MUNDOS DISTÓPICOS, ROBERTO CARLOS E A VIDA COMO ELA É

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Em 1984,  pressentindo uma tempestade que se aproximava, Mateus José caminhou pela Rua dos Patriotas e desceu até a estação ferroviária do Ipiranga.

 

Em 1981 Mateus José comprou um livro em uma banca de jornal, defronte à estação ferroviária de São Caetano. Era o Ulisses, de Joyce. Ele só leria o livro anos depois, durante uma temporada de desemprego.

 

Em 1978 Mateus José ia para casa em um ônibus, por volta de 14h00min (ele havia sido demitido e não teria que trabalhar até as 17h30min), ocasião em que ouviu e nunca mais esqueceu a música “Para ser só minha mulher”, de Roberto Carlos. Ele sempre associaria a canção ao amor e aos dias frios.

 

Em 1982 Mateus José foi apresentado a Blade Runner, no Cine Gazetinha e nunca esqueceu o pombo nas mãos de Rutger Hauer, alçando vôo.

 

Em 1989 Mateus José trabalhava no turno da noite em uma transportadora, ocasião em que viu luzes no céu. Uma delas lá permaneceu por horas a fio, depois deslocou-se em alta velocidade até o horizonte e desapareceu. Anos depois, comentando o ocorrido, negou-se a usar as palavras “ovni” ou “ufo”, dizendo que vira luzes se movendo e nada mais.

 

Em 1986 Mateus José fez amor pela primeira vez com uma senhora muito simpática que ele achava que jamais iria dar, mas deu. Achou muito estranho que a mesma simpática senhora, tão bonita e desejável, tivesse chegado ao orgasmo (Mateus José não confiava muito no universo e nem em si mesmo e sempre esperava pouco da vida).

 

Em 2013 Mateus José foi flagrado em estado de êxtase que durou horas, depois que uma revoada de garças  sobrevoou sua cabeça em um manguezal de Cubatão.

 

Em 1972 Mateus José era uma criança e num dia chuvoso olhou para o morro cheio de árvores e nublado e conseguiu sair (por breves momentos) para fora da Eternidade. Ele nunca mais repetiria a experiência, mas nunca duvidou dela (ao contrário da maioria). Até porque sempre conseguira, quando criança, sair com certa regularidade para fora da Eternidade se a ocasião fosse propícia.

 

Em 2031 Mateus José foi recrutado pela Patrulha do Tempo.

Que possa você viver em tempos interessantes!

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Que possa você viver em tempos interessantes! É uma maldição chinesa, imemorial. Bem, obrigado. Já vivo.

Não costumo replicar artigos d´outrem neste acanhadíssimo espaço. Não me acho, não me tenho assim em tão alta conta. Mas sempre existirão as exceções.

Mais uma vez, não é meu o artigo. Segue a fonte: https://goo.gl/hzvhYC.

Eis:

Bombas semióticas 2, A Missão! O Império Contra-ataca! Após as recentes pesquisas revelarem que Lula está mais vivo do que nunca, liderando com folga todos os cenários eleitorais para 2018, e que ainda seus principais adversários estão se desgastando com a evaporação do mar de rosas que, acreditava-se, seria o País pós-impeachment, o complexo jurídico-midiático reage. Depois de novos vazamentos seletivos e busca de mais espécimes assustadores do “Brasil profundo” para figurar na capa de revistas semanais, retiram mais uma vez do paiol midiático a artilharia pesada das bombas semióticas. Dessa vez, em um comercial para TV da GM Brasil no qual se posiciona sobre temas como “ética” e “política” para vender o novo Chevrolet Cruze.  Mais uma vez, a tática de engenharia de percepção – por meio de gestalt, cores e a palavras metonimicamente contaminadas, bombas semióticas criam um pano de fundo para tornar mais crível o cenário político do momento. Reforçam subliminarmente pautas, slogans e clichês disseminados liminarmente pela grande mídia. Um exemplo de como a criação publicitária torna volátil a fronteira entre consumo e cidadania.

 

Depois dos resultados da pesquisa CNT/DMA mostrando que o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva venceria as eleições 2018 em todos os cenários, acendeu-se a luz amarela do maior partido de oposição na era lulo-dilmista: o complexo grande mídia e Judiciário.

Mesmos com todos os escândalos associados ao PT denunciados pela Operação Lava Jato, com todas as manchetes diárias sobre um grandioso triplex no Guarujá, um suntuoso sítio em Atibaia e, agora, um curso para o filho de Lula supostamente pago pela Odebrecht, mesmo assim Lula continua favorito com folga para as próximas eleições. E o que é pior: revelando o desgaste dos oponentes Temer, Aécio e Alckmin – corroídos pela crise econômica que contrariou a expectativa de um mar de rosas após o impeachment e os respingos das delações premiadas e vazamentos nos outros partidos.

E pior ainda: colou-se à imagem de Lula, além do “sebastianismo” (sobre esse conceito messiânico na política clique aqui), a nostalgia de um país que viveu tempos melhores com o crescimento da Classe C, a expansão do crédito e do consumo.

A reação do complexo jurídico-midiático foi imediata: a ministra Carmen Lúcia decide pelo sigilo das delações que estavam sob custódia de Teori Zavascki – será que ele pagou com a própria vida? (clique aqui) Aliás, por que as investigações sobre as causa do suposto acidente aéreo desapareceram da mídia?

 

Claro, a decisão pelo sigilo é a senha para iniciar a estratégia dos vazamentos seletivos que atingirão alvos selecionados, de acordo com a conjuntura política do momento. E Lula novamente é o alvo da vez depois dos alarmantes números das pesquisas.

Espécimes de águas turvas

A segunda reação é novamente buscar no fundo das águas turvas do Brasil profundo exemplares obscuros, psicóticos e paranoicos, como fez a revistaIstoÉ: a utilização de um espécime chamado Davincci Lourenço que teria levado uma mala cheia de dinheiro para Lula num período em que supostamente viveu na intimidade da cúpula da construtora Camargo Correia. Enquanto isso, Davincci fazia vídeos com gravíssimas denúncias sobre pernilongos geneticamente alterados pelo PT para criar a epidemia de Zika e desviar a atenção do povo dos problemas de corrupção da Dilma, além de posar como sniper, vestindo camiseta do FBI e com o símbolo da Polícia Federal de fundo…

Agora, do fundo do paiol da grande mídia, ressurge a grande arma detonada durante a crise política iniciada pelas grandes manifestações de rua de 2013: as bombas semióticas.

A General Motors do Brasil estreou nova campanha publicitária nesse domingo (19) se posicionando sobre os temas da “ética” e “corrupção” como estratégia de promoção de vendas dos novos Chevrolet Cruze hatch e sedan.

O comercial

Exibido nos canais Globo, Band, AXN e Sony, o comercial mostra planos gerais de ruas desertas do Centro do Rio de Janeiro que logo depois são ocupadas com manifestantes empunhando placas e faixas exigindo ética e combate à corrupção, com a indefectível presença de policiais de choque com escudos. “Somos um povo que aprendeu a exigir mudanças e que está mudando para servir de exemplo”, inicia a locução feminina em off.

“Que não aceita menos que o justo”, continua com imagens estilizadas de engravatados sendo conduzidos por agentes também estilizados da PF com locuções de telejornal ao fundo dizendo: “esquema de corrupção iniciado em 2009…”.

“Que cansou da malandragem…”, a palavra “malandragem” com tom jocoso, entrando com som de cuíca ao fundo e um gari varrendo “santinhos” de políticos no chão de uma calçada. “E que acelera na direção certa!”, conclui a parte político-ideológica do comercial para depois, metonicamente, o comercial associar mudanças políticas com a troca do seu carro pelo novo Chevrolet Cruze.

O que são bombas semióticas?

Bombas semióticas não se prestam à inculcação político-ideológica: isso já é feito diariamente pela pauta do jornalismo e colunistas da grande mídia. Sua função pertence à engenharia de percepção mais ampla e atmosférica – reforçar o noticiário dominante criando subliminarmente um pano de fundo, um horizonte de eventos ou uma paisagem de signos com gestalts, cores e sutis alusões a slogans e clichês do cenário político do momento.

Em outras palavras: reforçar através da estética e da percepção em filmes, vídeos publicitários, clipes da Internet etc. a memória do conteúdo já absorvido cognitivamente pelo noticiário – sobre a série das bombas semióticas analisadas pelo Cinegnose clique aqui e aqui.

E o comercial da GM é um caso exemplar dessa estratégia semiótica.

(a) O caminho inverso

Em primeiro lugar chama a atenção o caminho inverso tomado pela aproximação Publicidade/Política. Se em 2013 as manifestações “espontaneamente” tomaram slogans publicitários como “Vem pra rua” (comercial da Fiat para a Copa das Confederações) e “o gigante acordou” (comercial do uísque Johnnie Walker) transformando em palavras de ordem e hashtags, agora um comercial exorta os brasileiros a não mais tolerarem a corrupção diante da proximidade das eleições presidenciais 2018.

E convoca novamente os brasileiros irem para as ruas… com o novo Chevrolet.

A GM faz uma espécie de recall para os manifestantes e paneleiros, agora silenciosos diante das tentativas do governo do desinterino Temer em “estancar essa porra de sangria” das investigações da Lava Jato.

Porém, um recall tão seletivo quanto os vazamentos das delações premiadas, como sempre, mantidas em sigilo.

(b) Contaminação de cores e gestalt

Todo o comercial faz um jogo de contaminações metonímicas nas quais imagens e palavras tomadas isoladas tem um sentido. Mas próximas ou colocadas em sequência tem um significado completamente outro.

Depois da introdução mostrando manifestantes nas ruas, que termina com imagem do estádio do Maracanã lotado na Copa (alusão ao período 2013-2014 das grandes manifestações de rua), entra a locução “um esquema que começou em 2009” (recorte arbitrário da história da corrupção brasileira – tudo parece ter começado exclusivamente no período lulo-petista) para, em seguida entrar o gari que varre santinhos eleitorais na rua.

A sequência é um primor subliminar de Gestalt, cores e movimento. Temos o som de cuíca ao se falar em “esquema de malandragem” – o estereótipo carnavalesco de “jeitinho brasileiro” associado preconceituosamente a uma suposta índole brasileira. Mas, contraditoriamente, tudo só começou em 2009…

Nos “santinhos” varridos em plano fechado vamos a previsível cor vermelha e uma estrela estilizada na mesma cor sob a sigla PCE de um partido genérico. Pode parecer paranoia desse humilde blogueiro, mas numa estratégia de engenharia de percepção, vermelho, estrela e “PC” (“Partido Comunista”) são alusões sugestivas e contaminantes em um comercial de poucos segundos e com muito movimento e deslocamento de planos de câmera.

Mais além: ao lado desse “santinho” há um de outro partido. Nele vê-se uma mulher sorridente. Não se identifica as iniciais do partido, mas um número bem destacado em amarelo: “73”. Mas a gestalt torna-se ambígua com o movimento da vassoura que varre o lixo eleitoral – em movimento a gestalt confunde-se com “13”, número do PT – veja fotos acima.

(c) Acelera!… o Chevrolet ou Doria Jr.?

Mas a alusão mais explícita vem imediatamente depois: “… e que acelera na direção certa…”. Depois do vermelho, da estrela e do 13 sendo varridos, temos uma inacreditável alusão ao slogan de João Dória Jr. (PSDB-SP) na eleição à Prefeitura de São Paulo: a exortação “Acelera São Paulo!”.

Esse slogan  foi ainda inspirado em outro usado em 2011 num projeto da Secretaria Estadual de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia do governo Alckmin (PSDB-SP) – “Acelera SP”.

Obviamente o leitor deve estar pensando: “que blogueiro paranoico! (ou “petralha”?) Você não é muito diferente do espécime usado pela revista IstoÉ! O comercial pede apenas para que o consumidor acelere o novo Chevrolet Cruze…”

Esse pensamento somente incorreria numa ingenuidade semiótica. Ou, pior: em analfabetismo visual. Claro que tomado da forma literal e isolada, a exortação “Acelera!” é unicamente voltada ao consumidor. Mas quando “acelera!” vem acompanhado de toda uma digressão político-ideológico-partidária, o verbo é imediatamente contaminado e, dessa vez, voltado para o cidadão. Como toda bomba semiótica, apenas reforça subliminarmente pautas, slogans e clichês disseminadosliminarmente pela grande mídia.

Por isso, quando um comercial pretende se posicionar sobre ética e política para vender um produto fica a questão: a mensagem publicitária está dirigindo-se para o consumidor ou para o cidadão? Certamente para a criação publicitária, essa questão não se coloca. Afinal, para o universo publicitário no qual acelerar um carro é a mesma coisa que acelerar um país para o futuro, consumo e cidadania são a mesma coisa. O que torna-se semioticamente perigoso e volátil: as palavras ficam perdidas em um reino metonímico no qual slogans de marcas de uísque e de carros facilmente viram slogans “apartidários” para gente supostamente politizada.

SENHOR, BASTA DE PRÓLOGOS NOS BASTIDORES DO CÉU!

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“Senhor, basta de prólogos nos bastidores do Céu”. A frase faz parte de um diálogo entre Lúcifer e Deus-Todo-Poderoso no conto (conto? Ensaio?), bem, no conto Lúcifer, um dos muitos, contos ou ensaios ou sermões contidos no livro A Forma Secreta, de Augusto Meyer.

A livro que tenho em mãos é da quarta edição (a primeira foi de 1965), mas não consta o ano e pertence à Francisco Alves.

Bem, Augusto Meyer? Sei lá. Melhor que os interessados procurem aí nos oráculos diversos, do Google ou do Bing, se paciência tiverem.

Mas, Lúcifer. O conto vem logo depois de Doutor Magnífico, sobre Santo Anselmo, o mentor de Santo Agostinho.

Basicamente, Lúcifer é a história da criação primeira, a dos anjos, de como o Senhor os plasmou do nada, ainda antes de Adão. Um proto-Gênesis. O primeiro Bereshit, se me permitem a citação torta do Tanach, a bíblia hebraica.

Deus está só, na sua glória. Mas que glória há se não houver um outro para repercurtir a glória? (Meyer é cruel). O Senhor, só, na Fábrica dos Anjos cria os anjos, dá-lhes um pouco de seu esplendor e de repente temos o coro celestial inteiro, louvando ao Senhor.

E criou o Senhor aos anjos, dividindo-os em castas definidas: Anjos, Arcanjos, Postestades, Virtudes, Dominações, Querubins e Serafins. Bem antes de John Ford já havia o Senhor subdividido o trabalho, já havia o Senhor organizado ao chão-de-fábrica.

Mas, e sempre existiu e existirá o “mas”. Mesmo o Senhor parece ter ficado de saco cheio daquela perfeição louvaminheira. Tá, criara um porrilhão de anjos, mas se sentia só ainda, que lambeção geral de saco é só lambeção geral de saco, não companheirismo e muito menos originalidade. O Senhor sofria.

Foi aí que criou Lúcifer, o mais belo. Samael, a Estrela da Manhã, o Pastor de Sóis.

No momento em que nasce, belo e sereno, mais poderoso e mais sábio que seus colegas, percebe Lúcifer que foi criado para ser o divisor, o rebelde. O pai da sedição.

E sendo Lúcifer, Lúcifer, não era de seu feitio o esperar, o seguir o roteiro até à última letra. Não, Samael-Lúcifer era impaciente e, por assim dizer, resolveu chutar o pau da barraca divina.

Foi direto ao assunto.

Em síntese, disse ao que veio, disse “Senhor, sei que estás até a tampa com a bajulação angélica. Então, vamos adiantar o expediente: ponde no meu rabo de uma vez! Vamos variar as coisas por aqui”.

Não, Augusto Meyer não escreveu estas palavras. É mais uma tradução livre, do seu espírito. Relevem.

Mas eu dizia? Sim, após o delicado esporro luciferino, viu o Senhor que aquilo era bom, isto é, ao mesmo tempo mau e bom.

E maravilhou-se o Senhor da arte com que sabia escrever direito por linhas tortas. O que Lúcifer propiciara ao Senhor era a possibilidade do diálogo, coisa antes impossível.

E não perdeu tempo o Senhor. Após o protocolar chute no rabo de Lúcifer, deu início imediato à conversação:

— Adão, onde estás?

Recomendo o livro. Procurem-no. Vão lá no sebo onde está recolhido, esperando, na segunda fileira de estantes, no quarto nível de prateleiras, contado de baixo para cima.

E é isso.

Ouve, ó Sião…

profeta-isaias

 

 

Por que, por que não ouviram ao Corintiano Voador, quando ele bradava aos quatro cantos do mundo, de riba do Monte Everest, avisando da conspiração macumbístico-germânico-ocultista para minar o Brasil. Sim, ele sabia. Previra tudo. Soubera da convocação do famigerado pai-de-santo Ulrich de Wotan e da perversa Ialorixá Mãe Franziska de Czenerborg e tentava avisar aos incautos da pátria. Foi ouvido? Níquites. E os despachos feitos nas esquinas de Berlim, a base de Faisões e Schnaps, Hein, hein, hein? É o carajo, ninguém ouve o profeta em sua terra…

MUNDANIDADES

Arte e Literatura – William-Adolphe Bouguereau

O mundo são todas as possibilidades.

Não sei se entendi, mas aí vai de novo: o mundo são todas as possibilidades. Estou gostando cada vez mais.

Não resisto, é mais forte que eu.

O mundo…são todas…as possibilidades. Mas hoje eu estou de verve, como diria Machado, o de Assis.

E caminha o mundo?

O mundo caminha, caminha e caminha. Vai caminhando o mundo, entra pelo túnel, sai do túnel e caminha.

Mas então tudo tem seu final. O que é o mundo?

O mundo é um balaio.

Repito. O mundo é um balaio, o rato é safo, o gato seduz, o barro dá forma, o cavalo trota, a musa tarda, o momento passa, a pergunta cala.

E é mundo sempre e durante e onde: agora, pressionarei a última tecla.

No meio do caminho do mundo que caminha não tem uma pedra, tem bosta.

É um moinho o mundo!

É o mundo em transe. Mas como já dizia um sábio (a modéstia me faz calar seu nome): não é o fim do mundo.

O filho de uma égua: a história de um tipo ideal

satiricon

Cartaz japonês do filme Satyricon, de Federico Fellini

 

 

E então eu tinha aí uns dezessete, dezoito, dezenove anos. Talvez uns trinta. De qualquer modo faz tempo. Mas eu falava?

Foi aí nos noventa (modos que esqueçam os dezoito e os dezenove) que passei a frequentar o sebo de Maurinho, que era um místico, um sábio, um anacoreta e um agitador cultural. E pernambucano, também.

Pois bem, Maurinho tinha lá o seu sebo e oferecia de brinde uma beberagem mefítica: o conhaque Padre Cícero (a perdição, aliás, de Kamikaze Joe).

Mas não falarei de Maurinho, inda que Maurinho mereça, mas não merecerá hoje. Falarei de Petrônio. Mais exatamente Caius Petronius Arbiter, romano filho-de-uma égua criador de outro filho de uma égua, a primeira personificação do fela-da-puta cósmico, o primeiro cabra da peste: Trimálquio. Ou Trimalcion ou trimalcião, dependendo da tradução. Bem, Trimálquio. Prefiro.

Ora notem que eu percorria as estantes imundas do sebo de Maurinho, escolhendo e zoiando, quando me deparei com Petrônio, ali, solitário e sebento. O livro, o Satiricon (alguém se lembrará aí de Fellini? Não? Deveria), em tradução de Marcos Santarrita, edição de 1981 da editora Abril.

Apiedei-me. Li a orelha e acolhi o abandonado e conheci a Trimálquio.

Era um liberto, um escravo libertado por seu senhor e que depois ascendeu socialmente, mas continuou, como direi?, bem, um Trimálquio. Seria hoje o que chamaríamos de classe média, se não nas posses, no modus.

E notem que Trimálquio foi gestado no primeiro século da assim chamada era cristã. Petrônio, alcunhado de Arbiter Elegantiae, árbitro da elegância, foi contemporâneo e cortesão no reinado de Nero, o imperador, que podia ser um porralouca mas tinha estilo.

O Satiricon será talvez a única obra pela qual será lembrado.

Bem, Trimálquio é só um episódio do Satiricon de Petrônio. Uma festa dada por um liberto milionário para uma plêiade de ex-escravos, compartilhadores de seu antigo status e de certa forma seus involuntários cúmplices.

Trimálquio ostenta sua riqueza, desavergonhadamente, deliciosamente em um jantar que é cena central e fundamental da obra. Ele ri e chora, deblatera e a sua ordem seus escravos tomam parte em pequenos atos teatrais pensados para surpreender e maravilhar seus convidados. E todo festim é tratado como uma peça teatral, inclusive com maquinismos que fazem jorrar do teto que se abre vasos de alabastro contendo perfumes ou fazendo servir falsos ovos de pavão contendo papa-figos imersos em gema de ovo apimentada, entre outras iguarias fantásticas e em grandes quantidades.

Participam da festa, além de Trimálquio e amigos, sua esposa Fortunata e os vagabundos Ascilto, Gitão ou Gíton e Encólpio, o narrador.

Trimálquio é inculto, embora goste de posar de sábio; um glorioso e obeso grosseirão que ostenta a cada instante sua fortuna e sua sorte.

Seriam necessários quinze séculos para que Shakespeare criasse o seu Falstaff, um digno herdeiro da tradição, se desconsideramos o Miles Gloriosus de Plauto (que na modesta opinião deste escriba não faz jus de perfilar-se a seu lado. Falta-lhe o talhe de burguês).

Trimálquio mesmo impõe a seus convivas que compartilhem consigo seus projetos para sua pós-morte, narrando-lhes como será construída sua tumba e obrigando-os a ouvir seu epitáfio:

Aqui repousa Gaio Pompeu Trimálquio, digno êmulo de mecenas; em sua ausência foi nomeado um dos seis; poderia ter pertencido a todas as decúrias de Roma, mas recusou esta honra; piedoso, valente, fiel, nasceu pobre e conseguiu depois uma grande fortuna; deixou trinta milhões de sestércios e jamais assistiu às lições dos filósofos. Passante, desejo-te a mesma sorte.

Não, não consigo pensar em outra criação que personifique tão maravilhosamente a pequenez e a grandeza, o pequeno milagre e o grande paradoxo da criatura humana.

E é isso.

POEMETO II SEM MÉTRICA (para se ouvir ao som de “o último tango em Vila Parisi”)

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O mundo do mais estranho, a caixa de pandora,

O tremedal do medo, o caos, a tunda

Nada mais será do que preâmbulo, moda

Onde todos baixam as cabeças e erguem a bunda

Feito assim um Brasil, desses aí, à roda

Feito um Brasil, assim, um macambúzio

Como se um babalaô cantasse

A predição adormecida no interior do búzio

Ó tempos, ó estações, ó descalabro

Onde todos os animais que peidam

onde todo Jesus que é babujado

Onde o quadrilátero dos sicofantas

Onde todos os profetas com cajado

Prosperam, escrevem, arrotam, beijam

Ai, eis que me ufano destas plantas

Pois temos nesta terra os fortes cus

Mui penetrados, uns sangrando, uns

As pregas excitadas e retráteis, de truz

Ó meu país, o mundo…o mundo

Ó rosa dos ventos, ó meu pão sírio

Aqui deste lado é mundo e é escuro

Mesmo assim, até por isso, contudo

POEMETO (A modo para se ouvir ao som de “Nau”)

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Ameaça de Chuva – Oswaldo Goeldi

 

 

A tarde pequenina

O velho opróbio

A questão mais que última

A esquina

E sendo tudo ilusório: o tempo, a palavra e a rima

 

Por o tudo em todo o todo é que são artes

O passaredo

E os jardins e as tardes

E o degredo

 

O roncar surdo do meu cão

E a solidão

 

KAMIKAZE JOE E O SOMBREIRO DO CALIFA

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Um sombreiro é um sombreiro. Aquele chapelão mexicano sempre pousado na cabeça de um infante chamado Miguelito, como sabem todos os apreciadores do gênero Western.

(É assim que se escreve, Dona Neide?)

Mas…sombreiro do Califa?

— Jesus cristo, do que falamos aqui, Ibrahim?

— Um símbolo de poder, Bwana Kamikaze. —  E obsequiosamente Ibrahim improvisou uma mesura de cortesão.

— Dindonde?

Kamikaze Joe deu tragada valente no seu Tribeca Hashishin.

— Não dá aguentar esse teu bagulho, mano. Fede mais que estrume queimado de dragão-peidorreiro. — Temujin Pancho se afastou para o extremo da ponte de comando e colocou o condicionamento de ar no máximo.

— Cinco por cento de haxixe marciano, o resto é perfume e fumo-de-goma. Vai se foder!

Ibrahim, turbante azul-cobalto, pele azul-cobalto e barba carmesim, aguardou paciente o término da conversa entre o herói e o ajudante-de-herói.

— Nova Bagdad, Delta do Pavão, valente Bwana Kamikaze. O califado usa o sombreiro ancestral como símbolo de sua posição. É uma relíquia adorada por bilhões, até mais que o Dedão da Virgem.

— Quem…? —  Temujin.

Estavam todos na Briolange, a fragata pessoal de Kamikaze Joe, orbitando Capribarbicornipedesfelpudo, o famoso planeta-prisão.

Depois de entregar um prisioneiro célebre e receber a recompensa Kamikaze nada mais almejava que uma temporada de farra e orgia no puteiro de Madame Camorim, lá prás bandas de ReginaDuarte III.

Todos se lembrarão, é certo, da galante, mas também perigosa aventura que terminou com a prisão de Zeferin, o Demoninho Mauzinho Assassino Canibal.

Mas, como se pode cotejar em célebre página do Kamikazion, todos também se lembrarão que por esta época nosso herói passava por uma fase difícil, conflituosa em sua carreira de herói multifacetado e brigão. Ora, uma reputação é uma reputação e Kamikaze começava a perceber um certo deslustro na apreciação de seu nome.

Talvez uma consequência do fragoroso vexame no banquete de coroação da filha do Duque Negro, ocasião que o herói vomitou na veneranda barba de Shelomo Bar David, cabeça do rabinato em Benbally, no universo número 37.

Foi também nesta ocasião em que Kamikaze jurou nunca mais por na boca uma só gota do pestífero conhaque Padre Cícero, do qual recebera vinte caixas de safra especial, oferta da margravina das Sereias de Ébano de Bombalurina, no universo 33.

— Então eu tenho que achar a porra desse chapéu, é isso? Olha, leva a mal, não, mas não me levanto desta poltrona aqui por menos de quatrocentos contos platinados.

Temujin saiu da ponte de comando. Ibrahim, nervoso, rolou as contas de um rosário.

— Bwana, veja bem, nós sabemos onde está o sagrado sombreiro. Só não temos os culhões para o reclamar. E são oitocentos contos agora, o que oferecemos.

— Eitaaa, porra! —  Exclamou nosso herói, talvez um tanto grosseiramente.

— Seu Kamikaze, tão chamando o senhor pelo trambolho. —  Dona Neide, a androide pessoal de Kamikaze entrou na sala de comando com um comunicador em formato de pênis em uma das mãos.

— Trambolho? —  Ibrahim recolheu-se ante a visão de trinta monstruosos centímetros.

— Trambolho: Transdecodificador metadimensional de bolha holística. Esse aqui me foi dado de presente em Karu-Aru, pelas contrabandistas feministas da Feira-do-Rolo. —  Kamikaze aceitou, constrangido, o comunicador cheio de veias azuis que quase não cabia em sua mão.

— Elas são meio sarristas, as meninas. —  E levou o aparelho exótico ao ouvido.

— Alaummm? Quem fala?

—  O responsável pelo grupo local de universos. —  Uma voz andrógina extraordinariamente suave chegou aos ouvidos do herói.

—  Ô porra…Dona Neide, que é que tá pegando? — A face dourada de Dona Neide contorceu-se numa imitação maravilhosa de ignorância humana.

— Humm —  pigarreou —  …responsável pelo grupo local…tipassim, Deus? —  Kamikaze aproximou a glande do trambolho de sua boca.

— Não, tipo assim o responsável pelo grupo local de universos.

— Sei. Ah…e então?

— O problema, mestre Kamikaze Joe é que senhor está bagunçando tudo na minha área de atuação. Na verdade, o motivo de minha ligação é encontrar algum meio de convencê-lo ou de ameaçá-lo, talvez, para que pare de sonhar desta maneira tão obscena.

— Sonhar? Tá falando do que?

— Sonhar. O senhor, a partir de sua base de atuação está sonhando demais. Queria que voltasse para lá e tivesse sonhos, digamos, mais burgueses. Voltaremos a falar!

Ora, foi neste minuto, enquanto entregava o trambolho a Dona Neide, que nosso herói percebeu que Ibrahim não estava mais na sala. Ainda neste minuto o valente Temujin Pancho adentrou esbaforido.

—  Mano, cê não vai acreditar…um maluco ligou prá mim, pelo trambolho, e falou umas merdas. E olha….já te falei que um maluco ligou prá mim?

— Dona Neide, acho que já falei para controlar a maconha de Temujin, não falei?

—  Seu Kamikaze, leva a mal não, mas o planeta-prisão aí embaixo sumiu. Aliás, não leva a mal de novo, mas acho que as estrelas tão se apagando..

Kamikaze Joe acordou no universo zero.

A cama era pequena, o colchão velho e as cobertas bolorentas.

Dormitava em uma cama, no extremo oposto de um cômodo minúsculo, uma menina de uns dez anos que kamikaze,  dolorosamente, se deu conta que podia ser sua irmã.

Aos poucos uma estranheza começou a tomar de nosso herói, de onde um nome começou a emergir e kamikaze começou a pensar em si mesmo como Erenilson Erickson  de Jesus. E pior, começou a desconfiar que a mulher ressonando por puro cansaço, em outra cama, era sua mãe Edicleusa.

Havia um cheiro pungente de sujidade e um pano de fundo sonoro de uma rodovia movimentada e de apitos de trem.

Ao lado de sua cama estavam ajeitados, em uma estante rudimentar feita de blocos de cimento, um monte de livros e revistas em quadrinhos. Havia de Tolstói a Chiclete com Banana. Faulkner a folhetos de cordel.

Havia também um computador velhíssimo num canto do barraco. E quando Erenilson, não, Kamikaze, apertou uma tecla, surgiu um arquivo de texto com o título em negrito em corpo 24: AS AVENTURAS DE KAMIKAZE JOE.

Em outro barraco, ele intuiu, alguém de nome Jhonny Carlos de Santana Nicolau acordava para o turno da manhã na padaria Santa Edwiges.

E então ele sentou-se em sua pequena cama e por pura teimosia, observando cada pequeno detalhe das paredes de madeira esburacada e sentido cada nuança de ranço, enrolou-se nas cobertas.

Vagarosamente, o mundo se perdeu em sons cavos de abelha, espalhados por todo o cômodo.

— Chefe? —Temujin Pancho dava pequenos tapinhas no rosto do herói com uma Dona Neide na sua melhor imitação de preocupação maternal mais ao fundo.

—  Jonin?

—  Cumé. Chefe, tá maluco? Deu o maior medão na gente…ficou aí, paradão um tempão.

Era de novo a ponte de comando da Briolange e ali estava o engenhoso Temujin, no mais profundo pesar e preocupação pelo herói.

— Você está bem, Bwana?

Ah, sim. E Ibrahim estava de volta também, juntamente com o planeta-prisão e as estrelas.

— É…sabe de uma coisa, Jhonny…

— Quem?

— Tá…sabe de uma coisa, Temujin, minha preta… —  E o herói abriu seu melhor sorriso de safado profissional.

— Eu quero é que se foda o tal responsável pelo grupo local de universos.

E colocando um portentoso charuto Tribeca Hashishin em ângulo atrevido na boca.

— E que se fodam também os tais sonhos burgueses. Ibrahim!

— Bwana?

— Mil contos platinados! Prá cada um.

— Ouço e obedeço. —  Ibrahim caprichou na mesura.

— Mano, tu é doido. —  Temujin riu, algo aliviado.

— Dona Neide, traz uma cachaça. Não, peraí…traz um conhaque. Padre Cícero, por favor.