O PRIMEIRO BRASILEIRO EM MARTE: novas descobertas

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Já havíamos antes reportado, neste espaço, sobre a polêmica viagem de Cego Aderaldo e José Pacheco ao planeta Marte (Ver aqui: https://goo.gl/CzQxMb). Eis que agora temos mais um intrigante indício de que talvez um terceiro brasileiro o tivesse feito antes.

É com certo cuidado que expomos o que segue, mas o expomos, certos de que somente a discussão fecunda poderá trazer novas luzes sobre o caso.

 

Corintiano Voador

 

 

 

O PRIMEIRO BRASILEIRO EM MARTE – PARTE I

(Revista Panta Rhei. Ed. 13, ano 7, p. 13 – Ouroboros Editora)

 

 

É de conhecimento geral o rebuliço causado pela descoberta recente da memória de Sílvio Romero, o insigne jurista sergipano, dando conta de uma suposta primazia brasileira na visita a Marte, o fatídico Planeta Vermelho.

Digo fatídico por não querer dizer mais, dados os mistérios, os acontecimentos inusitados quando não macabros a cercar o ― assim se expressou o Dr. Czermk de Leipzig ― Enigma Marciano[1].

Mas então, o primeiro brasileiro em Marte? Enlouqueceu o autor, ou pior, chegou a tal ponto sua fatuidade? Mas não, é com destemor que jogo à arena o candente assunto, melhor diria candente revelação: sim, o primeiro homem a pisar em solo marciano foi brasileiro, e que brasileiro!

Sei, já prevejo os esgares nas faces doutas. Um brasileiro em Marte? Disparate!

Não foram diferentes as reações ao primeiro pouso de nau feita por homens em solo lunar por Bedford e Cavor, em 1901. Houve quem chamasse ao primeiro de louco fantasista, já que Cavor supostamente permanecera em solo lunar. Foram necessárias as expedições posteriores de 1915 e 1917, onde se estabeleceram relações com os desconfiados selenitas, não fáceis e nem pacíficas. O resultado, o resgate de Cavor, calou as vozes insultuosas.

Mas, e todos sabem, a verdadeira polêmica se deu quanto à primazia do primeiro pouso lunar, vez que americanos e franceses requestaram esta glória para Michel Ardan e Barbicane, do Gun Club, em 1865, ou mais exatamente, para os dois americanos membros do Gun Club e para Ardan.

Ora, se a viagem dos ingleses foi fartamente documentada, pelo menos no que tange ao fato de haver sido Cavor encontrado na Lua e ter este confirmado, inclusive documentalmente, a partida de sua esfera em 1901, não havia a mesma certeza quando ao feito do Gun Club, por muitos considerado como um gigantesco feito de propaganda. Não ajudaram, é claro, as revelações da ex-Mme. Adele Ardan no seu Michel Ardan raconté.

E temos então Marte!

Sim, tivemos uma viagem a Marte. Antes mesmo que à Lua. Não poucos desacreditaram da obra publicada por Edwin, sobrinho do ex-capitão confederado John Carter, com uma compilação de suas memórias (dele, John).

E nada mais natural, dada a ideia de que um, digamos mecanismo, manufaturado por  antiga e avançada civilização, permitisse a que um homem fosse de imediato transportado a Marte[2].

Havia mesmo a sugestão nas entrelinhas que existiriam outros sítios em nosso orbe a guardar mais destes mecanismos fantásticos. Cavernas em ermos inóspitos, quase inacessíveis, somente esperando seus aventurosos descobridores. O encontro de uma estranha relíquia entre os bens deixados pelo espólio do capitão Carter foi mencionada; como mencionado também foi que a relíquia foi prontamente arrebatada pelo governo americano e dela não mais se soube.

Acresce que por esta época houvera a descoberta dos canais marcianos, entrevistos ao telescópio por Percival Lowell, embora este não tivesse ainda publicado suas conclusões, o que só se daria em 1891.

Com o que voltamos ao Brasil e ao primeiro brasileiro em Marte.

O mundo editorial brasileiro foi sacudido há três anos pela descoberta do assim chamado Manuscrito Escadafhart, cuja autoria de Sílvio Romero hoje é incontestada, e sua publicação por Célia Loredano.[3]

Para os não iniciados, Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero, Sílvio Romero, foi brilhante jurista sergipano da chamada Geração de 1871 e, juntamente com seu mestre Tobias Barreto, revolucionou o pensamento jurídico e filosófico no Brasil de Dom Pedro II. Ambos foram membros fundadores da assim chamada Escola do Recife, ligada à Faculdade de Direito da cidade homônima.

Pois bem, foi este Tobias Barreto o primeiro brasileiro e talvez o primeiro homem no mundo a pisar em solo marciano. Expliquemos.

Encontrado em documentos avulsos durante pesquisa no Arquivo Nacional, o Manuscrito traz em seu bojo relato tão fantástico que somente as recentes pesquisas levadas a cabo por equipe mista da UFPE e USP  no Lajeiro do Frade, na cidade pernambucana de Escada, puderam separar o mítico do histórico, concedendo ao relatado foros de verdade.

 

A VIAGEM DE TOBIAS BARRETO

 

Em 1873, Albert Wilhelm Heinrich von Preussen, filho daquele que seria o kaiser Frederico III  visitou o Brasil, sendo recebido com honras por Dom Pedro II.

O jovem príncipe viajou, com numerosa comitiva, na corveta Olga, e saindo da Corte estendeu sua viagem até o município de Escada, Pernambuco, onde chegou na data de 03 de maio de 1883. O fato é referido em Himmel und Escadafahrt, artigo escrito por Tobias Barreto, único brasileiro a fazer da comitiva do príncipe imperial.[4]

Ora, tal fato sempre intrigou a historiadores, a não prevista visita do príncipe imperial de uma das mais poderosas nações da época a um esquecido município pernambucano, onde se vê hóspede do Coronel Marcionílio da Silveira Lins, Barão de Utinga, no engenho de Sapucagi.

O manuscrito conta história diferente do artigo de Tobias Barreto, onde este relata emocionado da honra de ter sido convidado para a comitiva imperial para visita à cidade que o escorraçara[5], além de tecer os mais ingênuos encômios à figura do príncipe e à cultura alemã de modo geral (Barreto era conhecido germanófilo).[6]

Não, nada de festas, rapapés, bandas. A visita principesca, assim relata o manuscrito, serviu tão somente para acobertar operação de espionagem sob o comando do Capitão-Tenente von Schwind para investigar a existência de uma “relíquia”, assim primeiramente chamada, sob a posse do coronel Marcionílio. O Manuscrito não deixa dúvidas: tratava-se de um dos “mecanismos de transporte” marciano, encontrado sabe-se lá Deus quando pelos primeiros conquistadores portugueses e arrebatado de uma gruta, evitada a todo transe pelos indígenas que então habitavam a terra.

Sabe-se que a procura por relíquias marcianas, estimuladas pela publicação das memórias de John Carter, virou uma febre a manter ocupado todos os serviços secretos das grandes potências da época.

Mas como chegou aos alemães esta informação, que de outra forma jamais cruzaria o Atlântico?

Segundo o Manuscrito, Tobias Barreto fora a fonte da informação[7].

Quando de sua estada na cidade de Escada, de quem foi deputado provincial e juiz municipal, Tobias manteve estreitos e profundos laços de amizade com o coronel Marcionílio e sua família.

Assim escreveu em seu Himmel und Escadafahrt: “…nos últimos tempos de meu exílio escadense, fora-me a casa do coronel Marcionílio, no engenho Sapucagi, um ponto de passeio e entretenimento, sem que tivesse, nem uma só vez que lá me achei, deixado de conversar sobre a Alemanha e meu fanatismo por ela.”.

E mais que a fonte, o intermediário que convenceu Marcionílio a franquear o acesso a cientistas alemães disfarçados de oficiais da corveta Olga, comandados pelo já citado von Schwind.[8]

No Manuscrito há menção de Sílvio Romero a relato de Tobias Barreto, onde se refere ter sido este procurado por Marcionílio quando de sua estada anterior em Escada. E foi nesta ocasião que Marcionílio, temeroso, lhe apresentaria pela primeira vez a relíquia, descrita como um “tubo metálico vermelho do qual escapavam bruxuleios”, quente ao tato e coberto de estranhos glifos que Barreto supôs fosse uma ancestral escrita marciana.

Sim, já nesta época, Barreto nutria suspeitas de uma origem marciana. Supunha, ainda segundo o Manuscrito, ter sido a Terra objeto de expedições do planeta vermelho ainda em eras priscas.

De qualquer maneira cerrou-se o episódio num velo de mistério e conspirações, dado que não sabemos que fim teve a “relíquia”. Teria sido levada pelos alemães? Teria permanecido sob a guarda de Marcionílio ou mesmo de Barreto?

Célia Loredano refere duas hipóteses isonômicas: o artefato teria ficado sob a posse de Marcionílio e/ou Barreto, dado que dificilmente poderiam os alemães tê-lo arrebatado do centro de poder de uma das figuras políticas mais poderosas da região, dispondo de homens e meios  a mancheia.

Ou, tendo sido entregue voluntariamente, fora levado pela comitiva principesca para destino que permaneceu e permanece ignoto.

Sobre esta segunda hipótese, refere Loredano que von Schwind era notório membro da Ordem de Thule, organização iniciática da qual o próprio Hitler teria sido membro. Ora, ainda segundo Loredano, é fato conhecido que no decorrer da Segunda Guerra foram patrocinadas pelo Reich expedições com o fito de encontrar-se ao orifício que levasse ao centro da terra, comandadas por oficiais e cientistas nazistas que eram ao mesmo tempo membros da mesma ordem iniciática. Não seria possível, pergunta-se Loredano, que tais expedições fossem um disfarce para a procura de grutas e cavernas onde poderiam estar escondidos outros tantos artefatos marcianos?

Para nossos propósitos tais considerações são, ao momento, inúteis, dado o conteúdo da segunda parte do Manuscrito. Esta, que nos interessa e sobre a qual nos estenderemos a seguir contém relatos fragmentados de visita ao planeta Marte ocorrida entre os meses de fevereiro a maio de 1878. A ela.

 

O DIÁRIO MARCIANO DE TOBIAS BARRETO

 

Sílvio Romero refere carta de Tobias Barreto datada de 6 de novembro de 1887:

 

[Amigo Sr. Sílvio:

 

Já deve ter recebido a minha última carta, na qual enviei-lhe as notas que me pedira. Creio ter sido completo. Se, porém, carecer de mais algum esclarecimento quanto às datas, escreva-me.

Venho hoje pedir-lhe um favor. Acaba de dar-se na faculdade…]

 

A referida carta pode ser cotejada à página 242 da edição comemorativa de 1991 dos Estudos Alemães.

Voltaremos ao assunto.

 

[1]Os professores Dr. Czermk e Dr. Rosenthal foram escolhidos para dirigir a publicação de uma Biblioteca Científica Internacional, em 1873. A feliz experiência foi erigida com o fito de traduzir ao alemão obras científicas que fossem dignas disso. A referência ao Enigma Marciano pode ser encontrada na obra Uber die Natur der Cometen (Sobre a natureza dos cometas) do grande astrônomo Johann Carl Friedrich Zöllner, publicada em 1872.

[2]Existe uma obra ficcional baseada nas memórias de John Carter, escrita por Edgar Rice Burroughs, a partir do livro de Edwin Carter, chamado A Princesa de Marte.  “um amontoado odioso, deturpante e fétido da jornada heroica de um grande homem”, escreveu Edwin em suas memórias, anos depois.

[3]GRIECO, Célia Maria Loredano. Manuscrito Escadafahrt: uma aventura de Tobias Barreto. Editora UFRJ, Rio de Janeiro, 2013.

[4]Himmel und Escadafahrt, página 201 da reedição comemorativa dos Estudos Alemães, de Tobias Barreto, patrocinada pelo governo do estado de Sergipe em 1991. O fato foi também noticiado na edição de 4 de maio de 1883 d’O Diário de Pernambuco.

[5]Tobias Barreto, nos anos de 1879 a 1881, residindo em Escada, por conta de querela não ainda de todo explicada, teve sua casa cercada por jagunços dos grandes da terra que o expulsaram do local.

[6]Primus inter pares, O senhor Barão von Seckendorff é um dos mais belos exemplares, que tenho visto, do homem culto e delicado…. Quanto ao príncipe Heinrich, eu já sabia por informação de uma escritora alemã, que a princesa imperial Vítória dedica-se muito à arte de jardinar, e que o momento ético e cultural deste trabalho se deixa ver claramente na educação de seus filhos. Himmel und Escadafahrt in Estudos Alemães, p. 203.

[7]Célia Loredano localizou uma brochura publicada às expensas próprias por Thomas Maples (?) em tipografia da cidade americana de Philadelphia, provavelmente em 1892, mas sem maiores indicações, na Biblioteca do Congresso: An Extraterrestrial Relic In Brazil? An Inquiry About The Olga’s Expedition.

[8]Provavelmente Ernst Wilhelm Carl von Schwind Zum Hel, desaparecido em 1919, talvez no Báltico, capturado por forças soviéticas estacionadas na Letônia. Segundo Loredano, é quase certo ter pertencido ao serviço secreto da marinha alemã.

UM CAUSO, UMA REFERÊNCIA SAUDOSA (ONDE O AUTOR RELEMBRA UM JOGRAL DE SUAS RELAÇÕES)

St George and the Dragon Sidney Harold Meteyard (1868 –1947)

St. George and the Dragon – Sidney Harold Meteyard

 

Meu pai, homem de bem, era devoto de cordelistas e do cordel. Tinha apreço pelas histórias e amava aos contos de cavaleiros e donzelas sonhosas (Ariano Suassuna falou de um donzel sonhoso no Romance da Pedra do Reino).

Modos que meu pai era por gosto e profissão um medieval.

Grande contador de histórias, soberbo mesmo, nos narrava toda noite uma gesta qualquer, grandiosa e solene.

Me lembro do conto da princesa no castelo situado no meio de uma ilha, situada a ilha no meio de um grande lago, no qual havia um castelo com setenta e sete cômodos, em um dos quais se encontrava prisioneira a princesa. A mesma princesa, claro, que seria resgatada pelos quatro irmãos.

Aqueles, os fabulosos, que por viverem em extrema pobreza decidiram abandonar a casa paterna e a fome e a clássica miséria. E saíram em madrugada fria e desesperançada para o mundo e separaram-se ante a estrada que se subdividia em quatro caminhos.

E cada um escolheu uma senda, onde a cada um caberia aprender um ofício e se tornarem, nele, mestres. E marcaram um encontro para dali há dez anos (meu pai gostava de prazos certos e era fiel a seu ofício de jogral).

E todos os irmãos, fiéis que eram (meu pai os plasmara com cuidado) se apresentaram ao encontro marcado, ocasião que o irmão mais velho determinou que todos informassem a profissão que haviam aprendido.

E foi onde o irmão mais novo disse que aprendera a ser um arqueiro (meu pai o chamava o “brechador”); o segundo, um adivinho (meu pai o chamava o adivinhão). O terceiro um soldador (nunca entendi bem, talvez uma interpolação de meu pai em consideração à modernidade do industrial século vinte). E, vejam só, ao irmão mais velho coube a ocupação de ladrão.

Não obstante, a filha do rei fora raptada pelo perverso Dragão do Mal (que meu pai chamava de a “serpente”).

E compareceram ante o rei, que os convocara, todos os bravos do reino para a porfia suprema de lhe restituírem sua filha, a princesa, sendo prometido o de praxe: fortuna aos valorosos e casamento com a infanta.

Os irmãos, vejam bem, meu pai dizia, eram os mais pobrezinhos, não eram ricos e nem poderosos e nem nada de nadinha de nada. Mas aceitaram o desafio.

Evidente que todos o nobres enfatuados morreram todos na empreitada, fritados de modo desairoso pelo perverso dragão.

Somente sobraram os irmãos pobrezinhos para a tarefa. E para cumprir a demanda foram os irmãos, meu pai contava, ao campo de prova de honra e morte.

Chegaram ao lago, tomaram um barco e atravessaram ao lago.

O adivinhão adivinhou a localização do quarto fatídico onde encontrava-se a jovem; o ladrão, por artes sutis de ladroagem, furtou à chave do quarto que estava na boca do dragão que dormia o sono negro de dragões maldosos em toca soturna.

E recuperaram os irmãos à jovem e tomaram o barco; os dragão  os perseguiu e furou ao casco do barco com um jato de sua chama; o soldador selou ao casco (relevem…) e, finalmente, foi o dragão morto pela seta certeira do arqueiro.

E pronto.

Entretanto, a delícia do conto é que, tão logo entregaram os jovens a princesa ao rei, fez este com que ela se casasse com o mais jovem dos irmãos, em casamento grandioso cuja festa durou sete dias (meu pai gostava dos números cabalísticos).

E então, o mais importante: meu pai nos contou (e não tenho porque duvidar de sua palavra) que meu avô chegou a participar da festa e, inclusive, levou um pedaço do bolo de casamento consigo.

Mas aí seu cavalo corcoveou e o bolo caiu no chão.

Pena.

Sempre me esqueci de perguntar a meu avô qual era o sabor da guloseima.

Papai era meio vago sobre o assunto.

POEMETO PARA DEPOIS DA CHUVA (Para ser declamado por um homem nu a uma mulher nua)

 

main

 

 

Eu nem mesmo entendo o que é vida

Mas tenho a mulher que é minha

e a vida e a  chuva

E tenho minhas dúvidas, frias, e a chuva

 

E tenho minha vida, meu governo e suas culpas

E as rimas pobres que rimam morte com sorte

E tenho a sombra pequenina e sombria

E as rimas de estar só com o pó e a terra fria

 

Só, como quem compõe uma canção,

Como quem lamenta estar só e comenta como aporte

Como quem ruge contra o tempo e a sorte

Como quem coleciona momentos, sem métrica

 

Tudo o que abarca a infinitude geométrica

 

Como quem insiste em remar contra o tempo

Rimando quando ninguém mais rima, a paz ascética

Diferentemente de augusto, o dos anjos, de quem roubo

Uns e outros, inda que breves, os vãos momentos

 

Combinando palavra com palavra como quem

coleciona aos todos eles, sim, aos sentimentos

Como quem conspira, puto e terno, contra o tempo

E quando acabar o mundo e não houver mais tempo

 

Cantará sobre mariposas e seios e mais além

E discorrerá sobre corpos de mulheres nuas

Por serem belos os corpos de mulheres nuas

E só porque, só porque, seios cheiram bem

 

 

A PRIMEIRA ENTREVISTA DE SELMA PLÁ FEITA APÓS SUA MORTE

TÚNEL-2

ATO I

 

Sala de entrevista – hora incerta

 

I

 

─ Oi, é Selma, não é? ─ Senhora de seus trinta anos e pele escuríssima, a simpática conselheira remexeu em alguns papéis em sua mesa.

Lá fora caia uma chuva fina e constante molhando o jardim de contos-de-fada da sede.

─ É. Selma.

A conselheira colocou duas mãos em seu rosto jovial e sorridente.

─ Nome completo, por favor.

─ Pensei que estivesse tudo aí, cês devem ter arquivos né não?

A conselheira acenou para um aparelho ao lado.

─ Só para registro. Formalidades, querida.

E depois de algum tempo de expressão de saco cheio.

─ Burocracia. Até no pós-morte a chatice continua… ─ e se recompondo.

─ Tá. Selma Regina Monteiro Plá.

─ Melhor…vamos lá…─ e passou a ditar para o aparelho. ─ Selma, paciente recém-saída do Umbral. Fase um de readaptação.

─ Escuta, já que eu tô morta, será que não dava para agendar uma visita aí com o Beja?

Expressão de interrogação no rosto da conselheira.

─ Benjamin Rosenblatt.

─ Ah, desculpe, seu marido no mundo da carne. Desculpe, mas não. Outra jurisdição. Talvez com tempo, consigamos negociar com pessoal judeu, mas não é garantido.

─ E já que começamos oficialmente as sessões, por favor me chame de Jaira. ─ E Jaira sorriu, balançando a cabeça.

─ Vamos lá, o que eu espero de você? ─ As mãos continuavam a se apoiar nos maxilares.

─ Quero um relato dos seus tempos no Umbral. Do jeito que quiser e levando o tempo que você quiser e no estilo que você quiser.

 

 

 

II

 

“Posso fumar?” Um cigarro nanocut se materializou entre os dedos de Selma que o deixou cair, o recolheu e levou à boca e uma brasa vinda de lugar nenhum apareceu na ponta e ela deu sua primeira tragada em anos.

Rapaz…!!!” foi só o que conseguiu articular.”

─  E?

“Bem. Eu de repente estava lá, na Cidade, na casa em lugar nenhum que eu não eu não sabia que ficava em lugar nenhum. Era sempre dia, ou quase sempre, porque as vezes tinha noites também, mas sempre, sempre nublado. Sol, nem pensar. Era só aquela coisa da casa, e eu dentro da casa, de vez em quando saía pra fora, mas no resto, na maior parte do tempo era só a casa.

E como eu dormia, meu deus, todo o tempo. Casa, andar pela casa um tempo e depois dormir, dormir e todo o tempo não tinha ninguém ali, mas eu sabia que tinha um mundo lá fora. Só não me interessava por ele.”

─ Nunca estranhou aquela solidão toda e a casa e todo o resto?

“Não. Era só a casa e eu não estranhava nada. ”

─ Entendo. Fome, medo, vontade de ir ao banheiro?

“Vontade de cagar?” Selma provocou. Não. E nem fome e nem sede e nem sequer apreensão. Eu te disse, entorpecida.

Não sei quanto tempo durou esta fase. Me pareceram anos. Mas, gradativamente foi me dando no saco e eu comecei a sair para o quintal da casa…”

─ Havia um quintal?

“Havia. E uma rua assim bem calma. Caralho!, tinha que ser calma. Não tinha um puto ali.”

─ Você estava só. ─ E era uma constatação e não uma pergunta.

“Só e não me tocava que estava só. Eu acho que a palavra nem cabia ali: solidão. Não tinha nada.

E os dias vinham e iam (sei. Falei que só tinha uma ou outra noite, mas os dias iam e viam, isto eu sabia).”

Jaira estimulou-a a continuar.

“E então eu desci pela rua defronte à casa e entrei nas avenidas e conheci à Cidade. Foi num dia como qualquer outro, nenhuma diferença.

E eu andei pela Cidade e havia lá aquelas coisas todas de uma cidade. As lojas, os restaurantes, tudo funcionando.”

─ Funcionando como?

“Só funcionando. Não me pergunte como, só sei que eu sabia. Mas era estranho. Você entrava num restaurante e havia comida ainda fumegante sobre a mesa, entrava numa loja e estavam lá os mostruários, todos limpos e…funcionais. Só não havia pessoas. Parecia que todas tinham acabado de sair, sei lá, pruma mijada ou para outro cômodo.”

─ Solidão?

“Não, só saco cheio. E dali eu peguei outra rua e depois mais outra e acabei na rua principal.”

─ Rua principal?

“Olha, não enche. Era a rua principal, tá bem? E aí, e foi aí que eu vi os ônibus, lotados de gente e os carros com insulfilm pretos, pretíssimos e você nem via quem tava dentro. Mas o que chamava a atenção eram os ônibus. Massudos, só com uma entrada, na frente, pintados em faixas de amarelo e azul e prata. E tinha aquele povo todo dentro dele, ninguém de pé, só tinha gente sentada. E eles olhavam pra mim e pareciam que tavam indo pra algum lugar (bem, certamente que estavam indo pralgum lugar).”

─ O que sentia quando viu aos ônibus?

“Era estranho, isto eu posso dizer. Pareciam familiares, como alguma coisa do passado. Era olhar pra eles e eu sentia uma infinidade de reminiscências, não lembranças completas, só flashes. Mas eram intensos.”

─ E mais ninguém fora os passageiros dos ônibus?

“Isso veio depois. Eu continuei a caminhar e cheguei no centro da Cidade e ali as coisas começaram a ficar meio malucas. Os prédios ficaram maiores e eu tive certeza de que não conseguiria mais voltar para a casa. Então, continuei andando.”

─ Me fale das sensações táteis, auditivas, dos cheiros.

“Hein? Sei lá. Eu ouvia música conforme passava por um bar ou por uma loja. Velhos standards dos anos trinta e quarenta. Jazz, sambas antigos, peças de música de câmara que quase dava para reconhecer mas eu não reconhecia.”

─ memórias fantasmas recorrentes, é muito comum.

“Como é?”

─ Continue, por favor.

“Tá, e havia os cheiros: comida barata de bar, perfumes, asfalto queimado. E as paredes dos prédios pareciam ser todas feitas de tijolos antigos, desses de olaria, antigos, grandes e quando eu chegava mais perto parecia que eram cada vez mais intrincados, complexos. Eu acho que poderia ficar horas só olhando pra uma daquelas paredes.

E aí me veio aquela porrada no peito, parecia um raio, só que sólido. Um soco bem no meio dos cornos e aí caí de bunda no meio do asfalto e me veio aquela certeza: eu tô morta, caralho!”

Longos minutos de tempo pós-morte depois.

“Morta.

O asfalto estava frio e gelou minha bunda e depois começou a gelar minhas pernas. E pela primeira vez eu tive, eu pensei, eu tive uma bruta vontade de mijar.”

─ muito comum, não se preocupe. Uma reação natural de autodefesa, um refúgio em necessidades naturais de um corpo físico.

“Você pode tomar no seu cu, também, se sentir alguma necessidade de se refugiar em necessidades naturais de um corpo físico.”

Jaira riu.

─ Calma. Desculpe pelo pedantismo. ─ Manteve-se ereta, estimulando, sem forçar a que continuasse.

Selma suspirou e desejou uma grande copo de conhaque para acalmar os nervos. Jaira se manteve impassível e a mágica do cigarro não aconteceu.

“Biscate!”

Jaira continuou impassível, embora ainda solícita.

“Tá. Então eu levantei e olhei pro lado, pra todos os lados e fiquei puta e falei assim comigo mesma ‘caralho, Selma, cê não tá vendo? Você morreu e tudo issaí em volta são só projeções mentais. As porras das merdas dos caralhos de suas projeções mentais. E não são nem originais, só muito bregas.”

─ E por que seriam projeções mentais?

“Porque, ô biscate, se a realidade fosse daquele jeito era uma porra de uma realidade de merda!”

─ Só uma curiosidade, você por acaso leu alguma literatura espírita quando viva? ─ Jaira estava ligeiramente zombeteira.

“Que literatura espírita?”

Jaira se limitou a manter um sorriso neutro.

“Eu sempre me perguntei…quer dizer…o sujeito era escritor quando era vivo e quando morre só faz vomitar platitudes? Um português de merda. Sabe, eu li uma vez uma senhora que escrevia, não ela, mas uma alma destas aí, desencarnadas. Era uma ghost writer a tal da senhora. E aí ela está aqui no além, a desencarnada escritora e encontra um menininho negro ali com ela e ela comenta ‘que bom que ele está aqui e não mais na sua tribo de antropófagos’. E ‘que bom que ele está evoluindo’ e mais umas merdas deste tipo. Sinceramente! Antropofagia? Que tipo de antropologia de merda que tem aqui no além? Antropofagia? E o menininho era africano. Antropofagia na África?”

─ Estar aqui não significa que muita coisa mudou. Se você era um medíocre na carne vai continuar um medíocre aqui.

“Certo. Então fica assim: eu não li tanto assim de literatura espírita. Provavelmente, não tenho certeza mas aposto, li muito mais mangás japoneses.”

Jaira riu, gostosamente.

─ Sabe, gosto de você.

 

III

 

E depois de algum tempo.

─ Acho que é só por hoje. Pode voltar para o seu alojamento. Deseja alguma coisa, há algo que eu possa fazer por você?

─ Rola uma cachaça ou uma bagana espiritual?

Jaira a acompanhou até a porta.

─ Temos uma cerveja fluidizada, serve?

A SALA DE ESTAR DO CAPITÃO NEMO

Jules Verne visits the Nautilus library – Bruno Aciolly

No dia 05 de novembro de 1866, por volta de onze horas da noite o Abraham Lincoln foi torpedeado por um narval fantástico e três de seus tripulantes foram jogados ao mar: um arpoador canadense, um cientista francês e seu secretário e faz-tudo.

O navio continuou.

O caso se deu talvez a duzentas milhas náuticas do Japão e estava-se no inverno, então acho que fazia um frio do cão.

Todo caso, todo modo, estavam os três náufragos. O professor Aronnax, o sábio francês; seu criado Conseil e Ned Land, o arpoador canadense. Bem, na verdade só o professor e Conseil, Ned Land se juntou depois ao trio.

Estou falando das Vinte mil Léguas Submarinas de Júlio Verne que li aos doze anos, mal. Reli aos vinte, vinte e um e vinte dois e agora na idade provecta em que me encontro. Não encontrei Deus e nem o sentido da vida, mas entreteu. Entrete.

As coisas. A vida. O individual. Júlio, meu chapa.

Mas aí eu li e reli e descobri que minha primeira impressão não mudou. Não, li as vinte mil léguas um porrilhão de vezes só para descobrir que a melhor parte do livro era justamente a descrição de três homens, boiando na escuridão (foram jogados do navio às onze horas da noite) e ficaram lá boiando. E tava um puta frio (devia estar, até quero que estivesse (é importante para mim que os três estejam boiando em água gélida)).

Pouco depois Aronnax e Conseil ouvem uma voz e encontram Ned Land sentado em cima de um…bem, um submarino. É, o Nautilus, o submarino criado e comandado pelo Capitão Nemo, o sujeito ali que faz o papel de principal protagonista, o anti-herói, o cabra que faz a história andar.

Mas o que me tocou foi que as coisas mudam de modo radical. Num momento, os três na escuridão, no frio molhado e logo depois as escotilhas do Nautilus se abrem e os três são acolhidos, recebem roupas secas, refeição quente e algumas horas depois Aronnax é recebido por Nemo em pessoa em seu sancta sanctorum, seu camarote estendido, sua sala-de-estar.

Notem o contraste. Num momento, a solidão abissal e gelada, o medo sólido e logo depois o acolhimento, o útero morno do recebimento no interior do Nautilus, o museu pessoal de Nemo.

Lá, Nemo recebe Aronnax e lhe mostra maravilhas ─ e o Nautilus mergulha e navega na escuridão gelada ─, e conversa Nemo sobre temas que são caros a Aronnax e o deixa maravilhado e o fascina. E é quente e acolhedora a extensão do camarote de Nemo. Um mundo dentro de um mundo.

E lá fora, encerrado num envelope de água gelada, segue o submarino Nautilus, singrando um mar indiferente e impiedoso.

O Nautilus. Um útero.

Certo, Júlio Verne pode ser um grande chato. Na verdade ele é. Ele não tem prosa, tem verborragia. Um parágrafo começa com uma paisagem dos recifes de Cartier e Seingapatam para a seguir nos deleitar com explanação tediosa sobre diversidade das temperaturas nas várias camadas marítimas. Ante uma paisagem de banquisas no ártico contrapõe Verne uma exposição prolixa sobre as diversas teorias a propósito da localização do polo sul.

Entretanto, ora vejam, Homessa!, o nome do sujeito era Verne e o século era o dezenove e não havia ainda muito que se parecesse com a literatura fantástica. Então daremos um desconto.

Sempre dei, seduzido pelo contraste entre as cenas iniciais de um dos primeiros capítulos do livro. Nisso, Verne foi genial, captou todo um recorte do espírito humano: a dicotomia entre o nosso desejo de acolhimento seguro, tépido e tranquilo e a perigosa atração da escuridão.

Três homens perdidos no mar gelado e no breu da noite de cinco a seis de novembro de 1866. E a maravilha aconchegante e heroica do Nautilus, ainda mais benvinda por ser inesperada. Júlio Verne entendia do seu Métier.

Acrescento que outro dos deliciosos momentos que o livro me proporcionou foi outro contraste: Verne era francês, assim como francês foi o século dezenove. E perpassa por todo o livro o orgulho quase infantil do autor pela França, que se cria mestra e guia de povos e pelo francês, idioma que se cria universal.

Mas já ali se sentiam os roncos e cliques da máquina que assomava. Já havia a sombra de outra potência que já se fazia notar, não na figura do império britânico (decadente, grosseiro e incapaz do gesto sutil na opinião geral dos franceses), mas do nascente império americano.

Verne foi sensível a este despontar e recheou suas histórias com personagens secundários vindos dos Estados Unidos. Era a época.

Mas devaneei, eu queria mesmo era falar, escrever e comentar sobre a sala-de-estar do Capitão Nemo, que já me teve e me tem sempre como hóspede (eu divido prazeirosamente o espaço com o bom professor).

“─ Capitão Nemo ─ eu disse ao meu anfitrião, que acabava de se acomodar num divã ─, eis uma biblioteca que honraria mais de um palácio dos continentes. E pensar que ela pode acompanha-lo às mais ermas profundezas…

─ Onde encontraríamos maior solidão, maior silêncio, professor? ─ respondeu o capitão Nemo.”[1]

E é isso, leiam a porra do livro.

[1] A tradução é de André Telles, na edição de 2012, dita definitiva, publicada pela editora Zahar.

Sobre urubús, índios e a eterna impaciência dos jovens

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Don´t Be Shy – by The Tundra Ghost – DeviantArt

 

─ O problema é que não sabemos mais hoje do que sabíamos ontem. Só que o ontem foi há dois mil anos! Aí é muita coisa prá não se saber.

O falante se calou. Era um urubú-gereba belíssimo. E muito culto, por sinal.

O velho índio ponderou.

─ Prá mim não tem esse negócio de mil, dez mil anos de experiência. Bobagem. Você aprende um ofício em um ano, atinge a excelência em dois, daí você só replica a coisa até a morte.

O velho índio calou-se, pensativo.

Usava uma também velha calça jeans. Sua tribo havia sido extinta já no descobrimento  e atualmente ele vivia em uma aldeia guarani em São Paulo, fingindo ser um guarani.

─ Espero que não estejamos aborrecendo você. ─ Disse educadamente o urubu-gereba para o garoto de doze anos, os encarando assustado na outra ponta do banco de jardim.

─ Você deve nos perdoar, já somos um pouco entrados em anos e as vezes nossa palestra pode ser arcaica…

─ Para não dizer estranha ─ completou o índio velho.

─ Sim, sim, mas não entenda mal, ─ disse pressuroso o urubu-gereba, eriçando uma pena ou outra. ─ Não sou gentinha, não senhor. Meu pai era garbosíssimo, um portento mesmo, eu diria.

E como se contasse um segredo. ─ E por muitos anos foi guia espiritual de inúmeras tribos do Brasil pré-histórico. ─ O velho índio piscou para o garoto e depois passou a olhar intensamente o céu. ─ Minha mãe, então…algum problema, Climério?

─ Nenhum, Romão, você me conhece.

─ Bem, relevemos.

─ Relevemos. ─ Secundou o velho índio.

O garoto se achegou mais ainda para a ponta do banco, ensaiando uma fuga.

─ Sem embargo, talvez você mesmo ache estranho ver um urubú falando… ─ começou, mas aí o garoto já estava em disparada e sumiu de vista.

O velho índio tirou um cachimbo velhíssimo do bolso traseiro das calças e começou a encher de fumo, na maior calma do mundo.

─ Dia destes a gente vai ser preso. ─ E meneando a cabeça.

─ Cê sabe, talvez não seja uma boa época para um pajé de dois mil e tantos anos e um urubú espiritual… ─ completou com uma baforada filosófica.

─ Vai se foder, Climério! ─ O gereba começou a alisar as penas do peito, amuado.

─ Além disso, eu sou da fauna nativa. Crime inafiançável, sabia?, mexer comigo.

─ Então tá.

Por via das dúvidas, saíram meio que correndo, meio que voando.

 

AS TRÊS IMPORTUNAÇÕES MÍSTICAS DE S

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EARTHEN EMPRESS by Ophelia-Overdose (DevinatArt)

 

 

 

S, como a chamarei, era e sempre seria uma mulher esbelta, alta e de cabelos pretos, mesmo quando havia cinza e depois branco por baixo.

Sua primeira experiência mística se deu aos dezenove anos.

Fora pouco antes das sete da manhã e S estava a menos de uma quadra da tecelagem onde trabalhava[1], quando o tempo parou, todas as coisas pararam e um silêncio de algodão desceu sobre a rua. Ali, com os carros e as pessoas parados, S não teve medo. Depois, pensando melhor sobre o ocorrido não chegou a um acordo sobre o que sentira, como se até seus sentimentos tivessem sido postos em suspenso.

Na rua congelada viu a mulheres e homens vestidos em roupas finas e caras de todos os tipos. Ternos conservadores e ternos modernos, vestidos finos, colares, sapatos, sobretudos, um ou outro até com peles. E ela sabia sem saber como sabia que eram anjos, simples assim[2].

Circulavam pela rua com calma determinação, aproximando-se das pessoas congeladas, abraçando-as, falando a seus ouvidos. Vez por outra tocavam uma pessoa e a faziam movimentar-se em lenta viscosidade.

Um grupo, duas mulheres e um homem, empurraram um jovem raquítico para frente de um carro agora imóvel, mas antes em alta velocidade. Uma mulher vestindo jeans passou por S e parou um momento a sua frente e endereçou-lhe um riso estranho, como que desconcertada.

E então tudo acabou e o mundo voltou a correr e o garoto magro foi atropelado.

Talvez não seja comum, mas o fato era que S era extremamente inteligente, apesar do meio em que nascera e vivia. Então S, que não era limitada, soube no mesmo instante que passara por uma experiência mística.

Claro, não fora como esperava. Não tivera quaisquer dos sinais que sempre associara a tais experiências, tais como iluminação ou um sentimento de eternidade. Fora mais como uma olhada na casa de máquinas do real.

Não obstante, S não saiu incólume da experiência.

Naquele mesmo dia, talvez duas horas depois, teve um acidente de trabalho que quase esmagou-lhe a mão esquerda (S era destra), foi levada ao hospital, medicada e liberada para que fosse para casa.

No caminho S passou uma loja de música e comprou um long play de Thelonious Monk[3].

 

[1] S era filha de um metalúrgico vindo do Paraná e de uma doméstica nascida em Alagoas e, acreditem, o emprego na Tecelagem Gaol fora até ali sua maior conquista profissional. 
[2] Anjos vestidos com casacos de pele! Não se pode confiar em anjos, não mesmo.

[3] De uma coleção chamada Os Gigantes do Jazz. S gostava especialmente de Monk´s Dream. 

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Foi durante os sete meses de sua convalescença que S voltou a estudar e nunca mais parou. Depois demitiu-se da empresa, levou diversas surras de seu pai, suportou diversas cenas chorosas de sua mãe e decidiu não mais se casar com o rapazinho que frequentava a mesma igreja que ela e fora seu colega de escola.

Expulsa de casa, conseguiu moradia temporária na casa de uma amiga, prestou concurso, passou e tornou-se policial militar. Pouco antes de tomar posse submeteu-se a um aborto (não, o pai não era seu ex-noivo) e, para sua grande surpresa, não morreu e nem teve sequelas.

Também não quis se casar com o publicitário loiro e bem apessoado que pensava ser o pai da criança, pois o tinha na conta de um idiota[4].

Teimosamente, começou e terminou uma faculdade de direito para depois descobrir que odiava a coisa toda, apesar de uma brilhante atuação acadêmica.

Desligou-se da polícia, na qual tivera uma passagem discreta, jamais se envolvendo com ninguém e, mais intrigante, passando indene por toda a lavagem cerebral que lhe fora despejada pela instituição e por seus superiores.

Por esta época sua mãe a chamara para que visse que seu pai estava louco e andava nu pela casa, defecando em todos os cantos. S não atendeu a seu chamado.

E foi no hospital, onde aguardava que seus irmãos saíssem do quarto coletivo onde aquela mesma mãe finalmente alcançara o maior desejo de sua vida, morrer lacrimosamente[5], que S teve sua segunda experiência mística.

O mesmo anjo que parara a sua frente na rua congelada, a mulher de jeans, saiu do quarto da enferma e sentou-se a seu lado no banco duro de ardósia do corredor.

“Quarto 616, sexto andar. O elevador é por ali”. Disse.

O tempo parado. De novo. E S pensou em mandar a mulher para a puta-que-o-pariu, mas não o fez. O anjo-mulher ria suavemente, de modo que S achou melhor fazer alguma coisa, já que estava ali mesmo,  tendo uma experiência mística e o caralho e sem ter muito mais o que fazer.

“Tá”, disse e foi até o quarto de Benny[6].

[4] O que ele de fato era. 
[5] Mas não morreu. A mãe de S sobreviveria ao marido, um filho e morreria dormindo em 2018 (como eu sei? Isto é ficção, idiota!). 
[6] Por que Benny? As desculpas eram interessantes: o apelido teria sido dado por uma tia que vivera em Nova York. S achava era que era frescura de classe média mesmo e sempre chamou Benny de Beja.

 

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Nunca soube como chegou lá, nem como reuniu coragem para entrar, mas o fato é que ficou até às dez da noite conversando com um jovem de barba e cabelos ruivos, até se apaixonar por ele, isto por volta de 09:52 ou 09:53.

Ignorou, e Benny também, aos parentes que se iam chegando e saindo ao perceberem que não era lhes dada atenção.

O fato é que Benny morria.

De alguma forma se casaram, meses depois, sendo importante ressaltar que em nenhum momento S considerou se converter ao judaísmo. E não se converteu.

Outro fato é que Benny levou outros dois anos para morrer e mesmo ante a essa moratória do Divino não deu S qualquer importância, conforme comunicou a Nossa Senhora da Conceição durante uma visita a uma igreja de bairro[7].

Foram os anos mais felizes de S e de Benny, também.

Mais que esposos, eram cúmplices. Sem pressa alguma construíram um relacionamento, transformaram sua paixão em amor e saíram para a vida.

S descobriu que gostava de escrever e Benny voltou ao teatro. E S escreveu a peça e Benny a montou, depois veio a outra peça e quando se deu conta S estava também dirigindo, traduzindo, pintando e produzindo[8]. Sem outra desculpa por dar, teve por fim que se tornar uma agitadora cultural, fosse lá o que isso fosse.[9]

Nesse meio tempo nasceu Geoffroy, que S queria que fosse Lucas, mas aceitou o Geoffroy porque a alternativa era o nome do avô de Benny[10].

 

[7] S nunca explicara bem para si por qual razão levantara cedo e resolvera ir até a igreja, mas o fato é que o fez. Entrou no lugar pela manhã (sete horas…?), sentou no primeiro banco e fez sua primeira oração em anos. Fato estranho se considerarmos que S nunca fora religiosa (embora não comentasse o fato com ninguém), bem como que sua família sempre fora protestante. 
[8] S pintou uma cena da Natividade com uma virgem Maria vestindo bata de hospital em uma cama de hospital, tendo ao lado um José vestido como um rabino ortodoxo. S nunca conseguiu conquistar a família de Benny e nem mesmo fez muito esforço. 
[9] S sempre teve as mais cínicas opiniões sobre agitadores culturais, produtores e quejandos e durante todo o período “Benny” nunca os levou ou a si mesma a sério. “Você é daquelas que negam sua genialidade para ser deixada em paz fazendo suas ‘genices’”, dissera-lhe Benny em conversa de cama. “Genialidade é coisa de babaca, Benjamim Rosenblatt. E minha avó era preta e nordestina, daí que não posso ser ‘gênia’”. “e então…precisa do que prá ser gênio?”, Benny beijou-lhe um seio. “Sei lá, talvez uma profissão…vou pensar numa”. “Você tem problemas…” Benny, carinhoso. “Hum…problemas…é, pode ser. Para ser ‘gênia’ eu preciso ser, muito, problemática”. E por aí ia S. 
[10] O avô atendia por Samuel. Mais frescura de classe média, segundo S (embora S tenha gostado de Geoffroy, mas nunca o iria admitir).

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Cabalisticamente, no cemitério onde Benny estava sendo enterrado, S teve sua terceira e última experiência mística. Deixara o bebê com a irmã de Benny e fora sofrer no jardim quando o rabino apareceu.

“Não gosta de Rosenblatt?”. Gordo, baixo e com uma barba branca caindo no peito, o velhinho sentou-se a seu lado no banco.

“Como?”

“Rosenblatt, você não adotou o sobrenome de seu marido. Não gosta?”

S se lembrava de ter dado um pulo. O velhinho, educadamente, fingiu não notar. Usava um capote preto e um chapéu de copa alta.

“Jesus, ai meu Jesuzinho, de novo né? Tá acontecendo, não tá. O tempo parado e os anjos. Me diz que você não é um anjo!”

“Anjos gentios não podem entrar aqui. Questão de jurisdição. E eu não sou anjo, já antecipo, para sua tranquilidade.”

O jardim do cemitério fervilhava de senhores e senhoras, jovens, meninos e meninas, que S não tinha certeza se eram anjos ou fantasmas ou alucinações[11].

“E então…?”.

“Plá já é um sobrenome complicado o bastante…não acha?”

“Como é?”. O velhinho aproximou os ouvidos da boca de S.

“Plá. Meu sobrenome”, e pensativa: “escuta, cê é algum enviado de alguém com uma puta mensagem edificante ou alguma outra coisa babaca assim?”

“Ah, não. Sou parente do finado. tetra-tetra-tio-avô…ou mais um tetra”.

S abriu e fechou a boca, mas não conseguiu dizer o que queria dizer. Em vez disso: “olha, eu gostaria de ficar sozinha, agora, tá bem?”

Os homens e mulheres, anjos ou que fossem, começaram a circular pelo cemitério todo, abordando pessoas congeladas, exatamente como na primeira experiência mística de S.

“Sem problema, querida. Vim apenas transmitir um recado, coisa rápida”. O velhinho ria um riso leve de Bonzo.

“Qual o teu nome? Aliás, estamos falando em que língua?”

O velhinho sentou-se a seu lado.

“Para efeitos práticos, nenhuma ou todas. Para mim, por exemplo, você está falando em excelente alemão[12]. Meu nome é Lazar.”

[11] S era racionalista empedernida e desenvolvera teoria de que suas experiências místicas eram fruto de alguma mescalina natural produzida por seu cérebro. E era briguenta também, S. 
[12] O chamado efeito Pentecostes, muito útil na ficção para não emperrar os diálogos. Há muitas variações: na ficção científica serão culpados os tradutores universais, a telepatia ou então a extrema inteligência do alienígena. Nas ficções de fantasia podemos culpar a magia. No caso de Lazar, não pensamos ainda em nada de muito original. Sei lá é a melhor resposta até agora, mas estamos trabalhando em algo melhor.

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Lazar tinha uma voz linda, quente e profunda.

“Sei…Lazar Rosenblatt?”

“Chemboim. Lazar Chemboim. Pode me chamar de Senhor.”

“E qual é a mensagem, Lazar?”

O velhinho repreendeu, mudo e sorridente, com um dedo encarquilhado apontando diversas vezes para o rosto de S.

“Muito bem. A mensagem é…aviso, se preferir…conselho, é que você é capaz de, de quando em vez, perceber aos anjos fazendo das suas, a cada vez que resolvem “penetrar” entre um segundo e outro…”

“Você  os danadinhos mexendo com as vidas humanas, fazendo mudanças aqui e acolá, interferindo nas mentes…trocando peças. E isto é um dom raro. Deixa-os furiosos, aos filhos-da-puta, por não poderem fazer o mesmo com você. A não ser diretamente, como o anjo que lhe falou de Benny.[13]”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[13] Lazar, depois de morto, passou a não mais confiar em anjos, gentios ou não. Nunca se recuperara da descoberta de que os anjos não davam a mínima para o Livre Arbítrio. S também passou a nutrir certa ojeriza aos mensageiros do Senhor. Eis uma pequena amostra de um conto seu na revista Femina, edição de março de 2009 (a parte mais suave e família):

“ ‘Ele vem aí, você sabe…’, disse-me planando a poucos passos de mim, o rosto um tanto preocupado, um tanto já começando a denotar angústia. ‘Não é que eu não tenha passado por isso antes’, e aí mordeu uma unha, “mas é que…”, sei, sei muito bem. Ou melhor, sei nada, mas já aí é outra história.

                ‘Mesmo com tudo o que… quer dizer, com tudo o que possamos fazer, nos preparar, essas coisas, nunca é o bastante, nunca…e de qualquer modo’.

                Flutuou para perto de mim, o rosto sério, a boca em repouso.

                ‘Sei o que você vai dizer, sei o que pensa. Pensa que não sei? Pensa em mim como uma putinha, fútil’. Começou a elevar-se, alguns centímetros por segundo, ‘tenho certeza, sei como é. Imagino mesmo que tudo que você pensa agora é em levantar minha túnica e me enrabar’.

                O que é verdade, muita, mas não deixo as coisas assim tão fáceis prá ele.

‘Pelamordedeus, seja mais digno! Você é um anjo, porra! Um filho da puta aí com seus bilhões de anos. Dê-se ao respeito!’

Uma leve rotação e ele mostrou-me as costas, mas foi pior porque aí não resisti e nem vi porque deveria para dizer a verdade, aí então meti as duas mãozonas na bunda daquele safado, baixei ele mesmo até o chão e levantei a túnica branquíssima, pascal, arrepanhei-a em sua cintura e ali a sustive, e peguei sua mão branquíssima e pascal e fi-la segurar meu pau e deixei que o puto tomasse a iniciativa.

Bem na pontinha, o cu angélico me tocou, ele começou a chorar baixinho enquanto encaixava, acomodava, o pescoço num movimento lânguido e sofrido deixou uma massa dourada de cabelos perfumados me entrar pelo nariz.

‘Não disse?, uma putinha.’

‘É tudo o que você é prá mim, RafaelAmielbundabel, biscate cósmica, anjinho chupa-rola.’

Finalmente o empurrei contra a parede, empurrando ao mesmo tempo o meu pinto nas suas entranhas perfumadas, doces.

‘Eis aqui toda a substância ígnea de que você precisa.’ “.

O conto lhe rendeu certos dissabores. Rowena Castro, a editora, fez-lhe observar do desnecessário do texto, uma relação de amor e ódio entre um anjo e um ateu sádico. E, não sem razão, reclamou do anjo submisso e efeminado sendo abusado por um demente machista. S rebateu dizendo que a coisa era uma metáfora e ninguém entendeu nada. “Metáfora do que?”, perguntara a aflita Rowena. “Tá, então é pornografia e pronto!”. S nunca primou pela sutileza.

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S levantou-se.

“Se não fosse pelo anjo eu não teria conhecido o Beja!”

Lazar cruzou os braços por sobre os joelhos, numa irritação bonachona.

“É e veja no que deu. Benny casou-se com uma goy![14]”

E rapidamente acenou, como que para desfazer o comentário.

“Não, não entenda mal. Não dou tanta importância assim ao ocorrido. A morte nos dá novas perspectivas. Só estava querendo lhe apontar que o dom de ver aos anjos significa que você pode escapar de sua influência, o que pode ser bom”

“Beja foi bom…”.

“Bennys não acontecem todo dia, menina teimosa!”

S não podia objetar a isto.

“Escuta, eu vou esquecer tudo isso, você, os anjos e o caralho?”

“Não, você pegou os safados de surpresa. Muito embora eu não aconselhe a ficar espalhando por aí, se é que me entende.”

Uma mulher de uns sessenta anos, touca branca e avental, se aproximou e cutucou Lazar com cara de poucos amigos para S.

“Ah, minha esposa. Tenho que ir…bem, tchau.”

Na opinião de S a saída de Lazar e esposa pecou no quesito estético, por muito abrupta. Ela teria esperado pelo menos uma intervenção da velhota, depois mais um papo místico cheio de sabedora (o “tchau” não pegou legal, também), mas não rolou.

Aliás, S sempre associaria a esposa fantasmal e azeda de Lazar à atriz que interpretava Fruma Sarah no Violinista no Telhado. O filme, esclareço.[15]

E S saiu de novo para a vida.

Entrando com teimosia e garbo na sua nova fase de viúva, S ficou com o apartamento que dividira com Benny, recusando com uma insanidade toda especial a receber qualquer outros bens do falecido (ela nunca tocou nas contas correntes e recusou-se a comparecer às audiências do inventário).

Por esta época resolveu voltar à universidade.

Paralelamente, exerceu miríade de outras atividades, sobrando ainda tempo para criar o pequeno Geoffroy, arranjar e desafazer relacionamentos, criar e fechar revistas, formar-se, iniciar bem sucedida carreira acadêmica na área de Estudos da Linguagem, dirigir um filme e, finalmente, morrer.

[14] Antes de ser goy ou viúva de Benny S era corintiana e isso sim, fazia uma puta diferença. Lazar, por outro lado, era tão alheio ao futebol como um vegetal ao sexo.
[15] Interpretada por Ruth Madoc no filme de Norman Jewison. Após o encontro com Lazar, S passou a chamar a sua esposa, mentalmente, de biscate-com-lixa-no-cu.

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Nunca mais teve transportes místicos, embora tivesse certeza de ter visto novamente à “anja” de jeans no fundo de uma classe onde dava aulas e, duas vezes, no ônibus.[16]

Estranhamente, jamais perdeu o sono por conta das ocorrências angélicas e nunca guardou segredo como lhe aconselhara Lazar, o que muito contribuiu para sua persistente reputação de porralouca.

“qual a conclusão, o que é que você…sei lá…aprendeu com a coisa toda?”, lhe perguntara certa vez Rowena.

“Conclusão? Prá ser sincera, porra nenhuma.”

E deu por encerrado o assunto.

Antes de morrer, S viu Geoffroy crescer em sabedoria e graça aos olhos do Senhor.[17]

[16] S nunca aprendeu a dirigir.
[17] Os parentes de Benny insistiram  junto a S para Geoffroy fazer sua Bar-Miztvah, ao que ela nunca objetou, sendo o único problema sua antipatia em deixar “cortarem o pinto do garoto”, mas acabou concordando.

A PRÁTICA E USO DO METATARÔ SEGUNDO VICENTE, O PRETO

MR. BEGGAR FELINE - By oO-Rein-Oo - DEVIANTART

MR. BEGGAR FELINE – By oO-Rein-Oo – DEVIANTART

Deve-se imaginar um mendigo, preto, belo e forte, com cerca de sessenta anos, de barba e cabelos quase totalmente brancos. Deve-se imaginar uma moça de vinte e poucos anos. Um dia chuvoso, talvez. Úmido ou frio. Melhor frio.

Basicamente você terá as vinte e duas lâminas do Tarô tradicional, desconsiderando os outros cinqüenta e quatro Arcanos Menores. Do ponto de vista do MetaTarô os “menores” são apenas variações, facilmente perceptíveis com a prática. Assim, os Cavaleiros ou Valetes serão relacionados, de acordo com a tirada, ao Mago, ao Imperador ou mesmo ao Louco. E, do mesmo modo, as Damas com a Sacerdotisa, a Imperatriz et alia. Para não falar dos simbolismos assazmente antigos e conhecidos da Taça ou Copas, do Malho ou Paus, da Espada e Ouros ou Rútilo.

“Uma questão de prática”.  E sorriu Vicente, como sói podem fazer mestres arcanos. Você já deve ter privado com algum.

“Coringas e o Louco?”

“Viu?, você já pegou a coisa”. Um ligeiro cumprimento, um quase imperceptível tremular de dedos e um quase sorriso. E a moça sentiu-se distinguida, cumprimentada e isto lhe trouxe desconhecido calor a seu coração, e vergonha por se dar ao desfrute de tal sentimento.

Era uma moça da classe das Subestimadas e você, Leitor ou Leitora, deve ser condescendente com estas infelizes criaturas nunca seguras de seu potencial.

Então, como já disse, considere, para fins práticos, apenas os Arcanos Maiores. E não tenha medo ao aproximar-se deles. Veja, com o Imperador considere que está tratando com todos os reis, presidentes, tuxauas, caciques, cãs e líderes; com o Sumo-sacerdote, todos os patriarcas, babalorixás e rabinos; com a sacerdotisa, as pitonisas, iaôs, santas, mulheres de sabedoria; com o Mago, cada prestidigitador, mágico, cada encantador de serpente e cada maluco trancado num laboratório consultando grimórios ou microscópios de tunelamento. E existem as variações do Louco, é claro. E, nunca esquecendo, nem sempre se pode distinguir as fronteiras entre um e outro.

“Desculpe, mas isso aí é um tanto óbvio. Cê sabe, cê vai achar a mesma coisa em livros de autoajuda…espero…é…não ter ofendido”. Isabel, que é como devemos chamar a moça, estava ajoelhada, segurando um livro e um celular na mão esquerda. E parecia confusa. E Vicente, nosso herói de agora, era apenas um mendigo, negro, alto, de meia idade e barbado. E grisalho. E conto isto para que vocês não se assustem com Vicente, que era meigo e sábio e tinha a voz meiga de um sábio e estava escarrapachado no chão, apoiado num banco de jardim do parque.

“Correto”.

“Certo”. E Isabel (você agora conhece Isabel) ajeitou-se, sentiu-se desconfortável por estar ajoelhada e sentou-se no banco.

Todos os Arcanos são arquetipais, mas nem todos são tão “óbvios”. A Lua, a Torre, os Amantes ou Namorados, o Mundo ou os Estamentos, são para serem “ouvidos”. Atente para a palavra! São antes “perguntas” e não “respostas”. Um conselho: os bons barcos balançam. O digno de admiração não são as melhores respostas. Qualquer um responde. Eu lhe aponto um dedo e você responde ao meu dedo, mas meu dedo é só um dedo.

A arte soberana é a da pergunta.

“Não entendi nada, desculpe”.

“Ótimo. Se entendesse, responderia. Já notou que é um contrassenso?”

“?”

Vamos tentar de outra maneira. Veja, por que está aqui, agora, falando comigo?

Isabel se remexeu, fez careta, mas não respondeu.

“E então?”

“Eu…assim, eu estava aqui no parque, passei por você e você me chamou e começou a falar de Tarô e depois do MetaTarô”

Não, seja honesta. Você andava pelo parque, por este enorme jardim público, e me viu, e parou quando me viu e então perguntou pelo MetaTarô. Você, claro, vai racionalizar. Não, eu não perguntei nada, Vicente, e será mentira.

A despeito de tudo, você está aqui, conversando sozinha com Vicente, o Preto. Perceba que sou preto. E um mendigo. E Você não me conhece. Então, como não perguntou?

“Eu não abri a boca…”

“O que só depõe a seu favor”

E voltando ao assunto, com o MetaTarô, acessível a poucos, conhecido só por poucos, você não consulta às lâminas. Você é consultada. Veja, as lâminas, do mesmo modo que você, são consumidas pela mesma curiosidade. Vamos começar a leitura?

“Vamos…?”

Certamente. Embaralho as cartas, agora: no fim dos tempos, entrópico até os bagos, existe um castelo ou um barraco ou uma tenda ou uma maloca ou um pagode, onde os restolhos da humanidade se abrigam, aquecendo-se uns aos outros. Estou falando deles, percebe? Os Arcanos Maiores, o melhor e o pior. O humano, o demasiado. A outra face nos encarando, no espelho. Elas. Eles. Nós.

E vinte e dois mendigos se postaram ao lado de Isabel e ela não vira nenhum mendigo chegar.

E é um lugar em lugar nenhum, cheio de abstrações e cheiros. Pode ver? E Isabel viu. Estão todos lá, os demônios e santos, os marcianos, São Jorge, o Superman, Sétimo Severo e a  Grande Mãe.

E Vinte e dois mendigos estavam ali, casualmente, ao derredor de Isabel e de Vicente, escarrapachado ao lado do banco de jardim. E também eu estava lá e também você, Leitor e Leitora.

E todos os Tzadikim, Tonico e Tinoco, Lisavetta de Batory, Morrison, seu Zé Pelintra, Maria Padilha e todos os milagres de Lourdes e de Aparecida e Marie-Bernard Soubirous recém saída de um riacho gelado onde vira a Virgem. E todos eles, incluindo os Neanderthals, que eram inteligentes e sábios e se acreditavam prediletos da Grande Mãe e morreram do mesmo jeito.

E é isso. E foi e será. O barraco do fim dos tempos. Agora, as cartas estão embaralhadas. Pergunte!

Evidente que Isabel se levantou e saiu dali correndo e você deve ser compreensivo, Leitora e Leitora, porque você fez o mesmo.

Por que? Por que Isabel, somente desta vez, não ficou e aguentou e ouviu? A resposta tão perto de si.

A mendiga Dejaneide Maria Bezerra que também era a Mãe teria dito a Isabel, teria dito a você, teria dito.

“Sim, ele te ama”

“Sim, ela te ama”

“Sim”

Eu me chamo Vicente. Sou preto. Sou alto e sou forte.

Tarô de Marselha