SENHOR, BASTA DE PRÓLOGOS NOS BASTIDORES DO CÉU!

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“Senhor, basta de prólogos nos bastidores do Céu”. A frase faz parte de um diálogo entre Lúcifer e Deus-Todo-Poderoso no conto (conto? Ensaio?), bem, no conto Lúcifer, um dos muitos, contos ou ensaios ou sermões contidos no livro A Forma Secreta, de Augusto Meyer.

A livro que tenho em mãos é da quarta edição (a primeira foi de 1965), mas não consta o ano e pertence à Francisco Alves.

Bem, Augusto Meyer? Sei lá. Melhor que os interessados procurem aí nos oráculos diversos, do Google ou do Bing, se paciência tiverem.

Mas, Lúcifer. O conto vem logo depois de Doutor Magnífico, sobre Santo Anselmo, o mentor de Santo Agostinho.

Basicamente, Lúcifer é a história da criação primeira, a dos anjos, de como o Senhor os plasmou do nada, ainda antes de Adão. Um proto-Gênesis. O primeiro Bereshit, se me permitem a citação torta do Tanach, a bíblia hebraica.

Deus está só, na sua glória. Mas que glória há se não houver um outro para repercurtir a glória? (Meyer é cruel). O Senhor, só, na Fábrica dos Anjos cria os anjos, dá-lhes um pouco de seu esplendor e de repente temos o coro celestial inteiro, louvando ao Senhor.

E criou o Senhor aos anjos, dividindo-os em castas definidas: Anjos, Arcanjos, Postestades, Virtudes, Dominações, Querubins e Serafins. Bem antes de John Ford já havia o Senhor subdividido o trabalho, já havia o Senhor organizado ao chão-de-fábrica.

Mas, e sempre existiu e existirá o “mas”. Mesmo o Senhor parece ter ficado de saco cheio daquela perfeição louvaminheira. Tá, criara um porrilhão de anjos, mas se sentia só ainda, que lambeção geral de saco é só lambeção geral de saco, não companheirismo e muito menos originalidade. O Senhor sofria.

Foi aí que criou Lúcifer, o mais belo. Samael, a Estrela da Manhã, o Pastor de Sóis.

No momento em que nasce, belo e sereno, mais poderoso e mais sábio que seus colegas, percebe Lúcifer que foi criado para ser o divisor, o rebelde. O pai da sedição.

E sendo Lúcifer, Lúcifer, não era de seu feitio o esperar, o seguir o roteiro até à última letra. Não, Samael-Lúcifer era impaciente e, por assim dizer, resolveu chutar o pau da barraca divina.

Foi direto ao assunto.

Em síntese, disse ao que veio, disse “Senhor, sei que estás até a tampa com a bajulação angélica. Então, vamos adiantar o expediente: ponde no meu rabo de uma vez! Vamos variar as coisas por aqui”.

Não, Augusto Meyer não escreveu estas palavras. É mais uma tradução livre, do seu espírito. Relevem.

Mas eu dizia? Sim, após o delicado esporro luciferino, viu o Senhor que aquilo era bom, isto é, ao mesmo tempo mau e bom.

E maravilhou-se o Senhor da arte com que sabia escrever direito por linhas tortas. O que Lúcifer propiciara ao Senhor era a possibilidade do diálogo, coisa antes impossível.

E não perdeu tempo o Senhor. Após o protocolar chute no rabo de Lúcifer, deu início imediato à conversação:

— Adão, onde estás?

Recomendo o livro. Procurem-no. Vão lá no sebo onde está recolhido, esperando, na segunda fileira de estantes, no quarto nível de prateleiras, contado de baixo para cima.

E é isso.

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