SOBRE A POESIA E OUTRAS EXCENTRICIDADES

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ANDERSON ANDRADE – DeviantArt

 

Para Mariana, a Gouveia. Arqueóloga de quintais, geógrafa afetiva e tecelã de ritmos.

 

 

Quando era eu ainda um petiz (adoro esta palavra tão antiga dos meus primeiros livros de escola); bem, quando era ainda um moleque, me apresentaram à poesia. Primeiro com meu pai, devoto de cordéis e depois se acomodaram na sala os parnasianos e aí ouvi a música de Bilac e Castro Alves, suas palavras encorpadas, as rimas feitas de matéria diáfana, mas densas, como trovões.

Começo de novo, a poesia.

Bem, amigas e amigos, a poesia para mim que começava eram só as rimas. Não conseguia conceber o poetamento sem a mágica das rimas. Poesia para mim, nos começos começantes, eram as rimadas.

Na época, todos concordavam comigo. Todos os habitantes do meu mundo social tinham isto claro e soberano: poesia sem rima não era poesia. Daí que desprezavam as poesias não rimadas como imperfeitas, dignas de riso.

Eram os setenta e os oitenta em toda sua falta de glória.

Então, como na canção, se passaram os anos e eu consegui, com certo sucesso, sair do nicho onde me gerei e conheci a outras formas: primeiro os versos brancos, depois os Oswalds e Mários de Andrade, as Cecílias e a Túnica Inconsútil de Jorge de Lima. Depois, os concretistas, as tentativas de tradução de haicais, os franceses, Octávio Paz (e os arcos e as liras de Octávio Paz), Drummond.

Foi aí que eu percebi o que de fato me atraía na poesia. Não eram as rimas. Gregos e romanos, chineses e persas e árabes não rimavam. Mais que tudo, percebi que era o ritmo.

Uma coisa que o poeta mediano não percebe, embora todo poeta, medíocre ou genial, mereça o cognome grandiloquente e vazio: Fulano, o poeta.

Sempre acompanhei com carinho as seções de poesia de pequenos jornais de cidades, os jornais de classe, as revistas de ocasião, onde Beltrana e Beltrano se faziam publicar. Como não entendiam de ritmo, cometiam seus poemas com aquela qualidade que nos trazia a nós, leitores, um pequeno incômodo em nosso ouvido interno.

Mas eram poemas e eu apreciava seus esforços. Ainda aprecio. A única medida sendo se eram honestos ou não em seus esforços.

Houve mesmo uma evolução no gosto médio dos poetas médios. Nos anos setenta e oitenta (e sem dúvida nas décadas anteriores que não vivi) preferiam os meus adorados medianos às rimas, depois perceberam não ser pecado soltarem as suas palavras das grades da metrificação.

Só não percebiam que com rima ou sem rima, os poemas reclamavam uma forma, um andamento, uma pulsação.

Não obstante, minha régua não mudou: honestidade. Sem honestidade não há o poema e, suspeito, nem a prosa e nem o texto. Não estou falando da verdade, estou falando de coerência. Um signo tem que responder a outro signo, um tom a um outro tom.

Exempli Gratia, a música. A música também não pode prescindir da pulsação, do andamento, embora sejam outras, as pulsações e andamentos da música, por existirem dentro de outra pulsação e andamento mais poderosa, imperiosa, que é feição e a necessidade que fazem da música, música.

Você pode ouvir a uma peça serial de Schoenberg ou Alban Berg; a Jackson do pandeiro ou a uma música introdutória em peça do teatro Nô; a Ravi Shankar; a Elis, ao hip-hop, ao funk, ao sertanejo, enfim. E lá você vai reconhecer a música, o balanço e vai saber no ato se está tratando com um criador honesto.

Se não, você vai sentir o ruído da máquina, cada vez mais presente e só.

Também assim com a poesia. Parece ser uma questão não do acorde, mas da mão que dá vida ao acorde. Parece ser uma questão não da palavra, mas da boca e da mão que se preocupa com, em conjugar, em tornar harmônica a palavra e o espaço em branco entre as palavras.

Não é vazio o espaço entre uma palavra e outra palavra. Talvez nem seja branco, mas está lá.

E era só o que eu tinha a escrever.

Em outra ocasião, reinventaremos a roda. Aguardem.

 

DIRETO COMO UM CONFESSOR, O CORINTIANO VOADOR PREGA SOBRE A VAIDADE. A SUA.

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Alegoria da Vaidade – Antonioi de Pereda

 

Dia destes um bom amigo me trouxe o balsâmico conforto de uma alisada na fachada torpe de minha vaidade: “li lá o teu último texto, lá do blogue. Viu, não pense que não leio o você que escreve, não”.

Bom e fiel amigo, (e ao escrever isto sinto uma coceirinha mental, uma vontade de reler o parágrafo sobre o amigo discursando a beira do túmulo de Braz Cubas. Obrigado, Machado de Assis. Não tem nada a ver com você, amigo).

De qualquer maneira, também em outro dia destes (na verdade, foi em outro ano destes, mas não resisto às dualidades fáceis); bem, como dizia eu, em outro e pretérito “outro dia destes” ouvi, desta vez não de um amigo, mas tão somente de um, vamos dizer assim, colega temporário de percurso, outra alisada no meu ego: “rapaz, li lá o teu blogue. Cê escreve umas coisas do caralho! Muito bom! Não entendi a maioria das coisas lá, mas achei, olha, fodaço! ”.

Obrigado, bom e fiel colega de percurso.

Os parágrafos acima vieram a propósito de um tema que me é caro: a vaidade.

Mais especificamente, a minha.

Minha reação aos comentários dos dois, o amigo e o colega, como foi? Uma pergunta candente que ninguém fez, mas o meu ego inflável e profissional providencia.

Então, como foi?

Bem, é com a alma em transe e coração em frangalhos que digo: foi nada. Não senti nada, nem o proverbial efeito balsâmico da alisada no ego (e olha que eu tenho um daqueles egos bem grandes. E tanto que é quase translúcido, uma espécie de superquindão (sabe o quindão, o doce?)).

Ainda não analisei a fundo minhas razões, mas sei que as tenho, as minhas razões. O que me falta é somente a peruca, digo, a análise.

E então aqui estou, o moço que mantém um blogue onde escreve sobre cordelistas e juristas que foram a Marte; sobre traficantes de drogas que se expressam em português arcaico; que faz uso da melhor pedagogia de idiotas para ensinar como transformar a incompetência em arte; que comete uma pequena biografia de Satanás; que faz resenhas de livros obscuros (quanto mais obscuros, melhor) ou de livros inventados; que escreve sobre mordomos que se transformaram em mandatários da nação; que comete poemetos rimados só pelo pueril prazer de introduzir palavrões nos poemetos rimados (defeito meu, adoro contrabandear “cus” para um poemeto parnasiano).

Enfim, eu. O moço que adotou este esquisito nom-de-plume: Corintiano Voador.

(Nom-de-plume. Não esperavam esta, não? Cachorro de homem culto, eu!)

E porque, perguntarão? (Ninguém perguntou, eu sei, mas a porra do meu ego, etc., etc…).

Bem, como já informei a uma simpática blogueira aí, tem nada a ver não. Poderia ser Atleticano das Alturas ou o Flamenguista Alado, mas acontece que sou corintiano. Então é uma questão de coerência.

Bem, na verdade verdadinha informo que o adjetivo Voador vem de minha infância querida que os tempos não trazem mais. Ocorre ou melhor, ocorreu, que em meus anos de meninice eu adorava ler os quadrinhos do Fantasma, lembram, aquele que andava com o cachorro Capeto e era eterno noivo da sempre virgem Diana Palmer?

Pois bem, quando de suas primeiras publicações em jornais aqui no Brasil, por alguma razão que desconheço, os tradutores insistiam em chamar ao herói de, ói só, de Fantasma Voador.

Aquilo ficou na minha cabeça. Como eu soube? Oras, além de fanático quadrinheiro era eu também um obsessivo de escol, modos que fui às fontes.

E assim foi que os anos passaram e quando uns amigos de bar tropeçaram na ideia de criar um blogue para nosso gáudio e divertimento, adotei pela primeira vez o gentil pseudônimo. Se calhar, ainda está por aí, o espectro digital de nosso finado blogue.

Sim, sim, tem ainda a história de minha vaidade.

Ela vai bem, obrigado.

SOBRE MENTORES, MESTRES ESPIRITUAIS E AJUDANTES DE PEDREIRO

PINGA

Começava eu na carreira de homo sapiens e conheci a dois filhos-da-puta: o judeu do mal e o padre russo do mal. Ambos moradores do bairro do Ipiranga, na cidade hoje conspurcada de São Paulo. Onde, aliás, nasci.

Um não sabia do outro, mas eram duas putas véias que pensavam do mesmo jeito. Me disseram.

A mim, a minzinho mesmo. A este vosso criado!

Disseram: seja homem!

E disseram: Eu sei que é difícil, você pode não estar acostumado! Mas tente parecer com um homem!

Em verdade queriam dizer: seja digno! Tenha verve! Mas a época era de machismos diversos.

Modos que. Então. Modos que (entendi somente muitos anos depois: não acredite no sábio e nem em seus escritos e nem nos escritos do pequeno babaca que emula o sábio e nem na revista e nem no jornal e nem no sacerdote e nem no juiz justiceiro e nem em justiceiro algum e nem no jovem lutador pela justiça e nem no blogue e nem na puta que vos pariu).

Disseram-me. Disseram-me… só o básico. Disseram-me, mas não me aconselharam, pois que eram dignos demais para coisa tão primária.

Só me sussurraram: desconfie do sábio, do herói e do douto.

Seja uma puta desconfiada, me disseram!

Inventarei dois nomes para os dois: Ilya e Eliahu.

Obrigado.

Aos dois. Um minúsculo e elétrico. O outro enorme, e calmo como as marés.

A ambos eu agradeço.

E sei que ambos riem de minha tolice.

 

 

 

 

EU ME LEMBRO II

RAPOSA VOADORA

 

 

Nos anos oitenta fui o que depois batizei de “comunistinha legal” ou, se vos agradar, o “comunistinha joinha”. De qualquer modo, um comunistinha. Fui levado, é claro.

Meu cooptador foi o mordomo das esferas, o príncipe, o meu querido EBS. Ainda vivo, embora velhusco. Diabos, eu estou velho! As juntas estalando e eu ainda aqui, cuidando da prole e tentando por comida à mesa.

Mas então, “comunistinha legal”. Eu.

Foi uma época fecunda os oitenta, modos que me incomodo com os tempos atuais por exsudarem, vez por outra, um perfume parecido, mas que é só fedor, que os perfumes envelhecem.

Na época, percebia já que a meus colegas comunistinhas faltava senso de humor. Preferiam o velho Karl Marx, com sua cabeçorra preocupada, se inclinando sobre os manuscritos a Jenny von Westphalen ou Jenny Marx, a esposa, que fora uma mulher muito, mas muito bonita.

Preferiam o bom Engels, o pensador, parceiro de Marx, o velho Nick, e esqueciam de Engels, filho de um burguês rico, administrador das empresas do pai na Inglaterra e amante de sua criada.

Digamos que eles viam os escritos e a história e eu preferia o rés-do-chão, os pequenos defeitos e tudo o mais.

Primeiramente, é com certo pudor que informo que meus colegas comunistinhas não liam as bíblias marxistas, mas comentavam assaz.

Segundamente, eu tinha a impressão de que qualquer pessoinha, qualquer serumaninho, poderia fazer a história, mas precisaria perceber que no meio tempo conviria ficar pelado com outra pessoa também pelada, fazer e ler algum poema, beber uns tantos fermentados e destilados e, na miúda miudinha, fazer também a tal da porra da história.

Revolucionário, né não, John Lennon?

Muito estranhamente não me bandeei para o lado direito das coisas, depois dos anos passados, e continuo, me sinto, ainda meio demoníaco, achando o mundo um lugar interessante, achando as pessoas ainda interessantes, mas sempre sentindo o ruído da máquina cada vez mais alto, quase ocultando a conversa no sarau.

A época, é claro. Queria falar da época. E do mau-gosto e dos tempos e das pessoas e da velocidade.

Do modo cego, automático, com que nós todos corremos para ocupar um círculo qualquer no inferno.

Queria, mas falo não.

Volto aos inícios iniciais começantes: eu fui um comunistinha legal e joinha, enquanto também trabalhava como o proverbial garçom no bar lá, da moda.

E confesso, quando me pediam os bons pensantes vodca Wiborowa ou Absolut, eu colocava mesmo era a Vagabundoyeva ou a Esculachakova, que foi como batizei à podríssima vodca “coquinho”.

Minha vingancinha bobinha de comunistinha: sabia que os bons pensantes, os meus irmãos comunistinhas, iriam um dia crescer em riqueza e glória. Vaticinava mesmo que acabariam como comensais dos pequenos ratos morais, os grandes da pátria.

Então à sorrelfa, lhes servia lixo líquido.

 

E como eles bebiam!

POBRE PROTAGONISTA É O POBRE

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Indiscutivelmente. Procure, puxe por sua memória e veja se encontra pobres como personagens principais na literatura, no cinema e na televisão. Nas histórias em quadrinhos.

Encontrou? Claro, mas como personagens principais? Eles estão lá, claro, mas sempre no núcleo pobre da novela ou como figurantes.

Há exceções, não nego. Temos a Macabéa de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. O camponês miserável de Levantados do Chão, de Saramago. Os sem-teto de As Vinhas da Ira, de John Steinbeck. No cinema, encontraremos uma ou outra garçonete, uma empregada doméstica, mas mesmo nesses casos há como que uma idealização. São mais tipos, que pessoas.

Mesmo o “cowboy”, um operário do pastoreio, foi provido de armas no coldre e um belo cavalo para assim melhor conquistar o Oeste. Ninguém menciona que os vaqueiros americanos originais eram em sua maioria negros, índios ou mexicanos e que seu meio de transporte estava muito mais para um jumento do que para um garboso cavalo.

As personagens dominantes são ricos ou oriundos de extratos médios da sociedade.

No passado, nem isso. A Ilíada, a Odisséia está cheia de “bravos aqueus de longas melenas”, porém todos vindos da aristocracia. Odisseu era rei em Ítaca. O único, por assim dizer, pobre, era o “néscio Tersites”. Além de néscio, era soldado raso. E feio, imensamente feio.

No cinema americano é nas classes média e alta que nascem e vivem os personagens principais, mas mesmo quando o foco é em profissões, digamos, menos nobres, são profissões idealizadas, que remetem à aventura e ao individualismo: o policial, o já citado cowboy, o detetive, o músico, mas quase nunca o operário.

No Brasil, nossos cinema e teatro não são muito diferentes. Certo, existem as obras que procuram mostrar extratos mais baixos da sociedade. Mas ou recorrem ao filtro de uma obra clássica, caso de Orfeu da Conceição de Vinicius de Moraes ou a uma visão sociologizante, como em Cinco Vezes Favela. Ou, descem à marginália e aparece o traficante, o ladrão, a prostituta.

Não, você ainda não viu muitos operadores de máquinas, ajudantes gerais, faxineiros. Não encontramos muitos Jáquersons da Silva ou Keisyannes de Cássia. O pobre incomoda. A primeira providência a ser tomada com o núcleo pobre da novela é fazer as personagens ascenderam socialmente: pelo casamento ou pela sorte ou pela herança que os redime, os torna mais belos e confiantes. Mais palatáveis.

Também sempre é bom ter em mente que mesmo a burguesia média é recente, uns duzentos anos, se tanto (não confundam com a burguesia podre de rica que ascendeu com o mercantilismo. Estamos falando de Policarpos Quaresmas e não de Cosimo de Medici).

E mesmo esta burguesia média, do pequeno funcionário público, do comerciante menor, a avó da classe média, só passou a ser retratada na literatura e no teatro após sua ascensão com a era industrial. Antes, o burguês era sempre o tolo, o fanfarrão, o de falas e atos ridículos e empolados e fizeram a fortuna de dramaturgo de Moliére.

Talvez a questão se prenda às profissões, aos ofícios típicos do pobre: o operário sem qualificação, o camponês sem terras ou com pouca, a prostituta, o marginal. Ao pobre desgostaria uma personagem que retratasse um meio de onde gostaria de emancipar-se? E o burguês?

Sinopse: diariamente Johnny José da Silva toma o seu trem super-lotado para trabalhar na metalúrgica na gratificante posição de ajudante geral. Namora Perolaine Jennyfer dos Santos, mas somente nos fins de semana. Depois, o baile funk? O boteco e o futebol? Quais as profundezas psicológicas, dramáticas, a que o bom Johnny poderia nos levar? Não, muito poucos se interessarão pelo universo de Johnny e Perolaine.

Ou, sinopse: Micaela Semprum Scuteri, loira e leve, é publicitária. Independente, mora sozinha em seu apartamento decorado com muito bom gosto. Um pouco louquinha, tem um relacionamento com Caio, administrador de empresa e músico bissexto, inteligente, “cool”, engraçado e autossuficiente. No mais, bares da moda, jazz, livrarias, rock and roll. Aí sim, diria o futebolista. E com roteiro da Bruna e direção do Ricelli? Massa!

O pobre ainda é o figurante. Décima-terceira cabeça a esquerda, na cena com a multidão, naquele filme que veremos brevemente.

O trabalho dignifica, os humildes herdarão a terra, bem-aventurados os pobres de espírito, etc., etc. Esqueci alguma coisa?

     

 

EU ME LEMBRO

 

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Yma Sumac

 

 

 

Eu me lembro.

Mas eu dizia?

Ah, claro.

Eram os anos oitenta e haviam coisas misteriosas no ar. Não se caminhava sem se ouvir ao MPB-4 e os portos de Lisboa de Kleiton e Kledir ou Rita Lee e suas canções de transe.

Mas eram os oitenta e eu gastei os meus últimos cobres para ver ao primeiro filme de Star Trek no cinema e paguei as duras penas para voltar para casa às altas horas. Gastei meus últimos cobres e a única coisa que me lembro do filme foram as cenas iniciais do quartel-general da Frota Estelar em San Francisco, com suas multidões de pessoas de todas as cores e todas as roupas e todas as feições, em harmonia, e de como me maravilhei com a promessa latente de que um dia, um dia, sabe?, um dia tudo aquilo acontecesse, aquela catarse, aquela plena aceitação do outro e suas diferenças.

Engraçado não me lembrar muito do resto.

E da primeira vez que eu disse a uma mulher bonita que ela era bonita. Assim, com muito, muito receio e medo, mas sem pose, só pelo prazer de ver uma mulher bonita. E só consigo me lembrar do rosto da menina e de seu perfume e de mais nada. Mas, quase certeza, foi no começo dos oitenta.

E também Engraçado como me lembro de Chan Chan, a canção, mas pouco do documentário Buena Vista Social Club.

Engraçado como me lembro também de poucas coisas do filme Bell, Book and Candle (aqui, Sortilégio de Amor), exceto a maravilhosa e curta aparição do cantor francês Philippe Clay cantando em estilo metralhadora à canção L’ Assassin Ennuyé no night club das bruxas e os peitos de Kim Novak insinuados em decorosos decotes.

E de Sean Connery, mas apenas da atuação de Sean Connery em Zardoz, um obscuro filme de 1974.

E de Frankie Avalon e Annete Funicello atuando na série Beach Party, reprisada ad nauseam pela Globo nos setenta e oitenta e que eu me lembro agora que era brega e tosca, mas que eu adorava.

E que também só agora, no presente atual momento momentoso e hojístico, me dou conta de que só consigo reter lembranças da personagem do motoqueiro trapalhão Erich Von Zipper e da sereia interpretada pela atriz Marta Kristen.

A qual, aliás, também atuou na série Lost in Space, Perdidos No Espaço (como se a batizou em nossa terra), produzida por Irwin Allen.

O mesmo Irwin Allen, produtor de séries das quais só aprecio as de pior qualidade. E que, claro, são as melhores.

E de Ima Sumac. Provavelmente a mais completa (e bela) cantora de todos os tempos e da qual eu duvido que uma em cem pessoas conheçam, mas da qual só consigo lembrar de sua atuação em Secret of The Incas, estrelado por Charlton Heston.

Acho que havia uma atriz americana no filme, no papel principal, mas seu nome e feições me fogem, misericordiosamente, à memória.

E de La Vaca Mariposa, do grande cantor venezuelano Simón Diaz, também autor de Tonada de Luna Llena, canção magnífica que só conheci quando Caetano Veloso nos fez a graça de a replicar em seu Fina Estampa.

Memória seletiva, pois não?

Mas eu dizia?

 

 

FILHO MEU

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Tudo o que é escrito em português não é sério, e pode ser entendido sem medo como piada e tudo bem. Do mesmo modo, tudo o que se passar em terras lusófonas, mais exatamente em terras lusófonas do Brasil, não é digno de nota. Toda canção para ser canção tem que ser gemida em inglês (obvious), de modo que da lista telefônica até o cardápio de motel vagabundo, tudo se nos pareçerá poesia em estado puro, desde que garatujado em inglês. Entendeu agora, filho meu, porque o Fantástico só procura o especialista americano em vez dos bundões locais?

A ÚLTIMA POSTAGEM DO BLOGUE

“Meus Deus, Flash, ele fala sério?”  Buster Crabbe & Jean Rogers in Flash Gordon

 

A coisa sobre os blogues é que quem mantém um geralmente não pensa muito sobre a coisa.

Me explico (tento).

Para que manter um blogue? Vejam, não estou tentando ser engraçado e nem mesmo tentando brincar com paradoxos.

Mas, para que manter um blogue? Você está em casa, escrevendo sozinho para, sejamos francos, para ninguém. Mesmo que umas poucas almas de bom coração leiam o que escreveu, quantas lerão até o fim? Ou mesmo, quantas entenderão?

Isto, considerando que você consiga entregar um bom texto, o que nem sempre é o caso.

Isto considerando que o meteoro que está agora se aproximando do planeta não caia em sua cabeça.

Se você me leu até aqui gostaria que soubesse que sou um grande mentiroso e que não pretendo seja esta a última postagem do blogue (mas pode ser, o meteoro, a vida, o infarto, etc.), mas não pude resistir, não senhor, não deu, bateu aquela vontade de escrever merda e eu pensei por que não escrever merda?, daí eu escrevi merda.

Mas antes de escrever merda eu executei cuidadoso trabalho de planejamento, sim senhor, nada de uma merdazinha qualquer, flácida e infedida.

Não, pensei numa merda filosófica e autorreferente.

Mirei meu próprio rabo e pus a mão, na obra.

Por que então escrever num blogue?, ora, oras, pensei que soubessem!

Porque escrever em blogues é receita certa para uma pele viçosa (anotaram, meninas?), evitar a impotência (certo, rapazes?) e, mais importante, cura a escrófula.

Duvido que alguém leu até aqui.

Ô vida.

 

 

O CORINTIANO VOADOR VOLTA A PREGAR. LÁ NO DESERTO, EM RIBA DO MONTE.

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…e então eu pensei “por que não fazer ela redonda?”. Pronto, tava ali a solução, mas somente eu, euzinho, tinha topado com ela. A bola, o craque, o transporte de massas, tudo veio depois. Até mesmo o Barcelona.

Mas e aí, me elogiaram?, o chefe deu tapinhas no meu ombro?, o xamã da tribo fez sinal de positivo?. Necas. Nada. Faz quinze mil anos e foi justo desse jeito mesmo que aconteceu.

Cumé?…ah, tá, as manifestações…certo. Bons dias, Brasis.

Então tá. As pessoas do bem ganharam as ruas. Viram?. Deveriam ter visto. Vejam a retrospectiva: Ói lá um…viu? Ói lá outro, o de camiseta com slogan. Notou?

No começo eram trevas e o MPL do B só queria…queria, já nem lembro mais. Mas queria. Teve.

Aí entraram outros e outros e outros, lembram do cara ali?, tão vendo?…perto dos nóias e do lado do poste…isso, os que estão babando.

E as coisas continuaram e chegaram os que não gostam de político, os que odiavam a Dilma, os anticorruptos, qualquer um servia, os Black Blocs (assim, em inglês, para pronto entendimento), os…um monte.

E chegaram mais. Era massa. Era movimento.

Falar nisso, vitoriosos, derrubamos a Dilma. Depois fomos prá balada.

O povo. A massa.

Aí, não devolveram o meu porrete ainda!…

Pulhas!