NÃO SABER O QUE SE QUER: ESTA ARTE PERDIDA

Jacques-Louis David_The_Death_of_Socrates

A morte de Sócrates – Jacques Louis David

Sócrates foi o pai da dúvida e mãe da maiêutica que é arte de de utilizar a dúvida como alavanca. Sócrates mostrou que o mais produtivo não são as melhores respostas, mas as melhores perguntas. Sócrates sabia muito sobre não saber nada. “Uma pessoa que não sabe o quer” é meu tema de hoje, o meu mote. Segue:

Uma pessoa que não sabe o quer, não sabe também o que eu quero, o que todos queremos. Agora, uma pessoa que não sabe o quer não é o mesmo que uma pessoa indecisa.

Existem as pessoas que não sabem o querem mas gostam de pensar em si mesmas como pessoas que sabem o que querem. A vista desarmada, esta pessoa aparece como confiante e atenta.

Tal pessoa pode e frequentemente é, pessoa assaz decidida, sabedora tenaz de como e quanto, sabedora tenaz de como agir, quando agir e de que forma. Ela pode não saber o que quer, mas sabe tratar do resto, das circunstâncias operacionais, da técnica de tecelagem, do modus operandi, de como agir com confiança e foco, a modo a parecer com uma pessoa que sabe o quer. Assim, sabe como se soubesse o que quer a pessoa que não sabe o quer.

A pessoa que não sabe o que quer é senhora de todos os jargões da moda: impotência política, hipocrisia, hostile takeover, reguladores sociais, karma, mídia, graúdos interesses, crise. Mas é refém dos tempos e não identifica outra vontade que não a sua ou do seu grupo, e nunca pensa em parceria, mas em tutela.

E tutelando aos outros, se confunde e passa a acreditar que as aspirações de seus tutelados e seus fins pessoais são a mesma coisa.

A pessoa que não sabe o que quer vai apontar o dedo para a nossa cara e dirá que nós não sabemos o que queremos, e provavelmente estará certa.

E existem os que não sabem o querem e sabem que não sabem o que querem.

Diferente da pessoa que não sabe o que quer e não sabe, nós sabemos que não sabemos, o que é uma outra forma de dizer que os argumentos acima apresentados cabem como uma luva ao avesso para nos definir.

A pessoa que não sabe o quer (mas não sabe que não sabe o que quer) estará presente na passeata, gritando a palavra de ordem, do mesmo modo que nós, que sabemos que não sabemos. E seremos, por vezes, indistinguíveis uns dos outros.

Mas, nós, os ignorantes profissionais, sabemos que não somos assim tão cheirosos, bonitos e palatáveis. Pode não ser grande coisa, mas faz alguma diferença. Não muita, mas faz.

Parafraseando Leila Diniz: nós, os ignorantes, nos comeríamos, sem problema.

O único problema é que todos nós, ignorantes profissionais e ignorantes amadores, somos pessoas e temos sangue e suor.

E lágrimas, falei das lágrimas?

Mas eu falava do Brasil…perdão, perdão, foi um lapso.

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3 comentários em “NÃO SABER O QUE SE QUER: ESTA ARTE PERDIDA

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