EU ME LEMBRO

 

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Yma Sumac

 

 

 

Eu me lembro.

Mas eu dizia?

Ah, claro.

Eram os anos oitenta e haviam coisas misteriosas no ar. Não se caminhava sem se ouvir ao MPB-4 e os portos de Lisboa de Kleiton e Kledir ou Rita Lee e suas canções de transe.

Mas eram os oitenta e eu gastei os meus últimos cobres para ver ao primeiro filme de Star Trek no cinema e paguei as duras penas para voltar para casa às altas horas. Gastei meus últimos cobres e a única coisa que me lembro do filme foram as cenas iniciais do quartel-general da Frota Estelar em San Francisco, com suas multidões de pessoas de todas as cores e todas as roupas e todas as feições, em harmonia, e de como me maravilhei com a promessa latente de que um dia, um dia, sabe?, um dia tudo aquilo acontecesse, aquela catarse, aquela plena aceitação do outro e suas diferenças.

Engraçado não me lembrar muito do resto.

E da primeira vez que eu disse a uma mulher bonita que ela era bonita. Assim, com muito, muito receio e medo, mas sem pose, só pelo prazer de ver uma mulher bonita. E só consigo me lembrar do rosto da menina e de seu perfume e de mais nada. Mas, quase certeza, foi no começo dos oitenta.

E também Engraçado como me lembro de Chan Chan, a canção, mas pouco do documentário Buena Vista Social Club.

Engraçado como me lembro também de poucas coisas do filme Bell, Book and Candle (aqui, Sortilégio de Amor), exceto a maravilhosa e curta aparição do cantor francês Philippe Clay cantando em estilo metralhadora à canção L’ Assassin Ennuyé no night club das bruxas e os peitos de Kim Novak insinuados em decorosos decotes.

E de Sean Connery, mas apenas da atuação de Sean Connery em Zardoz, um obscuro filme de 1974.

E de Frankie Avalon e Annete Funicello atuando na série Beach Party, reprisada ad nauseam pela Globo nos setenta e oitenta e que eu me lembro agora que era brega e tosca, mas que eu adorava.

E que também só agora, no presente atual momento momentoso e hojístico, me dou conta de que só consigo reter lembranças da personagem do motoqueiro trapalhão Erich Von Zipper e da sereia interpretada pela atriz Marta Kristen.

A qual, aliás, também atuou na série Lost in Space, Perdidos No Espaço (como se a batizou em nossa terra), produzida por Irwin Allen.

O mesmo Irwin Allen, produtor de séries das quais só aprecio as de pior qualidade. E que, claro, são as melhores.

E de Ima Sumac. Provavelmente a mais completa (e bela) cantora de todos os tempos e da qual eu duvido que uma em cem pessoas conheçam, mas da qual só consigo lembrar de sua atuação em Secret of The Incas, estrelado por Charlton Heston.

Acho que havia uma atriz americana no filme, no papel principal, mas seu nome e feições me fogem, misericordiosamente, à memória.

E de La Vaca Mariposa, do grande cantor venezuelano Simón Diaz, também autor de Tonada de Luna Llena, canção magnífica que só conheci quando Caetano Veloso nos fez a graça de a replicar em seu Fina Estampa.

Memória seletiva, pois não?

Mas eu dizia?

 

 

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