A OBRA-PRIMA NA GAVETA

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Um fenômeno é uma descrição de uma intervenção na realidade, entre outras definições possíveis.

O fato é que estou agora, nos atualmentes, lendo e relendo a obra de um de meus escritores prediletos, Philip K. Dick. E tem tudo a ver (acho, não ponho a mão no fogo) com esta postagem, digamos, fenomênica.

Não sou muito de resenhas, tanto que cometi poucas aqui no espaço. Não tenho a verve e a generosidade do blogueiro Valnikson Viana, por exemplo, que mantém lá o seu 1001 LIVROS BRASILEIROS PARA LER ANTES DE MORRER, que recomendo vivamente (aqui: http://tinyurl.com/zymo2tj).

Mudo de hábitos por entender que Philip K. Dick o merece. Você talvez não o conheça mas certamente conhece subprodutos de seus trabalhos. Blade Runner, o filme, lembra?, veio de de seu livro Do androids dream of electric sheep?. Alguma coisa como Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? E Minority Report? Lembra? Tom Cruise, etc, etc. Pois bem, Philip K. Dick. PKD.

Só a titulo de informação, segue abaixo uma relação de filmes e os livros de PKD nos quais foram baseados (extraído do saite Cooltural. Vão lá):

  1. Os Agentes do Destino / The Adjustment Bureau (George Nolfi, EUA, 2011) – Conto: Equipe de Ajuste | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  2. Assassinos Cibernéticos / Screamers (Christian Duguay, EUA, 1995) – Conto: Segunda Variedade | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  3. Blade Runner: O Caçador de Andróides / Blade Runner (Ridley Scott, EUA, 1982) – Romance: Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (Ed. Aleph, em 2014)
  4. O Homem Duplo / A Scanner Darkly (Richard Linklater, EUA, 2006) – Romance: O Homem Duplo (Ed. Rocco)
  5. Impostor / Idem (Gary Fleder, EUA, 2001) – Conto: Impostor | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  6. Minority Report: A Nova Lei / Minority Report (Steven Spielberg, EUA, 2002) – Conto: O Relatório Minoritário | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  7. O Pagamento / Paycheck (John Woo, EUA, 2003) – Conto: O Pagamento | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  8. O Vidente / Next (Lee Tamahori, EUA, 2007) – Conto: O Homem Dourado | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  9. O Vingador do Futuro / Total Recall (Paul Verhoeven, EUA, 1990) – Conto: Lembramos para Você a Preço de Atacado | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  10. O Vingador do Futuro / Total Recall (Len Wiseman, EUA, 2012) – Conto: Lembramos para Você a Preço de Atacado | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)

Aviso aos incautos que PKD é escritor considerado menor pelos menos informados, pois que se lhe atribuem escrever obras no gênero da ficção científica, o que gera um handicap negativo, dizem. Alguma coisa parecida com ser corintiano.

No entanto, ninguém mais alheio à discussão de gêneros literários, PKD construiu, solipsisticamente, uma obra incrivelmente coerente e fiel a si mesmo e suas muitas dúvidas e angústias.

Três Estigmas de Palmer Eldritch, uma expedição retorna da jornada a outra estrela e traz de contrabando a uma entidade metafísica e a uma nova droga que permite aos usuários criarem sua própria realidade.  Do androids dream of electric sheep?, um novo culto religioso, o Mercerismo, permite aos fiéis não só comungar com Deus mas também sentir as agonias de seu profeta através de uma espécie de internet sensorial.

Budismo, gnose, teologia. Todos estes temas estão presentes em sua obra.

Bráulio Tavares escreveu que Philip K. Dick injetou angústia kafkiana na ficção científica (Artigo de 27/04/2013 na Folha de São Paulo).

E então PKD teve sua própria epifania.

Foi em 1974 quando encomendou medicamentos a uma farmácia. A jovem entregadora que os trouxe galvanizou a atenção de PKD por conta de um pingente em forma de peixe que levava ao pescoço. Perguntou à jovem sobre o berloque e ouviu dela que se tratava de um dos mais antigos símbolos do cristianismo; neste instante (conforme relatou depois) um raio de luz rosa o atingiu e ele soube de tudo o que já havia esquecido, incluindo o fato de que ele e a garota eram membros de uma cristandade secreta.

E que ambos sabiam que o que chamamos de realidade era falso. Inclusive toda a história transcorrida desde o ano setenta da era cristã, nada mais era que uma alucinação em massa.

Eu sei, muito ácido na cabeça. PKD era notório usuário de anfetaminas. Não discuto. Mas não posso me furtar a admirar a coerência do sujeito, sua fidelidade a si mesmo (e vá lá, a sua loucura).

PKD passou escrever um diário a que chamou de Exegese, que por ocasião de sua morte em 1982 já continha mais de dois milhões de palavras e enchia dois arquivos de gaveta.

Na ocasião PKD acreditava que havia entrado em contato com uma entidade a que batizou de VALIS, um acrônimo para Vast Active Living Intelligence System. O mesmo título de um dos três livros que escreveria sobre o assunto ao lado de The Divine Invasion e The Transmigration of Timothy Archer.

No momento leio VALIS, um livro que basicamente replica na personagem Horselover Fat, as vezes também chamado de Phil, a experiência de PKD. Aliás, Horselover nada mais é que a tradução literal de Philip, Filipe, Filo-Hipos, amigo dos cavalos.

Philip K. Dick, o primeiro dos tecnognósticos.

Enfim, é a sugestão do chef para hoje.

 

Um obituário necessário.

amizade-coisas-pequenas

 

Agora que tudo acabou, posso falar.

A.S.O. morreu fazem já, quantos?, dois meses? Acho que falei dele na postagem Bruxas. Mando o link, aqui: http://tinyurl.com/zt379er. Morreu A.S.O. Acho que só agora posso falar dele, assim, a queima-roupa. O seu primeiro nome era Alvim e era meu amigo, o melhor, o mais digno, o mais fiel. E foi ele que me apresentou a Yukio Mishima e aos Dead Kennedys e a Kid Creole And The Coconuts e aos pontos de capoeira e à opera e a Stravinsky e a Shakespeare e a Jackson do Pandeiro e ao Estrebucha Baby de Zizi Possi. E foi ele que se levantava às sete da manhã para frequentar comigo a biblioteca da cidade. E foi ele que foi comigo ao MASP para compartilhar comigo o Zimbo Trio e seu “CLAM”. E ao Cine Gazeta para ver Blade Runner. E comigo ele foi até o Lira Paulistana, na Praça Benedito Calixto, para ver Tetê e Itamar Assumpção. E foi com ele que ouvi Pinocchio de Miles Davis e Lulu´s Back in Town com Thelonious Monk. E foi ele que me alertou para a complexidade de Peneirou Xerém do mestre Luiz Gonzaga. E foi ele que andou comigo dezenas de quilômetros a pé para tomarmos o vinho correto, para vermos a cantora exata. Foi que ele que apadrinhou meu casamento com a mulher exata, a que eu ansiava e que consegui convencer a ser minha mulher (assim, possessivamente. Amorosamente). Foi ele que me explanou os mistérios do universo: discutiu Nietzsche comigo, bebeu comigo o vagabundíssimo conhaque Padre Cícero, me mostrou os milagres únicos da luz em Velázquez e em Cartier Bresson. Alvim da Silva de Oliveira, filho de Antônio e de Alvina, carioca de Barra Mansa, sobrinho de Sebastiana. Minha bruxa, meu amigo eterno. E naquele cemitério em que o visitei pela última vez, fui duro: filho-da-puta, negão-do-caralho, quem foi que te deu o direito? E apertei suas mãos frias. E eu, ateu apostólico romano, sei que ele ria e ri, nalgum ponto, bem lá, dá prá ver?, na última nuvem. A da direita.

E uma hora a coisa acaba.

BELALUGOSI

 

Até que enfim atravessamos o proverbial Rubicão. Cabou. Finalmente, ‘guentava mais não. Aliviado, não comento mais e mais não falo. Ó, glória! Os patrícios no poder novamente. O povo do meio deve agora ser humilde, relaxar e fazer as oferendas habituais em riba de seus televisores, monitores ou seja lá qual for seu meio de ligação com o invisível. Trevas voltando, o povo de baixo fará o de sempre: comporá sambas, rocks diversos, funks a mancheia, forrós aos borbotões e continuará segurando e mantendo esta utopia chamada Brasilidade (alguém tem que fazer isso). Evoé, Musas, vão tomar cachaça, suas desequilibradas!