burra.

 

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,

Evitem que o cão possa latir ante a um osso suculento,

Silenciem os pianos e com tambores lentos

Tragam o caixão, deixem vir as carpideiras.

 

E segue:

Let aeroplanes circle moaning overhead

Scribbling on the sky the message ‘He is Dead’.

Put crepe bows round the white necks of the public doves,

Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

 

He was my North, my South, my East and West,

My working week and my Sunday rest,

My noon, my midnight, my talk, my song;

I thought that love would last forever: I was wrong.

 

The stars are not wanted now; put out every one,

Pack up the moon and dismantle the sun,

Pour away the ocean and sweep up the woods;

For nothing now can ever come to any good.

 

E de novo, porcamente, verto:

Que os aviões circulem, gemendo sobre nossas cabeças

Rabiscando no céu a mensagem: —Ele está morto.

Ponham laços de crepe nos pescoços brancos das pombas públicas,

Que os policiais de trânsito usem luvas pretas de algodão.

 

Ele era o meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste,

Minha semana de trabalho e meu descanso de domingo,

Meu meio-dia, minha meia-noite, minha fala, minha canção;

Pensei que o amor iria durar para sempre: eu estava errado.

 

As estrelas não são mais necessárias; fora todas elas,

Empacotem a lua e desmontem o sol,

Deitem fora o oceano e varram a floresta

Pois nada de bom pode vir agora.

 

É mais ou menos o que ocorre, o que me ocorre.

É possível? Será possível escrever amenidades neste trinta e um de março? Que poemas, que autorreflexões não se tornarão obscenas, que pátria do coração não estará suja, irremediavelmente suja, maculada, pela mão suja destes tempos?

O meu amor morreu!

Os crápulas de capas pretas e roxas rondam, ávidos, gargalhantes, o túmulo do meu amor.

E torcem as mãos, como Caligari torcia suas mãos expressionistas. Como o vilão ante à mocinha, presa nos trilhos do trem se aproximando.

Trinta e um de março de dois mil e dezesseis.

Desmantelem sóis e luas e encham os céus nossos de grafitti diversos, dizendo tudo, da morte de meu amor.

Pausa.

Pausa para um homem cansado dos homúnculos de poder imenso, mas localizado. Daqueles, os de sempre, os homúnculos de poder efêmero.

Então não escreverei sobre a rosa. Não agora.

Só e somente só, escreverei sobre sangue e sobre a indignação que eu achava não mais existir, mas que apareceu agora, magma em minhas veias.

Evoé, musas!

 

 

 

Kristallnacht II

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i. Leviathan Rising – By LDN-RD NT – DEVIANTART

 

O meu, o nosso Presidente interino assumiu o poder na famosa “noite de ferro”, quando nossas esperanças estavam em seu mais baixo grau. Me lembro de ter sido chamado pelo que é agora o chefe de seu staff para compor, às pressas, um setor de comunicações com a sociedade.

Acredito que fiz e faço um bom trabalho, nestes tempos difíceis de conturbação social, onde somente o uso da força pode conter a força, onde somente a mão firme pode conter a anarquia nas ruas.

“Creio que a situação já tenha se estabilizado lá pelo fim do ano…”, me disse o presidente interino, pouco antes de sua posse “então, e só então, poderemos pensar em conduzir a nação ao caminho da normalidade”.

Me lembro de sentir uma necessidade quase incontrolável de acariciar minha glande e tive que fazer grande esforço para me conter.

Me desculpei com os presentes e fui até um banheiro e lá estava ela, minha glande, vermelha, brilhante, entumescida, gigante.

Num ato quase religioso, me masturbei.

Nossa visita ao Escrevinhador

Hercule Poirot by Diego Romo

Hercule Poirot by Diego Romo

 

 

 

Certa feita, dia destes, certa ocasião, tive que comparecer a uma delegacia de polícia por conta de um contraparente que me lesara. Compareci acompanhado de outro contraparente, advogado.

Eram, se tanto, onze horas da manhã quando entramos no local.

Não entrarei nos detalhes quanto ao atendimento, deselegante, grosseiro e já esperado. Mas o caso é que depois de uma hora e tanto sentado no banco duro de ardósia, me aparece um sujeito de meia idade, barrigudo, gasto.

“Foi atendido, senhor?”

“Ainda não.”

“Ah, bem…qual é o seu problema?”

E a coisa seguiu. Leve, rápida e atenta. E o “meu problema” foi resolvido.

Foi aí que conheci o sujeito que depois batizei de Magnífico Escriba, ou, o Policial Quintessencial.

Falo de um mito, claro.

Mas eu o conheci.

E deixei de acreditar em absolutos, em verdades prontas e nos sábios.

Depois escrevi sobre o sujeito, edulcorei, o dividi em dois, o fleumático e o bêbado. E ele sempre foi muito mais que isto, muito mais intenso, muito mais humano. Inventei sua persona e coloquei ali uns brilhos, desnecessários, mas ofício é ofício e o meu é de inventar.

E nunca fui mais honesto.

Foi uma honra te conhecer, moço. E que pena não possa hoje te visitar aí na Gehena, onde agora você chora e range os dentes.

Mas você foi grande, imenso como um continente. Uma chama cínica e humana até a raiz. Um amigo, dos poucos que tive e tenho.

Rolando, Orlando. O cara!

É.

 

Kristallnacht

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Qual foi a exata sensação, como se comportava o ar um pouco antes da exata noite  de 9 de novembro de 1938? Se percebia o Leviatã, se suspeitava da Besta? Não se pressentia o ódio tornado sólido, vociferante? Era o mesmo de hoje o vestido do tempo? Qual a exata sensação?

 

ODE PARA A INCÔMODA INSÔNIA DE 06 DE MARÇO DE 2016

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Peripateticamente cru, meu país nem viaja.

Afunda, denso de mediocridade e ódios de chumbo.

E esta é uma postagem anã, carente de imagens e também crua.

Caso é o seguinte: não sofro. De maneira alguma.

Como meu feijão, não produzo nada de bom, nada de honesto. Nada de obras, primas, burguesas. Nenhum quadro, nenhum conto. Nenhum.

O Nó de Pescador não deve ser confundido com a Volta de Fateixa.

Ah, nem bordado.

Me comovo e quero comover.

Proponho: que tal significarmos, usarmos o Real, já que não podemos ser o Puro Aberto?

 

Jasão era filho do rei Éson e foi educado pelo centauro Quíron. E, não importa o que fez, as alturas a que chegou como Chief Executive Officer da empresa da família, terminou como errante, mendigando amendoim. Ou suicidou-se, ou foi castigado pelo Céu, alguma coisa assim.

Nós, os timoratos

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SHY – by ANASORIANO – DeviantArt

 

Invejo aos covardes.

Vejam bem, não me entendam mal, não admiro o covarde amador, o pulha que se acha o máximo, o incomodador frequente de desafetos em bares e restaurantes, sempre mandando que voltem para Cuba, o locatário do culhão alheio. O medíocre atrás do nickname, o chutador de cachorros cadáveres.

Não senhor, comigo é no jiló!

Admiro e muito o covarde profissional, a bundona e o bundão, sem certeza de nada e carregando sempre a impressão de que já vão tarde. O vagabundo de última hora, a atrasada para o evento, o corno sentimental.

Aquele cara ou aquela que não sabe se é amado (e tem medo de perguntar), que não pertence a partido nenhum e nem comunga com deus nenhum, porque tem medo de ter escolhido a calça errada, a de rasgo progressivo, que fatalmente irá mostrar seu rabo covardoso para a troça da galera.

A idiotazinha, o mequetrefe sem talento. Ambos, pintores com a broxa errada.

O falível, o tolo por excelência. O covarde, a covarde. Homens e mulheres, viados e viadas.

Ah, não me depilei direito, dirá a covardona de quatro costados antes do encontro com o par de seus sonhos, o senhor ou a senhora Superconfiante. Ah, será que vão achar que não trepo bem?, dirá o rei do cagaço antes do encontro com seu príncipe ou princesa, a mesma senhorita ou o senhor superconfiante.

O covarde, merecedor de meus encômios, de minhas odes.

É minha opinião, que somente ao covarde será dado atravessar este século incólume, sobrevivendo, tenaz, como sobreviveu ao milênio passado. Desacreditando de si, claro, mas também desacreditando de bruxarias, de santos, de justiceiros e outros piolhos que infestam a carcaça humana.

O meu herói. Falto de confiança, frouxo inabalável, sem nenhum argumento de ocasião e cheio de sentimentos de culpa, como não admirá-lo?

Já notaram que o covarde (corroam-se pios cristãos)…perdão, já notaram que o covarde oferece sempre e antes as duas faces para o tapa?

Ninguém notou, mas Jesus, o paraboloso, que é justo e do qual dizem que também é Deus, com certeza tem isto anotado no seu caderno de apontamentos dos justos.

Ave, covarde.