IDENTIDADES II – outro roteiro

emigrantes_1936

  1. Exterior – Dia – Um hospital visto do alto. O dia não amanheceu por completo. Traveling em torno do prédio.

MÚSICA: Perpetuum Mobile, de Simon Jeffes e Penguin Cafe Orchestra. No início de cada capítulo da série sempre se usará, na medida do possível, música sinuosa.

TÍTULO E CRÉDITOS abrem-se com os nomes dos atores surgindo aleatoriamente, descendo o subindo a tela, vagarosamente e por fim sumindo. A panorâmica do hospital  se estende a  câmera começa a se afastar. Vê-se uma ambulância chegando. A música pára, declinando, tornando-se lentamente inaudível.

  1. Interior – Manhã? – Um quarto despretensioso, pequeno. Um computador em uma mesa, alguns livros espalhados. Um jovem de cerca de vinte anos, negro, bonito, dormindo.
  1. Interior – O dia nascendo. Um apartamento arejado, com poucos móveis, espartano. A luz que se filtra de uma janela ilumina uma mulher de seus cinquenta anos, magra, leve, interessante, vamos dizer “branca”, com o olhar perdido em uma tela de computador. Selma Plá. Um suspiro longo, intenso.

FADE OUT para:

O nome da série, IDENTIDADES, aparece na escuridão.

MÚSICA: O trecho do tango de O último Tango de Vila Parisi, de Gilberto Mendes.

FADE IN para:

  1. Exterior – Outra ambulância. Sirenes estridentes. Cortando o trânsito já quase parado. A música pára em diminuendo.

CORTA para:

  1. Interior – O jovem negro acorda com o toque de seu celular.

CORTA para:

  1. Close no rosto da mulher ao computador.

SELMA PLÁ

Merda!

CORTA para:

  1. Corredor do hospital, cheio de macas. Os doentes amontoados e funcionários se esgueirando entre eles. Uma cacofonia geral. Em uma das macas, Vicente, o mendigo, é examinado por uma jovem médica. Negro, com cabelos carapinhos branquíssimos e longos se espalhando em todas as direções. Do mesmo modo a barba, de profeta louco. Ele parece calmo, quase divertido. A câmera começa a enquadrar Vicente, iniciando uma lenta aproximação. Diversos planos do mesmo local sucedem-se, sempre intercalados pelo plano da câmera aproximando-se de Vicente.
    • Uma mulher idosa conversa com uma adolescente sentada junto a sua maca. que lhe acaricia os cabelos.

MULHER IDOSA

A enfermeira disse que tu veio me vê ontem…

  • Uma enfermeira consulta seu celular, aparentemente alheia aos pacientes a seu redor.
  • Policiais conduzem um jovem algemado, com muitos hematomas pelo rosto.
  • Uma faxineira passa um esfregão no chão, recolhendo o que parece vômito. Pára, retira um celular do bolso do uniforme e confere, irritada, uma chamada que decide não atender.
  1. A câmera se aproxima cada vez mais de Vicente. A cacofonia começa diminuir, como se alguém estivesse pressionado uma tecla de volume. Finalmente, um close. Não se ouve nenhum som mais.
  1. Câmera subjetiva do ponto de vista de Vicente. Ele vê um operador de câmera e um cabista conduzindo um ponto de luz e uma estagiária segurando um rebatedor.
  1. Câmera focando Vicente. Ele começa a sorrir.

CORTE para:

  1. Outra ala do hospital. A ala nobre, onde os ricos podem morrer confortavelmente. Uma sala de recepção íntima, decorada com móveis de grife, plantas. Sem televisores, mas com wi-fi. Em um sofá, uma mulher idosa, cabelos totalmente brancos e curtos. Magra e elegante, responde às perguntas de uma solícita e educada funcionária, vestindo um elegante uniforme, com um lenço ao pescoço. O lugar e a funcionária parecem ser detalhes de um mesmo cenário: limpo, fresco e matinal. A mulher idosa, entretanto, dá uma ideia contrária. Como se sua dor não se adaptasse ao local. E aparenta estar esgotada. Flora.

MUSICA: Lentamente, começa a tomar forma o segundo movimento de Caduceu, de Marcos Visconti. Os violoncelos em glissando, tocados tão debilmente, que se ouvem às perguntas da funcionária.

FUNCIONÁRIA

Ele já teve outras crises como esta? Senhora?

FLORA

Como? Desculpe…

FUNCIONÁRIA

Eu tenho que fazer uma nova ficha. Por favor, ele já teve antes uma crise como esta?

FLORA

Só quando quase morreu. Ano passado, mas não foi neste hospital…desculpe, estou meio…desculpe…

A música pára. CORTA para:

  1. Câmera subjetiva de Caio, o jovem negro que dormia. O interior de um ônibus lotado. Duas jovens ao lado e acima conversam banalidades. Ao lado da janela uma outra jovem permanece alheia, fones de ouvido ligados a um telefone celular. Ela cantarola, desafinada, o que parece um hino religioso.
  1. Close no rosto de CAIO. Subitamente ele se levanta e câmera foca seu peito e depois o banco vazio conforme ele sai.

CORTA para:

  1. Vicente, segurando o pedestal com o soro ligado a seu braço direito, caminha pelo hospital, seguido pela câmera. Ele caminha, para, volta-se para trás, dá uma volta em torno de si mesmo, sempre rindo, como uma criança que descobriu um brinquedo novo.

MÚSICA: Palhaço, de Egberto Gismonti começa a ser ouvido.  Vicente se movimenta como se ao ritmo da música.

CORTA para:

  1. Caio, na recepção do hospital, conversa com a atendente. Ouve-se o nome de Vicente.

CORTA para:

  1. Apartamento de Selma Plá, atendendo ao celular, se confundindo com as teclas, se aproximando da janela para melhor visualizar à tela.

SELMA PLÁ

…sei, olha, já tô indo prá aí (pausa)…certo (pausa)…certo, fala prá ela que eu já tô indo.

CORTA para:

  1. Vicente saindo da ala pobre do hospital. Estranhamente, parece ser ignorado por todos a sua volta. Atravessa um pátio de estacionamento de ambulâncias e entra em outra ala, vai até um elevador, entra. De frente, movimenta os lábios para um “tchau” sorridente e inaudível.
  1. Câmera subjetiva de Vicente mostra a mesma equipe de filmagem. As portas do elevador se fecham e a música vai lentamente declinando.

CORTA para:

  1. SELMA PLÁ dirigindo. Tensa.

CORTA para:

  1. Caio, perdido, procura Vicente pelos corredores do hospital.

CORTA para:

  1. Vicente parado, na ala nobre do hospital, observa a distância um médico tão bem caracterizado como o “médico confiável”, que parece saído de um seriado americano, conversando com Flora. Os seus modos contidos dão todos os sinais de que são más notícias.

CORTA para:

  1. O hospital, visto do alto, em ângulo reto. Silêncio absoluto. Não se ouve nada dos sons da cidade.

CORTA para:

  1. Caio atravessa o pátio de estacionamento. Chuva forte.

CORTA para:

  1. Selma Plá ao telefone, ainda ao volante.

SELMA PLÁ

É…recebi agora…teu avô parece que tá mal. Vem prá cá…(pausa nervosa)…esquece a porra da reunião e vem prá cá!

CORTA para:

  1. Vicente se encaminha para Flora, encostada a uma parede, em choque. O médico desiste de estabelecer uma conversa e se afasta, passa por um Vicente compassivo, altivo, digno, vestido com suas roupas velhas de mendigo e arrastando ao pedestal com o soro. O médico volta-se para trás e faz menção de ir em sua direção, depois desiste e sai cabeceando. Vicente chega até Flora. Ela o encara, desconcertada. Vicente deposita o pedestal do soro como se fosse uma bagagem da qual se desembaraçar. Avança em direção a Flora e abre os braços. Flora se aninha neles e chora em abandono. Vicente a conforta.

MÚSICA: o movimento final de Caduceu, com os dois pianos levemente dissonantes como que embalando e dando sentido aos sentimentos de Flora.

CORTA para:

  1. Caio, tenso, conversando com o médico que conversara antes com Flora. Percebe-se que o médico está pouco a vontade. Seus gestos parecem querer indicar a Caio que ele está no lugar errado do hospital.

CAIO

Olha, é o meu avô, disseram que tava aqui, mais eu não achei ele em lugar nenhum…

MÉDICO

Tá, tudo bem…mas olha, você tá no lugar errado. Tenho certeza…tenho certeza de aqui ele não tá, não…procura a recepção principal…

CAIO

Foda-se a recepção principal…ele não tá na ala dos fodidos. Eu só quero procurar pelo meu avô…

O médico e Caio são interrompidos pela chegada de Selma Plá, nervosa. Ela tenta conversar com o médico. É interrompida por Caio, cada vez mais nervoso. Ela se acalma e tenta conversar com Caio. O médico, por sua vez, a interrompe. Toda a cena é muda. Depois de algum tempo, a câmera foca o rosto do médico, se concentrando em sua boca, irritada, tensa. Subitamente, voltamos a ouvir o diálogo.

MÉDICO

Olha aqui, moço, já te falei que teu avô não tá aqui. Escuta, quer que eu chame a segurança?

Tomada de Caio e Selma, lado a lado, a partir das costas do médico. Selma parece desconcertada e Caio, perdido e quase chorando.

CAIO

Eu só quero…(pausa)…eu só quero.

Selma Plá perde a paciência e se interpõe entre Caio e o médico.

SELMA PLÁ

Olha aqui ô fela-da-puta, vai procurar um tronco prá se enrabar!

O médico, surpreso demais para articular, a princípio. Depois, intimidado pela vontade e presença de Selma, que não cede um milímetro.

MÉDICO

O que? Olha, a senhora…quem é a senhora pensa que é? Eu vou chamar a segurança e é agora!!! Aliás, quem é a senhora?

Selma endurece ainda mais sua expressão, se é que isto é possível. Olha para o médico como se ele fosse um espécime interessante em um serpentário.

SELMA PLÁ

A nora de Flora Rosenblatt e uma mulher sem saco…

O médico fica desconcertado e irritado ao mesmo tempo, como uma criança a quem tiraram o doce. Vê-se que há uma luta interna se desenvolvendo: de uma lado a vontade de punir uma afronta e de outro o reconhecimento de que o autocontrole se faz necessário por conveniência. Além disto, Selma é intimidante demais e Flora Rosenblatt é pessoa importante e influente.

MÉDICO

Ah…desculpe. Não sabia…minhas condolências.

CAIO

Escuta, eu só quero saber do meu avô…

SELMA PLÁ

Peraí, condolências?

MÉDICO

Sua sogra esta na sala de espera, ali, dois corredores a frente…a direita. Com licença.

O médico se afasta, olhando de esguelha para Caio.

CAIO

Ô moça, desculpe a insistência…

SELMA PLÁ

Certo…relaxa rapaz, a gente acha o teu avô. Mas deixa eu ver minha sogra primeiro. Vem comigo!

Selma sai decidida. Caio, segurando desajeitado sua mochila, acaba por a seguir.

CORTA para:

  1. Vicente e Flora tomando café em grossos copos de plástico, sentados em um banco no jardim coberto do hospital. Flora aponta para o pedestal com o soro.

FLORA

Isso aí não te incomoda, não?

Vicente, plácido, se vira para Flora e ri.

VICENTE

Incomoda.

FLORA

Veio parar aqui, como?

Vicente retira a agulha do soro do braço.

VICENTE

Hoje de manhã. Foi uma noite fria, sabe? Aí eu acordei aqui…não sei quem me trouxe. E você?

FLORA

O nome dele era Mordechai, mas ele não achava que era um nome fácil. Sabe, pros negócios? Então ele se apresentava como Heron…era…

VICENTE

Era uma boa pessoa?

Flora deu um longo gole em seu café.

FLORA

Era. Tinha sentimento em tudo o que fazia.

VICENTE

É muito mais do que se pode dizer da maioria das pessoas. Então, acho que tá bom.

Vicente enfia a mão em seu jaquetão puído e tira uma bagana de maconha, que acende calma e cuidadosamente. Dá uma puxada e a estende para Flora.

VICENTE

Vai, você agora é uma viúva. Tá na hora de fazer umas loucuras.

Flora aceita a bagana e dá uma tragada profunda.

FLORA

Meus Deus, maconheira depois de velha…

CORTA para:

  1. Selma Plá e Caio entram de repente no jardim, mas param ao ver a cena de Vicente e Flora dividindo a sua maconha. Tímidos, como se receassem interromper um momento sagrado.

CORTA para:

Foco da câmera em Vicente e Flora, placidamente dividindo a bagana. Caio e Selma se aproximam, solenes. Selma abraça Flora e Caio senta ao lado ao avô, lhe acariciando os cabelos.

CAIO

Vem prá casa, Vô.

Vicente retribui a carícia nos cabelos de Caio, mas não diz nada. Selma se ajeita ao lado de Flora, colocando uma mão desacostumada ao contato em seu ombro. Flora ri suavemente, chapada.

FLORA

Agora eu tô ferrada, não tô? Viúva. Quer um tapa?

Selma pega a bagana da mão de Flora, apaga-a eficientemente com dois dedos molhados na boca e joga nas plantas próximas. Sua expressão é divertida.

SELMA PLÁ

Não.  Já faz um tempinho que eu não fumo issaí…maconheira…queria que o teu filho te visse agora.

Flora se aconchega a Selma. Vicente e Caio observam.

FLORA

Tenho saudades dele, do Benny…ainda não deu prá sentir saudades do Heron ainda.

Selma Plá estende a mão a Vicente, que a cumprimenta, sorridente. Caio o levanta e o ampara, mas é Vicente quem se empertiga e parece conduzir Caio para fora do jardim. Caio acena para Selma e a deixa com Flora.

MÚSICA: Volta o tema do tango de O último Tango de Vila Parisi, de Gilberto Mendes.

FADE OUT para:

A tela inteira escurece e começam a descer os créditos. A música aumenta e preenche tudo.