Sobre fantasmas, avós e avôs e pequenas magias escolhidas

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Tree Swing – By Tina – DeviantArt

Não, não estou falando que sou classe média e nem tampouco estou falando que não o seja. Classe e média estão muito presentes no meu modo de ser. Talvez o pertencimento à classe média seja não uma escolha ou nem mesmo uma condição, mas um modo de ser e de pensar. Alguma coisa entre o céu e o inferno. Alguma coisa entre Dante Alighieri e Ferréz. Uma questão de gosto adquirido. Uma cachaça.

Sei que meus pais eram nordestinos, o que não diz tudo. Na verdade, diz muito pouco.

Não sei se me envergonho, mas meus avós, os dois, maternos e paternos, não eram agricultores. Não eram de lavra. Sei que compravam barato e vendiam caro, explorando, conscientemente aos miseráveis ao derredor.

Minha mãe me informou que seu pai era o que então se chamava inspetor de quarteirão. Vale dizer, um apaniguado. Um pacificado encarregado de pacificar.

E eram estranhos os meus avós, pois que alfabetizados.

Meu avô paterno mantinha um diário onde relacionava seus negócios, os acontecimentos do dia e o nascimento de filhos diversos.

Minhas avós sorriam e choravam na sombra, mas não eram menos presentes. Talvez que fossem mais vivas, mais atuantes, mais insinuantes, porque agiam a partir da sombra onde viviam.

Bruxas, descendo de.

E todos eles viviam vidas mágicas, vendo e convivendo com pequenas magias, hoje inacessíveis. Viam pessoas mortas, negociavam com o invisível.

Meus avós paternos diziam ter se encontrado, certa vez, com um fantasma alvíssimo, abissal de tão grande e diáfano, pairando no meio da rua.

Minha avó paterna viu uma mulher morta no reflexo da água de seu banho ritual de sexta-feira.

Minha avó materna salvou um rato semiafogado, boiando em uma enchente, sugou-lhe a água de seus pulmões pelo seu nariz e depois o deixou ir. Após a operação fumou um cachimbo com fumo-de-rolo para “tirar o gosto”.

Esta mesma avó descobriu uma cobra ao lado do leito de seu filho recém-nascido. Depois de imobilizá-la, jogou-a em um quintal de uma madrugada de verão e foi dormir.

Minha mãe dormiu em uma palhoça com uma suçuarana escavando o chão de sua porta.

Eu, com cinco anos, tive febre e delírios diversos e tremi ante o horror de ver imagens de santos estampadas em vermelho na parede de meu quarto.

Não se trata de estilo, nem coquetismo. É só mais uma noite.

Acho que é tudo, por hoje.

Avós, Durmam!

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3 comentários em “Sobre fantasmas, avós e avôs e pequenas magias escolhidas

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