O filho de uma égua: a história de um tipo ideal

satiricon

Cartaz japonês do filme Satyricon, de Federico Fellini

 

 

E então eu tinha aí uns dezessete, dezoito, dezenove anos. Talvez uns trinta. De qualquer modo faz tempo. Mas eu falava?

Foi aí nos noventa (modos que esqueçam os dezoito e os dezenove) que passei a frequentar o sebo de Maurinho, que era um místico, um sábio, um anacoreta e um agitador cultural. E pernambucano, também.

Pois bem, Maurinho tinha lá o seu sebo e oferecia de brinde uma beberagem mefítica: o conhaque Padre Cícero (a perdição, aliás, de Kamikaze Joe).

Mas não falarei de Maurinho, inda que Maurinho mereça, mas não merecerá hoje. Falarei de Petrônio. Mais exatamente Caius Petronius Arbiter, romano filho-de-uma égua criador de outro filho de uma égua, a primeira personificação do fela-da-puta cósmico, o primeiro cabra da peste: Trimálquio. Ou Trimalcion ou trimalcião, dependendo da tradução. Bem, Trimálquio. Prefiro.

Ora notem que eu percorria as estantes imundas do sebo de Maurinho, escolhendo e zoiando, quando me deparei com Petrônio, ali, solitário e sebento. O livro, o Satiricon (alguém se lembrará aí de Fellini? Não? Deveria), em tradução de Marcos Santarrita, edição de 1981 da editora Abril.

Apiedei-me. Li a orelha e acolhi o abandonado e conheci a Trimálquio.

Era um liberto, um escravo libertado por seu senhor e que depois ascendeu socialmente, mas continuou, como direi?, bem, um Trimálquio. Seria hoje o que chamaríamos de classe média, se não nas posses, no modus.

E notem que Trimálquio foi gestado no primeiro século da assim chamada era cristã. Petrônio, alcunhado de Arbiter Elegantiae, árbitro da elegância, foi contemporâneo e cortesão no reinado de Nero, o imperador, que podia ser um porralouca mas tinha estilo.

O Satiricon será talvez a única obra pela qual será lembrado.

Bem, Trimálquio é só um episódio do Satiricon de Petrônio. Uma festa dada por um liberto milionário para uma plêiade de ex-escravos, compartilhadores de seu antigo status e de certa forma seus involuntários cúmplices.

Trimálquio ostenta sua riqueza, desavergonhadamente, deliciosamente em um jantar que é cena central e fundamental da obra. Ele ri e chora, deblatera e a sua ordem seus escravos tomam parte em pequenos atos teatrais pensados para surpreender e maravilhar seus convidados. E todo festim é tratado como uma peça teatral, inclusive com maquinismos que fazem jorrar do teto que se abre vasos de alabastro contendo perfumes ou fazendo servir falsos ovos de pavão contendo papa-figos imersos em gema de ovo apimentada, entre outras iguarias fantásticas e em grandes quantidades.

Participam da festa, além de Trimálquio e amigos, sua esposa Fortunata e os vagabundos Ascilto, Gitão ou Gíton e Encólpio, o narrador.

Trimálquio é inculto, embora goste de posar de sábio; um glorioso e obeso grosseirão que ostenta a cada instante sua fortuna e sua sorte.

Seriam necessários quinze séculos para que Shakespeare criasse o seu Falstaff, um digno herdeiro da tradição, se desconsideramos o Miles Gloriosus de Plauto (que na modesta opinião deste escriba não faz jus de perfilar-se a seu lado. Falta-lhe o talhe de burguês).

Trimálquio mesmo impõe a seus convivas que compartilhem consigo seus projetos para sua pós-morte, narrando-lhes como será construída sua tumba e obrigando-os a ouvir seu epitáfio:

Aqui repousa Gaio Pompeu Trimálquio, digno êmulo de mecenas; em sua ausência foi nomeado um dos seis; poderia ter pertencido a todas as decúrias de Roma, mas recusou esta honra; piedoso, valente, fiel, nasceu pobre e conseguiu depois uma grande fortuna; deixou trinta milhões de sestércios e jamais assistiu às lições dos filósofos. Passante, desejo-te a mesma sorte.

Não, não consigo pensar em outra criação que personifique tão maravilhosamente a pequenez e a grandeza, o pequeno milagre e o grande paradoxo da criatura humana.

E é isso.

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2 comentários em “O filho de uma égua: a história de um tipo ideal

  1. Gosto muito da maneira como você escreve…

    Esse seu tom (uma ironia bem-humorada misturada com uma escrita impecável) faz valer muito a pena, cada leitura… 🙂

    Abraço

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