UM MAPA DOS SONHOS, COM MUITA DOUTRINA E MORAL E UMA VISÃO DO MUNDO SUBTERRÂNEO

IGNOTO SCIFI COVER

 

 

 

Ano de 2006

Neste ano fatídico fui amarrado aos trilhos do trem pelo perverso vilão de fraque e cartola, Tião Gavião, enquanto minha então doce noiva Desilú era seviciada pelos Irmãos Bacalhau. Foi enquanto chorava uma raiva pura e vingadora, dada a inversão da ordem natural, que ambos fomos salvos pelo agente da patrulha do tempo.

 

 

Ano de 2030

Já com emprego garantido na Patrulha do Tempo me desloquei para o ano de 1870, onde entretive breve conversa com o Padre Cícero defronte ao Colégio Ibiapina em Crato, Ceará. Espantei-me com sua revelação dos sonhos proféticos que lhe aterrorizavam as noites, bem como das importunas visitas que lhe fazia Lúcifer. Não era ao demônio, em si, que Cícero temia, mas a sua eloquência que sentia que o minava por dentro.

 

 

Ano de 12138

Em visita ao ano 12138 (2227 da era civil iniciada pela corte de Fredrico Silvassen em Alfa do Centauro) foi-se-me apresentado pela Padra Pomona, pároca de Argalau, ao próprio Lúcifer, então administrador de Marte. De prosa amena e afável, permitiu-se breves digressões sobre suas aventuras de mocidade.

“Um homem que poderia ser melhor se não o deformasse o péssimo gosto na escolha de suas batinas”, respondeu-me quando lhe perguntei sobre Cícero, obscuro religioso de nosso conhecimento.

 

 

Anos de 22217

Em MichelTemer III, planeta orbitante da estrela primária de Delta Pavonis, obtive relativo sucesso em espinhosa missão de evitar a um atentado terrorista em BeataMocinha, a capital. Subsidiou-me com auxílios de grande bravura o Padre Cícero que, ó surpresa, descobri ser também agente da Patrulha do tempo.

 

 

Ano de 1970

Em missão no Rio de Janeiro conheci a Vicente Sesso, ocasião em que sugeri a ele, em amistosa tarde no Boteco de Adalberto em Jacarepaguá, o título Pigmalião 70 para a novela cuja sinopse me apresentara, encomendada a ele pela Rede Globo.

 

 

Ano de 1969

Visitei-me no passado, incógnito. E assisti a mim mesmo, com os meus doces sete anos a olhar para o céu, vendo a faixa verde iridescente, como um meteoroide escroto em rumo contrário, subindo para o céu. Meu pai nos disse então que era apenas e tão somente uma coisa de Deus, ao qual um nosso vizinho objetou que eram os astronautas indo pra Lua. (meu pai, respeitosamente, aceitou a hipótese tosca, pois que era de bons bofes, apesar de católico medroso).

 

 

Ano de 1973

Vi os assombrosos seios de Dona Rosa, minha professora, sobressaindo em seu indecoroso decote. Fingi que não eram meus os seus perfumes, mas mentia.

 

 

Ano de 1971

Ouvi pela primeira vez a Borsalino Blues, de Claude Bolling, no comercial televisivo das camisetas Hering.

 

 

Ano de 1984

Meu primeiro artigo como crítico de cinema. O filme era Zelig, de Woody Allen e a revista foi a efêmera Cinemin. No mesmo ano fui apresentado a Yukio Mishima por meu amigo A. S. O.

 

 

Ano de 7818

Lisboa, no que restou do cais da Almada. Recuperei a mensagem do extraterrestre envolta em resina antiga, dentro da noz fóssil que a continha em seu emaranhado proteico de bilhões de enzimáticos caminhos.

Entregue por um condenado à inquisição a seu carcereiro. Dizia em sua introdução: “nós, os que compartilhamos a morte e uma missão de morte, informamos a nossos Primeiros…”

 

 

Ano de 28

Após a prisão de Yeshua ben Youssef, o Jesus, dito o Cristo, dirigi-me ao pátio do palácio do sumo-sacerdote onde fui confrontado por uma criada que me reconheceu o sotaque galileu.

 

 

Ano de 1543

Neste ano, em missão na Espanha, desposei Doña Leonor de Cortinas, que fiz infeliz e senhora de grandes preocupações. Nosso filho Miguel me disse aos quinze anos que “Deus iluminava tudo o que encontrava no seu caminho com alegre indiferença”.  Tornou-se soldado da aventura após desilusão amorosa com certa camponesa de El Toboso e escreveu-lhe um poema hoje perdido: no dejes de mirarme.

 

 

Ano de 3761 AC

Breve interlúdio, onde trabalhei como copista do Arcanjo Gabriel, transpondo sua narrativa do início dos tempos: Bereshit ou o Gênesis. Um crítico salientou a liberdade de ação das personagens, duvidando e hesitando diante de decisões. Entretanto, acrescento que se tratou apenas de quebra estilística das falas em detrimento do ritmo, do enredo. Na mesma época aconselhei Eva a abandonar a discussão teórica e colocar Adão diante de um fato consumado: então, o Fruto Proibido.

 

 

Ano de 1203 AC

Náufrago em uma ilha do mar Jônico, em missão de resgate da agente Calypso, vi em um crepúsculo inesquecível, ao longe, a passagem da nau esfrangalhada de Odisseu.

 

 

 

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Um conto de Exu

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Man in White Suit – by Fabian Perez

 

“Você primeiro morde o limão, depois chupa o sal e aí dá uma beiçada”

Exu deu o exemplo e riu para o jovem pastor.

O banheiro do boteco tinha uma placa escrita à mão informando que a descarga não funcionava e no momento estava cheio de pessoas que, vez ou outra, entravam no banheiro que supostamente não funcionava. Havia um grande balcão retangular no meio do bar e o lugar tinha duas portas, cada uma dando para uma rua da esquina onde ficava o bar.

“Então, bebe só cerveja. É melhor”. Exu deu de ombros.

“Eu não bebo”.

“E também não frequenta botecos e nunca usou drogas e nunca roubou ou furtou ou condescendeu com a concupiscência…”

O jovem pastor olhou em confusão para o copo de cerveja preta em sua mão, sem saber como ele chegara lá. Havia um homem de pele escuríssima, magro e de meia-idade bem a sua frente, usando um terno antigo, um jaquetão cinza-pérola e gravata preta e vermelha.

Bonito e com belos dentes e cheirando a um perfume estranho que parecia variar com o tempo. Ora, um incenso lembrando sândalo, ora o cheiro de um suor agridoce, mas levíssimo e não ofensivo às narinas. Principalmente, cheirava a limpeza, a erva recém-cortada.

Uma mulher de cabelos pintados se aproximou e beijou a boca de Exu e, hesitando um pouco, a do jovem pastor.

Um grupo juntou duas mesas e começou uma roda de samba.

“Quase não se acha mais…”. Exu pediu uma cerveja.

“…Se acha o que?”. Sem saber o que fazer o jovem pastor bebeu a cerveja e pousou a mão, sem querer, na bunda da acompanhante do gordo que tocava cavaquinho e ganhou um riso intrigado e malicioso em troca.

“Roda de samba. Cada vez mais difícil. Não faz muita diferença pra mim, mas de vez em quando bate saudade, sabe?”.

Há muito tempo eu escuto esse papo furado, dizendo que o samba acabou. Só se foi quando o dia clareou…

O samba de Paulinho da Viola veio à cabeça do jovem pastor e não saiu mais.

“Pois é.”. Exu encheu seu copo e o cumprimentou com uma mesura.

Eu canto samba

Por que só assim eu me sinto contente…

E a coisa continuou, independente da vontade do jovem pastor.

Eu vou ao samba

Porque longe dele eu não posso viver

Com ele eu tenho de fato uma velha intimidade

“E não é mesmo?”. O gordo do cavaquinho entregou seu instrumento a Exu que continuou a música, de tal modo sincronizado que não pareceria a qualquer ouvido que tivesse ocorrido uma troca.

Se fico sozinho ele vem me socorrer

Há muito tempo eu escuto esse papo furado

Dizendo que o samba acabou

Só se foi quando o dia clareou

 

O samba é alegria

Falando coisas da gente

Se você anda tristonho

No samba fica contente

 

Um violão foi entregue ao jovem pastor por uma mulher com um perfume cítrico, com grandes seios em um grande decote.

 

Segure o choro criança

Vou te fazer um carinho

Levando um samba de leve

Nas cordas do meu cavaquinho

 

E sem perceber como o jovem pastor se viu acompanhando ao cavaquinho de Exu até o fim da canção.

E então, sem mais nem menos, tomou a iniciativa e enveredou por Pátio Custódio de Paco de Lucia, que ouvira seguidas vezes na casa e na cama de Marisol. Incrivelmente, Exu o acompanhou, dedilhando o cavaquinho de forma estranha, na vertical e batendo aos pés e cantando…

Tanto como me quería

tanto como me adoraba

tanto como yo valía

y ahora ya no valgo nada.

(óle)

Una fiesta se hace con tres personas

uno canta otro baila

y el otro toca…

Se me olvidaba…

de los que dicen óle

y tocan las palmas.

 

Ainda mais estranhamente, o grupo de samba os acompanhou, nota por nota.

Exu, extático, parecia mudar de forma e de repente ali havia um outro dele, um homem jovem com um bigode quase invisível e de terno branco e gravata vermelha. Depois, jaquetão de novo, emendou com Agora é Cinza e Se Acaso você chegasse e Acertei no Milhar sem que o jovem pastor entendesse como era possível que ele acompanhasse cada mudança sem nem mesmo pensar em um violão que ele nunca aprendera a tocar.

Acordou no banco de cimento.

 

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Exu sentava-se sempre no último banco da igreja.

O hino Fé mais Fé havia terminado e foi emendado com Qual o inimigo que pode me vencer?, todos acompanhados entusiasticamente até a conclusão com o Revela, Senhor, embora não se tenha notado quando Exu acrescentou ao desfecho as três palmas rituais de agradecimento que foram incorporadas por todos os fiéis.

Não se notou também que Exu incorporara suas próprias canções, que iam se mesclando com os hinos. Algumas antigas, de cem mil anos, como a Toada do elefante e outras mais modernas como O astronauta e Não vou ficar de Roberto Carlos ou o Coco de Lia de Itamaracá ou uma versão de sua especial preferência de Calypso, com Roger Whittaker.

Não o fazia com má vontade ou com zombaria (ainda que fosse da mais escrota estirpe de zombadores). Não o fazia. E é tudo.

A cada mês ele visitava sete igrejas em sete noites seguidas, ao mesmo tempo que era convocado para festas diversas em Cuba ou na Nigéria e em muitos outros lugares. Uma agenda apertada.

Exu também vivia no mundo exercendo os mais diversos afazeres: pedreiro, padre, menino de recados e ativista político. E músico, principalmente e sempre.

E era velho. Mais velho que a maioria dos outros deuses e espíritos. Velho ao ponto de testemunhar a humanidade quase morrer na África e depois se espalhar pelo mundo. Velho para testemunhar a primeira morte que foi mesmo morte de verdade e não apenas morte morrida. Velho e muito velho para ser o primeiro pai de todos os trapaceiros, de todos os pilantras que já viveram e agem à sombra do mundo.

Exu era o mais velho, e muito mais velho que seu próprio nome.

Considerem Loki, Puck, Till Eulenspiegel, Malasartes. Vejam quaisquer de seus retratos e verão a face de Exu ao fundo, rindo. Pois ele foi o primeiro, muito antes do primeiro homem. Bem antes, na primeira manhã do mundo ele já estava lá, mesmo quando não tinha ainda forma e nem mesmo uma mente que tivesse consciência de que era uma mente, Exu já aporrinhava aos australopitecos e depois passou a aporrinhar aos neandertals.

Mas seu grande momento só chegou quando apareceu o homo sapiens, quando então ganhou peso e substância e sua história começou de verdade.

E Exu assistiu ao culto até o final e depois cumprimentou o pastor que o oficiava e bolinou às moças e depois foi ao bar e no mesmo bar bebeu e farreou.

E foi onde o jovem segundo pastor o encontrou. Bem, não assim encontrar de encontrar, mas encontrar. Uma coisa um pouco forçada, engendrada. Exu e manipulação nada mais são que um perfeito pleonasmo.

O jovem pastor, por sua vez, era protegido do pastor mais velho, ele mesmo de uma longa linhagem de homens de deus.

Mas não igual a do jovem pastor que era filho da dona de casa Marineide e neto de Dona Antônia que era chamada assim, Dona e Antônia, e não Tonha Tripa como a chamava sempre sua mãe de criação que era sua tia e gostava dela, mas muito mais de uma boa piada.

A tia chamava-se Terência e tinha uma descendência das mais variadas, como aquele Diogo de Sande, sapateiro de Ourém e aquela Marianinha escrava que botou sangue pela boca ao receber a hóstia e aquele Klaas Vertieden que veio como aventureiro em tropa da Companhia das Índias e aquele africano pai de quarenta e dois filhos e muitos outros. De modos que Terência tinha história e ficou conhecida de muitos, matriarca de muitas famílias e mãe postiça de muitos meninos e meninas, mas que era estéril. O caso é que Terência que fora antes Habiba e antes Abeba foi a primeira sacerdotisa aqui da terra.

E só para completar. Terência era muito, muito mais velha do que aparentava, embora sempre aparentasse ser, digamos, muito velha. Na verdade, ninguém se lembrava de Terência como jovem.

Excetuando, é claro, Exu.

Espero não estar confundindo as cabeças começando com Exu na igreja e depois no bar, mas o caso é que Exu foi à igreja atrás do tátara-tataraneto de Tonha Tripa por dever favor e cuidados a sua família (dela, Tonha e a Terência. Dele, o tátara-tataraneto, filho, sobrinho e também jovem pastor).

E foi isso e somente por isso que a igreja do jovem pastor foi inserida no circuito das sete igrejas, porque era uma igreja muito sem graça, pequena, e tão mal localizada quanto indicava o aluguel relativamente barato do salão.

A igreja, aliás, não era só frequentada por Exu, mas por miríade de santos, pequenos deuses e fantasmas de todo lugar. Como qualquer outra igreja, aliás, só que tão mixuruca que a plateia sobrenatural também não era das mais graduadas.

A frequência de Exu foi o máximo que o pequeno templo jamais conseguira e sequer ambicionara, pois é bom que se saiba que todos os prédios, especialmente os templos, tem personalidade própria, como lhe dirá seu amigo espírita.

Egrégora, é nome que dão à coisa, à alma dos prédios pensantes.

E a igreja que, aliás, era um prédio-moça, gostava de Exu por que ele sempre era gentil e perguntava pela saúde e fazia galanteios mil e falava safadezas que a faziam corar. E assim, lá vinha Exu todo sábado e ficava lá sentado.

E foi depois do culto que o jovem pastor, sem saber por que, saiu sem avisar ninguém e começou a caminhar. Primeiro, descendo a rua defronte à igreja até a praça e depois da praça continuou até a estação ferroviária, tomou um trem e sentou no assento reservado aos deficientes onde teve um leve ataque cardíaco e ali ficou em angústia por cerca de vinte minutos que lhe pareceram horas.

Depois, sentindo que melhorava, saltou na primeira estação, onde caminhou mais uma vez por todas as ruas que a circundavam, sentindo ainda a opressão no peito.

E então encontrou o boteco e seu mal-estar desapareceu.

 

 

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“Acha que isso é bonito? Acordar Bêbado num banco de praça?”

O jovem pastor comia um prato de feijão com farinha com torresmo e ovo, observado com desconfiança por seu padrasto.

“Acha…?”, dona Marineide verteu mais do suco no copo.

“Você não me responde, Edenilson?”

“O pastor telefonou a manhã inteira…te procurando…”. O Padrasto.

“Edenilson, meu filho…”, dona Marineide sentou-se e começou a chorar. “Vai acabar como teus irmãos? Vai, Edenilson?”

O jovem pastor pensava em Marisol.

 

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Exu caminhava pela praça e era meia-noite.

E junto com Exu estavam Papa-Legba, vinte e tantos anjinhos de asas rosadas e faces rosadas e mais cento e vinte sete Exus de umbanda e o menino Calunga e o menino Negrinho do Pastoreio e um fantasma decrépito e branquicento.

De modo que as ruas estavam tomadas e repletas e os outros desencarnados se escondiam em vãos de escada e choravam, transidos de frio e medo.

Exceto Maxence de LaRue. Exceto Besouro do Cordão-de-Ouro. Ambos bebiam da cachaça mais fina e miravam com deleite o passar da comitiva que passava.

Havia ali uma confusão plasmática, com o que o Haiti, a Louisiana, a Ciudad de Los Negros no Peru se confundiam e se ouviam músicas estranhas. Como aquela da menininha que não tinha medo dos touros porque falava a verdade. Ou aquela outra da serpente arco-íris que desceu do céu e se enredou nos pilares da aurora. Ou aquela da aranha que barganhou com uma onça a posse de um caralho, o caralho da onça.

O fantasma de um cavalo pastou a grama mais verde aquela noite e foi feliz como há muito não era. E uma mendiga relembrou ponto por ponto uma novela televisiva dos anos setenta e chorou e seu coração remoçou sessenta anos.

E Exu cumprimentava a todos e a todos dizia boa-noite, como vai a obrigação?, como tem passado?, e de brincadeira passava a mão na bunda de muitas mulheres e também de homens que gostavam de ter suas bundas apalpadas. Uma noite em mil, uma ocasião.

E havia ainda os santos da terra, humílimos, os que não foram canonizados mas que eram santos, como aquele João Toró, que perdera os dedos dos pés ou aquela Andressa de Jesus que tinha uma chaga perpétua na panturrilha esquerda ou aquele Takeshi que descera do primeiro navio que aportara em Santos e que depois foi quase escravo em fazenda no Paraná e que fugira numa madrugada quente de verão, conseguindo chegar até Santos e depois até mais ao sul onde plantara bananeiras e morrera de uma tuberculose que contraíra ainda no navio.

E a este Takeshi Exu saudou com um abraço apertado e com ele dançou e cantou o Asadoyayunta, com direito a assobios e tudo o mais. E mesmo para provar que a amizade de Exu era pedra noventa e sólida como o tempo, convocou uma orquestra de tocadores de shabisen, das antigas, com instrumentos feitos de pele de cobra. E Exu, correto e decidido, cuidou de embebedar a Takeshi e Takeshi dormiu.

E o bom cardeal, que fora antes o bom bispo e antes o correto padre que gostava de molestar meninos, saiu à rua pela primeira vez em décadas. E chorou o choro denso e contrito dos crápulas arrependidos que se arrependeram de verdade verdadeira e vera. E Exu o recebeu com galhardia e tato, pois que também era santo mas se dava ao respeito de pelo menos disfarçar, com o escondimento preciso de um ator completo.

E o cardeal dançou com Exu, desajeitado, e Exu ordenou a sete pomba-giras que aspergissem óleo e incenso no caminho e no cardeal para que ele parasse de cheirar tão mal e depois ordenou a elas que o conduzissem dali para o caminho doído do renascimento.

E Exu, caminhando e dançando, e rindo, ignorava aos deuses bons, aos preceitos e às profecias e às sabedorias diversas e aos dons e aos áulicos da sabedoria e aos jejuns e aos olhos natimortos dos bons modos, mas os saudava com alegria.

 

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O jovem pastor não conseguiu que Marisol descesse e teve que ir embora com o olhar desconfiado do porteiro queimando suas costas.

“Está ficando cada vez mais difícil te encontrar, hein, menino?”. Exú se refestelava no banco do ponto de ônibus de acrílico, ladeado por duas mulheres jovens e bonitas.

O jovem pastor mudo, ouvia e não ouvia à voz de Exú. O mundo todo parecendo viscoso, mole, a vida escorrendo, não devagar, mas sem pressa.

“É o teu sobrinho?” A loira, de seios pequenos e corpo musculoso de academia.

“Bonitinho…!” A morena.

“Coisa de família, meninas…” Exú tomou o jovem pastor pela mão e o fez sentar entre as mulheres, postando-se a sua frente. E continuou:

“Homens bonitos…”, e achegou-se a cada mulher, cheirando seus cabelos. “E safados”. As mulheres desmancharam-se em risinhos deliciados.

“Esta é Camila…” e acenou para a loira. “Estudante de direito em alguma universidade aqui perto, certo?”

“E esta…”, e completou um mesura para a morena cheia de curvas, “é Josí, que eu não tenho a mínima ideia do que faz.”

O jovem pastor riu, desajeitado.

“E agora, eu faço o que?”

“Agora…” e Exú levantou um dedo, professoral e risonho.

“Agora, você aprende a viver”

E levou o jovem pastor e as moças para a terra onde manava leite e mel.

 

 

 

ADVOGADOS E LADRÕES

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Babylon – by Shvayba – DeviantArt

 

 

E era em Babilônia

Não, acho que era em Ur, Ur dos caldeus (onde nasceu Abraão). É, em Ur

Mesmo em Ur os contratos já tinham Marduk por testemunha, e os contratantes,

Extremosos, já juravam com a mão sobre o escroto

Já havia advogados, então, e assassinos para o extermínio de advogados.

E ladrões também os havia, e Bel era seu padroeiro

Os advogados, é claro, de quando em quando,

À sorrelfa, sacrificavam-lhe um galo ou outro,

Somente por desencargo

Era mais barato que entregar as irmãs e esposas para a prostituição sagrada

Já então os advogados se entendiam com Bel

Para a profunda indignação de uns e outros

(honestos e operosos, os ladrões viam-se como terceiros esbulhados)

Os juízes, distantes da contenda, eram puros e virtuosos

Como hoje. Como sempre. E eram amigos dos pombos,

a quem alimentavam com seus mantras sagrados recheados de sabedoria

É claro que Bel, o deus, não se manifestava nunca

 

SOBRE CRIATURAS MÁGICAS, SANTOS E SANTAS.

 

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Jovem como eu era, trabalhava na mesma tecelagem que Selma Plá, a moça que teve as já conhecidas visões místicas. Que ela não procurou, não queria e, aliás, desdenhava.

Mas, outra época, outros feitios, outra feição do universo palpável.

Acordava muito cedo, muito, muito cedo. Havia um trem infecto, um ônibus superlotado e depois a rua, onde andava os seiscentos ou mil metros necessários até nossa senzala.

E aí eu brincava, indicando a A e a B, irmãs e amigas na ocasião, onde estavam, onde se escondiam os duendes, os elfos e as fadinhas, também de ocasião. Havia Saulo, gnomo feio e rugoso, pouco dado ao contato. E Sálvia, fada pequenina, inapropriada aos bons costumes por lasciva e fútil e cruel até a medula. E os Irmãos, também batizados por mim de Demoninhos Assassinos Mauzinhos canibais e que eram, forçoso concordar, demônios pequenos com tendências homicidas, com poucas restrições quanto ao alimento que consumiam, além de serem maus, muito maus.

Escapava de suas maquinações, de suas pequenas armadilhas e ódios por conhecer as canções certas, os enredos, as pequenas magias e estendia esta proteção a A e a B. Eu me achava, me via, me cria, à época, como o precoce herói seminal das histórias. Enfim, um tolo novel e bobinhão.

A e B se casaram e saíram, saem agora desta história, mas eu continuei, digo, continuo.

As pessoas pensam pouco sobre a magia ou mesmos sobre os seres mágicos, embora o assunto nos rodeie nos quadrinhos, livros e filmes.

Engano comum o de algumas pessoas acreditarem que a magia não existe. Falo de “algumas pessoas” por saber que a grande maioria das pessoas é crente fervorosa na realidade das operações mágicas.

A maior parte das pessoas (dá uma coceirinha mental em dizer todos) realiza diariamente pequenos rituais de magia simpática: trocar de caminho para evitar a repetição de um evento; fazer promessas dirigidas a seus santos preferidos; orar mentalmente e coisas outras do mesmo naipe.

Ou surpreender a seres mágicos, os elementais, por dá cá aquela palha. Como eu fazia.

E, outro erro comum, o de algumas pessoinhas acharem que os elementais, os seres mágicos, sejam também pessoinhas boinhas, do bem.  São não. Nem também são do mal, vale também dizer. São, eles, os povinhos mágicos, o que são. Nem PT e nem do PSDB. E nem nada no meio ou além. Só o que são.

Exú, por exemplo, que conheci deveras, é só um cavalheiro magro, escuríssimo, usando jaquetão e gravata. Elegantíssimo. Ou um cavalheiro de tez parda usando um terno de dois botões. Ou um cavalheiro de tez clara, loiro. Mas sempre, sempre elegante. Cem mil anos de idade (ou mais. Suspeito que ele já aporrinhava aos Australopithecus) e ainda por aí, disfarçado de malandro, de pastor, de padre, de analista de sistemas. Mulheres, cuidado!

E dona Janaína. E dona Oxum e os cento e vinte e sete Zé Pelintras.

Sei, existem por aí os meus amigos cristãos modernos que dizem que todos, todos os elementais, são nada mais, nada menos, que encarnações ou servos do Tinhoso.

Estão certos, claro. Não polemizo, comento.

Então foi que em 1986 fui parado no meio da rua por Santa Catarina de Sena.

E aí, ó meu deusinho, lembro porra nenhuma do que ela me falou. Mas foi alguma coisa sublime.

Acho.

UMA GESTA, UMA AVENTURA

 

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Owl and the Pussycat – by Debbie Bell

 

Já faz algum tempo, meu Gabriel

Meu Gabrielzinho feito de bochechas e sorrisos

 

Já lá vai algum, olha como foge! Tempo

 

Minha última palavra ainda está lá, descansando

Para ser perturbada por trivialidades que teceremos

Como o gavião tece seu vôo na economia das termais

Como Deus à mesa, vinho no copo,

Como tua mãe no jardim (a tarde fria)

 

 

A MANSÃO SECRETA

 

Como tua mãe no jardim (a tarde fria)

 

 

( Neste momento existe o verde)

chegamos ao labirinto, Gabriel

 

Cai garoa, pára tempo,

Meu olho finalmente está só!, aproveitem!

 

Aproveita Gabriel,

põe tua mão em  minha mão

Mais um riso, por favor, olha a tarde peregrina

(como eu te falei, lembra? O momento ambarino aprisionado no gelo)

o tempo cai por uma fenda

e aí à nossa frente aquela poça se transmuta, água de prata domada pelo silêncio

e aí, neste lago no ventre da poça, vem a trirreme,

olha a marinhagem que nos saúda!

 

às margens (Um pé ficaria preso em seu tamanho diminuto, mas um navio não),

 

movimentos inesperados, suspiros de seda,

(é o dia que passa em sussurros)

desembarcam mercancias em nossa casa no verde da margem, feita de pedra e segredo, à espera

 

um Gabriel a verá

e verá também a este poema e o achará tolo, como deve ser

e não saberá então que fiz doação às fadas de um segundo de seu riso

e este sorriso estará esperando por Gabriel que crescerá e será sábio ou não

montará ou não em camelos azuis, verá ou não verá o Kilimanjaro

será herói ou não de um mundo essencial que carregar em seu coração

 

comporá ou não música em noites de júbilo

(verá ou não verá)

 

não é importante

para além dos símbolos, Gabriel é azul

e é infinito o jardim

 

eu até mesmo já encomendei de todas as regiões da terra

o tom de verde e segredo que o jardim esconderá

para o deleite de meu filho

para o deleite de meu Gabriel

que na Lua é principezinho

 

Não é natural então que eu ria?

 

 

 

O PRIMEIRO BRASILEIRO EM MARTE: novas descobertas

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Já havíamos antes reportado, neste espaço, sobre a polêmica viagem de Cego Aderaldo e José Pacheco ao planeta Marte (Ver aqui: https://goo.gl/CzQxMb). Eis que agora temos mais um intrigante indício de que talvez um terceiro brasileiro o tivesse feito antes.

É com certo cuidado que expomos o que segue, mas o expomos, certos de que somente a discussão fecunda poderá trazer novas luzes sobre o caso.

 

Corintiano Voador

 

 

 

O PRIMEIRO BRASILEIRO EM MARTE – PARTE I

(Revista Panta Rhei. Ed. 13, ano 7, p. 13 – Ouroboros Editora)

 

 

É de conhecimento geral o rebuliço causado pela descoberta recente da memória de Sílvio Romero, o insigne jurista sergipano, dando conta de uma suposta primazia brasileira na visita a Marte, o fatídico Planeta Vermelho.

Digo fatídico por não querer dizer mais, dados os mistérios, os acontecimentos inusitados quando não macabros a cercar o ― assim se expressou o Dr. Czermk de Leipzig ― Enigma Marciano[1].

Mas então, o primeiro brasileiro em Marte? Enlouqueceu o autor, ou pior, chegou a tal ponto sua fatuidade? Mas não, é com destemor que jogo à arena o candente assunto, melhor diria candente revelação: sim, o primeiro homem a pisar em solo marciano foi brasileiro, e que brasileiro!

Sei, já prevejo os esgares nas faces doutas. Um brasileiro em Marte? Disparate!

Não foram diferentes as reações ao primeiro pouso de nau feita por homens em solo lunar por Bedford e Cavor, em 1901. Houve quem chamasse ao primeiro de louco fantasista, já que Cavor supostamente permanecera em solo lunar. Foram necessárias as expedições posteriores de 1915 e 1917, onde se estabeleceram relações com os desconfiados selenitas, não fáceis e nem pacíficas. O resultado, o resgate de Cavor, calou as vozes insultuosas.

Mas, e todos sabem, a verdadeira polêmica se deu quanto à primazia do primeiro pouso lunar, vez que americanos e franceses requestaram esta glória para Michel Ardan e Barbicane, do Gun Club, em 1865, ou mais exatamente, para os dois americanos membros do Gun Club e para Ardan.

Ora, se a viagem dos ingleses foi fartamente documentada, pelo menos no que tange ao fato de haver sido Cavor encontrado na Lua e ter este confirmado, inclusive documentalmente, a partida de sua esfera em 1901, não havia a mesma certeza quando ao feito do Gun Club, por muitos considerado como um gigantesco feito de propaganda. Não ajudaram, é claro, as revelações da ex-Mme. Adele Ardan no seu Michel Ardan raconté.

E temos então Marte!

Sim, tivemos uma viagem a Marte. Antes mesmo que à Lua. Não poucos desacreditaram da obra publicada por Edwin, sobrinho do ex-capitão confederado John Carter, com uma compilação de suas memórias (dele, John).

E nada mais natural, dada a ideia de que um, digamos mecanismo, manufaturado por  antiga e avançada civilização, permitisse a que um homem fosse de imediato transportado a Marte[2].

Havia mesmo a sugestão nas entrelinhas que existiriam outros sítios em nosso orbe a guardar mais destes mecanismos fantásticos. Cavernas em ermos inóspitos, quase inacessíveis, somente esperando seus aventurosos descobridores. O encontro de uma estranha relíquia entre os bens deixados pelo espólio do capitão Carter foi mencionada; como mencionado também foi que a relíquia foi prontamente arrebatada pelo governo americano e dela não mais se soube.

Acresce que por esta época houvera a descoberta dos canais marcianos, entrevistos ao telescópio por Percival Lowell, embora este não tivesse ainda publicado suas conclusões, o que só se daria em 1891.

Com o que voltamos ao Brasil e ao primeiro brasileiro em Marte.

O mundo editorial brasileiro foi sacudido há três anos pela descoberta do assim chamado Manuscrito Escadafhart, cuja autoria de Sílvio Romero hoje é incontestada, e sua publicação por Célia Loredano.[3]

Para os não iniciados, Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero, Sílvio Romero, foi brilhante jurista sergipano da chamada Geração de 1871 e, juntamente com seu mestre Tobias Barreto, revolucionou o pensamento jurídico e filosófico no Brasil de Dom Pedro II. Ambos foram membros fundadores da assim chamada Escola do Recife, ligada à Faculdade de Direito da cidade homônima.

Pois bem, foi este Tobias Barreto o primeiro brasileiro e talvez o primeiro homem no mundo a pisar em solo marciano. Expliquemos.

Encontrado em documentos avulsos durante pesquisa no Arquivo Nacional, o Manuscrito traz em seu bojo relato tão fantástico que somente as recentes pesquisas levadas a cabo por equipe mista da UFPE e USP  no Lajeiro do Frade, na cidade pernambucana de Escada, puderam separar o mítico do histórico, concedendo ao relatado foros de verdade.

 

A VIAGEM DE TOBIAS BARRETO

 

Em 1873, Albert Wilhelm Heinrich von Preussen, filho daquele que seria o kaiser Frederico III  visitou o Brasil, sendo recebido com honras por Dom Pedro II.

O jovem príncipe viajou, com numerosa comitiva, na corveta Olga, e saindo da Corte estendeu sua viagem até o município de Escada, Pernambuco, onde chegou na data de 03 de maio de 1883. O fato é referido em Himmel und Escadafahrt, artigo escrito por Tobias Barreto, único brasileiro a fazer da comitiva do príncipe imperial.[4]

Ora, tal fato sempre intrigou a historiadores, a não prevista visita do príncipe imperial de uma das mais poderosas nações da época a um esquecido município pernambucano, onde se vê hóspede do Coronel Marcionílio da Silveira Lins, Barão de Utinga, no engenho de Sapucagi.

O manuscrito conta história diferente do artigo de Tobias Barreto, onde este relata emocionado da honra de ter sido convidado para a comitiva imperial para visita à cidade que o escorraçara[5], além de tecer os mais ingênuos encômios à figura do príncipe e à cultura alemã de modo geral (Barreto era conhecido germanófilo).[6]

Não, nada de festas, rapapés, bandas. A visita principesca, assim relata o manuscrito, serviu tão somente para acobertar operação de espionagem sob o comando do Capitão-Tenente von Schwind para investigar a existência de uma “relíquia”, assim primeiramente chamada, sob a posse do coronel Marcionílio. O Manuscrito não deixa dúvidas: tratava-se de um dos “mecanismos de transporte” marciano, encontrado sabe-se lá Deus quando pelos primeiros conquistadores portugueses e arrebatado de uma gruta, evitada a todo transe pelos indígenas que então habitavam a terra.

Sabe-se que a procura por relíquias marcianas, estimuladas pela publicação das memórias de John Carter, virou uma febre a manter ocupado todos os serviços secretos das grandes potências da época.

Mas como chegou aos alemães esta informação, que de outra forma jamais cruzariam o Atlântico?

Segundo o Manuscrito, Tobias Barreto fora a fonte da informação[7].

Quando de sua estada na cidade de Escada, de quem foi deputado provincial e juiz municipal, Tobias manteve estreitos e profundos laços de amizade com o coronel Marcionílio e sua família.

Assim escreveu em seu Himmel und Escadafahrt: “…nos últimos tempos de meu exílio escadense, fora-me a casa do coronel Marcionílio, no engenho Sapucagi, um ponto de passeio e entretenimento, sem que tivesse, nem uma só vez que lá me achei, deixado de conversar sobre a Alemanha e meu fanatismo por ela.”.

E mais que a fonte, o intermediário que convenceu Marcionílio a franquear o acesso a cientistas alemães disfarçados de oficiais da corveta Olga, comandados pelo já citado von Schwind.[8]

No Manuscrito há menção de Sílvio Romero a relato de Tobias Barreto, onde se refere ter sido este procurado por Marcionílio quando de sua estada anterior em Escada. E foi nesta ocasião que Marcionílio, temeroso, lhe apresentaria pela primeira vez a relíquia, descrita como um “tubo metálico vermelho do qual escapavam bruxuleios”, quente ao tato e coberto de estranhos glifos que Barreto supôs fosse uma ancestral escrita marciana.

Sim, já nesta época, Barreto nutria suspeitas de uma origem marciana. Supunha, ainda segundo o Manuscrito, ter sido a Terra objeto de expedições do planeta vermelho ainda em eras priscas.

De qualquer maneira cerrou-se o episódio num velo de mistério e conspirações, dado que não sabemos que fim teve a “relíquia”. Teria sido levada pelos alemães? Teria permanecido sob a guarda de Marcionílio ou mesmo de Barreto?

Célia Loredano refere duas hipóteses isonômicas: o artefato teria ficado sob a posse de Marcionílio e/ou Barreto, dado que dificilmente poderiam os alemães tê-lo arrebatado do centro de poder de uma das figuras políticas mais poderosas da região, dispondo de homens e meios  a mancheia.

Ou, tendo sido entregue voluntariamente, fora levado pela comitiva principesca para destino que permaneceu e permanece ignoto.

Sobre esta segunda hipótese, refere Loredano que von Schwind era notório membro da Ordem de Thule, organização iniciática da qual o próprio Hitler teria sido membro. Ora, ainda segundo Loredano, é fato conhecido que no decorrer da Segunda Guerra foram patrocinadas pelo Reich expedições com o fito de encontrar-se ao orifício que levasse ao centro da terra, comandadas por oficiais e cientistas nazistas que eram ao mesmo tempo membros da mesma ordem iniciática. Não seria possível, pergunta-se Loredano, que tais expedições fossem um disfarce para a procura de grutas e cavernas onde poderiam estar escondidos outros tantos artefatos marcianos?

Para nossos propósitos tais considerações são, ao momento, inúteis, dado o conteúdo da segunda parte do Manuscrito. Esta, que nos interessa e sobre a qual nos estenderemos a seguir contém relatos fragmentados de visita ao planeta Marte ocorrida entre os meses de fevereiro a maio de 1878. A ela.

 

O DIÁRIO MARCIANO DE TOBIAS BARRETO

 

Sílvio Romero refere carta de Tobias Barreto datada de 6 de novembro de 1887:

 

[Amigo Sr. Sílvio:

 

Já deve ter recebido a minha última carta, na qual enviei-lhe as notas que me pedira. Creio ter sido completo. Se, porém, carecer de mais algum esclarecimento quanto às datas, escreva-me.

Venho hoje pedir-lhe um favor. Acaba de dar-se na faculdade…]

 

A referida carta pode ser cotejada à página 242 da edição comemorativa de 1991 dos Estudos Alemães.

Voltaremos ao assunto.

 

[1]Os professores Dr. Czermk e Dr. Rosenthal foram escolhidos para dirigir a publicação de uma Biblioteca Científica Internacional, em 1873. A feliz experiência foi erigida com o fito de traduzir ao alemão obras científicas que fossem dignas disso. A referência ao Enigma Marciano pode ser encontrada na obra Uber die Natur der Cometen (Sobre a natureza dos cometas) do grande astrônomo Johann Carl Friedrich Zöllner, publicada em 1872.

[2]Existe uma obra ficcional baseada nas memórias de John Carter, escrita por Edgar Rice Burroughs, a partir do livro de Edwin Carter, chamado A Princesa de Marte.  “um amontoado odioso, deturpante e fétido da jornada heroica de um grande homem”, escreveu Edwin em suas memórias, anos depois.

[3]GRIECO, Célia Maria Loredano. Manuscrito Escadafahrt: uma aventura de Tobias Barreto. Editora UFRJ, Rio de Janeiro, 2013.

[4]Himmel und Escadafahrt, página 201 da reedição comemorativa dos Estudos Alemães, de Tobias Barreto, patrocinada pelo governo do estado de Sergipe em 1991. O fato foi também noticiado na edição de 4 de maio de 1883 d’O Diário de Pernambuco.

[5]Tobias Barreto, nos anos de 1879 a 1881, residindo em Escada, por conta de querela não ainda de todo explicada, teve sua casa cercada por jagunços dos grandes da terra que o expulsaram do local.

[6]Primus inter pares, O senhor Barão von Seckendorff é um dos mais belos exemplares, que tenho visto, do homem culto e delicado…. Quanto ao príncipe Heinrich, eu já sabia por informação de uma escritora alemã, que a princesa imperial Vítória dedica-se muito à arte de jardinar, e que o momento ético e cultural deste trabalho se deixa ver claramente na educação de seus filhos. Himmel und Escadafahrt in Estudos Alemães, p. 203.

[7]Célia Loredano localizou uma brochura publicada às expensas próprias por Thomas Maples (?) em tipografia da cidade americana de Philadelphia, provavelmente em 1892, mas sem maiores indicações, na Biblioteca do Congresso: An Extraterrestrial Relic In Brazil? An Inquiry About The Olga’s Expedition.

[8]Provavelmente Ernst Wilhelm Carl von Schwind Zum Hel, desaparecido em 1919, talvez no Báltico, capturado por forças soviéticas estacionadas na Letônia. Segundo Loredano, é quase certo ter pertencido ao serviço secreto da marinha alemã.

UM CAUSO, UMA REFERÊNCIA SAUDOSA (ONDE O AUTOR RELEMBRA UM JOGRAL DE SUAS RELAÇÕES)

St George and the Dragon Sidney Harold Meteyard (1868 –1947)

St. George and the Dragon – Sidney Harold Meteyard

 

Meu pai, homem de bem, era devoto de cordelistas e do cordel. Tinha apreço pelas histórias e amava aos contos de cavaleiros e donzelas sonhosas (Ariano Suassuna falou de um donzel sonhoso no Romance da Pedra do Reino).

Modos que meu pai era por gosto e profissão um medieval.

Grande contador de histórias, soberbo mesmo, nos narrava toda noite uma gesta qualquer, grandiosa e solene.

Me lembro do conto da princesa no castelo situado no meio de uma ilha, situada a ilha no meio de um grande lago, no qual havia um castelo com setenta e sete cômodos, em um dos quais se encontrava prisioneira a princesa. A mesma princesa, claro, que seria resgatada pelos quatro irmãos.

Aqueles, os fabulosos, que por viverem em extrema pobreza decidiram abandonar a casa paterna e a fome e a clássica miséria. E saíram em madrugada fria e desesperançada para o mundo e separaram-se ante a estrada que se subdividia em quatro caminhos.

E cada um escolheu uma senda, onde a cada um caberia aprender um ofício e se tornarem, nele, mestres. E marcaram um encontro para dali há dez anos (meu pai gostava de prazos certos e era fiel a seu ofício de jogral).

E todos os irmãos, fiéis que eram (meu pai os plasmara com cuidado) se apresentaram ao encontro marcado, ocasião que o irmão mais velho determinou que todos informassem a profissão que haviam aprendido.

E foi onde o irmão mais novo disse que aprendera a ser um arqueiro (meu pai o chamava o “brechador”); o segundo, um adivinho (meu pai o chamava o adivinhão). O terceiro um soldador (nunca entendi bem, talvez uma interpolação de meu pai em consideração à modernidade do industrial século vinte). E, vejam só, ao irmão mais velho coube a ocupação de ladrão.

Não obstante, a filha do rei fora raptada pelo perverso Dragão do Mal (que meu pai chamava de a “serpente”).

E compareceram ante o rei, que os convocara, todos os bravos do reino para a porfia suprema de lhe restituírem sua filha, a princesa, sendo prometido o de praxe: fortuna aos valorosos e casamento com a infanta.

Os irmãos, vejam bem, meu pai dizia, eram os mais pobrezinhos, não eram ricos e nem poderosos e nem nada de nadinha de nada. Mas aceitaram o desafio.

Evidente que todos o nobres enfatuados morreram todos na empreitada, fritados de modo desairoso pelo perverso dragão.

Somente sobraram os irmãos pobrezinhos para a tarefa. E para cumprir a demanda foram os irmãos, meu pai contava, ao campo de prova de honra e morte.

Chegaram ao lago, tomaram um barco e atravessaram ao lago.

O adivinhão adivinhou a localização do quarto fatídico onde encontrava-se a jovem; o ladrão, por artes sutis de ladroagem, furtou à chave do quarto que estava na boca do dragão que dormia o sono negro de dragões maldosos em toca soturna.

E recuperaram os irmãos à jovem e tomaram o barco; o dragão  os perseguiu e furou ao casco do barco com um jato de sua chama; o soldador selou ao casco (relevem…) e, finalmente, foi o dragão morto pela seta certeira do arqueiro.

E pronto.

Entretanto, a delícia do conto é que, tão logo entregaram os jovens a princesa ao rei, fez este com que ela se casasse com o mais jovem dos irmãos, em casamento grandioso cuja festa durou sete dias (meu pai gostava dos números cabalísticos).

E então, o mais importante: meu pai nos contou (e não tenho porque duvidar de sua palavra) que meu avô chegou a participar da festa e, inclusive, levou um pedaço do bolo de casamento consigo.

Mas aí seu cavalo corcoveou e o bolo caiu no chão.

Pena.

Sempre me esqueci de perguntar a meu avô qual era o sabor da guloseima.

Papai era meio vago sobre o assunto.

POEMETO PARA DEPOIS DA CHUVA (Para ser declamado por um homem nu a uma mulher nua)

 

main

 

 

Eu nem mesmo entendo o que é vida

Mas tenho a mulher que é minha

e a vida e a  chuva

E tenho minhas dúvidas, frias, e a chuva

 

E tenho minha vida, meu governo e suas culpas

E as rimas pobres que rimam morte com sorte

E tenho a sombra pequenina e sombria

E as rimas de estar só com o pó e a terra fria

 

Só, como quem compõe uma canção,

Como quem lamenta estar só e comenta como aporte

Como quem ruge contra o tempo e a sorte

Como quem coleciona momentos, sem métrica

 

Tudo o que abarca a infinitude geométrica

 

Como quem insiste em remar contra o tempo

Rimando quando ninguém mais rima, a paz ascética

Diferentemente de augusto, o dos anjos, de quem roubo

Uns e outros, inda que breves, os vãos momentos

 

Combinando palavra com palavra como quem

coleciona aos todos eles, sim, aos sentimentos

Como quem conspira, puto e terno, contra o tempo

E quando acabar o mundo e não houver mais tempo

 

Cantará sobre mariposas e seios e mais além

E discorrerá sobre corpos de mulheres nuas

Por serem belos os corpos de mulheres nuas

E só porque, só porque, seios cheiram bem

 

 

A PRIMEIRA ENTREVISTA DE SELMA PLÁ FEITA APÓS SUA MORTE

TÚNEL-2

ATO I

 

Sala de entrevista – hora incerta

 

I

 

─ Oi, é Selma, não é? ─ Senhora de seus trinta anos e pele escuríssima, a simpática conselheira remexeu em alguns papéis em sua mesa.

Lá fora caia uma chuva fina e constante molhando o jardim de contos-de-fada da sede.

─ É. Selma.

A conselheira colocou duas mãos em seu rosto jovial e sorridente.

─ Nome completo, por favor.

─ Pensei que estivesse tudo aí, cês devem ter arquivos né não?

A conselheira acenou para um aparelho ao lado.

─ Só para registro. Formalidades, querida.

E depois de algum tempo de expressão de saco cheio.

─ Burocracia. Até no pós-morte a chatice continua… ─ e se recompondo.

─ Tá. Selma Regina Monteiro Plá.

─ Melhor…vamos lá…─ e passou a ditar para o aparelho. ─ Selma, paciente recém-saída do Umbral. Fase um de readaptação.

─ Escuta, já que eu tô morta, será que não dava para agendar uma visita aí com o Beja?

Expressão de interrogação no rosto da conselheira.

─ Benjamin Rosenblatt.

─ Ah, desculpe, seu marido no mundo da carne. Desculpe, mas não. Outra jurisdição. Talvez com tempo, consigamos negociar com o pessoal judeu, mas não é garantido.

─ E já que começamos oficialmente as sessões, por favor me chame de Jaira. ─ E Jaira sorriu, balançando a cabeça.

─ Vamos lá, o que eu espero de você? ─ As mãos continuavam a se apoiar nos maxilares.

─ Quero um relato dos seus tempos no Umbral. Do jeito que quiser e levando o tempo que você quiser e no estilo que você quiser.

 

 

 

II

 

“Posso fumar?” Um cigarro nanocut se materializou entre os dedos de Selma que o deixou cair, o recolheu e levou à boca e uma brasa vinda de lugar nenhum apareceu na ponta e ela deu sua primeira tragada em anos.

Rapaz…!!!” foi só o que conseguiu articular.”

─  E?

“Bem. Eu de repente estava lá, na Cidade, na casa em lugar nenhum que eu não eu não sabia que ficava em lugar nenhum. Era sempre dia, ou quase sempre, porque as vezes tinha noites também, mas sempre, sempre nublado. Sol, nem pensar. Era só aquela coisa da casa, e eu dentro da casa, de vez em quando saía pra fora, mas no resto, na maior parte do tempo era só a casa.

E como eu dormia, meu deus, todo o tempo. Casa, andar pela casa um tempo e depois dormir, dormir e todo o tempo não tinha ninguém ali, mas eu sabia que tinha um mundo lá fora. Só não me interessava por ele.”

─ Nunca estranhou aquela solidão toda e a casa e todo o resto?

“Não. Era só a casa e eu não estranhava nada. ”

─ Entendo. Fome, medo, vontade de ir ao banheiro?

“Vontade de cagar?” Selma provocou. “Não. E nem fome e nem sede e nem sequer apreensão. Eu te disse, entorpecida.”

“Não sei quanto tempo durou esta fase. Me pareceram anos. Mas, gradativamente foi me dando no saco e eu comecei a sair para o quintal da casa…”

─ Havia um quintal?

“Havia. E uma rua assim bem calma. Caralho!, tinha que ser calma. Não tinha um puto ali.”

─ Você estava só. ─ E era uma constatação e não uma pergunta.

“Só e não me tocava que estava só. Eu acho que a palavra nem cabia ali: solidão. Não tinha nada.

E os dias vinham e iam (sei. Falei que só tinha uma ou outra noite, mas os dias iam e viam, isto eu sabia).”

Jaira estimulou-a a continuar.

“E então um dia eu desci pela rua defronte à casa e entrei nas avenidas e conheci à Cidade. Foi num dia como qualquer outro, nenhuma diferença.

E eu andei pela Cidade e havia lá aquelas coisas todas de uma cidade. As lojas, os restaurantes, tudo funcionando.”

─ Funcionando como?

“Só funcionando. Não me pergunte como, só sei que eu sabia. Mas era estranho. Você entrava num restaurante e havia comida ainda fumegante sobre a mesa, entrava numa loja e estavam lá os mostruários, todos limpos e…funcionais. Só não havia pessoas. Parecia que todas tinham acabado de sair, sei lá, pruma mijada ou para outro cômodo.”

─ Solidão?

“Não, só saco cheio. E dali eu peguei outra rua e depois mais outra e acabei na rua principal.”

─ Rua principal?

“Olha, não enche. Era a rua principal, tá bem? E aí, e foi aí que eu vi os ônibus, lotados de gente e os carros com insulfilm pretos, pretíssimos e você nem via quem tava dentro. Mas o que chamava a atenção eram os ônibus. Massudos, só com uma entrada, na frente, pintados em faixas de amarelo e azul e prata. E tinha aquele povo todo dentro dele, ninguém de pé, só tinha gente sentada. E eles olhavam pra mim e pareciam que tavam indo pra algum lugar (bem, certamente que estavam indo pralgum lugar).”

─ O que sentia quando viu aos ônibus?

“Era estranho, isto eu posso dizer. Pareciam familiares, como alguma coisa do passado. Era olhar pra eles e eu sentia uma infinidade de reminiscências, não lembranças completas, só flashes. Mas eram intensos.”

─ E mais ninguém fora os passageiros dos ônibus?

“Isso veio depois. Eu continuei a caminhar e cheguei no centro da Cidade e ali as coisas começaram a ficar meio malucas. Os prédios ficaram maiores e eu tive certeza de que não conseguiria mais voltar para a casa. Então, continuei andando.”

─ Me fale das sensações táteis, auditivas, dos cheiros.

“Hein? Sei lá. Eu ouvia música conforme passava por um bar ou por uma loja. Velhos standards dos anos trinta e quarenta. Jazz, sambas antigos, peças de música de câmara que quase dava para reconhecer mas eu não reconhecia.”

─ memórias fantasmas recorrentes, é muito comum.

“Como é?”

─ Continue, por favor.

“Tá, e havia os cheiros: comida barata de bar, perfumes, asfalto queimado. E as paredes dos prédios pareciam ser todas feitas de tijolos antigos, desses de olaria, antigos, grandes e quando eu chegava mais perto parecia que eram cada vez mais intrincados, complexos. Eu acho que poderia ficar horas só olhando pra uma daquelas paredes.

E aí me veio aquela porrada no peito, parecia um raio, só que sólido. Um soco bem no meio dos cornos e aí caí de bunda no meio do asfalto e me veio aquela certeza: eu tô morta, caralho!”

Longos minutos de tempo pós-morte depois.

“Morta.

O asfalto estava frio e gelou minha bunda e depois começou a gelar minhas pernas. E pela primeira vez eu tive, eu pensei, eu tive uma bruta vontade de mijar.”

─ muito comum, não se preocupe. Uma reação natural de autodefesa, um refúgio em necessidades naturais de um corpo físico.

“Você pode tomar no seu cu, também, se sentir alguma necessidade de se refugiar em necessidades naturais de um corpo físico.”

Jaira riu.

─ Calma. Desculpe pelo pedantismo. ─ Manteve-se ereta, estimulando, sem forçar a que continuasse.

Selma suspirou e desejou uma grande copo de conhaque para acalmar os nervos. Jaira se manteve impassível e a mágica do cigarro não aconteceu.

“Biscate!”

Jaira continuou impassível, embora ainda solícita.

“Tá. Então eu levantei e olhei pro lado, pra todos os lados e fiquei puta e falei assim comigo mesma ‘caralho, Selma, cê não tá vendo? Você morreu e tudo issaí em volta são só projeções mentais. As porras das merdas dos caralhos de suas projeções mentais. E não são nem originais, só muito bregas.”

─ E por que seriam projeções mentais?

“Porque, ô biscate, se a realidade fosse daquele jeito era uma porra de uma realidade de merda!”

─ Só uma curiosidade, você por acaso leu alguma literatura espírita quando viva? ─ Jaira estava ligeiramente zombeteira.

“Que literatura espírita?”

Jaira se limitou a manter um sorriso neutro.

“Eu sempre me perguntei…quer dizer…o sujeito era escritor quando era vivo e quando morre só faz vomitar platitudes? Um português de merda. Sabe, eu li uma vez uma senhora que escrevia, não ela, mas uma alma destas aí, desencarnadas. Era uma ghost writer a tal da senhora. E aí ela está aqui no além, a desencarnada escritora e encontra um menininho negro ali com ela e ela comenta ‘que bom que ele está aqui e não mais na sua tribo de antropófagos’. E ‘que bom que ele está evoluindo’ e mais umas merdas deste tipo. Sinceramente! Antropofagia? Que tipo de antropologia de merda que tem aqui no além? Antropofagia? E o menininho era africano. Antropofagia na África?”

─ Estar aqui não significa que muita coisa mudou. Se você era um medíocre na carne vai continuar um medíocre aqui.

“Certo. Então fica assim: eu não li tanto assim de literatura espírita. Provavelmente, não tenho certeza mas aposto, li muito mais mangás japoneses.”

Jaira riu, gostosamente.

─ Sabe, gosto de você.

 

III

 

E depois de algum tempo.

─ Acho que é só por hoje. Pode voltar para o seu alojamento. Deseja alguma coisa, há algo que eu possa fazer por você?

─ Rola uma cachaça ou uma bagana espiritual?

Jaira a acompanhou até a porta.

─ Temos uma cerveja fluidizada, serve?

A SALA DE ESTAR DO CAPITÃO NEMO

Jules Verne visits the Nautilus library – Bruno Aciolly

No dia 05 de novembro de 1866, por volta de onze horas da noite o Abraham Lincoln foi torpedeado por um narval fantástico e três de seus tripulantes foram jogados ao mar: um arpoador canadense, um cientista francês e seu secretário e faz-tudo.

O navio continuou.

O caso se deu talvez a duzentas milhas náuticas do Japão e estava-se no inverno, então acho que fazia um frio do cão.

Todo caso, todo modo, estavam os três náufragos. O professor Aronnax, o sábio francês; seu criado Conseil e Ned Land, o arpoador canadense. Bem, na verdade só o professor e Conseil, Ned Land se juntou depois ao trio.

Estou falando das Vinte mil Léguas Submarinas de Júlio Verne que li aos doze anos, mal. Reli aos vinte, vinte e um e vinte dois e agora na idade provecta em que me encontro. Não encontrei Deus e nem o sentido da vida, mas entreteu. Entrete.

As coisas. A vida. O individual. Júlio, meu chapa.

Mas aí eu li e reli e descobri que minha primeira impressão não mudou. Não, li as vinte mil léguas um porrilhão de vezes só para descobrir que a melhor parte do livro era justamente a descrição de três homens, boiando na escuridão (foram jogados do navio às onze horas da noite) e ficaram lá boiando. E tava um puta frio (devia estar, até quero que estivesse (é importante para mim que os três estejam boiando em água gélida)).

Pouco depois Aronnax e Conseil ouvem uma voz e encontram Ned Land sentado em cima de um…bem, um submarino. É, o Nautilus, o submarino criado e comandado pelo Capitão Nemo, o sujeito ali que faz o papel de principal protagonista, o anti-herói, o cabra que faz a história andar.

Mas o que me tocou foi que as coisas mudam de modo radical. Num momento, os três na escuridão, no frio molhado e logo depois as escotilhas do Nautilus se abrem e os três são acolhidos, recebem roupas secas, refeição quente e algumas horas depois Aronnax é recebido por Nemo em pessoa em seu sancta sanctorum, seu camarote estendido, sua sala-de-estar.

Notem o contraste. Num momento, a solidão abissal e gelada, o medo sólido e logo depois o acolhimento, o útero morno do recebimento no interior do Nautilus, o museu pessoal de Nemo.

Lá, Nemo recebe Aronnax e lhe mostra maravilhas ─ e o Nautilus mergulha e navega na escuridão gelada ─, e conversa Nemo sobre temas que são caros a Aronnax e o deixa maravilhado e o fascina. E é quente e acolhedora a extensão do camarote de Nemo. Um mundo dentro de um mundo.

E lá fora, encerrado num envelope de água gelada, segue o submarino Nautilus, singrando um mar indiferente e impiedoso.

O Nautilus. Um útero.

Certo, Júlio Verne pode ser um grande chato. Na verdade ele é. Ele não tem prosa, tem verborragia. Um parágrafo começa com uma paisagem dos recifes de Cartier e Seingapatam para a seguir nos deleitar com explanação tediosa sobre diversidade das temperaturas nas várias camadas marítimas. Ante uma paisagem de banquisas no ártico contrapõe Verne uma exposição prolixa sobre as diversas teorias a propósito da localização do polo sul.

Entretanto, ora vejam, Homessa!, o nome do sujeito era Verne e o século era o dezenove e não havia ainda muito que se parecesse com a literatura fantástica. Então daremos um desconto.

Sempre dei, seduzido pelo contraste entre as cenas iniciais de um dos primeiros capítulos do livro. Nisso, Verne foi genial, captou todo um recorte do espírito humano: a dicotomia entre o nosso desejo de acolhimento seguro, tépido e tranquilo e a perigosa atração da escuridão.

Três homens perdidos no mar gelado e no breu da noite de cinco a seis de novembro de 1866. E a maravilha aconchegante e heroica do Nautilus, ainda mais benvinda por ser inesperada. Júlio Verne entendia do seu Métier.

Acrescento que outro dos deliciosos momentos que o livro me proporcionou foi outro contraste: Verne era francês, assim como francês foi o século dezenove. E perpassa por todo o livro o orgulho quase infantil do autor pela França, que se cria mestra e guia de povos e pelo francês, idioma que se cria universal.

Mas já ali se sentiam os roncos e cliques da máquina que assomava. Já havia a sombra de outra potência que já se fazia notar, não na figura do império britânico (decadente, grosseiro e incapaz do gesto sutil na opinião geral dos franceses), mas do nascente império americano.

Verne foi sensível a este despontar e recheou suas histórias com personagens secundários vindos dos Estados Unidos. Era a época.

Mas devaneei, eu queria mesmo era falar, escrever e comentar sobre a sala-de-estar do Capitão Nemo, que já me teve e me tem sempre como hóspede (eu divido prazeirosamente o espaço com o bom professor).

“─ Capitão Nemo ─ eu disse ao meu anfitrião, que acabava de se acomodar num divã ─, eis uma biblioteca que honraria mais de um palácio dos continentes. E pensar que ela pode acompanha-lo às mais ermas profundezas…

─ Onde encontraríamos maior solidão, maior silêncio, professor? ─ respondeu o capitão Nemo.”[1]

E é isso, leiam a porra do livro.

[1] A tradução é de André Telles, na edição de 2012, dita definitiva, publicada pela editora Zahar.