TEÓPOLIS

artificial_sun_by_ahermin

Artificial Sun – by Ahermin / DeviantArt

 

E NA ALA VIP DO CÉU

OS TURISTAS CORREM COM OS DENTES

EM SANGUE

POIS É

EU ESTOU LÁ, SORRINDO!

 

FOTOGRAFO DEUS

PROTEGIDO POR QUERUBINS

E ESPERO O ARMAGEDON

ATRASANDO O EMBARQUE

 

É. DEUS DE MANHÃ

QUASE NÃO RECONHECI

SEM O RAY-BAN

SATÃ: CAVALHEIRO E POLÍMATA

Sem Título - Braga (2012)

Sem Título – Braga (2012)

Satã é culto, muito culto. É a primeira coisa a se saber sobre Satã. Filosofia, culinária, mecânica de autos, a biografia de Atahualpa, é só perguntar e pá, tá lá Satã arrasando no Quiz. Um portento.

É também elegante, embora nada vaidoso. Não, você não encontrará Satã vestindo um terninho Armani qualquer. Ele é elegante, mas adepto de moda mais conservadora, para cavalheiros. O que não significa que você vai flagar Satã enrolado em casimiras o tempo todo, pois que a moda de Satã é também atenta ao clima. Espere sedas de Satã, mas nunca o mau gosto.

Satã nasceu de parto normal. Narro.

Estava lá o Todo-Poderoso no começo (embora não se possa falar em começos propriamente ditos. O tempo sequer ainda fora criado). Bem, o Todo-Poderoso, no começo, muito sozinho, quando de si criou, de si deu forma, de si plasmou a Satã. Anos depois, para o arreliar, Lúcifer dizia que Satã fora criado da consciência de Deus, o que explicava muita coisa.

Mas alterego ou não do Senhor, importa é que Satã, criado, inventou de certo dia dar um passeio mais prolongado pela Cidade de Deus. Visitou lugares, abriu portas, espiou por entre biombos e finalmente acabou no vestíbulo da câmara divina, passou pelo coro celestial cantando em êxtase as glórias do Criador e decidiu dar um “oi”. Não sabemos o que viu na câmara privada do Senhor, mas sabemos que sua expulsão e queda se deram pouco tempo depois.

Simpático também Satã, em tudo destoante de sua imagem nossa mais conhecida. Capaz de bom papo, é conversador sedutor e atento. Ah, os mot d´sprit de Satã. Impagáveis.

Mas, erro comum, Satã não é onisciente. Nem onipresente. Nem mesmo ubíquo, é só veloz.

Também é apaixonado leitor de qualquer obra escrita por mãos humanas, assim como é também apaixonado seguidor de seus modismos. Satã ama a incoerência humana.

Em passado recente, por exemplo, Satã foi aplicado estudante de esoterismos diversos.  Por esta época Satã residia em Lisboa.

Astrólogo amador, montou o mapa astral de Deus e, em dada parte da vida, se creu um médium. Vivia assim garimpando leituras e preferências místicas: Figanière, Papus, Agartha e Shambalah, Stanilas de Guaita, teosofia, Madame Blavatsky, teurgia, Ísis Sem Véu, Martinez de Pasqualy e toda a salada esotérica do século XIX, que mantém ainda tantos seguidores aqui neste lado do milênio.

Era presença sempre constante nas orgias programadas por Aleister Crowley, além de sócio da sociedade mística Golden Dawn e cofundador da Église Luciférienne que tanto furor causou depois do infeliz incidente envolvendo a Marie Louise, Baronesa Beaucorps-Créquy e o infame Abade  Boisbaudry.

À época, Satã também era dado a depressões, cujos desenvolvimentos ele cuidadosamente anotava. Então, é datada de 10 de junho de 1919 sua carta a Hector e Henri Durville, diretores fundadores do Instituto do Magnetismo e do Psiquismo Experimental com sede no número 23 da Rue Saint-Merri, Paris.

Hector, aliás, era redator do Jornal do Magnetismo e autor de obras sobre Terapêutica Magnética, seja lá o que isso for.

O interessante não é a remessa da carta, mas a carta em si, cujos originais podem ser encontrados na Correspondência de Maria de Lourdes Barahona Fragoso e Mira, doada por seus herdeiros ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Portugal. Evidente que ali foi juntada por engano, como se da lavra de Maria de Lourdes. Inexplicada resta ainda a circunstância que levou a missiva satânica a se juntar à correspondência de Maria.

Mas voltando à interessantíssima carta. Nela, Satã gastou um parágrafo de cinco linhas para solicitar remessa de catálogos completos e, principalmente, informações sob um Curso por Correspondência de Magnetismo Pessoal.

A seguir, dizendo que tal seria útil para orientar a seus correspondentes, gastou outras cento e quatro linhas a falar de si mesmo, de suas neuroses, que são expostas, detalhadíssimas no jargão científico então em moda na psiquiatria da época. E em excelente francês (Disse que Satã era culto, pois não?).

Au point de vue psychiatrique, je suis un hystéroneurasthénique, mais, heureusement, ma neuropsychose est assez faible; l´élément neurasthénique domine l’ élément hystérique, Et cela fail que je n´aie pas de traits hystériques extérieurs […}.

(Do ponto de vista psiquiátrico, sou um histeroneurastênico, mas, felizmente, a minha neuropsicose é assaz fraca; o elemento neurastênico domina o elemento histérico, e disso resulta que não tenho sinais histéricos exteriores.)

E assim Satã, o mesmo que se confessa com parcos conhecimentos com respeito ao magnetismo, recheia a carta com “nevroses proteiformes”, “cerebralidades excessivas” , ”aplicações centrífugas” e “vontades centrípetas”, descendo às minúcias de seus processos de raciocínio, para finalmente desculpar-se  com os senhores Hector e Henri Durville pelas suas “considerações assaz longas e aborrecidas”. Acontece que ele, Satã, quer desenvolver sua vontade de ação, livrando-se de seu temperamento eminentemente desmagnetizador.

Não sabemos se obteve resposta a carta, nem mesmo se foi postada.

Progressista também Satã. Em 1939, sob o nome de Chester Carlson, inventou o processo da reprografia, ou seja, as fotocópias. Poucos saberão, entretanto, (Mas o sabem o Senhor e seus anjos) que toda a empreitada foi um sutil comentário ao Nosce te Ipsum de São Bernardo de Claraval, no qual este afirmava que o primeiro passo na direção errada não era a luxúria ou a preguiça, mas a curiosidade.

A imagem preferida do santo para ilustrar sua tese era o da dama se mirando ao espelho. Cumpre acrescentar que Satã via na fotocopiadora uma produtora de espelhos ad infinitum e, quando de sua produção em série pela Xerox, uma operação que visava a automatizar o pecado. Satã trouxe o pecado da vaidade para a escala industrial.

Aliás e a propósito, quanta zombaria no nome XEROX, sugerido por Satã para substituir a denominação anterior da empresa, HALOID. Duas cruzes de Santo André ladeando três letras, deboche consciente da trindade. E ainda, E, R e O, numerologicamente podem ser reduzidos ao numero dois (5+18+15). Dois, o oposto, o rival, diabolos.

Fez afixar Satã, na sede da empresa em Rochester, uma placa de bronze: Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor. 2 Coríntios 3:18.

E é claro, brilhante jogador de futebol também, Satã.

Mas aí são já outras glórias.

Amém.

Foder, comer, foder de novo, broxar, comer, amar.

Jesus Returns - Kleverton Monteiro

Jesus Returns – Kleverton Monteiro

Foder, comer, foder de novo, broxar, comer, amar. A vida é mais que isso e o mundo é um emaranhado de mistérios não revelados. Ainda. Sigam-me.

É uma bola a terra, redonda.

Uma bola de excremento, pensavam os egípcios, rolada por um escaravelho por toda a eternidade.

Ou uma placa redonda, sustentada por quatro elefantes apoiados no dorso de uma tartaruga descomunal, como sói pensavam os criativos chineses.

Enganados todos estavam em um ou outro detalhe, pois somente a mim foi dada a oportunidade de conferir as coisas de fora, com vista privilegiada, concessão que me fez o Altíssimo.

“Se eu puder falar com Deus”. Besteira, eu falo. Todo o tempo. Deus e eu somos assim, ó, muito chegados. Ele fala, eu escuto. Eu argumento, ele faz milagres. Eu subo o monte, ele providencia as nuvens.

Moisés, todos os que leram o Livro Santo sabem, também privou com o Todo-Poderoso. Feito eu, Moisés faz parte de uma confraria de poucos, de papeadores com o divino. Mas Moisés teve privilégios que não tenho, claro. Via Deus, não só falava com o Senhor das esferas. Teve mesmo a honra de ver ao traseiro de Javé, confiram lá no Êxodo 33:20-23.

 E, havendo eu tirado a minha mão, me verás pelas costas; mas a minha face não se verá.

E então, Deus. Ainda na infância sentia sua presença e depois de algum tempo, sua voz. Me dando conselhos, me soprando as respostas erradas nas provas de matemáticas, me moldando que Deus é dos que fazem isso: sempre mexendo no barro humano.

E então Deus, chapa meu, me fez este mimo, de mostrar o real, a Terra vista ao alto. Bondoso que sou, transmito a vós, povo de dura cerviz, o que aprendi em visão a mim proporcionada. Em high-definition, aliás. Então lá vai:

A Terra não é redonda, é plana, como todo mundo sempre suspeita mas tem vergonha de falar prá que não pensem que é uma anta. Esqueçam a conquista da Lua, foi tudo feito em estúdio. Aliás, com Stanley Kubrick dirigindo a coisa toda. Segredo que ele levou para o túmulo, ajudado, claro, pelas constantes ameaças que recebia do serviço secreto americano.

Não existem outros planetas e nem outras estrelas, Deus colocou aquelas luzinhas lá em cima para confundir a nós, néscios. Telescópios, astronomia? A irrelevância das irrelevâncias.

Evolução? Piada. Deus criou o mundo do nada e, só prá sacanear, criou os fósseis de dinossauros, australopitecos, neandertais e preguiças gigantes que nunca existiram[i]. Há mais ou menos uns seis mil anos[ii], para não ser exato.

Concepção? Nada de espermatozoides e óvulos, esta a vera verdade verdadeira e veraz. Deus, o Altíssimo, ouviram?, ele é que anima e dá forma ao gérmen da vida.

Agora, Inferno, Purgatório, Limbo, realidades são, como já nos tinham informado Dante Alighieri e Vergílio.

Que mais me disse Deus? Coisas. Deus me disse e me diz muitas coisas, além de excelente cantor, Deus, arrasando na interpretação de Bohemian Rhapsody. E fazendo todas as vozes. Deus é Queen, digo, cool.

Foder, comer, foder de novo, broxar, comer, amar. Bem, Deus foi taxativo. Pecados são. Tudo bem, perguntei a Deus a causa de sua preocupação excessiva com nossas fodelanças e nossa gula, coisas tão comezinhas em relação a sua grandeza.

“Nada escapa ao meu olhar”, disse-me Deus, o Voyeur das Alturas, pontuando tudo com uns trovões e raios. Calei-me, claro. Vou lá eu encher ao Saco Divino com tais questiúnculas?

Ah, Adão não tinha umbigo

E finalmente, todos foram e estão sendo enganados: o rádio não existe, mesmo o modelo digital novinho no seu carro. Tem um hominho lá dentro.


[i] Philip Henry Gosse, naturalista inglês, publicou em 1857 o seu  Omphalos, onde postula exatamente isto, a saber: Deus criou os animais já adultos, as árvores já crescidas (as sequoias, inclusive) e, mais importante, os fósseis e as camadas geológicas indicando datas de milhões de anos.

[ii] Como já tinha calculado James Ussher, bispo de Armagh.

NADA. Ou ainda: por que não me ouvem?

Secret Places - by Fiery Fire

Secret Places – by Fiery Fire

No começo era o NADA.

NADA havia, então naturalmente havia muito NADA, mas muito NADA mesmo. E tanto, que NADA começou a atrair mais NADA e quanto mais NADA se juntava ao NADA, mas denso se tornava o NADA. E assim a coisa foi, uma enorme massa fluida de Nádons se condensando em cada vez mais NADA.

Aí, inevitável, formou-se a massa crítica de NADA: quintilhões de MegaNADA elevados a quintilhonésima potência. Houve o BIG-NADA, a gigantesca explosão que deu origem a todo o NADA que existe. Bom, depois inventamos a religião…

Mas não é de NADA disto que eu queria falar. Da Pátria. Dela. Quero falar dela.

É que com o advento da Pátria com bandeiras, todos podem reivindicar tudo ou NADA como bem quiserem e para quem quiserem: é como o Biotônico Fontoura.

Serve à direita, à esquerda, ao militante e à socialaite, ao Faustão…esqueci alguém.

Já falei que tinha cantado a bola antes? Não? Devia ter falado. Mas antecipei, disse que iria dar nisto e naquilo, que o mensalão, que o descalabro, que a patifaria…enfim, alertei vocês, os meus.

E a pátria em transe. Anéis de couro acordando em frenesi. Uns, excitados, Outros, meio que se borrando. NADA demais. Mas como já dizia um sábio (a modéstia me faz calar seu nome): não é o fim do mundo.

Mas entrete.

Mas que eu cantei a bola, cantei e esperei e vocês, ó, nem tchuns!

Profetizei de novo, um púlpito a cada dia, e NADA. Eu bradava a surdos.

Agora, taí. Aos milhares invadindo as cidadelas, sendo filmados pelos helicópteros e devidamente massageados pelos cassetetes heroicos dos “hômi”.

Mas que eu já tinha falado, já tinha. Só me faltaram os culhões prá estar lá.

Ai de ti, Jerusalém!