Recordações de meus tempos em Paris. Ou Montreal ou alguma cidade aí que não lembro

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Der Arme Poet – Carl Spitzweg

 

Basicamente, muito basicamente, não confio em padres! Não fiquem excitados! Também não confio em pastores, babalorixás, ialorixás, ministros, apóstolos, missionários, rabinos, monges.

É…não confio, assim de modo geral e preconceituoso, nos operários da fé. Mas confio na Neide!

Talvez então eu possa confiar no homem ou na mulher de fé? No homem que ora?

Ora, é minha convicção que o homem de fé que ora nunca está só. Não, quando ora, legiões de anjos esvoaçam a sua volta, quais borboletas celestiais que saíram de uma loja Versace ou Christian Dior. O homem que ora conversa com Deus, troca ideias, receitas de camarão empanado, esses caralhos.

Com Deus ele fala do Corinthians, da vida e do caos. Enfim, só filosofias. O homem que ora, finalmente, está em um universo particular, com o fundo todo em negativo (é só conferir a foto).

Obrigado, Krshna, por mais este dia maravilhoso! Obrigado, Zeus! Obrigado, Obatalá! Obrigado, Santantonho de Catijeró!, Obrigado, Mitra! Obrigado, Neide!

E então eu conheci ao cara.

E, de cara gostei do cara.

Já havia pecado deveras, muito, no passado, mas continuei gostando do sujeito que, aliás, já havia orado sobremaneira.

Contava mesmo ele de uma época em que ele, o cara, cultuava uma divindade tribal da idade do bronze, desenvolvida numa sociedade de pastores na Palestina, mas passou.

Hoje, bom homem, bom pai, bom filho e bom marido. Tenho quase certeza.

Ah, e também um comunistinha legal…do tipo clássico, ordeiro.

Comia criancinhas? Dúvidas, dúvidas.

Depois de Budapest, encontrei-me novamente com o mesmo cara em Paris onde, por breve tempo, criamos uma banda de rock estilo anos sessenta, os Toninaldo´s Boys. Fizemos certo sucesso. Nossa canção “Delicious Fucking Hot Girl” tornou-se o hit do verão na Pont Neuf.

Nos encontramos depois no Canadá.

Em Montreal montamos nossa outra banda, a Plastique Éphémère. Claro, devíamos nosso sucesso ao cara, que com sua charmosa careca encantava às damas. Bons tempos.

E líamos de tudo e guardávamos nossas leituras para comentar com os circunstantes na fila do sopão na Associação Cristã de Moços. Mas isto se deu em Paris, tenho quase certeza.

Bem, duas coisas. Melhor, duas cousas: ler exige tempo e é disciplina. Depois, pensar sobre o que se leu é onde está o busilis.

Bem entendido: líamos como um monge lê. Só nos faltava um súcubo para apimentar nossas poluções noturnas…estávamos em Paris, já comentei o fato? Ou Montreal, agora se me escapa onde parei.

Mas é muito boa esta maconha!

 

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EU ME LEMBRO III

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Lullaby for Butterfly King II – Michel Cheval

 

NINGUÉM TE SALVARÁ,

BÉTULA SEM CAULE,

NADA DE VENDAS HOJE

ZERO, PÁTINA EM MINHA BÍBLIA

 

(FOI EM ABU SIMBEL)

 

 

NINGUÉM TE RECITARÁ O CADISH

CAMPÂNULA CARENTE DE CARNE, SEDA PLANTADA EM CINZENTO, NAUFRÁGIO

TRAMASTE O FIM, SÓ ME  RESTOU A MEDUSA DO TEU CABELO

 

LEMBRAS?

EU VINHA COM AQUELE AMIGO EM UM DIA DE PEDRA

DRÁCULA NOS ESPERAVA NA BANCA DE JORNAL MAIS PRÓXIMA

NAVIOS ESPANHÓIS

BUCANEIROS À MESA RASGANDO MEU CORAÇÃO INGLÊS

E O NATAL ADIVINHADO NO BARCO ANCORADO NO CORREDOR DE PEDRA

SALVIA

DRAM-ISTABRACADIM

KHIAMAMADRA

FLASH GORDON

 

NO RELÓGIO DA TUA CABEÇA

TECEMOS O TEMPO EM TORNO DE MARGARIDAS

 

AH, EU AMAVA O COBRE VENTUROSO DO CAMINHO

O TELEVISOR SAGRADO, A COPA DO MUNDO

AS MANHÃS JAPONESAS

E O RISO DE MEU PAI VINDO PARA ME DIZER DO DIA

 

FRAGÂNCIA PRESA AO MEU NARIZ DE PEDRA

EU COLOCAVA UM AMIGO DEPOIS DO OUTRO EM CIMA DA MESA

E OS RECONTAVA

E OS AMOLGAVA NA MOENDA DE MINHA TREVA

CHICO EM MINHA CASA

EXPEDITO EM MINHA CASA

ALVIM AO MEIO-DIA

AS ESTRELAS NO FRIO DA MANHÃ

 

ERA DE NOVO O QUE ERA

KOMUSO COM A TIGELA

O GATO EM TRANSE

 

A TARDE E A NOITE

DOS VERÕES DE DEZEMBRO ME COLOCAVAM

ME SUSTINHAM

PENDENTE

 

AS MANHÃS FRAGANTES

SOBRE A ANTIGA E FECUNDA ARTE DE NÃO SER UMA PESSOA DO BEM

 

Anjo da morte

 

Sei que todos me acharão superficial e tolo. Dirão, é tão fácil a pessoa não ser uma pessoa do bem! E aí vinde vós e dizeis que nos ensinareis sobre como ser um crápula. Ora, ora. Homessa!

Mas não, peço que me empresteis vossos ouvidos ou vossos olhos. Todo caso, dai-me vós o benefício da dúvida.

Ocorre que não sabeis o que é ser do mal, sois amadores. Achais que é só garatujar a sangue e fogo uma frase na testa de d´algum pequeno ladrãozito? Achais que é só mastigar e decepar o artelho de alguém de quem não gostais?

Tolos!

Amadores é pois o que sois.

Não ser uma pessoa do bem é mais do que perpetrar pequenas covardias para o gáudio de outros tantos pequenos covardes.

Não ser uma pessoa do bem exige mais! Exige comungar com Satanás e com Deus ao mesmo tempo. Exige ser bom para extrair o mais fino licor do mal, na bondade.

Exige mais do que ser apenas um Adolph Hitler qualquer, pessoa inculta (porque não tornada adulta), escrevendo mal e porcamente um Mein Kampf.

Exige mais, vos digo.

Para que se torne alguém uma pessoa que não é do bem se exige entranhas sólidas, ancoradas no mais profundo vazio.

Exige que a pessoinha do mal se creia boa e dona de verdades! Enfim, é um processo.

Sede então bons e propagai a bondade!

E, por favor, fazei por bem crer que sois o sal da terra.

E a arte de feder até os céus será toda vossa.

EU ME LEMBRO II

RAPOSA VOADORA

 

 

Nos anos oitenta fui o que depois batizei de “comunistinha legal” ou, se vos agradar, o “comunistinha joinha”. De qualquer modo, um comunistinha. Fui levado, é claro.

Meu cooptador foi o mordomo das esferas, o príncipe, o meu querido EBS. Ainda vivo, embora velhusco. Diabos, eu estou velho! As juntas estalando e eu ainda aqui, cuidando da prole e tentando por comida à mesa.

Mas então, “comunistinha legal”. Eu.

Foi uma época fecunda os oitenta, modos que me incomodo com os tempos atuais por exsudarem, vez por outra, um perfume parecido, mas que é só fedor, que os perfumes envelhecem.

Na época, percebia já que a meus colegas comunistinhas faltava senso de humor. Preferiam o velho Karl Marx, com sua cabeçorra preocupada, se inclinando sobre os manuscritos a Jenny von Westphalen ou Jenny Marx, a esposa, que fora uma mulher muito, mas muito bonita.

Preferiam o bom Engels, o pensador, parceiro de Marx, o velho Nick, e esqueciam de Engels, filho de um burguês rico, administrador das empresas do pai na Inglaterra e amante de sua criada.

Digamos que eles viam os escritos e a história e eu preferia o rés-do-chão, os pequenos defeitos e tudo o mais.

Primeiramente, é com certo pudor que informo que meus colegas comunistinhas não liam as bíblias marxistas, mas comentavam assaz.

Segundamente, eu tinha a impressão de que qualquer pessoinha, qualquer serumaninho, poderia fazer a história, mas precisaria perceber que no meio tempo conviria ficar pelado com outra pessoa também pelada, fazer e ler algum poema, beber uns tantos fermentados e destilados e, na miúda miudinha, fazer também a tal da porra da história.

Revolucionário, né não, John Lennon?

Muito estranhamente não me bandeei para o lado direito das coisas, depois dos anos passados, e continuo, me sinto, ainda meio demoníaco, achando o mundo um lugar interessante, achando as pessoas ainda interessantes, mas sempre sentindo o ruído da máquina cada vez mais alto, quase ocultando a conversa no sarau.

A época, é claro. Queria falar da época. E do mau-gosto e dos tempos e das pessoas e da velocidade.

Do modo cego, automático, com que nós todos corremos para ocupar um círculo qualquer no inferno.

Queria, mas falo não.

Volto aos inícios iniciais começantes: eu fui um comunistinha legal e joinha, enquanto também trabalhava como o proverbial garçom no bar lá, da moda.

E confesso, quando me pediam os bons pensantes vodca Wiborowa ou Absolut, eu colocava mesmo era a Vagabundoyeva ou a Esculachakova, que foi como batizei à podríssima vodca “coquinho”.

Minha vingancinha bobinha de comunistinha: sabia que os bons pensantes, os meus irmãos comunistinhas, iriam um dia crescer em riqueza e glória. Vaticinava mesmo que acabariam como comensais dos pequenos ratos morais, os grandes da pátria.

Então à sorrelfa, lhes servia lixo líquido.

 

E como eles bebiam!

OFERECIMENTO

MUJER COM SOMBRERO

Este velho homem, este corintiano cansado vos recomenda.

Não a vós, homens, ocupados com vossas fantasias e falos (e no entanto, recomendo também a vós, os homens, ocupados em fantasias e falos e em relembrar vossas mulheres, em tê-las com garbo estacionadas em vossas lembranças, em tê-las como amadas…e tendo seus falos como elas têm suas perseguidas: como mimosas dádivas). Mas eu dizia, recomendo a vós, mulheres diversas que povoam estes campos internetais: sim, a vós, as inomináveis…as raquéis e as lias, as de tribos estranhas, vocês. Peco, cito três, talvez duas, quando deveria citar dez mil (serei um dia perdoado?).

Bem , para vós e só para vós entrego a canção, primeiro em letra, de Silvio Rodriguez. E depois o místico link:  goo.gl/lfI46j

OLEO DE MUJER CON SOMBRERO

Silvio Rodriguez

Una mujer se ha perdido

conocer el delirio y el polvo,

se ha perdido esta bella locura,

su breve cintura debajo de mí.

Se ha perdido mi forma de amar,

se ha perdido mi huella en su mar.

Veo una luz que vacila

y promete dejarnos a oscuras.

Veo un perro ladrando a la luna

con otra figura que recuerda a mí.

Veo más: veo que no me halló.

Veo más: veo que se perdió.

La cobardía es asunto

de los hombres, no de los amantes.

Los amores cobardes no llegan a amores,

ni a historias, se quedan allí.

Ni el recuerdo los puede salvar,

ni el mejor orador conjugar.

Una mujer innombrable

huye como una gaviota

y yo rápido seco mis botas,

blasfemo una nota y apago el reloj.

Que me tenga cuidado el amor,

que le puedo cantar su canción.

Una mujer con sombrero,

como un cuadro del viejo Chagall,

corrompiéndose al centro del miedo

y yo, que no soy bueno, me puse a llorar.

Pero entonces lloraba por mí,

y ahora lloro por verla morir.

Um obituário necessário.

amizade-coisas-pequenas

 

Agora que tudo acabou, posso falar.

A.S.O. morreu fazem já, quantos?, dois meses? Acho que falei dele na postagem Bruxas. Mando o link, aqui: http://tinyurl.com/zt379er. Morreu A.S.O. Acho que só agora posso falar dele, assim, a queima-roupa. O seu primeiro nome era Alvim e era meu amigo, o melhor, o mais digno, o mais fiel. E foi ele que me apresentou a Yukio Mishima e aos Dead Kennedys e a Kid Creole And The Coconuts e aos pontos de capoeira e à opera e a Stravinsky e a Shakespeare e a Jackson do Pandeiro e ao Estrebucha Baby de Zizi Possi. E foi ele que se levantava às sete da manhã para frequentar comigo a biblioteca da cidade. E foi ele que foi comigo ao MASP para compartilhar comigo o Zimbo Trio e seu “CLAM”. E ao Cine Gazeta para ver Blade Runner. E comigo ele foi até o Lira Paulistana, na Praça Benedito Calixto, para ver Tetê e Itamar Assumpção. E foi com ele que ouvi Pinocchio de Miles Davis e Lulu´s Back in Town com Thelonious Monk. E foi ele que me alertou para a complexidade de Peneirou Xerém do mestre Luiz Gonzaga. E foi ele que andou comigo dezenas de quilômetros a pé para tomarmos o vinho correto, para vermos a cantora exata. Foi que ele que apadrinhou meu casamento com a mulher exata, a que eu ansiava e que consegui convencer a ser minha mulher (assim, possessivamente. Amorosamente). Foi ele que me explanou os mistérios do universo: discutiu Nietzsche comigo, bebeu comigo o vagabundíssimo conhaque Padre Cícero, me mostrou os milagres únicos da luz em Velázquez e em Cartier Bresson. Alvim da Silva de Oliveira, filho de Antônio e de Alvina, carioca de Barra Mansa, sobrinho de Sebastiana. Minha bruxa, meu amigo eterno. E naquele cemitério em que o visitei pela última vez, fui duro: filho-da-puta, negão-do-caralho, quem foi que te deu o direito? E apertei suas mãos frias. E eu, ateu apostólico romano, sei que ele ria e ri, nalgum ponto, bem lá, dá prá ver?, na última nuvem. A da direita.