OUTRO MEMORIAL. BREVÍSSIMO.

Paço da Ribeira em 1662 por Dirk Stoop

Paço da Ribeira em 1662 – Dirk Stoop

 

Lisboa no século da fome, onde reinavam Dom João, quinto do nome e sua rainha austríaca.

No Memorial do Convento Saramago pintou uma cena de degredados de um Auto-de-Fé nesta mesma Lisboa.

Havia escravos, muitos, diversos.

Escravos negros, chins. Alguns índicos e toda uma azáfama fazia de Lisboa, Lisboa.

Um vai ao mercado comprar o toucinho rançoso para a noite. Outra pega sífilis numa cama suja de piolhos. Outro pinta uma arcada de igreja. Uma carta de Holanda é traduzida por um do “Nifon”.

Fatos simultâneos: um jesuíta pensa em Valladolid; um cavalo morre com a pata quebrada; alguém prepara o veneno que o cunhado beberá pela manhã.

Foram encontrados setenta e oito rolos de inscrições hebraicas na mesa de trabalho de um certo Gil Jacobo de Paio, notário,  depois encontrado morto num beco; no bolso uma carta endereçada à Francisco Monte-Arroyo Ximenes ou Jimenez.

Uma criança é abandonada no cais da Almada. Dois extraterrestres conversam numa viela do bairro da Mouraria.

No próximo ano, um deles será condenado à fogueira por convicto, apóstata e pertinaz.

Pagando boa soma, será apenas enforcado.

Na exata hora de sua morte seu diário será entregue ao carcereiro Diogo Correa de Sande, todo ele escrito no emaranhado proteico de uma noz.

O diário segue inda agora para Eridani 40.

 

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s