EU ME LEMBRO III

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Lullaby for Butterfly King II – Michel Cheval

 

NINGUÉM TE SALVARÁ,

BÉTULA SEM CAULE,

NADA DE VENDAS HOJE

ZERO, PÁTINA EM MINHA BÍBLIA

 

(FOI EM ABU SIMBEL)

 

 

NINGUÉM TE RECITARÁ O CADISH

CAMPÂNULA CARENTE DE CARNE, SEDA PLANTADA EM CINZENTO, NAUFRÁGIO

TRAMASTE O FIM, SÓ ME  RESTOU A MEDUSA DO TEU CABELO

 

LEMBRAS?

EU VINHA COM AQUELE AMIGO EM UM DIA DE PEDRA

DRÁCULA NOS ESPERAVA NA BANCA DE JORNAL MAIS PRÓXIMA

NAVIOS ESPANHÓIS

BUCANEIROS À MESA RASGANDO MEU CORAÇÃO INGLÊS

E O NATAL ADVINHADO NO BARCO ANCORADO NO CORREDOR DE PEDRA

SALVIA

DRAM-ISTABRACADIM

KHIAMAMADRA

FLASH GORDON

 

NA CABEÇA DO TEU RELÓGIO

TECEMOS O TEMPO EM TORNO DE MARGARIDAS

 

AH, EU AMAVA O COBRE VENTUROSO DO CAMINHO

O TELEVISOR SAGRADO, A COPA DO MUNDO

AS MANHÃS JAPONESAS

E O RISO DE MEU PAI VINDO PARA ME DIZER DO DIA

 

FRAGANCIA PRESA AO MEU NARIZ DE PEDRA

EU COLOCAVA UM AMIGO DEPOIS DO OUTRO EM CIMA DA MESA

E OS RECONTAVA

E OS AMOLGAVA NA MOENDA DE MINHA TREVA

CHICO EM MINHA CASA

EXPEDITO EM MINHA CASA

ALVIM AO MEIO-DIA

AS ESTRELAS NO FRIO DA MANHÃ

 

ERA DE NOVO O QUE ERA

KOMOSU COM A TIGELA

O GATO EM TRANSE

 

A TARDE E A NOITE

DOS VERÕES DE DEZEMBRO ME COLOCAVAM

ME SUSTINHAM

PENDENTE

 

AS MANHÃS FRAGANTES

UMA GESTA, UMA AVENTURA

 

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Owl and the Pussycat – by Debbie Bell

 

Já faz algum tempo, meu Gabriel

Meu Gabrielzinho feito de bochechas e sorrisos

 

Já lá vai algum, olha como foge! Tempo

 

Minha última palavra ainda está lá, descansando

Para ser perturbada por trivialidades que teceremos

Como o gavião tece seu vôo na economia das termais

Como Deus à mesa, vinho no copo,

Como tua mãe no jardim (a tarde fria)

 

 

A MANSÃO SECRETA

 

Como tua mãe no jardim (a tarde fria)

 

 

( Neste momento existe o verde)

chegamos ao labirinto, Gabriel

 

Cai garoa, pára tempo,

Meu olho finalmente está só!, aproveitem!

 

Aproveita Gabriel,

põe tua mão em  minha mão

Mais um riso, por favor, olha a tarde peregrina

(como eu te falei, lembra? O momento ambarino aprisionado no gelo)

o tempo cai por uma fenda

e aí à nossa frente aquela poça se transmuta, água de prata domada pelo silêncio

e aí, neste lago no ventre da poça, vem a trirreme,

olha a marinhagem que nos saúda!

 

às margens (Um pé ficaria preso em seu tamanho diminuto, mas um navio não),

 

movimentos inesperados, suspiros de seda,

(é o dia que passa em sussurros)

desembarcam mercancias em nossa casa no verde da margem, feita de pedra e segredo, à espera

 

um Gabriel a verá

e verá também a este poema e o achará tolo, como deve ser

e não saberá então que fiz doação às fadas de um segundo de seu riso

e este sorriso estará esperando por Gabriel que crescerá e será sábio ou não

montará ou não em camelos azuis, verá ou não verá o Kilimanjaro

será herói ou não de um mundo essencial que carregar em seu coração

 

comporá ou não música em noites de júbilo

(verá ou não verá)

 

não é importante

para além dos símbolos, Gabriel é azul

e é infinito o jardim

 

eu até mesmo já encomendei de todas as regiões da terra

o tom de verde e segredo que o jardim esconderá

para o deleite de meu filho

para o deleite de meu Gabriel

que na Lua é principezinho

 

Não é natural então que eu ria?

 

 

 

TEÓPOLIS

artificial_sun_by_ahermin

Artificial Sun – by Ahermin / DeviantArt

 

E NA ALA VIP DO CÉU

OS TURISTAS CORREM COM OS DENTES

EM SANGUE

POIS É

EU ESTOU LÁ, SORRINDO!

 

FOTOGRAFO DEUS

PROTEGIDO POR QUERUBINS

E ESPERO O ARMAGEDON

ATRASANDO O EMBARQUE

 

É. DEUS DE MANHÃ

QUASE NÃO RECONHECI

SEM O RAY-BAN