JARBAS, JARBAS

JARBAS

 

Jarbas ascendeu ao poder lá pelas onze horas e já me ligava, untuoso e gozador.

“Viu? Fácil não, né? Vai, fala mal de mim agora.”

Não me dignei a responder que Jarbas podia ser irritante quando queria. Mas que diabos, por que estrilava? É claro que tive de o demitir. Nada pessoal, mas com o tempo se percebe que um mordomo é como um nariz sobressalente.

Desliguei e voltei a me enfronhar nas deliciosas memórias de Carlos Lacerda. Ainda tenho comigo o exemplar puído, editora Nova Fronteira, coleção Brasil Século 20, edição de 1978. A transcrição de entrevista de trinta e quatro horas, justamente um mês antes de sua morte. Uma preciosidade.

O celular novamente.

Preocupado que fosse nova tentativa de Jarbas, atendi com receio. Era a Pátria.

“Tudo isso acontecendo e você aí na praça, dando milho aos pombos”, reclamou, chorosa.

“Na verdade estou em casa, querida. Sem Pombos”.

“Não me chama de querida! Seu, seu…merda”.

“Pátria, baby, não faça assim…”.

“Faço! Como não fazer? Hein? Ele já se abancou por aqui, parecendo meu dono. Me faz propostas. E se fosse só ele…já viu os amigos que ele trouxe?”.

Levei os dedos ao septo e comprimi meus olhos cansados. Entendia o transe pelo qual passava a Pátria. Jarbas estava eufórico e somente eu sabia o quanto podia ser inconveniente em tais ocasiões.

“Escute…querida. Pátria, amor, me ouça! Me dê algum tempo para raciocinar e te ligo em seguida, ok?”.

Li um mais um trecho inspirado das memórias de Lacerda. Justamente onde ele relata os fatos que se passaram após o suicídio de Getúlio. Meus Deus, o homem era um visionário!

O celular.

“Sim, Jarbas?”.

“Agora eu sou imortal, viu? imortal! Escreva aí. Já entrei para a história…”.

Suspiro profundo, dedos massageando as têmporas. Calma, muita calma…”.

“Imoral, você disse?”.

“Imortal! Imortal!”.

A imoralidade eu conhecia. A imortalidade não podia julgar. Enfim!

Dona Jivoneide me trouxe o chá de camomila e as Memórias Improvisadas de Alceu Amoroso Lima, Editora Vozes, edição de 2000. Leitura perfeita quando no banheiro, poderoso laxante. Não comentou sobre o dia nem sobre Jarbas.

Não pude me conter.

“Vai, fala…diz que me avisou!”.

Não passou recibo.

Saia já da sala quando se virou, a face pétrea.

“Dona Pátria ligou de novo, pro fixo. Falou que seu Jarbas passou a mão na bunda dela.”

Deixei passar.

Essa não é de modo nenhum a atitude de um bom católico, pensei.

Jarbas, Jarbas…

 

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