Eu, o ghost-writer

ghost writer

Em anos pretéritos, não, não darei a exata data, mas digo que foi em tempos de antanho. Um amigo me levou até à editora e gráfica de Maurinho, o filho-de-uma-égua.

Mais outro, de uma coleção que tenho.

Pretendia eu, vejam só, que fossem meus (sinto as faces rubras só no pensar), digamos assim, poemas, postos em livro.

E então, lá, como manda o figurino, apresentei os calhamaços, os papéis, que Maurinho folheou assim como quem nada quer. Inicialmente nos estranhamos, depois engatamos uma conversa maluca, onde entrou o roquenrol, os upanixades, Regina Duarte, Yukio Mishima, Jackson do Pandeiro, Radamés Gnatalli, a vida, Miles Davis e o cerol em linhas de pipa.

Maurinho pediu discreta vênia, pedindo ao meu amigo a devida paciência,  me convidando a seguir a que conhecesse seu império.

Traduzindo, me levou por uma escusa porta aos fundos de sua, vamos dizer assim, editora, e que nos levou a um sebo que mantinha e que dava para a rua paralela (não, não direi onde. Certos pudores ainda me prendem).

Mirífico, sujo, o pestilencial sebo de Maurinho, colado à editora e gráfica, rabo com rabo, me encantou e entonteceu e tanto, que esqueci dos poemas. Era um universo, um plano dimensional inteiramente novo, onde se acharia e se achava de tudo: cordéis, romances, podríssimos acetatos e raridades tão raras que encantariam até uma virgem analfabeta.

Dali, nas estantes cambetas, me acenavam um long play do filme Borsalino (Alain Delon e Jean-Paul Belmondo), o Romance da Pedra do Reino de Ariano Suassuna, ao lado de quadrinhos dos setenta da editora EBAL, do saudoso e imerecidamente esquecido Adolfo Aizen.

Maurinho me levou até um cubículo fedorento nos fundos e de uma gaveta em uma escrivaninha decrépita retirou a garrafa medonha, que até hoje me dá náuseas só de lembrar, do demoníaco conhaque Padre Cícero.

“Olha, os teus poemas…”, disse depois de um trago bem servido, “queria que você soubesse, são uma merda”. “Não que você seja ruim, até que tem bom domínio da língua, vocabulário, mas continuam sendo uma merda, os poemas vossos.”

E continuou. “Ô menino, veja bem, existem dois tipos de pessoas que escrevem poemas: os merdas, seu caso, me perdoe e os poetas de verdade. Bota fé em mim, você não é poeta. O fato é que você é inteligente, mas quem foi que disse que poesia é para os cultos? Mestre Aderaldo era analfabeto e Luiz Gonzaga tinha pouca instrução, mas os dois eram gênios. Agora, pode me mandar à puta-que-me-pariu!”

Maurinho era pernambucano de Caruarú e fizera de tudo na vida desde que aportara em São Paulo, de segurança de puteiro a engraxate, com uma temporada inesquecível como cantor de boleros numa churrascaria.

“Eu não cantava mal e fiz certo sucesso, mormente com as damas, apesar do metro e setenta.”

Serviu-me outra dose da pestífera beberagem.

“Sabe por que me dei ao trabalho de gastar meu tempo e conhaque vagabundo com você? Bem, é que eu vejo em você um certo potencial. Um dom para a conversa mole. Qualidade raríssima!”

“Veja…” e professoralmente levantou um dedo, “eu não creio em partidos, religiões e em sistemas. Eu creio é em Maurinho, eu mesmo. Acho as pessoas…fundamentalmente idiotas, manipuláveis. Entendeu a ideia, meu mote de vida? Algum outro imbecil comum, mas você não, percebi bem antes, ficaria impressionado, enojado. Você só fica perplexo mas, seja honesto, fica também maravilhado, engrandecido e agradecido a Deus por ter conhecido um filho-da-puta como eu. Um merda que fez da merda seu lucro. Mas…como diz o poeta ou político, tergiveso…”

Me explicou então Maurinho que seu negócio, ou negócios, eram híbridos: um sebo em uma rua e uma gráfica e editora na outra. E, vejam que genial, editora esta onde publicava livros efêmeros, de pouca tiragem, que vendia em bancas de jornal, principalmente (eram os anos oitenta e não havia internet).

“Então, o que eu vendo é lixo. Livros que ensinam a falar inglês em trinta dias, livros esotéricos de merda que prometem de tudo, desde o Nirvana até o Apocalipse, manuais de prática sexual ─ ilustrados, fique claro, com fotografias surrupiadas de livros pornográficos dinamarqueses (anos oitenta, eu disse) ─ e de espionagem e os caralhos.”

“Mas…” e Maurinho fez pausa dramática, “tenho um diferencial: meus autores são, todos, americanos ou ingleses. Jones, Ferguson, McIntontosh, Knox, são todos meus contratados. Verdadeiros, claro, como os Diários de Hitler, que, aliás, estarão na banca no mês que vem.”

Fiquei pasmo e tanto que me servi de outra dose generosa.

“Então, caro poeta, a proposta que lhe faço é esta. Quero, ambiciono seus serviços para que seja o senhor meu mais novo contratado, com um pagamento de merda, é claro, para que me escreva estes livros, sob glamuroso pseudônimo. Inglês, esclareço.

Amigas e amigos, tremi.

Mas permitam que vos diga que desisti de publicar meus poemas. Aliás, me garantiu Maurinho que se eu o quisesse ele os faria, mas toda a edição seria por mim paga.

Acho, acredito, que foi das decisões mais sábias que tomei na vida.

Entretanto, quanta riqueza eu trouxe à literatura!

Como escritor fantasma de Maurinho me deliciei em entregar às bancas de jornais obras hoje inesquecíveis.

Ora pois, quem, senão eu, sob o nome de Eaxton Boisen, criou o fantástico detetive Stuart Paxton, que resolvia os mais intrincados casos, enquanto comia a mulherada toda? Quem, me digam quem, poderia ter cometido O Manual da Maçonaria Universal pela pena do Professor Boanerges Cotrim (único autor que psicografei com nome português)? E que me dirão da Prática Sexual Dinâmica, assinado pela correta doutora Hope Richardson?

Falei da famosa série da sedutora Rebeca Claxton? Agente secreta da Dragon, agência secreta de espionagem, ramo do MI-6 inglês, que perambulava pelas camas de milhares de homens, descobrindo-lhes todos os segredos?

Procurem, devassem os sebos. Quem sabe vós, pessoas do bem, não encontrarão ainda um exemplar sobrevivente?

Todos de minha alçada e habitantes leais de bancas de jornais paulistanas até o final dos anos noventa, ocasião em que Maurinho teve o seu ataque cardíaco programado e final e sua editora e sebo foram para o limbo.

Compareci ao enterro e “bebi ao defunto”.

Era um dia frio de junho.

Muito frio.

 

 

 

Anúncios

A PRISÃO DE WILD MARCIONÍLIA

cosmic_voyage_by_skmoon-d7anzbl

COSMIC VOYAGE – By Skmoon-d7anzbl – DeviantArt

 

 

No dia em que Wild Marcionília foi presa, eu chorei.

Vozes sem conta comemoraram sua prisão. Oro Bonfá, dono de cinquenta e três luas de mineração e pelo menos dois planetas terrestroides inteiros abriu seu palácio do prazer com mesa farta, prostitutos e prostitutas à mancheia e de graça e um discurso inflamado que terminou com a morte programada de Maatu, o verde, o putinho mais famoso de todos os tempos e que deve ter ganhado ali os seus milhões e remida aposentadoria, assim que revivido.

E havia o Grande Juiz, autor do mandado de prisão, a quem se prodigalizou grandes comendas, com uma ou duas canonizações em mundos de fronteira.

Wild Marcionília, claro, não foi poupada de nada e por ninguém. Perguntaram às multidões reunidas em torno do Templo em Nárnia: Marcionília ou Barrabás? E as massas urraram.

Entretanto (permitam-me o entretanto), Wild Marcionília, a mais nova presa política do século, não pareceu se dar conta de que tinha um papel a cumprir nos planos do Grande Juiz, nos planos da Grande Babilônia, nos planos da Casta Dourada e não se apresentou na hora e dia previstos.

Conta-se que a guarda pretoriana do Templo veio toda paramentada em glória para sua prisão, com direito a holofotes brilhantes, trovões e raios multicores. Um dos discípulos de Marcionília seccionou com sua adaga à orelha de um dos guardas e Wild Marcionília o deteve só com seu olhar e sorriso, para a seguir recompor a orelha.

“Qual o teu nome?”, perguntou o Grande Pretor.

“Meu nome é legião!”, respondeu altivamente Wild Marcionília, reconhecidamente uma das demônias mais combativas e impiedosas de todo o Xeol.

O qual, aliás, não é nome de planeta mas de um específico inferno.

No dia em que Wild Marcionília foi presa eu também ri. Um riso contido, sereno, como compete a um filho-da-puta de escol que sei que sou.

Sobre o fascismo que habita debaixo de nosso couro

dignidad_by_ron_vargas

Dignidad – Ron Vargas – DeviantArt

 

 

Em data incerta de ano incerto passei uma temporada em Ciudad Del Este, aquele grande monumento ao brega dinâmico, aquele mercado Souk plantado no rabo da América do Sul.

Foi das melhores épocas de minha vida. A começar pelo cheiro, presente em todo e qualquer canto, suponho que uma mistura de especiarias da culinária local com as emanações dos corpos, dos deuses também locais e das almas.

E foi lá que aos poucos, aos poucochinhos, nos devagares, que notei os olhares, o conjunto de esgares, as expressões todas confazentes, as periferias dos olhares dos paraguaios, circunvagando meu rosto, não me dando a cortesia sequer do desprezo. Eles se lembravam de outros tempos, onde nossos avós de mãos dadas com avós argentinos fizeram ali coisas, muitas.

Suspeito, acho, que não me tinham qualquer ojeriza pessoal. Me viam, me inspecionavam no geral, não como pessoa, mas como símbolo. O mesmo comportamento que vez em quando nos acode quando nos vemos ante um gringo qualquer, europeu, americano ou japonês, mas mormente mais quando americano e europeu.

Não desgostamos do moço ou da moça. Só temos é gastura, uma reação estomacal de raiva ancestral.

E assim os paraguaios comigo, conosco. Talvez também os bolivianos, de quem tomamos o Acre. Como os mexicanos tiveram tomado a seu Texas.

Mas então o Paraguai e Ciudad Del Este, antes Puerto Presidente Stroessner, em homenagem ao ditador de plantão da época.

Era e acredito que ainda é lugar quente e alegre e triste, ao seu modo tão peculiar de conciliar tristeza com magia.

Povoada com e por pessoas trilíngues, de pedra. Um lugar com partidas de futebol, circo com calendário e todo o mal que se espere, de todas as safadezas mais que esperadas, com seus ódios e tesão.

O fascinante cu de nuestra américa, a capucheta do cão.

Mas os rostos das pessoas, amigas e amigos, os rostos! Velhos, sorridentes e dotados de uma sabedoria que se pressentia quase como dor, se confazendo em gestos de polidez que escondiam mágoa velha.

A vida se decide é nestes rostos, nos humildementes, nos falares atrás de pilastras, nos cochichos atrás de monumentos de fundadores, foi o que atinei e atino.

Jesus caminhava por Ciudad Del Este, insuspeitado. E disputava o espaço com os espíritos abissais de antigas divindades indígenas destronadas, com quilômetros de extensão.

SOBRE LER, VIVER E O UNIVERSO.

GUERRA

 

 

Sei que entrei para a escola, meu pai me comprou os cadernos e chovia. Minha mãe me acompanhou e me deixou lá, no pátio. E eu tinha muito, muito medo.

Chovia novamente, forçoso é acrescentar, no meu primeiro dia de escola.

Minha primeira professora era severa, grosseira e temperamental. Obrigado, dona Maria de Lourdes (você merece o “dona”, como o sabem todos os que tiveram professoras, mestres ou gurus).

Bem, havia a escola e tive minha primeira prova, onde não percebi que tinha ido tão bem que recebi até elogio. Meus pais eram econômicos nos encômios e nada me disseram.

Naquela época uma vizinha mudou-se e deixou toda uma coleção de livros sob a guarda de minha família, para resgate posterior, mas nunca mais deu as caras. Eu tremia todo dia ante a ameaça, o desidério de que algum dia ela viesse até mim para resgatar aquelas preciosidades, provisoriamente sob minha guarda.

Foram anos mágicos. Houve um mistério no céu (1970?) quando um raio verde e brilhante apareceu, indo de baixo para cima, denso, lento e fatal. Juro que é verdade.

E houve toda uma infância após tudo aquilo, onde eu ouvia um passarinho cantar e me diziam que não era passarinho, que era um anão, fortíssimo, que se descoberto espancaria seu descobridor. Anos depois, Tom, o Jobim, me mostraria que o som que eu ouvia era tão somente o do Matita-Perê.

Ô merda. ‘brigadu, Tom.

Mas tem esse “negoço” aí da leitura.

Sei que eu lia e lia e lia. Primeiro os livros da vizinha, herdados contra a vontade dela. Bem, na verdade vera e verdadinha eu me apaixonei não foi pela leitura, mas pelo fetiche do livro. Me lembro que na casa de meu avô, em épocas pretéritas, me caiu nas mãos um livro encapado em couro castanho-marrom. E eu amava este livro. E havia uma gravura em perfil de um homem barbado na antecapa. Era? Sei não. Era então eu um  analfabeto de cinco anos.

Mas era do meu avô, o paterno, o livro. Aliás, também forçoso dizer, tive dois avós do caralho, assim tipo Filho-da-Puta um e Filho-da-Puta dois. Escrotos, exploradores de pobres, um preto e outro marrano, mas uns caras, assim, como direi…do caralho.

Tá, mas a leitura.

Eu lia, no começo a Bíblia que eu achava que era um livro de aventuras e era. É. Achava um tesão Isaque dando uns amassos em Rebeca, surpreendendo ao rei. Depois, foram os romances de cordel de meu pai, depois Camões, depois os divinais quadrinhos pornográficos de Carlos Zéfiro, e Tolstói e Shakespeare e Ofélia e Narbal Fontes e Machado e o Pasquim e Yukio Mishima e Clarice Lispector Thomas Mann e J. F. de Almeida Prado e Charles Fort e Jacques Bergier e Marguerite Youcernar e a revista Playboy, da qual só lia aos artigos, nunca me preocupando com os seios, as bundas…bem, aquela coisa toda.

E então, eu lia.

E tudo o que eu posso dizer sobre ler, sobre o que eu lia, é muito pouco. Sei que quando lia eu era soberano, senhor absoluto de meu espaço. Egoisticamente, egostisticamente, eu me bastava.

Estávamos lá. Eu e meus livros.

E eles me contavam coisas, me segredavam coisas, me antecipavam coisas.

E, vejam só como são as coisas, nem sabia eu que estava sendo muito, mas muito feliz.

O que pode ser uma coisa muito boa.

Acho.

Acredito.

Sei lá.

Deus é soberano.

Corintiano Voador…pode ir brincar lá fora!

 

Sobre Ezra Pound, um poema de Ezra Pound e uma tentativa de Tradução

Michael Cheval - Division of Prime Cause

Michael Cheval – Division of Prime Cause

 

Ezra Pound publicou seu poema The Alchemist: Chant for the Transmutation of Metals em 1920 (Collected Early Poems of Ezra Pound), com uma nota dando a entender que dele havia uma primeira versão, não publicada, em 1912.  O poema sempre me fascinou pela sua economia, no sentido da justeza como suas partes se fundem em harmonia, como pelo seu tema.

É tanto um canto quanto um mantra, escreveu Timothy Materer em seu ensaio Ezra Pound and the Alchemy of the Word.

Desconheço se há outra tradução em português.

Todo caso, é poema difícil pela matéria que traz, a alquimia. Pound tinha cultura enciclopédica e assim o poema oferece diversas dificuldades, como por exemplo o verso “Under night, The peacock-throated”. O pavão, em termos alquímicos, representa tanto a retorta onde o alquimista calcina e revolve, cauda pavonis, como também a sua cauda é uma metáfora para a aurora. Assim garganta-do-pavão é uma metáfora para a noite.

Do mesmo modo, “larches of Paradise”, literalmente seria os “lariços do paraiso”. Um opção pomposa (lariços, um tipo de pinheiro, só faz sentido a leitores de climas temperados) que preferi omitir, optando pelo genérico “pinheiro”; quando não pela possibilidades aliterativas de PI-nheiROS e PA-RAI-sos.

E ainda, as citações-invocações de damas com nomes de sabores provençais tirados da literatura cortesã medieval, Saîl of Claustra, Aelis, Azalais, Raimona, Tibors, Berangèrë, figuram como se o poeta as estivesse conclamando às invocações para as operações alquímicas. São também um símbolo para a figura onipresente da donzela, tão cara ao cancioneiro da época (Midonz, evocação presente no poema: contração do provençal para “minha donzela”).

Tentei, no melhor dos possíveis, manter os jogos fônicos originais, no que fui, admito, pouco feliz. Então, vejam que há soluções que não se traduzem na fidelidade fiel e canina, pois que ao contrário a mim parecem que seriam traições à intenção original e talvez grandes traições. Modos que prefiro as traições menores. Assim, transcriei com a safadeza que se me acudiu para preservar a harmoniosa escansão do original. Sempre lembrando que as línguas têm ritmos próprios, diferentes, e nós (de quando em quando e com sorte) podemos até conseguir reproduzi-los, em outro eco.

Se chegarmos a tanto, se conseguirmos, é toda transparência que nos cabe, é toda ambição que nos é possível.

Dito isto, sem modéstia mas com cagaço, segue minha tentativa de transcriação do poema.

Vale!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

THE ALCHEMIST

“Chant for the Transmutation of Metals”

Ezra Pound

 

 

Saîl of Claustra, Aelis, Azalais,

As you move among the bright trees;

As your voices, under the larches of Paradise

Make a clear sound,

Saîl of Claustra, Aelis, Azalais,

Raimona, Tibors, Berangèrë,

‘Neath the dark gleam of the sky;

Under night, The peacock-throated,

Bring The saffron-coloured shell,

Bring the red gold of the maple,

Bring the light of the birch tree in autumn

Mirals, Cembelins, Audiarda,

Remember this fire.

 

Elain, Tireis, Alcmena

‘Mid the silver rustling of wheat,

Agradiva, Anhes, Ardenca,

From the plum-coloured lake, in stillness,

From the molten dyes of the water

Bring the burnished nature of fire;

Briseis, Lianor, Loica,

From the wide earth and the olive,

From the poplars Weeping their amber,

By the bright flame of the fishing torch

Remember this fire.

 

Midonz, with the gold of the sun, the leaf of the poplar,

by the light of the amber,

Midonz, daughter of the sun, shaft of the tree, silver of the leaf, light of the yellow of the amber,

Midonz, gift of the Gold, gift of the light, gift of the amber of the sun,

Give light to the metal.

Anhes of Rocacoart, Ardenca, Aemelis,

From the power of grass,

From the white, alive in the seed,

From the heat of the bud,

From the copper of the leaf in autumn,

From the bronze of the maple, from the sap in the bough;

Lianor, Ioanna, Loica,

By the stir of the fin,

By the trout asleep in the gray-green of water;

Vanna, Mandetta, Viera, Alodetta, Picarda, Manuela

From the red gleam of copper,

Ysaut, Ydone, slight rustling of leaves,

Vierna, Jocelynn, daring of spirits,

By the mirror of burnished copper,

O Queen of  Cypress,

Out of Erebus, the flat-lying breadth,

Breath that is stretched out beneath the world:

Out of Erebus, out of the flat waste of air, lying beneath the world;

Out of the brown leaf-brown colourless

Bring the imperceptible cool.

Elain, Tireis, Alcmena,

Quiet this metal!

Let the manes put off their terror, let them put off their aqueous bodies with fire.

Let them assume the milk-white bodies of agate.

Let them draw together the bones of the metal.

 

Selvaggia, Guiscarda, Mandetta,

Rain flakes of gold on the water

Azure and flaking silver of water,

Alcyon, Phaetona, Alcmena,

Pallor of silver, pale lustre of Latona,

By these, from the malevolence of the dew

By these, from the malevolence of the dew

Guard this alembic.

Elain, Tireis, Allodetta

Quiet this metal.

 

 

 

(The New Pocket Anthology of American Verse. Washington Square Press : New York)

 

 

 

 

O ALQUIMISTA

“Canto para a transmutação dos metais”

Ezra Pound

Sail de Claustra, Aelis, Azalais

Como vos moveis por entre árvores de luz

Como vossas vozes, sob pinheiros do paraíso

Fazem soar som cristalino

Sail de Claustra, Aelis, Azalais, Raimona, Tibors, Berangèrë,

Abaixo do escuro fulgor do céu;

sob a noite, a garganta do pavão:

Tragam a cobertura de açafrão,

Tragam o ouro vermelho do bordo,

Tragam a luz da bétula no outono,

Mirals, Cembelins, Audiarda,

Façam recordar este fogo.

 

Elian, Tireis, Alcmena,

Em meio ao sussurro de prata no trigo,

Agradiva, Anhes, Ardenca,

Do lago em cores de ameixa, em quietude

Do Matiz derretido da água

Tragam o calcinado gênio do fogo,

 

Briseis, Lianor, Loica

Da Terra em amplidão e da oliva

Dos choupos chorando seus âmbares,

Pela brilhante flama de lanternas de pesca,

façam recordar este fogo.

 

Midonz, com o ouro do sol, a folha do choupo, pela luz do âmbar,

Midonz, filha do sol, seta da árvore, prata da folha,

Luz do amarelo do âmbar,

Midonz, dádiva do deus, dádiva da luz, dádiva do âmbar, do sol,

concede luz ao metal.

 

Anhes de Rocacoart, Ardenca, Aemelis,

Do poder da relva,

Do branco, vivo na semente,

Do calor do broto em florescência,

Do cobre da folha no outono,

Do bronze da bétula, da seiva no galho,

Lianor, Ioanna, Loica,

Pelo mover da barbatana,

Pela truta adormecida no verde-cinza da água,

Vana, Mandetta, Viera, Alodetta, Picarda, Manuela

Do fulgor rubro do cobre,

Ysaut, Ydone, leve sussurrar de folhas,

Vierna, Jocelynn, ousadia de éteres,

Pelo espelho de cobre calcinado,

Ó, rainha do cipreste

Ao largo do érebo, a plana largura,

Cujo hálito dilata-se abaixo do mundo:

Ao largo do érebo, ao largo da planura deserta de ar,

deitada abaixo do mundo;

Ao largo de folhas incolores castanho-pardas,

Tragam o imperceptível frio

Elain, Tires, Alcmena

Apazigüem este metal!

Extraiam os manes de seu terror, extraiam-nos

Seus aquosos corpos com fogo.

Façam-nos assumir os branco-leitosos corpos de ágata.

Façam-nos extrair os ossos do metal.

 

Selvaggia, Guiscarda, Mandetta,

Chuva de flocos áureos sobre a água

Cerúlea e floculada prata da água,

Alcyon, Phaeton, Alcmena,

Palor de prata, pálido lustro de Latona,

Por isso, da malignidade do orvalho,

Resguarda este alambique.

Elain, Tireis, Allodetta,

Serenem este metal.

 

DE INCOMPETENTE A GÊNIO: MANUAL DE INSTRUÇÃO

Muse - Michael Cheval

Muse – Michel Cheval

 

Se você é um incompetente, mas muito incompetente mesmo, não se desespere, você apenas não encontrou sua verdadeira vocação.

Que, é claro, é ensinar moderníssimas técnicas de administração de empresa numa prestigiada escola de administração de empresa, entre outras muitas oportunidades. Várias, diversas.

E mais, se escrever um livro, tipo “O monge e o executivo”, então nem se fala.

A coisa, o busílis, não é o que é, mas o que parecer. Conteúdo? Não, forma. Escrever? Não, citar.

Mas o melhor de tudo, o saboroso mesmo, é que você pode escrever sobre qualquer coisa e ser reputado como o antenado do momento, o comentador de uma época, desde que utilizadas certas técnicas infalíveis, a saber: esqueça o sentido, o importante é o ritmo.

Ao citar, seja vago e crie uma cumplicidade viciosa com o leitor. Tipo, “você sabe de quem estou falando, não sabe?”, “aquele”, “naquela sua obra, lembra?”.

Exempli gratia:  pegue um trecho de um texto qualquer, tipo uma crônica de Machado de Assis, feito esta, Cherchez la femme, publicada originalmente em 1881:

Antes da sociedade, antes da família, antes das artes e do conforto, antes das belas rendas e sedas que constituem o sonho da leitora assídua deste jornal, antes das valsas de Strauss, dos Huguenotes, de Petrópolis, dos landaus e das luvas de pelica; antes, muito antes do primeiro esboço da civilização, toda a civilização estava em gérmen na mulher.

Feito isto, substitua palavras, atualize os termos, as situações (não seja tímido) e você terá algo como isso:

Antes da sociedade, antes da família, antes das artes e do computador, antes das maravilhosas calças jeans e rendas e sedas que constituem o sonho da periferia assídua do Facebook, antes dos Rolling Stones, dos Beatles, de Liverpool, dos automóveis comprados a perder de vista e dos celulares oniscientes; antes, muito antes do primeiro esboço da civilização, toda a civilização estava, ainda um ovo, representada no desejo.

Viu? Sem esforço e de modo lúdico aí está você contribuindo para as letras pátrias. Machado? Esqueça, ninguém lê Machado. Na verdade, ninguém lê. E se lido, se apontado o seu, digamos, plágio, contemporize, explicando tratar-se de uma (anote a palavra, é supimpa!)…de uma paracitação.

E paracitando sempre, perseverando, você já pode dividir sua verve, a originalidade de sua visão de mundo em qualquer publicação que abrigue iluminados assim feito você. Feito eu. Incompetentes, mas elegantes. Incompetentes, mas limpinhos.

Agora, se além de tudo você ainda for americano, o sucesso lhe acena com mãos ávidas.

Nada como ser incompetente e americano: a merda com sotaque inglês é muito saborosa…

BREVES CONSIDERAÇÕES, CAUSOS, BURLAS E OUTRAS MERDAS

mr__writer_by_mathiole

Writer – by Mathiole – DeviantArt

 

O passado que Já foi. Jamais me esquecerei: de “Bonga, a mulher-gorila”; da “mulher-aranha”; da “mulher-cobra” que virou mulher-cobra por ter batido nos pais; do leão que já matara oitenta homens (…meu irmão perdeu a mão nas garras deste leão…). E, finalmente a recordação mais pungente: “rapaz de branco junto à barraca de tiro ao alvo oferece esta canção para moça de vestido azul na fila da roda-gigante como prova de amizade e consideração”. E o “dangle”? Quem não verterá uma lágrima ao lembrar-se?

 

Quatro (4) robustos (fortes prá dedéu) anjos (pessoas com asas) foram vistos sobrevoando a cidade de São Paulo. E armados! Medo.

 

Daí que a polícia militar do templo de Jerusalém prendeu Jesus por formação de quadrilha. Infelizmente os outros doze caras se evadiram e a PM só apresentou Jesus ao Dr. Pôncio Pilatos, delegado de polícia titular do 1. DP de Jerusalém. Evidentemente que foi “caguetagem”, eles tinham um X-9 infiltrado, um tal de Judas. O tratamento não foi dos mais elegantes: “Fala meliante, confessa…”, “pô, eu sou filho de Deus, deixa eu dar um telefonema”…essas coisas que sempre acontecem nas delegacias.

 

Ali estava eu, nesta fotografia de 1941, o viajante do tempo. Reparem em minhas roupas, nos óculos. E há quem não acredite…

 

Daí que eu conheci um cara, mais exatamente um advogado, que nunca dizia “bom dia”, mas sempre “um ótimo dia”. Eu detestava o sujeito…

 

O que, traduzindo, significa que o todo é uma porcentagem da eternidade, uma fração do infinito, o saldo que restou da vida eterna quando Adão olhou prá Eva com maldade no coração e Eva olhou prá Adão com mais maldade ainda no coração ou, mais exatamente, maldade nas virilhas, o que não significa que o tempo é simples, simples é o templo, de Salomão ou não, o importante é contribuir para a construção, vendendo os filhos e alugando a patroa, a qual, aliás, tem menos do que pensa, e acha que precisa de matemática, que é prima-irmã do tempo, que é simples. E não pensa. Elementar, meu caro Vátson!

 

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIIIIOOOOOOOOOOOOOOO, Silver!, disse Joaquim, o cavaleiro solitário. Ou era Batman? Homessa, confundo-me com as identidades secretas.

 

Nós, os que pecamos… Nós, os tartamudos. Nós, os “planos”. Rápido, todos para o cinematographo…!

 

O mundo é um moinho e vai triturar meus sonhos tão mesquinhos, vai reduzir minhas ilusões a pó. Sofro, então queixo-me às rosas, mas que bobagem!, as rosas não falam. Sofro, sinto abalada minha calma, embriagada minh´alma. Mas recupero-me, levanto, sacudo a poeira e dou a volta por cima. Procuro me alegrar. Boemia, aqui me tens de regresso e suplicante te peço a minha nova inscrição. Procurarei por você, meu amor. Sabe o cara que sempre te espera sorrindo, que abre a porta do carro quando você vem vindo, te beija na boca, te abraça feliz, apaixonado te olha e te diz que sentiu sua falta e reclama? Esse cara sou eu.

 

Mas eu falava do amor e sei que incautos e apressadinhos pensarão em “peitos e bundas”. Ledo engano, só o amor é soberano…

 

Pretendo conquistar o mundo. Simples assim. Germinou a ideia em 31 de dezembro de 2012. E a ideia malsã não me abandonou: dominar..o mundo. Tive grandes exemplos, soberbos mestres. Fu Manchu (ninguém conhece), o Doutor Zero. Zeeeeroooo. O Doutor Zero. Esse me conquistou, me deu a pegada, o insight. O mundo. Meu. Chegarei lá.

 

Pronto prá ficar puto qui nem homi macho masculino. Não tecerei loas a Themis e nem ao Parquet e nem aos Togados e nem aos capitães-do-mato, mas já posso mandar à merda com verve. Meu mote: me respeita, mundo!

 

A lua cheia gerou jiboias paranoicas que infestaram os planetas circundantes. As jiboias geraram triângulos, sendo que cada um deles era uma catástrofe inteiramente evitável. Os triângulos geraram ametistas falsificadas para os brincos das embaixatrizes e das cafetinas.

 

Dúvida feicebuquiana: qual mais importante: meu rabo (e minhas “angústrias” postadas minuto a minuto) ou o rabo da pátria?

 

Vou m´mbora prá Passárgada, lá não sou amigo do rei que esse negócio de ser amigo do rei é coisa de safado. Enfim, serei Feliciano, digo, feliz. P.S.: felicidade também é coisa de safado.

 

Quando eu tinha vinte e poucos anos e era (ou pensava que era) crítico de cinema, pensava de vez em quando que algumas das melhores críticas de filmes que eu já tinha lido eram as sátiras da revista Mad…

 

Quem sou? Oras, sou um homem que respondeu, ao ser perguntado por que veio ao mundo: Ah, vim pelo clima…e pelas mulheres.

 

Quando dizemos: Que antipático é fulano, devíamos dizer: A abstinência torna-se estéril quando ditada pela fraqueza do corpo ou pelo vício da avareza ou então O absurdo é a razão lúcida que constata os seus limites ou O prazer do amor é amar e sentirmo-nos mais felizes pela paixão que sentimos do que pela que inspiramos ou Não há papéis pequenos, só atores pequenos ou quem sabe Tudo tem alguma beleza, mas nem todos são capazes de ver. Ou seja, não entendi nada mas que ficou bonito ficou.

 

A mó de parecer fino. A mó de parecer antenado. A mó de ser pernóstico (que é o sujeito que comercia com pernas).

 

E vendo as multidões, meus olhos passeando por meu povo sofrido e carente de perfume que irá votar no vindouro ano, só me resta, vendo, repito, as multidões, repetir a pergunta trágica de Lope de Vega: ¿DÓNDE ESTÁ WALLY?

 

Deve-se postar bêbedo ou sob o efeito de substâncias exóticas? Tenho prá mim que sim: talvez fique ininteligível, mas sempre se terá a desculpa de que se está sendo verdadeiro.

 

A pedidos: a amizade feminina. E eu sei? Sei não, de nada não. Agora, vou dizer a única coisa que eu sei, que é o seguinte: já sei da conspiração planetária de vocês! Vocês nunca me enganaram! Nunca me enganei quando dizem que vão até o toillete; conversa, vão é conspirar. Vejo vocês trocando as mensagens cifradas: “a gente se fala depois tá?”, “mas você está linda!”, por exemplo. O que será que quer dizer? Preocupo-me. E preocupo-me principalmente porque eu durmo com uma conspiradora. O que reserva ela para mim quando tomarem o poder? Irá me por uma coleira e exibir pras amigas? Besteira, isso ela já faz. A amizade feminina. A masculina é fácil de entender: uma coisa tribal, um ajuntamento de moleques discutindo o cosmos e o futebol, o que é quase um pleonasmo. A amizade feminina, este mistério a perturbar e a pesar sobre minha idosa cabeça Voadora. Voltarei ao assunto.

 

Hoje estou me sentido especialmente bem, alegre e confiante na vida. Prometo que até o fim do dia vou tomar vergonha na cara e voltar a minha pestilencial e taciturna natureza habitual.

 

Bom dia, Alfa do Centauro.

SOBRE CRIATURAS MÁGICAS, SANTOS E SANTAS.

 

elementais-1

 

Jovem como eu era, trabalhava na mesma tecelagem que Selma Plá, a moça que teve as já conhecidas visões místicas. Que ela não procurou, não queria e, aliás, desdenhava.

Mas, outra época, outros feitios, outra feição do universo palpável.

Acordava muito cedo, muito, muito cedo. Havia um trem infecto, um ônibus superlotado e depois a rua, onde andava os seiscentos ou mil metros necessários até nossa senzala.

E aí eu brincava, indicando a A e a B, irmãs e amigas na ocasião, onde estavam, onde se escondiam os duendes, os elfos e as fadinhas, também de ocasião. Havia Saulo, gnomo feio e rugoso, pouco dado ao contato. E Sálvia, fada pequenina, inapropriada aos bons costumes por lasciva e fútil e cruel até a medula. E os Irmãos, também batizados por mim de Demoninhos Assassinos Mauzinhos canibais e que eram, forçoso concordar, demônios pequenos com tendências homicidas, com poucas restrições quanto ao alimento que consumiam, além de serem maus, muito maus.

Escapava de suas maquinações, de suas pequenas armadilhas e ódios por conhecer as canções certas, os enredos, as pequenas magias e estendia esta proteção a A e a B. Eu me achava, me via, me cria, à época, como o precoce herói seminal das histórias. Enfim, um tolo novel e bobinhão.

A e B se casaram e saíram, saem agora desta história, mas eu continuei, digo, continuo.

As pessoas pensam pouco sobre a magia ou mesmos sobre os seres mágicos, embora o assunto nos rodeie nos quadrinhos, livros e filmes.

Engano comum o de algumas pessoas acreditarem que a magia não existe. Falo de “algumas pessoas” por saber que a grande maioria das pessoas é crente fervorosa na realidade das operações mágicas.

A maior parte das pessoas (dá uma coceirinha mental em dizer todos) realiza diariamente pequenos rituais de magia simpática: trocar de caminho para evitar a repetição de um evento; fazer promessas dirigidas a seus santos preferidos; orar mentalmente e coisas outras do mesmo naipe.

Ou surpreender a seres mágicos, os elementais, por dá cá aquela palha. Como eu fazia.

E, outro erro comum, o de algumas pessoinhas acharem que os elementais, os seres mágicos, sejam também pessoinhas boinhas, do bem.  São não. Nem também são do mal, vale também dizer. São, eles, os povinhos mágicos, o que são. Nem PT e nem do PSDB. E nem nada no meio ou além. Só o que são.

Exú, por exemplo, que conheci deveras, é só um cavalheiro magro, escuríssimo, usando jaquetão e gravata. Elegantíssimo. Ou um cavalheiro de tez parda usando um terno de dois botões. Ou um cavalheiro de tez clara, loiro. Mas sempre, sempre elegante. Cem mil anos de idade (ou mais. Suspeito que ele já aporrinhava aos Australopithecus) e ainda por aí, disfarçado de malandro, de pastor, de padre, de analista de sistemas. Mulheres, cuidado!

E dona Janaína. E dona Oxum e os cento e vinte e sete Zé Pelintras.

Sei, existem por aí os meus amigos cristãos modernos que dizem que todos, todos os elementais, são nada mais, nada menos, que encarnações ou servos do Tinhoso.

Estão certos, claro. Não polemizo, comento.

Então foi que em 1986 fui parado no meio da rua por Santa Catarina de Sena.

E aí, ó meu deusinho, lembro porra nenhuma do que ela me falou. Mas foi alguma coisa sublime.

Acho.

A SULTILEZA DA BESTA OU COMO O APOCALIPSE NÃO VEM, MAS SEGUE

tired_by_Natalia Ciobanu

Tired – by Natalia Ciobanu – DeviantArt

 

Estamos em uma época de queda, similar a todas as outras épocas de queda que começaram com a queda dos primeiros anjos e de Lúcifer e o estabelecimento daquele valiosíssimo imóvel psíquico: o Inferno.

Esta nossa época de queda pode ser reconhecida como uma, bem, época de queda, por não ser trágica, mas farsesca. Sem muito conteúdo que não aquele que apela ao fígado e não ao cérebro.

A volta de um moralismo tacanho para substituir o afastamento das pessoas da atuação política, o incremento da demência e da fatuidade nas redes sociais, a preferência do receptor pela imagem, em detrimento do texto e, se inevitável o texto, que seja curto.

O Feicebúqui e suas frases de parachoque de caminhão, suas citações malucas atribuindo a Mahatma Gandhi o que foi de Groucho Marx (considerando que o usuário feicebuquiano saiba quem foram Gandhi e Marx).

O WhatsApp.

Nos anos trinta foi criado Dick Tracy, uma tira de jornal sobre um detetive de queixo quadrado, anglossaxão até a medula, que combatia o crime usando uma tecnologia delirante na qual pontuava, ora vejam, um relógio-videofone, que lhe permitia também ver e não apenas falar com seus colegas policiais. O WhatsApp já faz isto e todos nós somos potenciais participantes do delírio que a tira apenas antecipava.

Nós hoje falamos pouco, lemos quase nada e escrevemos menos ainda. Mas, vemos, olhamos, quase fanaticamente. Olhamos, absorvemos imagens como quem come em um fast-food, de forma rápida, acrítica, sequencialmente.

Natural que seja comum a indisposição estomacal.

No último livro da bíblia cristã, o Apocalipse, há a narrativa final da ascensão do Anticristo, da Besta; onde a Besta providencia um sinal para que se identifiquem seus seguidores: um número. Não sei se com ironia o autor (João de Patmos, Steven Spielberg, tanto faz) nos informa que é um número de homem.

Não, não estou fazendo ilações entre o livro e nossos tempos (O atento pastor ou o gárrulo padre fazem e farão melhor), apenas gosto da imagem literária.

E então o nosso tempo, não apenas de queda, mas uma queda que se eterniza no tempo e com isso se torna um paradoxo, pois que se é eterna a queda, tem-se então uma queda estática (uma queda teria que ser dinâmica, pois não?).

E então o nosso tempo, de anestesias diversas para que não percebamos…o que? Tenho diversas teorias conspiratórias a disposição:

  1. Somos cobaias em uma grande experiência cósmica destinada a conhecer até onde vai nossa disposição de, enquanto gado, permanecer gado?
  2. Somos cobaias em uma grande experiência, controlada pelos senhores do universo, destinada a conhecer até onde vai nossa disposição de, enquanto gado, permanecer gado?
  3. Somos cobaias em uma grande experiência, controlada pelos senhores do capital, destinada a conhecer até onde vai nossa disposição de, enquanto gado, permanecer gado?
  4. Somos cobaias em uma grande experiência, controlada por um deus menor, um demiurgo, destinada a conhecer até onde vai nossa disposição de, enquanto gado, permanecer gado?

 

Não levem a sério, é claro que isto não existe. E mesmo a ideia de um tempo de pranto e ranger de dentes sequer é original. Sabe bastante àquela antiga e persistente doença da psique humana, a saudade da Idade de Ouro, de que já sofreram gregos e romanos, hindus e chineses.

Não, falo e escrevo apenas de eventos locais, circunscritos, brasílicos, nossos. Nosso tempo e nossa sina. Mas não posso evitar de lembrar a previsão do destino humano dada pelo agente O´Brien em 1984, de George Orwell: uma bota pressionando, eternamente, um rosto humano.

É claro que se trata de uma obra de ficção, com as liberdades que às obras de ficção se dá. Por exemplo: O´Brien é pessoa culta. Não me parece que as atuais botas o sejam.

Disse Jesus (ou escreveram que Jesus o disse, o que dá no mesmo) que os humildes herdariam a terra.

Pode ser verdade, mas por enquanto me parece que o quinhão quase total da terra foi dado e é gerido pelo medíocre.

Reconheço a força dos atuais dominadores, mas não consigo ter muito respeito por seus intelectos.

Bem, talvez sejam só os capatazes.

Talvez ocorra que seus senhores, eles sim, sejam os sofisticados, os que escreveram as bíblias diversas, os que projetaram os ritos, os que construíram Babilônia e a partir dela, governam.

E eu acho que era tudo o que eu tinha a demonstrar sobre a arte de escrever como sói escreve uma pessoa cansada. Trabalhei demais ontem, vejam bem. Como eu sempre escrevo e peço: relevem.

Mas, fato: a sutileza sem par da Besta ainda me comove.

Vale.

O POBRE, ESTE EMPREENDEDOR NATO.

lampada

 

O Brasileiro é um empreendedor nato. Mas só o pobre.

Guardem minha afirmação enfática, arquivem-na, dissequem-na e sobre ela reflitam.

Sim, considerem o tráfico de entorpecentes.

Todo um negócio de venda de entorpecentes para, majoritariamente, atender às classes desfavorecidas, com toda sua complexidade em termos de logística: a aquisição de matéria-prima, seu beneficiamento, sua distribuição e a contabilização necessária dos valores auferidos.

Não, não estranhem quando falo que o principal mercado consumidor dos entorpecentes sejam as classes baixas e médias. É. O lucro advindo da venda para as classes altas é marginal, parte ínfima do lucro geral e muito mais cara em termos de operação, pois que o entorpecente deve ser mais puro e as condições de entrega e consumo mais seguras.

Modos que esqueçam Meu nome não É Johnny, é só um ponto fora da curva.

Enfim, o traficante-empreendedor só fornece às classes altas por uma questão de sobrevivência política.

Com as classes baixas e médias, não; por “causo” que aí sim é que vem o verdadeiro lucro. Ora vejam, o empreendedor do bagulho pode diluir o entorpecente com outras substâncias para maximizar seus ganhos e sem nem sequer precisar dar grande importância à qualidade do produto.

Modos que na cocaína e na maconha vendidas aqui na terra tem até, em sua composição, alguma cocaína e alguma maconha.

Houvessem headhunters de verdade atuando e os principais cargos na administração das empresas seriam ocupados por ex-funcionários do lucrativo ramo do tráfico de entorpecente.

Vera verdade.

Eis.

Mas falava de empreendedorismo e talvez me perguntarão do porquê de minha opinião de só ser ele exercido por pobres.

Ora.

Ora, de novo.

Pra comecim de conversa ninguém com bom senso acredita nesta parlanda vendida por aí da meritocracia. A ascensão, natural, da competência. Pobre não é idiota e não acredita na meritocracia.

O pobre não só sabe que o buraco é mais embaixo, ele vive a situação. E não se engana com filhos de empresários sendo empresários, filhos de juízes, filhos de promotores, continuando a juizar e a promotorar como seus ancestrais.

O pobre sabe que ninguém será por ele, daí considerar o Estado somente um ruído de fundo inconveniente que lhe enche o saco.

Daí que não espera bondades o pobre.

E daí que o pobre que prefere se manter do lado, digamos, legal da coisa, crie do nada suas fontes de renda: os salões de beleza de periferia, os camelódromos informais, os botecos microscópicos, as pequenas igrejas vendedoras de milagres et alia.

Quando Deus é servido, quando dá, o pobre trabalha na metalúrgica, labuta no comércio, dá o sangue na construção civil.

Quando não dá, empreende.

O que é só uma maneira edulcorada de dizer que pobre pratica a mais alta magia conhecida: sobreviver.

É.

Acho que é tudo o que eu tinha a dizer sobre o empreendedorismo.