A POLÊMICA VIAGEM A MARTE DE CEGO ADERALDO

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Isaac Asimov – Pintura de Rowena, devidamente estoporada num photoshop

 

 

Para quem não conhece, Aderaldo Ferreira de Araújo, o Cego Aderaldo, foi dos maiores poetas populares do Brasil. Um repentista que fez fama tocando sua rabeca por todo o nordeste.

E agora duvidam de sua famosa estada no planeta Marte, atribuindo-a a José Pacheco, outro famoso repentista alagoano.

Até outro dia era fora de dúvida a famosa estada de Cego Aderaldo em Marte, na corte do Tarkas, Autocrata de Todos os Martes, em sua Fortaleza da Pirâmide. O próprio Aderaldo contou da grande recepção que inicialmente teve e depois a glória, ovacionado pelas massas após sua vitória no desafio contra o Grande Menestrel de Helium.

Aderaldo contou ainda, na excelente biografia escrita pelo jornalista Fenelon Dantas, que lhe fora oferecida a cura de sua cegueira desde que permanecesse em Marte e na corte do Tarkas. Aderaldo recusou e cantou seu feito em um martelo agalopado hoje famoso:

 

Me perdoe o nobre e ilustre soberano

Diferente que eu sou, eu nunca visto

Carapuça que não serve, do malquisto

E arrenego mais a pecha de ingrato

Mas não posso por a pena neste trato,

Cego sendo, cego sigo, e muito ufano

Preferindo a treva minha, em minha terra

E aceitando desta sina a sorte fera

 

Mas agora temos aí o artigo no Jornal da Paraíba de Novelly Bezerra, pesquisadora pernambucana do cordel, onde se atribui a façanha da primeira visita marciana ao alagoano José Pacheco da Rocha, o José Pacheco.

Novelly descobriu nos arquivos do banco de teses da Universidade Estadual da Paraíba a uma entrevista feita a Pacheco em 1954, poucos meses antes de sua morte, por estudantes da faculdade de letras.

Ali Pacheco relatou sua visita a “um planeta, um orbe fora dess´aqui”, ocorrida bem no ano da “seca do quinze”, ocasião em que foi obrigado a pernoitar no Lajedo do Baltasar, na Paraíba. E como chovesse, se abrigou numa “loca” de pedra. E dali, altas horas, foi levado para “o planeta por meio de artes que não entendo, como numa viração”.

O artigo está disponível na internet, acho.

O argumento de Novelly é forte, pois se José Pacheco foi, digamos, abduzido no ano de 1915, teria de fato a primazia de ser o primeiro brasileiro, se desconsiderarmos o relato algo duvidoso do americano John Carter na voz de seu ghost-writer Edgar Rice Burroughs.

Consta, a acreditarmos no trabalho de Fenelon Dantas, que Cego Aderaldo também foi levado a Marte quando pernoitou em uma caverna em “um lajedo”, em data incerta entre 1916 ou 1917.

Esclareçamos que um lajedo é o termo nordestino para área com grandes pedras ou placas de pedras que as vezes formam verdadeiras cavernas, as “locas”.

Esclareçamos também que Cego Aderaldo jamais especificou em qual lajedo ocorreu sua aventura e nem mesmo em que época. 1916 ou 1917 são estimativas de Fenelon Dantas. A presunção de Novelly que o fato se deu no Lajedo do Baltasar é apenas isso, uma presunção.

Novelly busca fortalecer sua tese com os versos de José Pacheco em seu Grande Debate de Lampião com São Pedro, como uma referência à pioneira estadia marciana:

 

E atravessei os mares

Montado em um planeta

Que ao som de uma trombeta

Vinha descendo dos ares

Visitando aqueles lares

Terra de santos e fadas

Naquela mesma jornada

Encostei no arrebol

Cheguei na Terra do Sol

Na Casa da Madrugada

 

Não quero ser grosseiro com Novelly Bezerra, minha colega de cátedra e de vício, mas reputo como frágil sua tese. E mais, não quero com isso negar a visita extraterrestre de José Pacheco. Quero afirma-la, embora não a Marte.

Minha tese é mais radical: Cego Aderaldo foi sim o primeiro brasileiro a visitar o planeta Marte, mas José Pacheco foi o primeiro brasileiro, talvez o primeiro homem, a visitar Vênus.

Talvez mesmo o primeiro brasileiro a sair de nosso planeta.

Mas, Vênus? Vênus.

Notem que o poeta “atravessou os mares montado em um planeta” em uma terra de “santos e fadas”, “encostou no arrebol e chegou na terra do sol”. Na, observem bem, “casa da Madrugada”.

Gosto de pensar que se refere à Estrela d´Alva, a última estrela que surge pela manhã, o planeta Vênus. Sustento mesmo que as referências aos mares são venusianas, Marte é todo ele um deserto gigantesco cortado pelos canais.

Vênus, ao contrário, é todo ele selvas fumarentas e mares gigantescos. Fato este confirmado pelos relatos de Carson Napier, mais uma vez na voz do nosso já conhecido Edgar Rice Burroughs e confirmada pelas fotografias obtidas (alguns dirão tardiamente) pelas naves russas da Missão Venera.

E, ao contrário de Novelly, acredito que os relatos de José Pacheco aos estudantes paraibanos em 1954, mormente as alusões a mares tempestuosos e ao reino onde permaneceu por meses são indícios de uma aventura venusiana.

Não há relatos de que Pacheco tenha exercido sua arte no distante Vênus, ao contrário de Cego Aderaldo, cuja imagem foi esculpida na própria superfície marciana, em Cydonia Mensae, e fotografada pela primeira missão Viking.

Não obstante, minha intenção com este artigo não foi movida por mais que o desejo de corrigir o que eu reputo como uma perspectiva algo leviana, que a propósito de rever, acabou por distorcer.

E mais, obnubilar a dois fatos sublimes: a de que dois de nossos maiores poetas, Cego Aderaldo e José Pacheco, visitaram ou foram chamados, pouco importa, para as incríveis e pioneiras primeiras viagens interplanetárias.

Todos temos a certeza (ou tínhamos antes do artigo de Novelly) de ter Aderaldo feito ouvir os primeiros repentes pioneiros no rarefeito ar marciano e a suspeita, esta minha, ainda a procura de novas e melhores fontes que a confirmem, de que o mesmo foi feito por José Pacheco.

Alguns objetarão (e objetam) do porquê das, vamos usar o termo hoje corriqueiro, das abduções de tantas pessoas no final do século dezenove e começo do século vinte. Levadas a outros planetas após a estada em cavernas misteriosas, arrastados por mecanismos ancestrais construídos por civilizações também ancestrais. Temos aí os já citados John Carter e Carson Napier, cujas histórias foram romantizadas por Edgar Burroughs e incendiaram as imaginações de gerações.

Talvez que se nos faltasse um Burroughs nosso, que nos contasse das aventuras de nossos dois bardos. Alguém como Bráulio Tavares, por exemplo, o autor da bela Marco Marciano, cantada por Lenine em 2002 e uma involuntária homenagem a Aderaldo, em cuja honra se esculpiu a face planetária em Cydonia Mensae.

Talvez que Marte e Vênus honrassem mais a nossos poetas, e lhes reconhecendo os méritos inegáveis, os transladasse para, temporariamente, privar de seus repentes imortais.

Não é pouca coisa.

 

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