KAMIKAZE JOE E O SOMBREIRO DO CALIFA

space-hero

Um sombreiro é um sombreiro. Aquele chapelão mexicano sempre pousado na cabeça de um infante chamado Miguelito, como sabem todos os apreciadores do gênero Western.

(É assim que se escreve, Dona Neide?)

Mas…sombreiro do Califa?

— Jesus cristo, do que falamos aqui, Ibrahim?

— Um símbolo de poder, Bwana Kamikaze. —  E obsequiosamente Ibrahim improvisou uma mesura de cortesão.

— Dindonde?

Kamikaze Joe deu tragada valente no seu Tribeca Hashishin.

— Não dá aguentar esse teu bagulho, mano. Fede mais que estrume queimado de dragão-peidorreiro. — Temujin Pancho se afastou para o extremo da ponte de comando e colocou o condicionamento de ar no máximo.

— Cinco por cento de haxixe marciano, o resto é perfume e fumo-de-goma. Vai se foder!

Ibrahim, turbante azul-cobalto, pele azul-cobalto e barba carmesim, aguardou paciente o término da conversa entre o herói e o ajudante-de-herói.

— Nova Bagdad, Delta do Pavão, valente Bwana Kamikaze. O califado usa o sombreiro ancestral como símbolo de sua posição. É uma relíquia adorada por bilhões, até mais que o Dedão da Virgem.

— Quem…? —  Temujin.

Estavam todos na Briolange, a fragata pessoal de Kamikaze Joe, orbitando Capribarbicornipedesfelpudo, o famoso planeta-prisão.

Depois de entregar um prisioneiro célebre e receber a recompensa Kamikaze nada mais almejava que uma temporada de farra e orgia no puteiro de Madame Camorim, lá prás bandas de ReginaDuarte III.

Todos se lembrarão, é certo, da galante, mas também perigosa aventura que terminou com a prisão de Zeferin, o Demoninho Mauzinho Assassino Canibal.

Mas, como se pode cotejar em célebre página do Kamikazion, todos também se lembrarão que por esta época nosso herói passava por uma fase difícil, conflituosa em sua carreira de herói multifacetado e brigão. Ora, uma reputação é uma reputação e Kamikaze começava a perceber um certo deslustro na apreciação de seu nome.

Talvez uma consequência do fragoroso vexame no banquete de coroação da filha do Duque Negro, ocasião que o herói vomitou na veneranda barba de Shelomo Bar David, cabeça do rabinato em Benbally, no universo número 37.

Foi também nesta ocasião em que Kamikaze jurou nunca mais por na boca uma só gota do pestífero conhaque Padre Cícero, do qual recebera vinte caixas de safra especial, oferta da margravina das Sereias de Ébano de Bombalurina, no universo 33.

— Então eu tenho que achar a porra desse chapéu, é isso? Olha, leva a mal, não, mas não me levanto desta poltrona aqui por menos de quatrocentos contos platinados.

Temujin saiu da ponte de comando. Ibrahim, nervoso, rolou as contas de um rosário.

— Bwana, veja bem, nós sabemos onde está o sagrado sombreiro. Só não temos os culhões para o reclamar. E são oitocentos contos agora, o que oferecemos.

— Eitaaa, porra! —  Exclamou nosso herói, talvez um tanto grosseiramente.

— Seu Kamikaze, tão chamando o senhor pelo trambolho. —  Dona Neide, a androide pessoal de Kamikaze entrou na sala de comando com um comunicador em formato de pênis em uma das mãos.

— Trambolho? —  Ibrahim recolheu-se ante a visão de trinta monstruosos centímetros.

— Trambolho: Transdecodificador metadimensional de bolha holística. Esse aqui me foi dado de presente em Karu-Aru, pelas contrabandistas feministas da Feira-do-Rolo. —  Kamikaze aceitou, constrangido, o comunicador cheio de veias azuis que quase não cabia em sua mão.

— Elas são meio sarristas, as meninas. —  E levou o aparelho exótico ao ouvido.

— Alaummm? Quem fala?

—  O responsável pelo grupo local de universos. —  Uma voz andrógina extraordinariamente suave chegou aos ouvidos do herói.

—  Ô porra…Dona Neide, que é que tá pegando? — A face dourada de Dona Neide contorceu-se numa imitação maravilhosa de ignorância humana.

— Humm —  pigarreou —  …responsável pelo grupo local…tipassim, Deus? —  Kamikaze aproximou a glande do trambolho de sua boca.

— Não, tipo assim o responsável pelo grupo local de universos.

— Sei. Ah…e então?

— O problema, mestre Kamikaze Joe é que senhor está bagunçando tudo na minha área de atuação. Na verdade, o motivo de minha ligação é encontrar algum meio de convencê-lo ou de ameaçá-lo, talvez, para que pare de sonhar desta maneira tão obscena.

— Sonhar? Tá falando do que?

— Sonhar. O senhor, a partir de sua base de atuação está sonhando demais. Queria que voltasse para lá e tivesse sonhos, digamos, mais burgueses. Voltaremos a falar!

Ora, foi neste minuto, enquanto entregava o trambolho a Dona Neide, que nosso herói percebeu que Ibrahim não estava mais na sala. Ainda neste minuto o valente Temujin Pancho adentrou esbaforido.

—  Mano, cê não vai acreditar…um maluco ligou prá mim, pelo trambolho, e falou umas merdas. E olha….já te falei que um maluco ligou prá mim?

— Dona Neide, acho que já falei para controlar a maconha de Temujin, não falei?

—  Seu Kamikaze, leva a mal não, mas o planeta-prisão aí embaixo sumiu. Aliás, não leva a mal de novo, mas acho que as estrelas tão se apagando..

Kamikaze Joe acordou no universo zero.

A cama era pequena, o colchão velho e as cobertas bolorentas.

Dormitava em uma cama, no extremo oposto de um cômodo minúsculo, uma menina de uns dez anos que kamikaze,  dolorosamente, se deu conta que podia ser sua irmã.

Aos poucos uma estranheza começou a tomar de nosso herói, de onde um nome começou a emergir e kamikaze começou a pensar em si mesmo como Erenilson Erickson  de Jesus. E pior, começou a desconfiar que a mulher ressonando por puro cansaço, em outra cama, era sua mãe Edicleusa.

Havia um cheiro pungente de sujidade e um pano de fundo sonoro de uma rodovia movimentada e de apitos de trem.

Ao lado de sua cama estavam ajeitados, em uma estante rudimentar feita de blocos de cimento, um monte de livros e revistas em quadrinhos. Havia de Tolstói a Chiclete com Banana. Faulkner a folhetos de cordel.

Havia também um computador velhíssimo num canto do barraco. E quando Erenilson, não, Kamikaze, apertou uma tecla, surgiu um arquivo de texto com o título em negrito em corpo 24: AS AVENTURAS DE KAMIKAZE JOE.

Em outro barraco, ele intuiu, alguém de nome Jhonny Carlos de Santana Nicolau acordava para o turno da manhã na padaria Santa Edwiges.

E então ele sentou-se em sua pequena cama e por pura teimosia, observando cada pequeno detalhe das paredes de madeira esburacada e sentido cada nuança de ranço, enrolou-se nas cobertas.

Vagarosamente, o mundo se perdeu em sons cavos de abelha, espalhados por todo o cômodo.

— Chefe? —Temujin Pancho dava pequenos tapinhas no rosto do herói com uma Dona Neide na sua melhor imitação de preocupação maternal mais ao fundo.

—  Jonin?

—  Cumé. Chefe, tá maluco? Deu o maior medão na gente…ficou aí, paradão um tempão.

Era de novo a ponte de comando da Briolange e ali estava o engenhoso Temujin, no mais profundo pesar e preocupação pelo herói.

— Você está bem, Bwana?

Ah, sim. E Ibrahim estava de volta também, juntamente com o planeta-prisão e as estrelas.

— É…sabe de uma coisa, Jhonny…

— Quem?

— Tá…sabe de uma coisa, Temujin, minha preta… —  E o herói abriu seu melhor sorriso de safado profissional.

— Eu quero é que se foda o tal responsável pelo grupo local de universos.

E colocando um portentoso charuto Tribeca Hashishin em ângulo atrevido na boca.

— E que se fodam também os tais sonhos burgueses. Ibrahim!

— Bwana?

— Mil contos platinados! Prá cada um.

— Ouço e obedeço. —  Ibrahim caprichou na mesura.

— Mano, tu é doido. —  Temujin riu, algo aliviado.

— Dona Neide, traz uma cachaça. Não, peraí…traz um conhaque. Padre Cícero, por favor.

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