Breves considerações sobre a jucunda arte de poetar, assim, a modo internético e fugaz

Iridescências

Iridescências – by Voador

 

 

Rapáizi!

(assim é que os nordestinos se referem a alguém, quando admirados e eu sempre gostei deste “rapáizi!” lá deles. Muito melhor que um “rapaz”.)

Mas, rapáizi!

A coisa é que eu vejo muito dos poetamentos do povo aí na rede. Uns poetam pra dentro, outros poetam em torno do umbigo, o que acaba dificultando e tornando pesada a coisa. Às vezes.

Uns poetam pra cima e somem num zum e aí eu fico aqui embaixo tentando localizar o bólido.

E tem os que poetam pra baixo.

De qualquer maneira, pra dentro ou pra baixo. Prá riba ou pro umbigo, você percebe quando encontraram seu eixo de poetamento. Não tem muito a ver com o texto, nem com a honestidade (que muitos são honestos), tem a ver com o dom de poetar que é uma coisa que se sente.

Mas, rapáizi!

As vezes não consigo achar um rumo, mas sinto um ritmo. Leio e penso: é, a rede acontece e, interneticamente solenes, encontramos aos novos poetas.

Ah, faço questão de mostrar minha gema, meu capitão. E, desculpe, falei que é minha mas né minha não, garimpei:

A solidão acontece a céu aberto.

Claro está que a roubei (Você releve meus hábitos malsãos, Mariana, a Gouveia).

E eu acho que é tudo o que eu tinha a dizer sobre a nova poesia e a internet.

Abraço, povo meu.

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POEMETO PARA DEPOIS DA CHUVA (Para ser declamado por um homem nu a uma mulher nua)

 

main

 

 

Eu nem mesmo entendo o que é vida

Mas tenho a mulher que é minha

e a vida e a  chuva

E tenho minhas dúvidas, frias, e a chuva

 

E tenho minha vida, meu governo e suas culpas

E as rimas pobres que rimam morte com sorte

E tenho a sombra pequenina e sombria

E as rimas de estar só com o pó e a terra fria

 

Só, como quem compõe uma canção,

Como quem lamenta estar só e comenta como aporte

Como quem ruge contra o tempo e a sorte

Como quem coleciona momentos, sem métrica

 

Tudo o que abarca a infinitude geométrica

 

Como quem insiste em remar contra o tempo

Rimando quando ninguém mais rima, a paz ascética

Diferentemente de augusto, o dos anjos, de quem roubo

Uns e outros, inda que breves, os vãos momentos

 

Combinando palavra com palavra como quem

coleciona aos todos eles, sim, aos sentimentos

Como quem conspira, puto e terno, contra o tempo

E quando acabar o mundo e não houver mais tempo

 

Cantará sobre mariposas e seios e mais além

E discorrerá sobre corpos de mulheres nuas

Por serem belos os corpos de mulheres nuas

E só porque, só porque, seios cheiram bem

 

 

OFERECIMENTO

MUJER COM SOMBRERO

Este velho homem, este corintiano cansado vos recomenda.

Não a vós, homens, ocupados com vossas fantasias e falos (e no entanto, recomendo também a vós, os homens, ocupados em fantasias e falos e em relembrar vossas mulheres, em tê-las com garbo estacionadas em vossas lembranças, em tê-las como amadas…e tendo seus falos como elas têm suas perseguidas: como mimosas dádivas). Mas eu dizia, recomendo a vós, mulheres diversas que povoam estes campos internetais: sim, a vós, as inomináveis…as raquéis e as lias, as de tribos estranhas, vocês. Peco, cito três, talvez duas, quando deveria citar dez mil (serei um dia perdoado?).

Bem , para vós e só para vós entrego a canção, primeiro em letra, de Silvio Rodriguez. E depois o místico link:  goo.gl/lfI46j

OLEO DE MUJER CON SOMBRERO

Silvio Rodriguez

Una mujer se ha perdido

conocer el delirio y el polvo,

se ha perdido esta bella locura,

su breve cintura debajo de mí.

Se ha perdido mi forma de amar,

se ha perdido mi huella en su mar.

Veo una luz que vacila

y promete dejarnos a oscuras.

Veo un perro ladrando a la luna

con otra figura que recuerda a mí.

Veo más: veo que no me halló.

Veo más: veo que se perdió.

La cobardía es asunto

de los hombres, no de los amantes.

Los amores cobardes no llegan a amores,

ni a historias, se quedan allí.

Ni el recuerdo los puede salvar,

ni el mejor orador conjugar.

Una mujer innombrable

huye como una gaviota

y yo rápido seco mis botas,

blasfemo una nota y apago el reloj.

Que me tenga cuidado el amor,

que le puedo cantar su canción.

Una mujer con sombrero,

como un cuadro del viejo Chagall,

corrompiéndose al centro del miedo

y yo, que no soy bueno, me puse a llorar.

Pero entonces lloraba por mí,

y ahora lloro por verla morir.

Sobre família e outras magias e doenças várias

sobre ela _ marc chagall

Sobre ela – Marc Chagall

 

 

DOIS OBITUÁRIOS: UM PEQUENO E UM GRANDE

 

 

Tomás de Aquino morreu gordo e imenso

Quebraram uma parede para trazê-lo à luz do dia

Meu avô mantinha um diário no qual registrava negócios e nascimentos de filhos

Espancava com regularidade minha avó

Prático, final e conciso

Meu pai, enregelado, saía para o trabalho

Não tinha agasalho e nem se dava conta

Era irmão de Marieta e genro de Luisa, domesticada e atenta

Luisa salvou um rato do afogamento

Tanta coisa junta

A família vista do alto

POBRE PROTAGONISTA É O POBRE

Imagem 

Indiscutivelmente. Procure, puxe por sua memória e veja se encontra pobres como personagens principais na literatura, no cinema e na televisão. Nas histórias em quadrinhos.

Encontrou? Claro, mas como personagens principais? Eles estão lá, claro, mas sempre no núcleo pobre da novela ou como figurantes.

Há exceções, não nego. Temos a Macabéa de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. O camponês miserável de Levantados do Chão, de Saramago. Os sem-teto de As Vinhas da Ira, de John Steinbeck. No cinema, encontraremos uma ou outra garçonete, uma empregada doméstica, mas mesmo nesses casos há como que uma idealização. São mais tipos, que pessoas.

Mesmo o “cowboy”, um operário do pastoreio, foi provido de armas no coldre e um belo cavalo para assim melhor conquistar o Oeste. Ninguém menciona que os vaqueiros americanos originais eram em sua maioria negros, índios ou mexicanos e que seu meio de transporte estava muito mais para um jumento do que para um garboso cavalo.

As personagens dominantes são ricos ou oriundos de extratos médios da sociedade.

No passado, nem isso. A Ilíada, a Odisséia está cheia de “bravos aqueus de longas melenas”, porém todos vindos da aristocracia. Odisseu era rei em Ítaca. O único, por assim dizer, pobre, era o “néscio Tersites”. Além de néscio, era soldado raso. E feio, imensamente feio.

No cinema americano é nas classes média e alta que nascem e vivem os personagens principais, mas mesmo quando o foco é em profissões, digamos, menos nobres, são profissões idealizadas, que remetem à aventura e ao individualismo: o policial, o já citado cowboy, o detetive, o músico, mas quase nunca o operário.

No Brasil, nossos cinema e teatro não são muito diferentes. Certo, existem as obras que procuram mostrar extratos mais baixos da sociedade. Mas ou recorrem ao filtro de uma obra clássica, caso de Orfeu da Conceição de Vinicius de Moraes ou a uma visão sociologizante, como em Cinco Vezes Favela. Ou, descem à marginália e aparece o traficante, o ladrão, a prostituta.

Não, você ainda não viu muitos operadores de máquinas, ajudantes gerais, faxineiros. Não encontramos muitos Jáquersons da Silva ou Keisyannes de Cássia. O pobre incomoda. A primeira providência a ser tomada com o núcleo pobre da novela é fazer as personagens ascenderam socialmente: pelo casamento ou pela sorte ou pela herança que os redime, os torna mais belos e confiantes. Mais palatáveis.

Também sempre é bom ter em mente que mesmo a burguesia média é recente, uns duzentos anos, se tanto (não confundam com a burguesia podre de rica que ascendeu com o mercantilismo. Estamos falando de Policarpos Quaresmas e não de Cosimo de Medici).

E mesmo esta burguesia média, do pequeno funcionário público, do comerciante menor, a avó da classe média, só passou a ser retratada na literatura e no teatro após sua ascensão com a era industrial. Antes, o burguês era sempre o tolo, o fanfarrão, o de falas e atos ridículos e empolados e fizeram a fortuna de dramaturgo de Moliére.

Talvez a questão se prenda às profissões, aos ofícios típicos do pobre: o operário sem qualificação, o camponês sem terras ou com pouca, a prostituta, o marginal. Ao pobre desgostaria uma personagem que retratasse um meio de onde gostaria de emancipar-se? E o burguês?

Sinopse: diariamente Johnny José da Silva toma o seu trem super-lotado para trabalhar na metalúrgica na gratificante posição de ajudante geral. Namora Perolaine Jennyfer dos Santos, mas somente nos fins de semana. Depois, o baile funk? O boteco e o futebol? Quais as profundezas psicológicas, dramáticas, a que o bom Johnny poderia nos levar? Não, muito poucos se interessarão pelo universo de Johnny e Perolaine.

Ou, sinopse: Micaela Semprum Scuteri, loira e leve, é publicitária. Independente, mora sozinha em seu apartamento decorado com muito bom gosto. Um pouco louquinha, tem um relacionamento com Caio, administrador de empresa e músico bissexto, inteligente, “cool”, engraçado e autossuficiente. No mais, bares da moda, jazz, livrarias, rock and roll. Aí sim, diria o futebolista. E com roteiro da Bruna e direção do Ricelli? Massa!

O pobre ainda é o figurante. Décima-terceira cabeça a esquerda, na cena com a multidão, naquele filme que veremos brevemente.

O trabalho dignifica, os humildes herdarão a terra, bem-aventurados os pobres de espírito, etc., etc. Esqueci alguma coisa?

     

 

Sobre o Tentador e, de um modo geral, sobre o mau-gosto atualmente em voga

Ary Scheffer The Temptation of Christ 1854

Ary Scheffer – Jesus and the devil in the desert

Eu, equidistantemente de domingos

Segundafeiramente  ao descoberto

mesmo a mim, me disse a mim, a descoberto

que não mais sonetos cometeria. Bingo!

Eis-me aqui, de novo no deserto, solto

Quarenta dias de fome me prometo

É um jejum, né não? Então me submeto

Espero o diabo, um Lúcifer qualquer, estoutro

Um, cê sabe, que me eleve a uma montanha

E me tente com as terras e conquistas, um suborno

e prometendo como minhas as terras todas

(e seus ouros)

Que meu será todo o querer, coisa tamanha

se todo este eu…

Ah, foda-se, que tenha eu a grandeza, viu?

De num repente, o mandar à puta que o pariu

MÃE

 

 

LIKA MENINA

 

Povo da Terra, oi.

Mulheres e magos, homens honestos e tudo o mais, oi.

Rapazes, oi. Só para contar e constar, ói só:

Hoje eu disse “oi” pra minha mãe. Pelo dia das mães e pelo aniversário da mãe, que é ela. A mãe aniversariante (Oi. Mãe). E que é minha, a mãe.

Uma puta mãe! (Mãe, não vá pensar bobagem! É um “puta” honesto.)

Até queria escrever mais sobre o causo mas me atrapalho com o “til”, de mãe. Aí não rolam as coisas e o tempo. Coisas da minha mãe e da língua portuguesa. Não mato nenhuma das duas no peito, só dou “frango” (que não é um galináceo, mas um vexame).

Mas eu disse “oi” pra mãe.

E a mãe que é minha disse assim “oi”, daquele jeito da pessoa que acha que Nova Iorque não é tudo aquilo não e, aliás, ela nem sabe onde Nova Iorque fica ou se é marca de sabonete.

Sabonete Nova Iorque!

Mãe, gostou da ideia?

Feliz aniversário, mãe!

 

Tamires_Nascimento_-_cena_5

 

Ah, eu admiro! A mulher. O homem. O Mulheromem  que diz “sim!!!”. E depois, “Não!!!”. Quando se exige o “sim”, quando se exige o “não”. Não admiro os canalhas de rodapé, entretanto. Quem sabe eu consiga ser digno, tão digno, que rejeite o rei. Tão digno que abdique de comer o estrume do rei de passagem. Hoje foi um bom dia.

POLUÇÕES

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Key to my heart – Wesley Souza

 

POLUÇÕES

E a lembrança, Peregrino?

Do sutil momento e a labareda

Da mais tênue mágoa de menino

Micro-histórias do vapor mais fino

(sim, ainda sinto vergonha

Por ter visto os seios proibidos

De minha professora)

Rosa, Lourdes, Aldônia, Leda?