JARBAS E A PÁTRIA

nosferatu

“É um Hermitage, não é?”

Olheira deu uma cafungada grande na taça com o que, suponho eu, ele achava um gesto elegante.

“Perdão?”

“Hermitage…é um Hermitage, não?”

“É claro, Hermitage…”, disse do modo mais escandido possível para que não se notasse meu constrangimento. Vá lá saber que zurrapa da serra gaúcha Dona Jivoneide despejara nas taças.

“Eu sabia. Existem Hermitages e Hermitages.”

“Sem dúvida”, apressei-me em concordar.

Não me irritei com a atitude de Dona Jivoneide, pois como meu finado pai sempre dizia, não se deve estragar um bom vinho com um pateta. Ou um medíocre. Ou um chato. Olheira era todas essas coisas. Um parvenu irritante.

Mas que diabos, tinha que despejar a maldita beberagem na minha taça também?

Olheira sacudiu a taça num gesto esnobe, um cliché visual de filmes americanos retratando nobres que há anos o infectara. O cinema americano ainda teria que pagar por seus pecados!

“Jarbas está preocupado,” disse num tom que fazia crer que era uma novidade e não o óbvio.

Comecei a preparar um Partagas Selección Privada (para escapar do vinho, admito), ante o olhar desaprovador de Olheira. O imbecil confundia degustar charutos com tabagismo.

“Mesmo?”, e a primeira nuvem azulada subiu ao teto.

Na nova ordem capenga de Jarbas o Olheira fora premiado com uma sinecura que lhe permitia espalhar suas parlapatices verbais em outras terras.

“Mesmo! Jarbas, eu, nós, não estamos gostando das atitudes da Pátria!”

Ajeitou-se na poltrona com azedume e despejou mais do mijo escuro em sua taça (eu tinha que conversar seriamente com Dona Jivoneide. O Jarbas, o Olheira, tudo bem, mas um dia um convidado menos limitado iria perceber o insulto).

“Andando por aí, fazendo passeatas, reuniões, enxovalhando nosso nome e…”, quase não podendo se conter, “enxovalhando…não só aqui. Lá fora!”

Aguardou uns momentos, olhando para o alto (o lorpa amava os gestos canastrões), e a seguir me encarou, irado.

“Isto tem que acabar! Sei que você é íntimo da Pátria. Vocês já foram casados. Vamos, fale com ela, diga a ela que tudo tem limite. Diga a ela que os tempos são outros. Diga a ela que ela agora não tem ninguém que a proteja. Seja claro, ameace! Deixe bem claro que nós somos legião!”

Comecei a me entediar. Pensava que Jarbas e Olheira me viessem com algo mais original. Aliás, Jarbas sabia que Olheira conspirava?

Claro que sabia. Só não levava a sério a competência do Olheira e seus amigos.

“Verei o que posso fazer, Olheira. Vou…ah, conversar com a menina”, e tentei  minha melhor imitação de um sorriso confiante.

Continuei com o Partagas ainda por alguns minutos após a saída de Olheira (que estava de partida para pregar o verbo em algum outro país infeliz).

Dona Jivoneide veio à sala, recolheu as taças e já saindo me mimoseou com um riso sarcástico.

“Botei foi Sangue-de-Boi, mas da próxima vai é São Tomé mesmo ”

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