2016, o samba e outras considerações

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Flores de Casamento – Marc Chagall

Uma coisa a que sempre aborreci foram as considerações de fim de ano.

Não quero ofender ninguém, é coisa minha.

É para mim e só para mim que serve.

Querendo aderir, se aprochegue e abra a lata, tome o cálice, dê um tapa na bagana. Mas não é obrigatório.

Mas dizia eu não apreciar as retrospectivas. Vera verdade verdadeira esta minha idiossincrasia. Sempre me incomodaram as contagens finais de segundos. Parece que uma bomba vai explodir.

A coisa é que eu canto samba, por que só assim eu me sinto contente. E vou ao samba, porque longe dele eu não posso viver, se me permitem a paracitação de nosso filósofo maior, o Paulinho.

Paulinho, o da Viola.

O lance, a coisa que me demove do saudosismo é que continuo vivo. Os achaques da vida que acumulo a cada ano, as separações de amigas e amigos diletos, as redefinições do amor, todos têm algo em comum: não me dão tesão. Não penso sequer em os esquecer, faço questão do Caos, da brusca guinada de direção, mas não os maldigo, nem edulcoro.

Estão aí, fazer o que? Mas questão faço de escarnecer e maldizer. Vejam, como sou coerente.

Deus, ó deus!

Tamos aí, amigo, mas pega leve.

E só o meu jeito de cantar, ninguém precisa entrar no coro.

Modos que, ora veja o senhor, Seu Coronel, ora veja a senhora, Sinhá, acabei por retrospectar, o que é só outro modo de dizer que sou infiel até a mim. Graças ao deus dos agnósticos.

Há um céu, quero que saibam, onde meu tataravô africano toma uma cachaça, feita pelo meu tataravô bugre, com meu tataravô judeu e o tataravô mouro. E as tataravós cozinham boa comida que, aliás, não é Kosher. Ou talvez seja, meus contatos com o além não foram muito informativos.

E elas conversam, estas minhas avós vindas de todo o planeta, e com esta conversa sustentam o mundo.

E nem mesmo contei aos avós mortos que logo terão companhia de outras avós e avôs japoneses e espanhóis, que a família aumentou.

Meu tio avô pernambucano, Vicente, tocava rabeca, meu tatara-tatara judeu, marrano com batistério e tudo o mais, Davide de Sande, tocava o shofar, escondido, nas sextas-feiras quando enxergava as Três Marias.

Meus avós africanos fabricavam pífanos.

Sua bênção, mãe.

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