O PRIMEIRO BRASILEIRO EM MARTE: novas descobertas

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Já havíamos antes reportado, neste espaço, sobre a polêmica viagem de Cego Aderaldo e José Pacheco ao planeta Marte (Ver aqui: https://goo.gl/CzQxMb). Eis que agora temos mais um intrigante indício de que talvez um terceiro brasileiro o tivesse feito antes.

É com certo cuidado que expomos o que segue, mas o expomos, certos de que somente a discussão fecunda poderá trazer novas luzes sobre o caso.

 

Corintiano Voador

 

 

 

O PRIMEIRO BRASILEIRO EM MARTE – PARTE I

(Revista Panta Rhei. Ed. 13, ano 7, p. 13 – Ouroboros Editora)

 

 

É de conhecimento geral o rebuliço causado pela descoberta recente da memória de Sílvio Romero, o insigne jurista sergipano, dando conta de uma suposta primazia brasileira na visita a Marte, o fatídico Planeta Vermelho.

Digo fatídico por não querer dizer mais, dados os mistérios, os acontecimentos inusitados quando não macabros a cercar o ― assim se expressou o Dr. Czermk de Leipzig ― Enigma Marciano[1].

Mas então, o primeiro brasileiro em Marte? Enlouqueceu o autor, ou pior, chegou a tal ponto sua fatuidade? Mas não, é com destemor que jogo à arena o candente assunto, melhor diria candente revelação: sim, o primeiro homem a pisar em solo marciano foi brasileiro, e que brasileiro!

Sei, já prevejo os esgares nas faces doutas. Um brasileiro em Marte? Disparate!

Não foram diferentes as reações ao primeiro pouso de nau feita por homens em solo lunar por Bedford e Cavor, em 1901. Houve quem chamasse ao primeiro de louco fantasista, já que Cavor supostamente permanecera em solo lunar. Foram necessárias as expedições posteriores de 1915 e 1917, onde se estabeleceram relações com os desconfiados selenitas, não fáceis e nem pacíficas. O resultado, o resgate de Cavor, calou as vozes insultuosas.

Mas, e todos sabem, a verdadeira polêmica se deu quanto à primazia do primeiro pouso lunar, vez que americanos e franceses requestaram esta glória para Michel Ardan e Barbicane, do Gun Club, em 1865, ou mais exatamente, para os dois americanos membros do Gun Club e para Ardan.

Ora, se a viagem dos ingleses foi fartamente documentada, pelo menos no que tange ao fato de haver sido Cavor encontrado na Lua e ter este confirmado, inclusive documentalmente, a partida de sua esfera em 1901, não havia a mesma certeza quando ao feito do Gun Club, por muitos considerado como um gigantesco feito de propaganda. Não ajudaram, é claro, as revelações da ex-Mme. Adele Ardan no seu Michel Ardan raconté.

E temos então Marte!

Sim, tivemos uma viagem a Marte. Antes mesmo que à Lua. Não poucos desacreditaram da obra publicada por Edwin, sobrinho do ex-capitão confederado John Carter, com uma compilação de suas memórias (dele, John).

E nada mais natural, dada a ideia de que um, digamos mecanismo, manufaturado por  antiga e avançada civilização, permitisse a que um homem fosse de imediato transportado a Marte[2].

Havia mesmo a sugestão nas entrelinhas que existiriam outros sítios em nosso orbe a guardar mais destes mecanismos fantásticos. Cavernas em ermos inóspitos, quase inacessíveis, somente esperando seus aventurosos descobridores. O encontro de uma estranha relíquia entre os bens deixados pelo espólio do capitão Carter foi mencionada; como mencionado também foi que a relíquia foi prontamente arrebatada pelo governo americano e dela não mais se soube.

Acresce que por esta época houvera a descoberta dos canais marcianos, entrevistos ao telescópio por Percival Lowell, embora este não tivesse ainda publicado suas conclusões, o que só se daria em 1891.

Com o que voltamos ao Brasil e ao primeiro brasileiro em Marte.

O mundo editorial brasileiro foi sacudido há três anos pela descoberta do assim chamado Manuscrito Escadafhart, cuja autoria de Sílvio Romero hoje é incontestada, e sua publicação por Célia Loredano.[3]

Para os não iniciados, Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero, Sílvio Romero, foi brilhante jurista sergipano da chamada Geração de 1871 e, juntamente com seu mestre Tobias Barreto, revolucionou o pensamento jurídico e filosófico no Brasil de Dom Pedro II. Ambos foram membros fundadores da assim chamada Escola do Recife, ligada à Faculdade de Direito da cidade homônima.

Pois bem, foi este Tobias Barreto o primeiro brasileiro e talvez o primeiro homem no mundo a pisar em solo marciano. Expliquemos.

Encontrado em documentos avulsos durante pesquisa no Arquivo Nacional, o Manuscrito traz em seu bojo relato tão fantástico que somente as recentes pesquisas levadas a cabo por equipe mista da UFPE e USP  no Lajeiro do Frade, na cidade pernambucana de Escada, puderam separar o mítico do histórico, concedendo ao relatado foros de verdade.

 

A VIAGEM DE TOBIAS BARRETO

 

Em 1873, Albert Wilhelm Heinrich von Preussen, filho daquele que seria o kaiser Frederico III  visitou o Brasil, sendo recebido com honras por Dom Pedro II.

O jovem príncipe viajou, com numerosa comitiva, na corveta Olga, e saindo da Corte estendeu sua viagem até o município de Escada, Pernambuco, onde chegou na data de 03 de maio de 1883. O fato é referido em Himmel und Escadafahrt, artigo escrito por Tobias Barreto, único brasileiro a fazer da comitiva do príncipe imperial.[4]

Ora, tal fato sempre intrigou a historiadores, a não prevista visita do príncipe imperial de uma das mais poderosas nações da época a um esquecido município pernambucano, onde se vê hóspede do Coronel Marcionílio da Silveira Lins, Barão de Utinga, no engenho de Sapucagi.

O manuscrito conta história diferente do artigo de Tobias Barreto, onde este relata emocionado da honra de ter sido convidado para a comitiva imperial para visita à cidade que o escorraçara[5], além de tecer os mais ingênuos encômios à figura do príncipe e à cultura alemã de modo geral (Barreto era conhecido germanófilo).[6]

Não, nada de festas, rapapés, bandas. A visita principesca, assim relata o manuscrito, serviu tão somente para acobertar operação de espionagem sob o comando do Capitão-Tenente von Schwind para investigar a existência de uma “relíquia”, assim primeiramente chamada, sob a posse do coronel Marcionílio. O Manuscrito não deixa dúvidas: tratava-se de um dos “mecanismos de transporte” marciano, encontrado sabe-se lá Deus quando pelos primeiros conquistadores portugueses e arrebatado de uma gruta, evitada a todo transe pelos indígenas que então habitavam a terra.

Sabe-se que a procura por relíquias marcianas, estimuladas pela publicação das memórias de John Carter, virou uma febre a manter ocupado todos os serviços secretos das grandes potências da época.

Mas como chegou aos alemães esta informação, que de outra forma jamais cruzariam o Atlântico?

Segundo o Manuscrito, Tobias Barreto fora a fonte da informação[7].

Quando de sua estada na cidade de Escada, de quem foi deputado provincial e juiz municipal, Tobias manteve estreitos e profundos laços de amizade com o coronel Marcionílio e sua família.

Assim escreveu em seu Himmel und Escadafahrt: “…nos últimos tempos de meu exílio escadense, fora-me a casa do coronel Marcionílio, no engenho Sapucagi, um ponto de passeio e entretenimento, sem que tivesse, nem uma só vez que lá me achei, deixado de conversar sobre a Alemanha e meu fanatismo por ela.”.

E mais que a fonte, o intermediário que convenceu Marcionílio a franquear o acesso a cientistas alemães disfarçados de oficiais da corveta Olga, comandados pelo já citado von Schwind.[8]

No Manuscrito há menção de Sílvio Romero a relato de Tobias Barreto, onde se refere ter sido este procurado por Marcionílio quando de sua estada anterior em Escada. E foi nesta ocasião que Marcionílio, temeroso, lhe apresentaria pela primeira vez a relíquia, descrita como um “tubo metálico vermelho do qual escapavam bruxuleios”, quente ao tato e coberto de estranhos glifos que Barreto supôs fosse uma ancestral escrita marciana.

Sim, já nesta época, Barreto nutria suspeitas de uma origem marciana. Supunha, ainda segundo o Manuscrito, ter sido a Terra objeto de expedições do planeta vermelho ainda em eras priscas.

De qualquer maneira cerrou-se o episódio num velo de mistério e conspirações, dado que não sabemos que fim teve a “relíquia”. Teria sido levada pelos alemães? Teria permanecido sob a guarda de Marcionílio ou mesmo de Barreto?

Célia Loredano refere duas hipóteses isonômicas: o artefato teria ficado sob a posse de Marcionílio e/ou Barreto, dado que dificilmente poderiam os alemães tê-lo arrebatado do centro de poder de uma das figuras políticas mais poderosas da região, dispondo de homens e meios  a mancheia.

Ou, tendo sido entregue voluntariamente, fora levado pela comitiva principesca para destino que permaneceu e permanece ignoto.

Sobre esta segunda hipótese, refere Loredano que von Schwind era notório membro da Ordem de Thule, organização iniciática da qual o próprio Hitler teria sido membro. Ora, ainda segundo Loredano, é fato conhecido que no decorrer da Segunda Guerra foram patrocinadas pelo Reich expedições com o fito de encontrar-se ao orifício que levasse ao centro da terra, comandadas por oficiais e cientistas nazistas que eram ao mesmo tempo membros da mesma ordem iniciática. Não seria possível, pergunta-se Loredano, que tais expedições fossem um disfarce para a procura de grutas e cavernas onde poderiam estar escondidos outros tantos artefatos marcianos?

Para nossos propósitos tais considerações são, ao momento, inúteis, dado o conteúdo da segunda parte do Manuscrito. Esta, que nos interessa e sobre a qual nos estenderemos a seguir contém relatos fragmentados de visita ao planeta Marte ocorrida entre os meses de fevereiro a maio de 1878. A ela.

 

O DIÁRIO MARCIANO DE TOBIAS BARRETO

 

Sílvio Romero refere carta de Tobias Barreto datada de 6 de novembro de 1887:

 

[Amigo Sr. Sílvio:

 

Já deve ter recebido a minha última carta, na qual enviei-lhe as notas que me pedira. Creio ter sido completo. Se, porém, carecer de mais algum esclarecimento quanto às datas, escreva-me.

Venho hoje pedir-lhe um favor. Acaba de dar-se na faculdade…]

 

A referida carta pode ser cotejada à página 242 da edição comemorativa de 1991 dos Estudos Alemães.

Voltaremos ao assunto.

 

[1]Os professores Dr. Czermk e Dr. Rosenthal foram escolhidos para dirigir a publicação de uma Biblioteca Científica Internacional, em 1873. A feliz experiência foi erigida com o fito de traduzir ao alemão obras científicas que fossem dignas disso. A referência ao Enigma Marciano pode ser encontrada na obra Uber die Natur der Cometen (Sobre a natureza dos cometas) do grande astrônomo Johann Carl Friedrich Zöllner, publicada em 1872.

[2]Existe uma obra ficcional baseada nas memórias de John Carter, escrita por Edgar Rice Burroughs, a partir do livro de Edwin Carter, chamado A Princesa de Marte.  “um amontoado odioso, deturpante e fétido da jornada heroica de um grande homem”, escreveu Edwin em suas memórias, anos depois.

[3]GRIECO, Célia Maria Loredano. Manuscrito Escadafahrt: uma aventura de Tobias Barreto. Editora UFRJ, Rio de Janeiro, 2013.

[4]Himmel und Escadafahrt, página 201 da reedição comemorativa dos Estudos Alemães, de Tobias Barreto, patrocinada pelo governo do estado de Sergipe em 1991. O fato foi também noticiado na edição de 4 de maio de 1883 d’O Diário de Pernambuco.

[5]Tobias Barreto, nos anos de 1879 a 1881, residindo em Escada, por conta de querela não ainda de todo explicada, teve sua casa cercada por jagunços dos grandes da terra que o expulsaram do local.

[6]Primus inter pares, O senhor Barão von Seckendorff é um dos mais belos exemplares, que tenho visto, do homem culto e delicado…. Quanto ao príncipe Heinrich, eu já sabia por informação de uma escritora alemã, que a princesa imperial Vítória dedica-se muito à arte de jardinar, e que o momento ético e cultural deste trabalho se deixa ver claramente na educação de seus filhos. Himmel und Escadafahrt in Estudos Alemães, p. 203.

[7]Célia Loredano localizou uma brochura publicada às expensas próprias por Thomas Maples (?) em tipografia da cidade americana de Philadelphia, provavelmente em 1892, mas sem maiores indicações, na Biblioteca do Congresso: An Extraterrestrial Relic In Brazil? An Inquiry About The Olga’s Expedition.

[8]Provavelmente Ernst Wilhelm Carl von Schwind Zum Hel, desaparecido em 1919, talvez no Báltico, capturado por forças soviéticas estacionadas na Letônia. Segundo Loredano, é quase certo ter pertencido ao serviço secreto da marinha alemã.

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A SALA DE ESTAR DO CAPITÃO NEMO

Jules Verne visits the Nautilus library – Bruno Aciolly

No dia 05 de novembro de 1866, por volta de onze horas da noite o Abraham Lincoln foi torpedeado por um narval fantástico e três de seus tripulantes foram jogados ao mar: um arpoador canadense, um cientista francês e seu secretário e faz-tudo.

O navio continuou.

O caso se deu talvez a duzentas milhas náuticas do Japão e estava-se no inverno, então acho que fazia um frio do cão.

Todo caso, todo modo, estavam os três náufragos. O professor Aronnax, o sábio francês; seu criado Conseil e Ned Land, o arpoador canadense. Bem, na verdade só o professor e Conseil, Ned Land se juntou depois ao trio.

Estou falando das Vinte mil Léguas Submarinas de Júlio Verne que li aos doze anos, mal. Reli aos vinte, vinte e um e vinte dois e agora na idade provecta em que me encontro. Não encontrei Deus e nem o sentido da vida, mas entreteu. Entrete.

As coisas. A vida. O individual. Júlio, meu chapa.

Mas aí eu li e reli e descobri que minha primeira impressão não mudou. Não, li as vinte mil léguas um porrilhão de vezes só para descobrir que a melhor parte do livro era justamente a descrição de três homens, boiando na escuridão (foram jogados do navio às onze horas da noite) e ficaram lá boiando. E tava um puta frio (devia estar, até quero que estivesse (é importante para mim que os três estejam boiando em água gélida)).

Pouco depois Aronnax e Conseil ouvem uma voz e encontram Ned Land sentado em cima de um…bem, um submarino. É, o Nautilus, o submarino criado e comandado pelo Capitão Nemo, o sujeito ali que faz o papel de principal protagonista, o anti-herói, o cabra que faz a história andar.

Mas o que me tocou foi que as coisas mudam de modo radical. Num momento, os três na escuridão, no frio molhado e logo depois as escotilhas do Nautilus se abrem e os três são acolhidos, recebem roupas secas, refeição quente e algumas horas depois Aronnax é recebido por Nemo em pessoa em seu sancta sanctorum, seu camarote estendido, sua sala-de-estar.

Notem o contraste. Num momento, a solidão abissal e gelada, o medo sólido e logo depois o acolhimento, o útero morno do recebimento no interior do Nautilus, o museu pessoal de Nemo.

Lá, Nemo recebe Aronnax e lhe mostra maravilhas ─ e o Nautilus mergulha e navega na escuridão gelada ─, e conversa Nemo sobre temas que são caros a Aronnax e o deixa maravilhado e o fascina. E é quente e acolhedora a extensão do camarote de Nemo. Um mundo dentro de um mundo.

E lá fora, encerrado num envelope de água gelada, segue o submarino Nautilus, singrando um mar indiferente e impiedoso.

O Nautilus. Um útero.

Certo, Júlio Verne pode ser um grande chato. Na verdade ele é. Ele não tem prosa, tem verborragia. Um parágrafo começa com uma paisagem dos recifes de Cartier e Seingapatam para a seguir nos deleitar com explanação tediosa sobre diversidade das temperaturas nas várias camadas marítimas. Ante uma paisagem de banquisas no ártico contrapõe Verne uma exposição prolixa sobre as diversas teorias a propósito da localização do polo sul.

Entretanto, ora vejam, Homessa!, o nome do sujeito era Verne e o século era o dezenove e não havia ainda muito que se parecesse com a literatura fantástica. Então daremos um desconto.

Sempre dei, seduzido pelo contraste entre as cenas iniciais de um dos primeiros capítulos do livro. Nisso, Verne foi genial, captou todo um recorte do espírito humano: a dicotomia entre o nosso desejo de acolhimento seguro, tépido e tranquilo e a perigosa atração da escuridão.

Três homens perdidos no mar gelado e no breu da noite de cinco a seis de novembro de 1866. E a maravilha aconchegante e heroica do Nautilus, ainda mais benvinda por ser inesperada. Júlio Verne entendia do seu Métier.

Acrescento que outro dos deliciosos momentos que o livro me proporcionou foi outro contraste: Verne era francês, assim como francês foi o século dezenove. E perpassa por todo o livro o orgulho quase infantil do autor pela França, que se cria mestra e guia de povos e pelo francês, idioma que se cria universal.

Mas já ali se sentiam os roncos e cliques da máquina que assomava. Já havia a sombra de outra potência que já se fazia notar, não na figura do império britânico (decadente, grosseiro e incapaz do gesto sutil na opinião geral dos franceses), mas do nascente império americano.

Verne foi sensível a este despontar e recheou suas histórias com personagens secundários vindos dos Estados Unidos. Era a época.

Mas devaneei, eu queria mesmo era falar, escrever e comentar sobre a sala-de-estar do Capitão Nemo, que já me teve e me tem sempre como hóspede (eu divido prazeirosamente o espaço com o bom professor).

“─ Capitão Nemo ─ eu disse ao meu anfitrião, que acabava de se acomodar num divã ─, eis uma biblioteca que honraria mais de um palácio dos continentes. E pensar que ela pode acompanha-lo às mais ermas profundezas…

─ Onde encontraríamos maior solidão, maior silêncio, professor? ─ respondeu o capitão Nemo.”[1]

E é isso, leiam a porra do livro.

[1] A tradução é de André Telles, na edição de 2012, dita definitiva, publicada pela editora Zahar.

KAMIKAZE JOE E O SOMBREIRO DO CALIFA

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Um sombreiro é um sombreiro. Aquele chapelão mexicano sempre pousado na cabeça de um infante chamado Miguelito, como sabem todos os apreciadores do gênero Western.

(É assim que se escreve, Dona Neide?)

Mas…sombreiro do Califa?

— Jesus cristo, do que falamos aqui, Ibrahim?

— Um símbolo de poder, Bwana Kamikaze. —  E obsequiosamente Ibrahim improvisou uma mesura de cortesão.

— Dindonde?

Kamikaze Joe deu tragada valente no seu Tribeca Hashishin.

— Não dá aguentar esse teu bagulho, mano. Fede mais que estrume queimado de dragão-peidorreiro. — Temujin Pancho se afastou para o extremo da ponte de comando e colocou o condicionamento de ar no máximo.

— Cinco por cento de haxixe marciano, o resto é perfume e fumo-de-goma. Vai se foder!

Ibrahim, turbante azul-cobalto, pele azul-cobalto e barba carmesim, aguardou paciente o término da conversa entre o herói e o ajudante-de-herói.

— Nova Bagdad, Delta do Pavão, valente Bwana Kamikaze. O califado usa o sombreiro ancestral como símbolo de sua posição. É uma relíquia adorada por bilhões, até mais que o Dedão da Virgem.

— Quem…? —  Temujin.

Estavam todos na Briolange, a fragata pessoal de Kamikaze Joe, orbitando Capribarbicornipedesfelpudo, o famoso planeta-prisão.

Depois de entregar um prisioneiro célebre e receber a recompensa Kamikaze nada mais almejava que uma temporada de farra e orgia no puteiro de Madame Camorim, lá prás bandas de ReginaDuarte III.

Todos se lembrarão, é certo, da galante, mas também perigosa aventura que terminou com a prisão de Zeferin, o Demoninho Mauzinho Assassino Canibal.

Mas, como se pode cotejar em célebre página do Kamikazion, todos também se lembrarão que por esta época nosso herói passava por uma fase difícil, conflituosa em sua carreira de herói multifacetado e brigão. Ora, uma reputação é uma reputação e Kamikaze começava a perceber um certo deslustro na apreciação de seu nome.

Talvez uma consequência do fragoroso vexame no banquete de coroação da filha do Duque Negro, ocasião que o herói vomitou na veneranda barba de Shelomo Bar David, cabeça do rabinato em Benbally, no universo número 37.

Foi também nesta ocasião em que Kamikaze jurou nunca mais por na boca uma só gota do pestífero conhaque Padre Cícero, do qual recebera vinte caixas de safra especial, oferta da margravina das Sereias de Ébano de Bombalurina, no universo 33.

— Então eu tenho que achar a porra desse chapéu, é isso? Olha, leva a mal, não, mas não me levanto desta poltrona aqui por menos de quatrocentos contos platinados.

Temujin saiu da ponte de comando. Ibrahim, nervoso, rolou as contas de um rosário.

— Bwana, veja bem, nós sabemos onde está o sagrado sombreiro. Só não temos os culhões para o reclamar. E são oitocentos contos agora, o que oferecemos.

— Eitaaa, porra! —  Exclamou nosso herói, talvez um tanto grosseiramente.

— Seu Kamikaze, tão chamando o senhor pelo trambolho. —  Dona Neide, a androide pessoal de Kamikaze entrou na sala de comando com um comunicador em formato de pênis em uma das mãos.

— Trambolho? —  Ibrahim recolheu-se ante a visão de trinta monstruosos centímetros.

— Trambolho: Transdecodificador metadimensional de bolha holística. Esse aqui me foi dado de presente em Karu-Aru, pelas contrabandistas feministas da Feira-do-Rolo. —  Kamikaze aceitou, constrangido, o comunicador cheio de veias azuis que quase não cabia em sua mão.

— Elas são meio sarristas, as meninas. —  E levou o aparelho exótico ao ouvido.

— Alaummm? Quem fala?

—  O responsável pelo grupo local de universos. —  Uma voz andrógina extraordinariamente suave chegou aos ouvidos do herói.

—  Ô porra…Dona Neide, que é que tá pegando? — A face dourada de Dona Neide contorceu-se numa imitação maravilhosa de ignorância humana.

— Humm —  pigarreou —  …responsável pelo grupo local…tipassim, Deus? —  Kamikaze aproximou a glande do trambolho de sua boca.

— Não, tipo assim o responsável pelo grupo local de universos.

— Sei. Ah…e então?

— O problema, mestre Kamikaze Joe é que senhor está bagunçando tudo na minha área de atuação. Na verdade, o motivo de minha ligação é encontrar algum meio de convencê-lo ou de ameaçá-lo, talvez, para que pare de sonhar desta maneira tão obscena.

— Sonhar? Tá falando do que?

— Sonhar. O senhor, a partir de sua base de atuação está sonhando demais. Queria que voltasse para lá e tivesse sonhos, digamos, mais burgueses. Voltaremos a falar!

Ora, foi neste minuto, enquanto entregava o trambolho a Dona Neide, que nosso herói percebeu que Ibrahim não estava mais na sala. Ainda neste minuto o valente Temujin Pancho adentrou esbaforido.

—  Mano, cê não vai acreditar…um maluco ligou prá mim, pelo trambolho, e falou umas merdas. E olha….já te falei que um maluco ligou prá mim?

— Dona Neide, acho que já falei para controlar a maconha de Temujin, não falei?

—  Seu Kamikaze, leva a mal não, mas o planeta-prisão aí embaixo sumiu. Aliás, não leva a mal de novo, mas acho que as estrelas tão se apagando..

Kamikaze Joe acordou no universo zero.

A cama era pequena, o colchão velho e as cobertas bolorentas.

Dormitava em uma cama, no extremo oposto de um cômodo minúsculo, uma menina de uns dez anos que kamikaze,  dolorosamente, se deu conta que podia ser sua irmã.

Aos poucos uma estranheza começou a tomar de nosso herói, de onde um nome começou a emergir e kamikaze começou a pensar em si mesmo como Erenilson Erickson  de Jesus. E pior, começou a desconfiar que a mulher ressonando por puro cansaço, em outra cama, era sua mãe Edicleusa.

Havia um cheiro pungente de sujidade e um pano de fundo sonoro de uma rodovia movimentada e de apitos de trem.

Ao lado de sua cama estavam ajeitados, em uma estante rudimentar feita de blocos de cimento, um monte de livros e revistas em quadrinhos. Havia de Tolstói a Chiclete com Banana. Faulkner a folhetos de cordel.

Havia também um computador velhíssimo num canto do barraco. E quando Erenilson, não, Kamikaze, apertou uma tecla, surgiu um arquivo de texto com o título em negrito em corpo 24: AS AVENTURAS DE KAMIKAZE JOE.

Em outro barraco, ele intuiu, alguém de nome Jhonny Carlos de Santana Nicolau acordava para o turno da manhã na padaria Santa Edwiges.

E então ele sentou-se em sua pequena cama e por pura teimosia, observando cada pequeno detalhe das paredes de madeira esburacada e sentido cada nuança de ranço, enrolou-se nas cobertas.

Vagarosamente, o mundo se perdeu em sons cavos de abelha, espalhados por todo o cômodo.

— Chefe? —Temujin Pancho dava pequenos tapinhas no rosto do herói com uma Dona Neide na sua melhor imitação de preocupação maternal mais ao fundo.

—  Jonin?

—  Cumé. Chefe, tá maluco? Deu o maior medão na gente…ficou aí, paradão um tempão.

Era de novo a ponte de comando da Briolange e ali estava o engenhoso Temujin, no mais profundo pesar e preocupação pelo herói.

— Você está bem, Bwana?

Ah, sim. E Ibrahim estava de volta também, juntamente com o planeta-prisão e as estrelas.

— É…sabe de uma coisa, Jhonny…

— Quem?

— Tá…sabe de uma coisa, Temujin, minha preta… —  E o herói abriu seu melhor sorriso de safado profissional.

— Eu quero é que se foda o tal responsável pelo grupo local de universos.

E colocando um portentoso charuto Tribeca Hashishin em ângulo atrevido na boca.

— E que se fodam também os tais sonhos burgueses. Ibrahim!

— Bwana?

— Mil contos platinados! Prá cada um.

— Ouço e obedeço. —  Ibrahim caprichou na mesura.

— Mano, tu é doido. —  Temujin riu, algo aliviado.

— Dona Neide, traz uma cachaça. Não, peraí…traz um conhaque. Padre Cícero, por favor.

A OBRA-PRIMA NA GAVETA

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Um fenômeno é uma descrição de uma intervenção na realidade, entre outras definições possíveis.

O fato é que estou agora, nos atualmentes, lendo e relendo a obra de um de meus escritores prediletos, Philip K. Dick. E tem tudo a ver (acho, não ponho a mão no fogo) com esta postagem, digamos, fenomênica.

Não sou muito de resenhas, tanto que cometi poucas aqui no espaço. Não tenho a verve e a generosidade do blogueiro Valnikson Viana, por exemplo, que mantém lá o seu 1001 LIVROS BRASILEIROS PARA LER ANTES DE MORRER, que recomendo vivamente (aqui: http://tinyurl.com/zymo2tj).

Mudo de hábitos por entender que Philip K. Dick o merece. Você talvez não o conheça mas certamente conhece subprodutos de seus trabalhos. Blade Runner, o filme, lembra?, veio de de seu livro Do androids dream of electric sheep?. Alguma coisa como Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? E Minority Report? Lembra? Tom Cruise, etc, etc. Pois bem, Philip K. Dick. PKD.

Só a titulo de informação, segue abaixo uma relação de filmes e os livros de PKD nos quais foram baseados (extraído do saite Cooltural. Vão lá):

  1. Os Agentes do Destino / The Adjustment Bureau (George Nolfi, EUA, 2011) – Conto: Equipe de Ajuste | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  2. Assassinos Cibernéticos / Screamers (Christian Duguay, EUA, 1995) – Conto: Segunda Variedade | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  3. Blade Runner: O Caçador de Andróides / Blade Runner (Ridley Scott, EUA, 1982) – Romance: Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (Ed. Aleph, em 2014)
  4. O Homem Duplo / A Scanner Darkly (Richard Linklater, EUA, 2006) – Romance: O Homem Duplo (Ed. Rocco)
  5. Impostor / Idem (Gary Fleder, EUA, 2001) – Conto: Impostor | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  6. Minority Report: A Nova Lei / Minority Report (Steven Spielberg, EUA, 2002) – Conto: O Relatório Minoritário | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  7. O Pagamento / Paycheck (John Woo, EUA, 2003) – Conto: O Pagamento | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  8. O Vidente / Next (Lee Tamahori, EUA, 2007) – Conto: O Homem Dourado | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  9. O Vingador do Futuro / Total Recall (Paul Verhoeven, EUA, 1990) – Conto: Lembramos para Você a Preço de Atacado | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  10. O Vingador do Futuro / Total Recall (Len Wiseman, EUA, 2012) – Conto: Lembramos para Você a Preço de Atacado | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)

Aviso aos incautos que PKD é escritor considerado menor pelos menos informados, pois que se lhe atribuem escrever obras no gênero da ficção científica, o que gera um handicap negativo, dizem. Alguma coisa parecida com ser corintiano.

No entanto, ninguém mais alheio à discussão de gêneros literários, PKD construiu, solipsisticamente, uma obra incrivelmente coerente e fiel a si mesmo e suas muitas dúvidas e angústias.

Três Estigmas de Palmer Eldritch, uma expedição retorna da jornada a outra estrela e traz de contrabando a uma entidade metafísica e a uma nova droga que permite aos usuários criarem sua própria realidade.  Do androids dream of electric sheep?, um novo culto religioso, o Mercerismo, permite aos fiéis não só comungar com Deus mas também sentir as agonias de seu profeta através de uma espécie de internet sensorial.

Budismo, gnose, teologia. Todos estes temas estão presentes em sua obra.

Bráulio Tavares escreveu que Philip K. Dick injetou angústia kafkiana na ficção científica (Artigo de 27/04/2013 na Folha de São Paulo).

E então PKD teve sua própria epifania.

Foi em 1974 quando encomendou medicamentos a uma farmácia. A jovem entregadora que os trouxe galvanizou a atenção de PKD por conta de um pingente em forma de peixe que levava ao pescoço. Perguntou à jovem sobre o berloque e ouviu dela que se tratava de um dos mais antigos símbolos do cristianismo; neste instante (conforme relatou depois) um raio de luz rosa o atingiu e ele soube de tudo o que já havia esquecido, incluindo o fato de que ele e a garota eram membros de uma cristandade secreta.

E que ambos sabiam que o que chamamos de realidade era falso. Inclusive toda a história transcorrida desde o ano setenta da era cristã, nada mais era que uma alucinação em massa.

Eu sei, muito ácido na cabeça. PKD era notório usuário de anfetaminas. Não discuto. Mas não posso me furtar a admirar a coerência do sujeito, sua fidelidade a si mesmo (e vá lá, a sua loucura).

PKD passou escrever um diário a que chamou de Exegese, que por ocasião de sua morte em 1982 já continha mais de dois milhões de palavras e enchia dois arquivos de gaveta.

Na ocasião PKD acreditava que havia entrado em contato com uma entidade a que batizou de VALIS, um acrônimo para Vast Active Living Intelligence System. O mesmo título de um dos três livros que escreveria sobre o assunto ao lado de The Divine Invasion e The Transmigration of Timothy Archer.

No momento leio VALIS, um livro que basicamente replica na personagem Horselover Fat, as vezes também chamado de Phil, a experiência de PKD. Aliás, Horselover nada mais é que a tradução literal de Philip, Filipe, Filo-Hipos, amigo dos cavalos.

Philip K. Dick, o primeiro dos tecnognósticos.

Enfim, é a sugestão do chef para hoje.

 

O CÁLICE MÍNIMO

POVO POVO

 

O debate mínimo e eterno. Demonstrar a existência não do Brasil, não de Deus, mas desta fantasmagoria chamada Povo.

Haverá maior solidão?

Povo, nós. A putinha sempre enganada.

A Pátria vira de novo o que sempre foi: um Serpentário.

De novo!

OUTRO MEMORIAL. BREVÍSSIMO.

Paço da Ribeira em 1662 por Dirk Stoop

Paço da Ribeira em 1662 – Dirk Stoop

 

Lisboa no século da fome, onde reinavam Dom João, quinto do nome e sua rainha austríaca.

No Memorial do Convento Saramago pintou uma cena de degredados de um Auto-de-Fé nesta mesma Lisboa.

Havia escravos, muitos, diversos.

Escravos negros, chins. Alguns índicos e toda uma azáfama fazia de Lisboa, Lisboa.

Um vai ao mercado comprar o toucinho rançoso para a noite. Outra pega sífilis numa cama suja de piolhos. Outro pinta uma arcada de igreja. Uma carta de Holanda é traduzida por um do “Nifon”.

Fatos simultâneos: um jesuíta pensa em Valladolid; um cavalo morre com a pata quebrada; alguém prepara o veneno que o cunhado beberá pela manhã.

Foram encontrados setenta e oito rolos de inscrições hebraicas na mesa de trabalho de um certo Gil Jacobo de Paio, notário,  depois encontrado morto num beco; no bolso uma carta endereçada à Francisco Monte-Arroyo Ximenes ou Jimenez.

Uma criança é abandonada no cais da Almada. Dois extraterrestres conversam numa viela do bairro da Mouraria.

No próximo ano, um deles será condenado à fogueira por convicto, apóstata e pertinaz.

Pagando boa soma, será apenas enforcado.

Na exata hora de sua morte seu diário será entregue ao carcereiro Diogo Correa de Sande, todo ele escrito no emaranhado proteico de uma noz.

O diário segue inda agora para Eridani 40.

 

 

 

 

A PRÁTICA E USO DO METATARÔ SEGUNDO VICENTE, O PRETO

MR. BEGGAR FELINE - By oO-Rein-Oo - DEVIANTART

MR. BEGGAR FELINE – By oO-Rein-Oo – DEVIANTART

Deve-se imaginar um mendigo, preto, belo e forte, com cerca de sessenta anos, de barba e cabelos quase totalmente brancos. Deve-se imaginar uma moça de vinte e poucos anos. Um dia chuvoso, talvez. Úmido ou frio. Melhor frio.

Basicamente você terá as vinte e duas lâminas do Tarô tradicional, desconsiderando os outros cinqüenta e quatro Arcanos Menores. Do ponto de vista do MetaTarô os “menores” são apenas variações, facilmente perceptíveis com a prática. Assim, os Cavaleiros ou Valetes serão relacionados, de acordo com a tirada, ao Mago, ao Imperador ou mesmo ao Louco. E, do mesmo modo, as Damas com a Sacerdotisa, a Imperatriz et alia. Para não falar dos simbolismos assazmente antigos e conhecidos da Taça ou Copas, do Malho ou Paus, da Espada e Ouros ou Rútilo.

“Uma questão de prática”.  E sorriu Vicente, como sói podem fazer mestres arcanos. Você já deve ter privado com algum.

“Coringas e o Louco?”

“Viu?, você já pegou a coisa”. Um ligeiro cumprimento, um quase imperceptível tremular de dedos e um quase sorriso. E a moça sentiu-se distinguida, cumprimentada e isto lhe trouxe desconhecido calor a seu coração, e vergonha por se dar ao desfrute de tal sentimento.

Era uma moça da classe das Subestimadas e você, Leitor ou Leitora, deve ser condescendente com estas infelizes criaturas nunca seguras de seu potencial.

Então, como já disse, considere, para fins práticos, apenas os Arcanos Maiores. E não tenha medo ao aproximar-se deles. Veja, com o Imperador considere que está tratando com todos os reis, presidentes, tuxauas, caciques, cãs e líderes; com o Sumo-sacerdote, todos os patriarcas, babalorixás e rabinos; com a sacerdotisa, as pitonisas, iaôs, santas, mulheres de sabedoria; com o Mago, cada prestidigitador, mágico, cada encantador de serpente e cada maluco trancado num laboratório consultando grimórios ou microscópios de tunelamento. E existem as variações do Louco, é claro. E, nunca esquecendo, nem sempre se pode distinguir as fronteiras entre um e outro.

“Desculpe, mas isso aí é um tanto óbvio. Cê sabe, cê vai achar a mesma coisa em livros de autoajuda…espero…é…não ter ofendido”. Isabel, que é como devemos chamar a moça, estava ajoelhada, segurando um livro e um celular na mão esquerda. E parecia confusa. E Vicente, nosso herói de agora, era apenas um mendigo, negro, alto, de meia idade e barbado. E grisalho. E conto isto para que vocês não se assustem com Vicente, que era meigo e sábio e tinha a voz meiga de um sábio e estava escarrapachado no chão, apoiado num banco de jardim do parque.

“Correto”.

“Certo”. E Isabel (você agora conhece Isabel) ajeitou-se, sentiu-se desconfortável por estar ajoelhada e sentou-se no banco.

Todos os Arcanos são arquetipais, mas nem todos são tão “óbvios”. A Lua, a Torre, os Amantes ou Namorados, o Mundo ou os Estamentos, são para serem “ouvidos”. Atente para a palavra! São antes “perguntas” e não “respostas”. Um conselho: os bons barcos balançam. O digno de admiração não são as melhores respostas. Qualquer um responde. Eu lhe aponto um dedo e você responde ao meu dedo, mas meu dedo é só um dedo.

A arte soberana é a da pergunta.

“Não entendi nada, desculpe”.

“Ótimo. Se entendesse, responderia. Já notou que é um contrassenso?”

“?”

Vamos tentar de outra maneira. Veja, por que está aqui, agora, falando comigo?

Isabel se remexeu, fez careta, mas não respondeu.

“E então?”

“Eu…assim, eu estava aqui no parque, passei por você e você me chamou e começou a falar de Tarô e depois do MetaTarô”

Não, seja honesta. Você andava pelo parque, por este enorme jardim público, e me viu, e parou quando me viu e então perguntou pelo MetaTarô. Você, claro, vai racionalizar. Não, eu não perguntei nada, Vicente, e será mentira.

A despeito de tudo, você está aqui, conversando sozinha com Vicente, o Preto. Perceba que sou preto. E um mendigo. E Você não me conhece. Então, como não perguntou?

“Eu não abri a boca…”

“O que só depõe a seu favor”

E voltando ao assunto, com o MetaTarô, acessível a poucos, conhecido só por poucos, você não consulta às lâminas. Você é consultada. Veja, as lâminas, do mesmo modo que você, são consumidas pela mesma curiosidade. Vamos começar a leitura?

“Vamos…?”

Certamente. Embaralho as cartas, agora: no fim dos tempos, entrópico até os bagos, existe um castelo ou um barraco ou uma tenda ou uma maloca ou um pagode, onde os restolhos da humanidade se abrigam, aquecendo-se uns aos outros. Estou falando deles, percebe? Os Arcanos Maiores, o melhor e o pior. O humano, o demasiado. A outra face nos encarando, no espelho. Elas. Eles. Nós.

E vinte e dois mendigos se postaram ao lado de Isabel e ela não vira nenhum mendigo chegar.

E é um lugar em lugar nenhum, cheio de abstrações e cheiros. Pode ver? E Isabel viu. Estão todos lá, os demônios e santos, os marcianos, São Jorge, o Superman, Sétimo Severo e a  Grande Mãe.

E Vinte e dois mendigos estavam ali, casualmente, ao derredor de Isabel e de Vicente, escarrapachado ao lado do banco de jardim. E também eu estava lá e também você, Leitor e Leitora.

E todos os Tzadikim, Tonico e Tinoco, Lisavetta de Batory, Morrison, seu Zé Pelintra, Maria Padilha e todos os milagres de Lourdes e de Aparecida e Marie-Bernard Soubirous recém saída de um riacho gelado onde vira a Virgem. E todos eles, incluindo os Neanderthals, que eram inteligentes e sábios e se acreditavam prediletos da Grande Mãe e morreram do mesmo jeito.

E é isso. E foi e será. O barraco do fim dos tempos. Agora, as cartas estão embaralhadas. Pergunte!

Evidente que Isabel se levantou e saiu dali correndo e você deve ser compreensivo, Leitora e Leitora, porque você fez o mesmo.

Por que? Por que Isabel, somente desta vez, não ficou e aguentou e ouviu? A resposta tão perto de si.

A mendiga Dejaneide Maria Bezerra que também era a Mãe teria dito a Isabel, teria dito a você, teria dito.

“Sim, ele te ama”

“Sim, ela te ama”

“Sim”

Eu me chamo Vicente. Sou preto. Sou alto e sou forte.

Tarô de Marselha

Kamikaze Joe e as Sereias de Ébano

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A pena inspirada de Temujin Pancho nos conta no Kamikazion que Kamikaze Joe visitava o universo número 222, pouco antes de despertar e sair para o trabalho.

Era e ainda é lugar de maravilhas, de magias escolhidas, de guerras aeronáuticas travadas por dirigíveis com quilômetros de extensão, de milhares de Graals somente esperando seus cumpridores de demandas.

Falo, e é claro que todos já perceberam, de Bombalurina 33, no setor do Dragão de Caça, logo ali a direita do Saco-de-Carvão.

Pois bem, uma nave avariada forçou nosso herói a uma parada fora de seus planos. E dado que a tecnologia Bombaluriana ainda não ultrapassara (e ainda não ultrapassou) a idade atômica, para não mencionar outras especificidades, foi uma longa temporada esta que reteve nosso aventureiro preferido sob os verdes céus e os triplos sóis.

Não, não nos deteremos nas descrições, quiçá enfadonhas, do Porto do Céu, nem falaremos das Kalavinkas sobrevoantes, nem da austera, mas magnífica arquitetura da Cidade Velha.

Os tempos eram de crise, a Rainha-Mãe morria lentamente e os Sobrinhos-Reis estavam encerrados no conclave da Ilha Firme. Tal não impediu que a sempre falada hospitalidade bombali mostrasse sua presença e Kamikaze se viu hóspede da Margravina em pessoa.

Kamikaze ressonou e encolheu-se contra a parede.

Os dias se passaram então em discretas festividades a honrar o importante hóspede (discretas. A Rainha morria, os reis em conclave, etc.). É claro que discretas do ponto de vista dos bombalis, o que é uma grande diferença.

Eis então que chegou a mensagem, urgente, imperiosa, trazida pela manhã e pelas fadas secretárias. A Rainha escolhera seu anjo de morte e a notícia apanhou nosso herói em deslustrosa nudez, em jucunda foda com Jade e Rubi, as netas da Margravina.

Para os mais afoitos e dedicados à luxúria recomendo as páginas 33 e 34 do tomo III do Kamikazion, profusas em descrições de seios túrgidos, bundas empinadas e interessantes variantes das posições sexuais mais conhecidas.

Nunca se disse que Temujin fosse pudibundo.

Mas o fato é que Kamikaze Joe foi escolhido para liderar o féretro da Rainha-Mãe, função sempre entregue a hóspedes ou mendigos, o que viesse primeiro. Significava também uma penosa viagem pelo oceano Caldeirão até o pequeno continente de Bonifácio para, após uma temerária expedição por selvas fumarentas, desertos de asfalto e desfiladeiros coalhados de criminosos Neanderthal,  se chegar ao lago Hemorragia.

Aliás, só para o perfeito entendimento, são verdes as águas do Hemorragia, como o sangue Bombali.

Também não vamos nos estender sobre as inúmeras aventuras protagonizadas pelo nosso Kamikaze Joe, nem falaremos de suas vitórias, de sua notável habilidade no comando da pequena tropa dos Infantes Funerários. Calaremos mesmo sobre os boatos da bacanal ocorrida na tribo Neanderthal dos Espremedores-de-Urso, onde se ventilou ter Kamikaze se submetido à prática do fio-terra sagrado com a xamã Tectonpalmiraba.  Mais uma vez, o Kamikazion, etc., etc.

Kamikaze emitiu palavras desconexas, puxando as cobertas até seus pés, aflitivamente.

 

Mas tergivesamos. Voltemos ao lago Hemorragia onde se deu, assim nos contou Temujin Pancho, a perigosa entrevista com as carpideiras reais, as Sereias de Ébano.

Foi na ilhota situada no centro do lago, donde se avistavam as cariátides do templo de São Pancrácio de Bombaluria. As águas repletas de magníficos corpos cor de breu.

Elas aguardaram até Kamikaze chegar a beira d´água, a comitiva esperando mais atrás, em tensa expectativa. É sabido que a entrevista é crucial para o bom andamento dos enterros reais, e mais de um reinado acabou em desgraça, no mais completo caos, ante uma falha de um líder de comitiva.

Acresce que era estrangeiro, Kamikaze, pouco versado na complicada etiqueta de morte bombali. Acresce que as sereias de ébano costumavam devorar aos líderes ineptos.

O psicopompo da comitiva aproximou-se e entregou a nosso herói o Penico Doirado, símbolo daquela tarefa santa, ainda contendo as últimas fezes ressecadas da soberana morta.

Também se aproximou do herói a margravina das sereias, agarrando-se preguiçosamente  à pequena rocha conhecida como Parlatório.

Da cauda delfinídea até os brilhantes dreadlocks azuis, ela mediria uns bons metro e oitenta. E é claro, dava-se a notar os grandes seios desafiando a gravidade.

Kamikaze Joe roncava.

Temujin Pancho pintou quadro magnífico da cena, recheando-o de pompa cerimoniosa, tendas esplendorosas da mais pura seda, um psicopompo vetusto e digno em barbas de pura neve (na verdade banguela, vesgo e com tique nervoso nos cantos da boca), ainda que verdadeira  a parte da taurobolíade nua sob os efeitos de maconha-brava.

O diálogo entre Kamikaze e a margravina, emerso da pena algo fantasiosa de Pancho, é até hoje modelo de oratória nas universidades bombalis.

Na verdade se deram de forma mais simples os fatos.

“Qual o segredo do morcego?”, perguntou sem delongas a sereia.

Kamikaze segurou seu membro por cima das calças e improvisou uma careta plena de safadeza.

“É isso aqui no teu rego!”.

Uma insinuação de sorriso e uma nova pergunta.

“Conhece o Mário?”.

“É o primo do meu caralho!”.

“A rosa no cume nasce?”. E a sereia bateu com a cauda agitando verdes águas.

“Quer alho?”, ripostou de pronto nosso galante Kamikaze.

A sereia começou a nadar, pensativamente. E de chofre proferiu o terrível Koan.

“Barafunda?”.

“Cú ou bunda!”, disse o herói, algo malicioso.

Passaram-se intermináveis minutos.

“Tá, pode mandar a véia…”, e mais não disse a sereia.

Durante o traslado do féretro, Kamikaze e a margravina das sereias de ébano dividiram, preguiçosos, uma garrafa de um raríssimo Conhaque Padre Cícero, Gran Reserva, retrogosto de asfalto.

Kamikaze Joe abriu os olhos.

AS AVENTURAS DE KAMIKAZE JOE

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Startling Stories – Capa de maio de 1936

 

 

 

No universo número 1, na Demanda da Torre de Cristal, Kamikaze Joe e seu parceiro Temujin Pancho salvaram a princesa Cassiopae de um destino pior que a morte. A seguir, suado e sujo da batalha, Kamikaze Joe a tomou em seus braços e a beijou apaixonadamente, o que para algumas línguas ferinas do reino foi, aí sim, um destino pior que a morte.

No universo número 37 Kamikaze Joe foi convidado para as Justas de Dragões pelo próprio Duque Negro, o senescal do rei. Lá, assistido pelo indefectível Temujin Pancho, Kamikaze Joe venceu todas as provas, com isto ganhando o direito à mão da filha de seu patrono, Stella, baronesa de Bereshit, aliás, herdeira do trono ducal. Cavalheirescamente, Kamikaze Joe abdicou da honra, embora tenha aceitado uma noite de prazeres com a belíssima jovem. Importa comunicar que desta feita, de banho tomado.

No universo número 222, no Grande Porto dos Navios do Céu, Kamikaze Joe embarcou na Briolanje, fragata ligeira, mas bem armada, com destino às guerras estelares em Beta Thataghata. Todos já ouviram de suas vitórias, claro, mas não custa lembrar aos desmemoriados que a conquista de Inocência, Terranova e Aquitânia-Sobre-Delta-Pavonis não teria sido possível sem sua mestria no comando da Frota Infinita. Ainda hoje se conta com admiração a alegria das massas ao avistarem os costados azuis e dourados da Arcalau, sua nau-capitânia.

No universo número 511 Kamikaze Joe jogou xadrez de seis camadas com a própria Morte, conforme se pode ler nas inspiradas páginas do Kamikazion, finamente escritas pela fiel pena de Temujin Pancho em seu exílio em Nova Tessália.

Entretanto, no universo zero, neste universo para ser mais exato, Kamikaze enfrentou sua batalha mais renhida. Foi neste universo, apurem olhos e ouvidos, que Kamikaze Joe foi entrevistado por Tânia Mara da Silva Mazzini, também conhecida como a Bruxa Vermelha, com vistas ao emprego de auxiliar de limpeza no famoso Centro Comercial. Aquele.

Foi neste universo zero e somente neste que Kamikaze respondeu de onde viera, qual sua escolaridade e quais foram suas experiências anteriores. Foi lá que lhe informaram da inviabilidade de sua contratação, visto que residia em mui afastado bairro da periferia, mas que não desistisse e esperasse por eventual nova convocação.

Foi neste universo que kamikaze Joe tomou três conduções até o seu bairro e, contando seus trocados, decidiu por uma parada na Padaria Santa Edwiges, também conhecida como Taverna do Unicórnio.

Foi neste universo e nesta Taverna do unicórnio que ele, o magnífico Kamikaze Joe, trocou amenidades com Jhonny Carlos de Santana Nicolau, mais conhecido como Temujin Pancho.

E foi Temujin Pancho, ali trabalhando como balconista (temporariamente), quem disse a frase hoje antológica: “Mano…dureza”.

Kamikaze só pode concordar, acendendo com resignação filosófica seu último cigarro paraguaio com seu último bastão-laser.

Um modelo já antiquado, de baterias nucleares a fusão já se esgotando. De marca BIC.

Vapor-Punk: Antônio Vieira, impérios e outros sebastianismos

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Padre Antônio Vieira.

Sei, o título, o punk, o vapor no punk.

Mas então Vieira, o padre, sonhou com um Quinto Império, sucessor dos impérios assírio, persa, grego e romano.

Um império universalista, cristianíssimo e lusitano. Um império tout court, mas guiado espiritualmente (só espiritualmente, Vieira não era burro) pelo Papa.

Um império agregador e, talvez forçando a barra, multicultural até onde se podia ser multicultural à época. Mas, português o Quinto Império.

E assim o imaginou Vieira, o padre, alguns dizem que fortemente influenciado pelas visões de Gonçalo Anes, de alcunha o Bandarra[i], um sapateiro dado a visões do Portugal seiscentista.

O Bandarra via coisas, previa o tal império dominado pelas gentes portuguesas. Previa um rei profético, predestinado, o rei Encoberto, que quando finalmente viesse, se desse a descoberto, aí sim, o tal império.

Incidentalmente: Dom Sebastião morrera lutando contra os infiéis no Marrocos. Então, lá vai que Dom Sebastião, no futuro,  se encaixaria certinho no papel de rei Encoberto[ii]. Certo.

Já o Leão é experto

Mui alerto.

Já acordou, anda caminho.

Tirará cedo do ninho

O porco, e é mui certo.

Fugirá para o deserto,

Do Leão, e seu bramido,

Demonstra que vai ferido

Desse bom Rei Encoberto.

Bandarra, sapateiro e porralouca, acabou nas malhas do Santo Ofício. Pois é, século dezesseis, os prelados não sabiam brincar.

Mas então o Vieira não deixou por menos e pensou o seu Quinto Império por começar. Colossal, universalista. Cria-o inevitável, um desígnio divino, necessário, final.

Mas aí mudamos bruscamente e vamos a um sub-gênero da ficção científica: o Steampunk, que não é assim tão novo e pode ser descrito como a elaboração de histórias em ambientes vitorianos.

Mas ambientes alterados (não queria, mas vá lá: universos alternativos) onde a revolução industrial e tecnológica antecedeu de um século ou mais, enquanto os valores culturais são aqueles da era vitoriana que conhecemos.

Daí, computadores com chassi de madeira, aeroplanos a vapor et alia. Ou mesmo computadores de chassi de alumínio, celulares 3D, a depender de escolhas do autor, mas sempre operados por moçoilas de anquinhas ou cavalheiros de fraque. Imaginem José Dias mandando um e-mail a Bentinho, dando conta do comportamento estouvado de Capitu.

Citar autores seria tedioso, a maior parte americanos, mas pode-se sempre conferir a criação de Greg Broadmore, um universo conceitual a que chamou o Mundo do Dr. Grordbort, uma espécie de terra paralela Steampunk, onde a Inglaterra vitoriana estende o poder do império britânico a outros mundos do sistema solar. Aos que quiserem conferir, posso sugerir o link http://tinyurl.com/lgxj3h8, onde o audaz e valente Lorde Broadforce, acompanhado de seu criado-robô Carruthers e da jovem jornalista Millicent Middlesworth, se aventura na feroz selva do planeta Vênus.

Evidentemente, pertencendo a um ramo de um gênero de triste fortuna no Brasil, o Steampunk é candidato perene à ignorância geral.

 

Mas eu comecei com Vieira, o padre e não foi sem razão.

Luis Antônio M. C. Costa [iii], jornalista e escritor , já se aventurou pela versão verde-amarela do tecnovapor, por enquanto batizada de Tupinipunk.

Existem outros autores, mas vejam que maravilha, Costa deve e muito aos “estalos” de Vieira, pois que o seu universo se constrói justamente a partir do florescimento de um Quinto Império, em uma Europa na qual a ascensão protestante é justamente contrabalançada por um enfraquecimento do papado, gerando maior autonomia dos estados católicos: existe um Sacro Império Romano-Francês, um império russo invasor de Constantinopla e um califado islâmico cobrindo partes da Europa oriental, Ásia e África.

No Brasil, sede do Quinto Império, há um movimento Bandarrista, conduzido por uma agremiação extremista de direita, a Sociedade Gonçalo Eanes. Mas também, um Zambi de Deus, cientista e encarnação outra de Zumbi dos Palmares. Negros islâmicos, judeus, hinduístas, um Conselho Ecumênico sediado em Salvador.

Leiam o blogue Mitopese (http://tinyurl.com/qe9bcsw), onde Costa postou alguns de seus contos, que recomendo, notadamente Um Estudo Em Verde e Amarelo, onde criou a personagem Guataçara Turymembyra, uma Icamiaba[iv]  engajada no exército, ferida nas guerras do império na África e, convalescente, recém-chegada ao Rio de Janeiro, aceita dividir um apartamento com um excêntrico, Flávio Ilha, que tem por monomania o praticar deduções a partir de mínimas evidências.

Para quem não entendeu, Sherlock Holmes e Watson em versão Tupinipunk.

Também recomendo O Istmo do Dr. Moreira. Está também tudo lá: o Sagrado Quinto Império Universal Cristão de Portugal, Brasil e Algarves, personagens como Mamadu e Issa Baldé (Malês islâmicos), Judite Moreno da Fonseca (judia sefaradi), o professor Zambi de Deus e uma igreja ecumênica fundada por Dom Sebastião, após seu rompimento com o papado.

Ah, e deliciosas referências Machadianas.

Enfim, é a sugestão do chef para hoje.

‘Cabou.

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[i] Bandarrara sapateiro e místico, o que é uma excelente combinação se pensarmos em correlatos como carpinteiro e místico, cobrador de impostos e santo.

[ii] Sofregamente esperado até em Canudos, onde o Conselheiro previa sua chegada por sobre as ondas do mar para acabar com a maldade do mundo e com a república também.

[iii] Articulista e editor da revista Carta Capital. Procure, tá lá no expediente.

[iv] Consulte o Macunaíma, de Mário de Andrade, as amazonas Icamiabas estão lá.